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Nota do corretor. Este livro foi enviado porJean Bernard e corrigido por
Josu Matias C. Junior., para uso exclusivo de deficientes-visuais, de
acordo com a lei brasileira de direitos autorais, que segue abaixo: "Lei
9.610, de 19 de fevereiro de 1998, sobre "Direitos autorais. Alterao,
atualizao e consolidao da legislao". TITULO III - Dos direitos do
autor. Capitulo IV - Das limitaes aos direitos autorais. Art. 46 - Nao
constitui ofensa aos direitos autorais: I - A reproduo: d)  De obras
literarias, artisticas ou cientificas, para uso exclusivo de deficientes
visuais, sempre que a reproduo, sem fins comerciais, seja feita
mediante o sistema BRAILLE ou outro procedimento em qualquer suporte
para esses destinatarios;" sistema DOSVOX; de modo que este pode conter
erros de diagramao e outros; **** PHILIP PULLMAN FRONTEIRAS DO
UNIVERSO VOLUME TRS A LUNETA MBAR Traduo Ana Deir OBJETIVA (C)
Philip Pullman, 2000 Ttulo original The Amber Spyglass Todos os
direitos desta edio reservados  EDITORA OBJETIVA LTDA., rua Cosme
Velho, 103 Rio de Janeiro -RJ -CEP 22241-090 Tel.: (21) 2556-7824- Fax:
(21) 2556-3322 www.objetiva.com.br Capa Ps Imagem Design Reviso Tereza
da Rocha Neusa Peanha Renato Bittencourt Editorao Eletrnica FUTURA
P982l Pullman, Philip A luneta mbar/Philip Pullman. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2001 572 p. ISBN 85-7302-402-X Traduo de: The Amber Spyglass
1. Literatura americana -Romance. I. Ttulo CDD 813  falai de sua
fora,  cantai sua graa, Aquele cujo manto  a luz, cujo dossel 
espao; Suas carruagens de ira formam grandes nuvens de trovoada, E
escuro  seu caminho nas asas da tormenta. Roben Grant (1779-1838), de
Hymns Ancient and Modern.  estrelas, no ser de vs que nasce o desejo
do amante de ver a face de sua amada? No viro as vises secretas, que
de suas feies puras ele possui, de puras constelaes? Rainer Maria
Rilke, The Third Duino Elegy. De The Selected Poetry of Rainer Maria
Rilke. Trad. para o ingls (c) 1982 de Stephen Mitchell. Reimpresso com
autorizao da Random House, Inc. Finos vapores escapam de tudo que
fazem os vivos. A noite  fria e delicada e cheia de anjos Esmagando os
vivos. As fbricas esto todas iluminadas, O soar do carrilho se eleva,
sem ser ouvido. Afinal estamos juntos, ainda que muito distantes. John
Ashbery, The Ecclesiart. De Riverand Mountains(Nova York: Holt, Rinehan
& Winston, 1967). (c) 1962, 1963, 1964, 1966 de John Ashbery.
Reimpresso com autorizao de Georges Borchardt, Inc., pelo autor. Nota
da Tradutora Uma das mais belas caractersticas de A Luneta mbar  a
presena de versos de grandes poetas abrindo no s o livro como cada
captulo. Porm, ao contrrio dos poemas da pgina anterior, os versos
que abrem os captulos so citados tendo como referncia apenas o nome
do autor, ou do livro da Bblia do qual foram extrados. Como seria um
trabalho gigantesco e exaustivo pesquisar os mais de 30 versos citados
no livro, nas obras de cada autor, e depois procurar uma traduo
pUblicada em portugus, optei por apresentar todos em traduo livre
feita por mim, procurando guardar, sempre que possvel, a msica dos
poemas. Fiz duas excees: as citaes do poema magistral de John
Milton, Paraso Perdido, em que usei a traduo de Antnio Jos de Lima
Leito (W. M. Jackson Inc. Editores, 1960, Rio de Janeiro - S. Paulo
-Recife -Porto Alegre), porque, como o Paraso Perdido , nas palavras
do prprio autor, um dos fios condutores de sua obra, achei que essa
leitura s poderia iluminar e enriquecer meu trabalho. E nas citaes da
Bblia em que usei a traduo de Joo Ferreira de Almeida (Edio
Sociedades Biblicas Unidas, 1968, Lisboa) por ser bastante prxima da
verso King James que  citada. Ana Deir, maro/2001. Sumrio 1. A
Adormecida Enfeitiada 9 2. Balthamos e Baruch 19 3. Comedores de
Carnia 48 4. Ama e os Morcegos 57 5. A Torre Adamantina 67 6.
Absolvio Antecipada 79 7. Mary, Sozinha 92 8. Vodca 107 9. Rio Acima
125 10. Rodas 136 11. As Liblulas 150 12. A Quebra 166 13. Tialys e
Salmakia 178 14. Saiba o Que  192 15. A Forja 207 16. A Nave da
Inteno 221 17. leo e Laca 244 18. Os Subrbios dos Mortos 260 19.
Lyra e Sua Morte 278 20. A Escalada 296 21. As Harpias 304 22.Os
Sussurrantes 322 23. Sem Sada 335 24. A Sra. Coulter em Genebra 353 25.
Saint-Jean-les-Eaux 369 26. O Abismo 385 27. A Plataforma 399 28.
Meia-Noite 406 29. A Batalha na Plancie 419 30. A Montanha Nublada 430
31. O Fim da Autoridade 440 32. Manh 458 33. Marzip 474 34. Agora
Existe 490 35. Alm das Colinas e Muito Longe 498 36. A Flecha Quebrada
517 37. As Dunas 528 38. O Jardim Botnico 549 **** *1 A ADORMECIDA
ENFEITIADA *1 .. ENQUANTO FERAS ATRS DE PRESAS SADAS DE COVIS NAS
PROFUNDEZAS ESPREITAVAM A DONZELA ADORMECIDA... WILLIAM BLAKE Em um vale
sombreado por rododendros, prximo da linha de neve, onde um riacho de
guas leitosas de neve derretida passava ligeiro espumando, onde pombos
e milheiros voavam entre os imensos pinheiros, havia uma caverna, que
ficava semi-escondida pelo rochedo acima e pelas folhas secas e pesadas
que se acumulavam abaixo. A floresta era repleta de sons: das guas do
riacho correndo entre as pedras, do vento entre as folhas alongadas dos
galhos de pinheiros, do zumbido dos insetos e de guinchos de pequenos
mamferos arbreos, bem como do cantar de passarinhos; e, de tempos em
tempos, uma lufada mais forte de vento fazia com que um dos galhos de um
cedro ou de um abeto roasse contra um outro e gemesse como um
violoncelo. Era um lugar claro e ensolarado, nunca montono; raios de
claridade, dourado-limo, penetravam at o solo da floresta entre
retngulos e crculos de sombra verde-acastanhados, e a luz estava
sempre em 9 movimento, nunca era constante, porque a nvoa que passava
com freqncia flutuava em meio s copas das rvores, filtrando todos os
raios de sol at adquirirem um brilho perolado e salpicando cada cone de
pinheiro com gotculas de umidade que cintilavam quando a nvoa se
desfazia. Por vezes a umidade nas nuvens se condensava formando
minsculas gotas, metade neblina, metade chuva, que desciam flutuando em
vez de cair, fazendo um rudo suave como um tamborilar farfalhante entre
as milhares de folhas aciculadas dos pinheiros. Havia um caminho
estreito passando junto do riacho, que levava de uma aldeia- pouco mais
que um aglomerado de choupanas de pastores, na entrada do vale, at um
relicrio, semi-arruinado, prximo da geleira l no fundo, um lugar onde
bandeirolas de seda esvoaavam sob os ventos perptuos das altas
montanhas e oferendas de bolos de cevada e ch seco eram colocadas pelos
fiis aldees. Um estranho efeito da luz, do gelo e do vapor fazia com
que a parte mais alta do vale ficasse envolta em eternos arco-ris. A
caverna ficava a alguma distncia acima do caminho. Muitos anos antes,
um homem religioso morara ali, meditando, jejuando e orando, e o local
ainda era venerado em sua memria. Tinha 30 metros de profundidade, mais
ou menos, com o solo bem seco: um abrigo ideal para um urso ou para um
lobo, mas os nicos seres morando nela durante anos haviam sido pssaros
e morcegos. Mas o vulto que estava se agachando logo aps a entrada, os
olhos negros atentos vigiando um lado e depois o outro, as orelhas
pontudas levantadas, no era pssaro nem morcego. A luz do sol descia
pesada e forte sobre seu lustroso plo dourado e as mozinhas de macaco
reviravam uma pinha para l e para c, com os dedos fortes, partindo a
casca em lascas e raspando as nozes doces. Atrs dele, pouco alm do
ponto que a luz do sol alcanava, a Sra. Coulter estava aquecendo gua
numa panelinha sobre um fogareiro  nafta. Seu daemon emitiu um murmrio
de advertncia e a Sra. Coulter levantou a cabea. 10 Vindo pelo caminho
da floresta havia uma menina da aldeia. A Sra. Coulter sabia quem ela
era: Ama vinha lhe trazendo comida j h alguns dias. Logo ao chegar, a
Sra. Coulter fizera circular a notcia de que era uma mulher religiosa,
dedicada a meditaes e preces, que fizera um voto de jamais falar com
um homem. Ama era a nica pessoa cujas visitas aceitava receber. Dessa
vez, contudo, a menina no estava sozinha. Seu pai estava com ela e
enquanto Ama subia at a caverna, ele esperou, mantendo alguma
distncia. Ama chegou  entrada da caverna e fez uma mesura. -Meu pai me
pediu que viesse trazendo preces para sua boa vontade -disse. -Bons
olhos a vejam, criana -disse a Sra. Coulter. A menina trazia uma trouxa
embrulhada em algodo desbotado, que colocou aos ps da Sra. Coulter.
Ento estendeu um raminho de flores, cerca de uma dzia de anmonas
amarradas com um fio de algodo, e comeou a falar rpida e
nervosamente. A Sra. Coulter compreendia um pouco da lngua daquela
gente da montanha, mas nunca permitiria que percebessem o quanto. De
modo que sorriu e fez um gesto para que a menina se calasse e para que
observassem seus daemons. O macaco dourado estava estendendo a mozinha
negra e o daemon borboleta de Ama esvoaava, chegando cada vez mais
perto, at pousar no caloso dedo indicador. O macaco o aproximou
lentamente de sua orelha e a Sra. Coulter sentiu uma corrente de
compreenso fluir para sua mente, esclarecendo as palavras da menina. Os
aldees estavam felizes que uma santa mulher religiosa como ela
estivesse abrigada na caverna, mas havia rumores de que tambm tinha uma
acompanhante, uma mulher como ela, que de alguma forma era perigosa e
muito poderosa. Isso era o que estava deixando os aldees assustados.
Seria aquele outro ser mestra da Sra. Coulter ou sua criada? Teria a
inteno de fazer mal? Por que estava ali, para comear? Pretendia ficar
muito tempo? Ama transmitiu essas perguntas com infindveis apreenses.
11 Uma resposta totalmente nova ocorreu  Sra. Coulter,  medida que a
compreenso do daemon foi penetrando em sua mente. Ela podia contar a
verdade. No toda, naturalmente, mas parte. Estremeceu ao conter a
vontade de rir diante da idia, mas manteve isso longe de sua voz quando
explicou: -Sim, h uma outra pessoa comigo. Mas no h nada a temer. 
minha filha e ela foi vtima de um feitio que fez com que adormecesse.
Viemos aqui para nos esconder do feiticeiro que lanou esse feitio,
enquanto eu tento cur-la e impedir que qualquer mal lhe ocorra. Venha
ver, se quiser. Ama ficou parcialmente tranqilizada pela voz suave da
Sra. Coulter, mas ainda estava com medo; e toda aquela conversa sobre
feiticeiros e feitios aumentava seus temores. Mas o macaco dourado
estava segurando seu daemon com tamanha gentileza e, alm disso, estava
to curiosa, que seguiu a Sra. Coulter at o interior da caverna. O pai
de Ama, que esperava mais abaixo no caminho, deu um passo adiante e seu
daemon corvo levantou as asas uma ou duas vezes, mas ficou onde estava.
A Sra. Coulter acendeu uma vela, porque a luz estava indo embora
rapidamente, e conduziu Ama at o fundo da caverna. Os olhos da
garotinha faiscavam, arregalados, na semi-obscuridade e suas mos se
moviam, fazendo um gesto repetitivo de esfregar o dedo no polegar, o
dedo no polegar, para afastar o perigo confundindo os maus espritos.
-Est vendo? -perguntou a Sra. Coulter. -Ela no pode fazer mal a
ningum. No h motivo para ter medo. Ama olhou para a pessoa no saco de
dormir. Era uma menina, mais velha que ela, talvez trs ou quatro anos;
e tinha cabelos de uma cor que Ama nunca vira antes -de um tom fulvo,
amarelo-tostado como o plo de um leo. Seus lbios estavam bem
fechados, comprimidos, e estava profundamente adormecida, no havia
dvida quanto a isso, pois seu daemon estava deitado, enroscado em seu
pescoo e inconsciente. Ele tinha a forma de um animal parecido com um
mangusto 12 mas de cor vermelho-dourada e menor. O macaco dourado estava
alisando carinhosamente o plo entre as orelhas do daemon adormecido e,
enquanto Ama observava, a criatura-mangusto mexeu-se incomodada e emitiu
um pequeno miado rouco. O daemon de Ama, na forma de camundongo, se
apertou contra o pescoo de Ama e espiou assustado entre seus cabelos.
-De maneira que pode contar a seu pai o que voc viu -prosseguiu a Sra.
Coulter. -No h nenhum esprito mau. Apenas minha filha, adormecida por
causa de um feitio e de quem estou cuidando. Mas por favor, Ama, diga a
seu pai que isso tem de ser mantido em segredo. Ningum, exceto vocs
dois, deve saber que Lyra est aqui. Se o feiticeiro souber onde ela
est, vir procur-la e destru-la, a mim tambm e tudo que estiver nas
vizinhanas. De maneira que trate de ficar calada! Conte a seu pai e a
mais ningum. Ela se ajoelhou junto de Lyra e afastou o cabelo mido do
rosto da menina adormecida antes de se inclinar para beijar a face de
sua filha. Ento levantou a cabea, com uma expresso triste e carinhosa
no olhar, e sorriu para Ama com tamanha bravura e sbia compaixo que a
garotinha sentiu os olhos se encherem de lgrimas. A Sra. Coulter pegou
a mo de Ama, enquanto iam voltando para a entrada da caverna, e viu o
pai da menina observando cheio de ansiedade l de baixo. A mulher juntou
as mos e inclinou a cabea para ele num cumprimento, que ele respondeu
com alvio, enquanto sua filha, depois de fazer uma mesura para a Sra.
Coulter e para a menina adormecida enfeitiada, fez meia-volta e desceu
correndo pela encosta sob a luz do crepsculo. Pai e filha inclinaram a
cabea mais uma vez em direo  caverna, num cumprimento respeitoso, e
se foram, desaparecendo em meio s sombras dos rododendros. A Sra.
Coulter virou-se de volta para a gua no fogareiro, que estava quase
fervendo. Abaixando-se, ela esmigalhou algumas folhas secas sobre a
gua, tirando duas pitadas de um saquinho, uma pitada de outro e
acrescentou 13 trs gotas de um leo amarelo-claro. Mexeu rapidamente a
mistura, contando silenciosamente at terem se passado cinco minutos.
Ento tirou a panela do fogo e sentou-se para esperar que o lquido
esfriasse. Espalhada ao seu redor estava parte da equipagem do
acampamento, prximo ao laguinho azul, onde Sir Charles Latrom havia
morrido: um saco de dormir, uma mochila com mudas de roupas, produtos de
limpeza e assim por diante. Tambm havia uma valise de lona com uma
armao resistente de madeira, acolchoada com paina, contendo vrios
instrumentos; e havia uma pistola num coldre. A decoco esfriou
depressa no ar rarefeito e to logo atingiu a temperatura do corpo, ela
a colocou cuidadosamente numa taa de metal de boca larga e levou-a at
o fundo da caverna. O daemon macaco largou apinha e foi junto com ela.
Cuidadosamente, a Sra. Coulter colocou a taa sobre uma rocha e se
ajoelhou junto de Lyra. O macaco dourado se abaixou ao lado dela, pronto
para agarrar Pantalaimon, se este acordasse. O cabelo de Lyra estava
mido, seus olhos se moviam atrs das plpebras cerradas. Ela estava
comeando a despertar: a Sra. Coulter tinha sentido seus clios se
mexerem quando a beijara e sabia que no dispunha de muito tempo antes
que Lyra despertasse totalmente. Enfiou a mo sob a cabea da menina e
com a outra afastou as mechas midas de cabelo de sua testa. Os lbios
de Lyra se entreabriram e ela gemeu baixinho; Pantalaimon se aconchegou
mais junto de seu peito. Os olhos do macaco dourado no se descravavam
do daemon de Lyra e seus pequeninos dedos negros repuxavam a beirada do
saco de dormir. Depois de um olhar da Sra. Coulter, ele largou o saco de
dormir e se afastou um palmo para trs. A mulher levantou a filha com
delicadeza de modo que seus ombros sassem do cho e a cabea balanou
ligeiramente. Ento Lyra respirou fundo e seus olhos se entreabriram,
piscando pesados. 14 -Roger -murmurou. -Roger... onde est voc... no
consigo ver... - Ssh -sussurrou sua me, ssh, minha querida, beba isso.
Levando a taa at a boca de Lyra, ela a inclinou para deixar que uma
gota umedecesse os lbios da menina. A lngua de Lyra percebeu isso e se
moveu para lamb-los, e ento a Sra. Coulter deixou que um pouco mais do
lquido pingasse em sua boca, com muito cuidado, deixando-a engolir cada
gole antes de lhe dar mais. Passaram-se vrios minutos, mas finalmente a
taa ficou vazia e a Sra. Coulter tornou a deitar a fIlha. To logo a
cabea de Lyra repousou no cho, Pantalaimon voltou a se acomodar em
volta de seu pescoo. Seu plo vermelho-dourado estava to mido quanto
os cabelos de Lyra. Ambos estavam de novo profundamente adormecidos. O
macaco dourado foi saltitando graciosamente at a entrada da caverna e
sentou-se, mais uma vez vigiando o caminho. A Sra. Coulter umedeceu uma
flanela numa bacia de gua fria e passou no rosto de Lyra, depois, abriu
o saco de dormir e lavou seus braos, pescoo e ombros, porque Lyra
estava acalorada. Ento sua me pegou um pente e com delicadeza
desembaraou o cabelo de Lyra, afastando-o da testa e repartindo-o
cuidadosamente. Ela deixou o saco de dormir aberto de modo que a menina
pudesse se refrescar e abriu a trouxa que Ama havia trazido: algumas
bisnagas achatadas de po, um retngulo de ch prensado, um pouco de
arroz meio grudento, embrulhado numa folha larga. Estava na hora de
acender a fogueira. O frio nas montanhas era intenso durante a noite.
Trabalhando metodicamente, ela cortou algumas achas de lenha, preparou a
fogueira e acendeu um fsforo. Aquilo era outra coisa a respeito da qual
teria que pensar: os fsforos estavam acabando e a nafta para o
fogareiro tambm; teria que manter a fogueira acesa dia e noite, dali
por diante. Seu daemon estava aborrecido. No gostava do que ela estava
fazendo e quando tentou manifestar sua preocupao ela no lhe deu 15
ateno. Ele deu-lhe as costas, o desprezo evidente em cada linha de seu
corpo enquanto continuava a descascar pinhas na escurido. Ela nem
reparou e continuou a trabalhar atenta e habilmente para aumentar a
fogueira e preparar uma panela para esquentar gua para fazer um ch. A
despeito disso, o ceticismo dele a afetava e enquanto ia desmanchando o
ch prensado na gua, repetidamente perguntou a si mesma o que achava
que estava fazendo e se teria enlouquecido, o que aconteceria quando a
igreja descoQrisse. O macaco dourado tinha razo. Ela no estava apenas
escondendo Lyra: estava cobrindo os olhos para esconder a verdade de si
mesma. 16 Saindo da escurido o garotinho veio, esperanoso e assustado,
sussurrando uma vez aps a outra: -Lyra, Lyra, Lyra... Atrs dele havia
outros vultos, ainda mais indistintos do que ele, ainda mais
silenciosos. Pareciam ser de um mesmo grupo e do mesmo tipo, mas no
tinham rostos que fossem visveis ou vozes que falassem; e a voz dele se
elevou um pouco acima de um sussurro e seu rosto ficou sombreado e
borrado como algo semi-esquecido. -Lyra... Lyra... Onde estavam eles?
Numa grande plancie onde nenhuma luz brilhava no cu escuro cor de
chumbo e onde uma neblina obscurecia o horizonte em todas as direes. O
solo era de terra nua, socada e achatada por milhes de ps, embora
esses ps tivessem menos peso que penas; de modo que deveria ter sido o
tempo que o achatara daquele jeito, embora o tempo tivesse parado
naquele lugar; de modo que as coisas deviam ser assim mesmo. Aquele era
o fim de todos os lugares e o ltimo de todos os mundos. -Lyra... 17 Por
que estavam ali? Eram prisioneiros. Algum havia cometido um crime,
embora ningum soubesse qual era o crime, quem o havia cometido, nem que
autoridade o havia julgado. Por que o garotinho continuava a chamar pelo
nome de Lyra? Esperana. Quem eram eles? Fantasmas. E Lyra no conseguia
toc-los, por mais que tentasse. Desnorteadas, suas mos se moviam
procurando, tentando, de um lado para o outro, e o garotinho continuava
parado ali suplicando. -Roger -chamou ela, mas sua voz saiu num
sussurro. -Ah, Roger, onde est voc? O que  este lugar? - o mundo dos
mortos, Lyra- respondeu ele. -No sei o que fazer, no sei se estou aqui
para sempre e no sei se fiz coisas ms ou o que, porque tentei ser bom,
mas detesto estar aqui, estou com medo de tudo isso, detesto - E Lyra
disse: -Eu. 18 *2 BALTHAMOS E BARUCH ... ENTO UM ESPRITO PASSOU POR
DIANTE DE MIM; FEZ-ME ARREPIAR OS CABELOS DA MINHA CARNE. LIVRO DE J
4,15 -Fique calado -disse Will. - Apenas trate de ficar calado. No me
perturbe. Isso foi logo depois de Lyra ter sido levada, logo depois de
Will ter descido do topo da montanha, logo depois de a bruxa ter matado
seu pai. Will acendeu a lamparina de lato que havia tirado da bolsa de
pele de seu pai, usando os fsforos que havia encontrado junto, e
agachou-se na reentrncia do rochedo para abrir a mochila de Lyra. Ele
tateou l dentro com a mo boa e encontrou o pesado aletmetro
embrulhado no veludo. O Instrumento brIlhou como sob a luz da lamparina
e Will o estendeu para as duas formas que estavam a seu lado, as formas
que diziam ser anjos. -Sabem ler isso? -perguntou. -No -disse uma voz.
-Venha conosco. Precisa vir. Venha agora, vamos levar voc a Lorde
Asriel. 19 -Quem mandou vocs seguirem meu pai? Disseram que ele no
sabia que o estavam seguindo. Mas ele sabia -disse em tom feroz. -Ele me
avisou que podia esperar que aparecessem. Sabia mais coisas que
imaginavam. Quem enviou vocs? -Ningum nos enviou. Apenas ns mesmos
-veio a voz. - Queremos servir Lorde Asriel. E o homem morto, o que ele
queria que voc fizesse com a faca? Will foi forado a hesitar. -Ele
disse que deveria lev-la para Lorde Asriel -admitiu. -Ento venha
conosco. -No. No, enquanto eu no encontrar Lyra. Ele dobrou o veludo
sobre o aletmetro e o enfiou em sua bolsa de lona. Uma vez seguro de
que estava bem guardado, ps a mochila no ombro, enrolou-se no pesado
manto de seu pai para proteger-se da chuva e agachou-se onde estava,
olhando com firmeza para as duas sombras. -Vocs dizem a verdade?
-perguntou. -Sim. -Ento so mais fortes ou mais fracos que seres
humanos? -Mais fracos. Vocs tm carne de verdade, ns no temos. Apesar
disso, voc tem de vir conosco. -No. Se sou mais forte, vocs tm que
me obedecer. Alm disso, eu tenho a faca. De modo que posso ordenar:
ajudem-me a encontrar Lyra. No me importa quanto tempo vai levar,
primeiro vou encontr-la e depois irei ver Lorde Asriel. Os dois vultos
ficaram em silncio durante vrios segundos. Ento se afastaram um pouco
e conversaram entre si, embora Will no conseguisse ouvir nada do que
diziam. Finalmente se aproximaram de novo e ele ouviu: -Muito bem. Voc
est cometendo um erro, embora no nos deixe opo. Vamos ajud-lo a
encontrar essa criana. Will forou os olhos tentando penetrar a
escurido e v-los mais claramente, mas a chuva o impediu. 20 Cheguem
mais perto para que eu possa v-los. Eles se aproximaram, mas pareceram
se tornar ainda mais obscuros. -Verei vocs melhor  luz do dia? -No,
pior. No somos de uma hierarquia muito elevada entre os anJOs. -Bem, se
eu no consigo ver vocs, mais ningum vai conseguir, de modo que podem
se manter escondidos. Vejam se conseguem descobrir para onde Lyra foi.
Ela certamente no pode estar muito longe. Havia uma mulher, deve estar
com ela, foi a mulher que levou Lyra. Andem, tratem de procurar e voltem
para me Contar o que virem. Os anjos se elevaram no ar em meio 
tempestade e desapareceram. Will sentiu uma grande e pesada melancolia
apoderar-se dele; j lhe restava muito pouca fora antes da luta com seu
pai e agora estava praticamente exausto. Tudo o que queria era fechar os
olhos que estavam pesados e doloridos de tanto chorar. Puxou o manto
sobre a cabea, abraou a mochila de lona e adormeceu imediatamente.
-No esto em lugar nenhum. Will ouviu isso l das profundezas do sono e
se esforou para acordar. Finalmente (e levou mais de um minuto, porque
estava profundamente adormecido) conseguiu abrir os olhos para a manh
que tinha diante de si. -Onde esto vocs? -Ao seu lado -respondeu um
anjo. -Deste lado. O sol havia acabado de nascer e as rochas, os
lquenes e musgos que as cobriam cintilavam frescos e brilhantes sob a
luz da manh, mas em lugar nenhum ele conseguia ver algum vulto. -Eu
disse que seria mais difcil nos ver  luz do dia -continuou a voz.
-Voc vai nos ver melhor  meia-luz, no crepsculo ou ao raiar do dia; a
segunda melhor situao  quando estiver escuro; e a pior situao  sob
a luz do sol. Meu companheiro e eu procuramos 21 mais abaixo na montanha
e no encontramos nem a mulher nem a criana. Mas h um lago de gua
azul onde ela deve ter acampado. Tem um homem morto l e uma bruxa
comida por um Espectro. -Um homem morto? Como ele ? -Devia ter seus 60
anos. Corpulento e de pele lisa. Cabelos grisalhos. Vestia roupas caras
e havia vestgios de um perfume forte ao redor dele. -Sir Charles -disse
Will. -Esse que descreveu  Sir Charles. A Sra. Coulter deve t-lo
matado. Bem, pelo menos isso  uma boa notcia. -Ela deixou pistas. Meu
companheiro as seguiu e voltar quando tiver descoberto para onde ela
foi. Eu vou ficar com voc. Will se levantou e olhou em volta. A
tempestade tinha limpado a atmosfera e a manh estava fresca e clara, o
que apenas tornava o cenrio ao seu redor mais perturbador e aflitivo;
pois nas proximidades jaziam os corpos de vrias das bruxas que haviam
escoltado Will e Lyra at o local do encontro com o pai dele. Um corvo
comedor de carnia, de bico brutal, j estava atacando o rosto de uma
delas e Will podia ver um pssaro maior, voando em crculos mais acima,
como se estivesse escolhendo o melhor para se banquetear. Will examinou
os corpos, um de cada vez, mas nenhum deles era o de Serafina Pekkala, a
rainha do cl de bruxas e amiga pessoal de Lyra. Ento se lembrou: ela
no tinha partido de repente, para cuidar de uma outra tarefa, no muito
antes do anoitecer? De modo que ainda poderia estar viva. Aquele
pensamento o alegrou; Will vasculhou o horizonte em busca de algum sinal
dela, mas no encontrou nada exceto cu azul e rochas pontiagudas em
todas as direes para onde olhou. -Onde voc est? -perguntou ao anjo.
-Ao seu lado -veio a voz, como sempre. Will olhou para a esquerda, onde
estava a voz, mas no viu nada. -Ento ningum pode ver voc. Alguma
outra pessoa poderia ouvi-lo to bem quanto eu? 22 -No se eu sussurrar
-respondeu o anjo em tom rspido e rabugentO. -Qual  o seu nome? Vocs
tm nomes? -Temos. Meu nome  Balthamos. O de meu companheiro  Baruch.
Will refletiu sobre o que fazer. Quando voc escolhe um caminho dentre
muitos, todos os caminhos que voc no segue so apagados como se fossem
velas, como se nunca tivessem existido. Naquele momento todas as
escolhas de Will existiam simultaneamente. Mas fazer com que todas elas
continuassem existindo significava no fazer nada. Ele tinha que
escolher, apesar de tudo. -Vamos tornar a descer a montanha -decidiu.
-Vamos at aquele lago. Pode ser que haja alguma coisa por l que eu
possa aproveitar. E, de qualquer maneira, estou ficando com sede. Vou
seguir pelo caminho que acho que vai para l e voc pode me guiar se eu
errar. S quando j estava andando h vrios minutos, descendo pela
costa rochosa sem nenhuma trilha, foi que Will se deu conta que sua mo
no estava mais doendo. Na verdade, no tinha pensado no ferimento desde
que havia acordado. Will parou e examinou a atadura de linho que seu pai
havia colocado em volta de sua mo depois da luta. Estava melada com o
ungento que ele havia espalhado sobre os ferimentos, mas no havia
nenhum sinal de sangue e depois dos sangramentos incessantes que tinha
sofrido desde que havia perdido os dedos, aquilo era to bom que sentiu
o corao quase que saltar de alegria. Experimentou mexer os dedos. Era
verdade que os ferimentos ainda doiam, mas era um tipo diferente de dor:
no aquela dor profunda que o consumia e lhe engolia a vida, do dia
anterior, mas uma sensao menor, mais embotada. Parecia que estava se
curando. O pai dele tinha feito isso. O feitio das bruxas tinha
fracassado, mas seu pai o havia curado. Ento continuou a descer pela
encosta, sentindo-se mais animado. 23 Foram necessrias trs horas e
vrias palavras de orientao at que chegasse ao pequeno lago azul.
Quando afinal o alcanou, estava morto de sede e, sob o sol forte, o
manto pareceu-lhe pesado e quente; embora sentisse falta de sua proteo
depois que o tirou, pois seus braos e o pescoo nus ardiam. Largou o
manto e a bolsa de lona no cho e correu os ltimos metros at a gua,
deixando-se cair nela com o rosto sedento e bebendo um gole aps o outro
de gua supergelada. Estava to gelada que fez seus dentes e a cabea
doerem. Depois de ter matado a sede, levantou a cabea e ficou sentado
olhando em torno. No estivera em condies de reparar em coisa alguma
no dia anterior, mas agora via mais claramente a cor intensa da gua e
ouvia os rudos estridentes dos insetos por toda parte. -Balthamos?
-Sempre aqui. -Onde est o homem morto? -Depois daquele pedregulho alto,
 sua direita. -H Espectros por aqui? -No, nenhum. Will pegou a
mochila de lona e o manto e foi contornando o lago, seguindo pela beira,
depois subiu at o pedregulho que Balthamos tinha indicado. Atrs dele
um pequeno acampamento havia sido montado, com cinco ou seis tendas e
restos de fogueiras para cozinhar. Will se aproximou com cuidado, caso
algum ainda estivesse vivo e escondido. Mas o silncio era profundo,
com o rudo dos insetos apenas arranhando sua superfcie. As tendas
estavam desertas, a gua plcida, com ondulaes ainda se espalhando
lentamente em crculos a partir de onde ele havia bebido. Um lampejo de
movimento verde prximo de seu p o sobressaltou por um instante, mas
era apenas um minsculo lagarto. As tendas eram feitas de tecido de
camuflagem, o que as realava ainda mais, em meio s rochas vermelhas
desbotadas. Examinou o interior 24 da primeira tenda e viu que estava
vazia. A segunda tambm, mas na terceira encontrou algo de valor: uma
lata de rancho e uma caixa de fsforos. Tambm havia uma tira de alguma
substncia escura, do mesmo comprimento e largura que seu antebrao. De
incio, pensou que fosse couro, mas, sob a luz do sol, viu mais
claramente e constatou que era carne-seca. Bem, afinal, ele tinha uma
faca. Cortou um pedao fino e descobriu que era meio dura de mastigar e
ligeiramente salgada, mas cheia de sabor bem gostoso. Colocou a carne e
os fsforos junto com a lata na bolsa de lona e revistou as outras
tendas, mas estavam vazias. Deixou a maior por ltimo. - l que est o
homem morto? -perguntou para o ar. - -respondeu Balthamos. -Ele foi
envenenado. Will foi caminhando cautelosamente at a entrada, que dava
para o lago. Cado ao lado de uma Cadeira de lona virada estava o corpo
do homem conhecido no mundo de Will como Sir Charles Latrom e no mundo
de Lyra como Lorde Boreal, o homem que havia roubado o aletmetro de
Lyra, roubo que, por sua vez, tinha conduzido Will ao encontro da faca
sutil. Sir Charles havia sido hipcrita, desonesto e poderoso, e agora
estava morto. O rosto dele estava distorcido de maneira desagradvel e
Will no queria olhar para ele, mas uma espiada rpida no interior da
tenda revelou que ali havia um bocado de coisas para roubar, de modo que
passou por cima do corpo para olhar melhor. Seu pai, o soldado, o
explorador, teria sabido exatamente o que levar. Will tinha que
adivinhar. Pegou uma pequena lupa num estojo de metal, porque poderia
us-la para acender fogueiras e economizar os fsforos; um carretel de
barbante bem resistente; um cantil de liga de metal, muito mais leve do
que o recipiente de pele de cabra que estivera carregando, e uma pequena
caneca de lato; um binculo pequenino, um cilindro de moedas de ouro do
tamanho de um polegar de homem, embrulhado em papel; uma caixa de
primeiros socorros; tabletes para purificar gua; um pacote de caf;
trs pacotes de frutas secas 25 prensadas; um saco de biscoitos de
aveia; seis barras de Kendal Mint Cake; um saco de anzis de pesca e
linha de nilon e, finalmente, um bloco de anotaes e um par de lpis e
uma pequena lanterna eltrica. Arrumou tudo isso em sua bolsa de lona,
cortou outra fatia de carne, encheu a barriga e depois o cantil com gua
do lago e perguntou para Balthamos: -Acha que preciso de mais alguma
coisa? -Um pouco de bom senso lhe seria til -veio a resposta. - Alguma
faculdade para tornar voc capaz de reconhecer a sabedoria e mais
inclinado a respeit-la e obedec-la. -Voc  sbio? -Muito mais do que
voc. -Bem, como v, eu no saberia dizer. Voc  homem? Fala como
homem. -Baruch era homem. Eu no. Agora ele  angelical. -Ento -Will
interrompeu o que estava fazendo, que era arrumar a bolsa de lona de
modo que os objetos mais pesados ficassem no fundo, e tentou ver o anjo.
No havia nada para ver. -Ento ele era um homem -prosseguiu -e ento...
As pessoas se tornam anjos quando morrem?  isso que acontece? -Nem
sempre. No na grande maioria dos casos... Muito raramente. -Ento
quando ele esteve vivo? -H quatro mil anos, mais ou menos. Eu sou muito
mais velho. -E ele vivia no meu mundo? No de Lyra? Ou neste aqui? -No
seu. Mas existem mirades de mundos. Voc sabe disso. -Mas como as
pessoas se tornam anjos? -Qual  o objetivo dessa especulao
metafsica? -S quero saber. - melhor cuidar de sua tarefa. Voc
saqueou os objetos pessoais desse morto, tem todos os brinquedos de que
precisa para se manter vivo; agora podemos seguir adiante? 26 -Quando eu
souber para onde ir. -Para onde quer que escolhamos ir, Baruch nos
encontrar. -Ento ele nos encontrar mesmo se ficarmos aqui. Tenho mais
umas coisas afazer . Will sentou num lugar de onde no pudesse ver o
corpo de Sir Charles e comeu trs quadrados do Kendal Mint Cake. Era
maravilhoso como foi se sentindo refeito e fortalecido  medida que a
comida comeou a nutri-lo. Ento examinou novamente o aletmetro. As 36
pequeninas ilustraes pintadas sobre o marfim eram todas perfeitamente
claras: no havia dvida de que isso era um beb, aquilo uma marionete,
isso uma bisnaga de po e assim por diante. O que era obscuro era o que
elas significavam. -Como Lyra lia isso? -perguntou a Balthamos. - muito
possvel que ela inventasse. As pessoas que usam esses instrumentos
estudaram durante muitos anos e mesmo assim s podem compreend-los com
a ajuda de muitos livros de referncia. -Ela no estava inventando.
Realmente sabia ler. Lyra me disse coisas que de outra forma jamais
poderia ter sabido. -Ento  igualmente misterioso para mim, posso lhe
garantir -declarou o anjo. Olhando para o aletmetro, Will se lembrou de
uma coisa que Lyra havia comentado sobre como ler: alguma coisa a
respeito do estado de relaxamento em que deveria pr sua mente para
fazer com que funcionasse. Aquilo, por sua vez, o havia ajudado a sentir
as sutilezas da lmina de prata. Sentindo curiosidade, pegou a faca e
cortou uma pequena janela na frente de onde estava sentado. Atravs dela
no viu nada exceto o ar azul, porm abaixo, muito abaixo, havia uma
paisagem de rvores e campos: era seu prprio mundo, sem sombra de
dvida. Ento as montanhas neste mundo no correspondiam a montanhas no
mundo dele. Fechou a janela, usando a mo esquerda pela primeira vez.
Que felicidade poder us-la de novo! 27 Ento uma idia ocorreu-lhe to
subitamente, que foi como se tivesse levado um choque eltrico. Se
existiam mirades de mundos, por que a faca s abria janelas entre este
mundo e o seu? Certamente ela deveria poder cortar abrindo janelas para
qualquer um deles. Ele levantou a faca de novo, deixando sua mente fluir
seguindo pela lmina at chegar  ponta da faca como Giacomo Paradisi
lhe havia ensinado, at que sua conscincia estivesse aninhada entre os
prprios tomos e sentisse cada minsculo ponto e ondulao no ar. Em
vez de cortar to logo sentiu a primeira fenda, como geralmente fazia,
deixou que a faca seguisse adiante para uma outra e depois para mais uma
outra. Era como seguir uma fileira de pontos cirrgicos enquanto os
pressionava muito ligeiramente de maneira que nenhum deles fosse
danificado. -O que est fazendo? -disse a voz saindo do ar e trazendo-o
de volta. -Estou explorando -respondeu Will. -Fique calado e no se meta
no meu caminho. Se voc chegar perto disso ser cortado e, como no
posso ver voc, no tenho como evitar. Balthamos emitiu um som de
descontentamento. Will estendeu a faca novamente e procurou aquelas
minsculas paradas e hesitaes nas fendas. Havia um nmero muito maior
delas do que tinha imaginado. E enquanto as sentia sem precisar
cort-las, imediatamente descobriu que cada uma possua uma
caracterstica diferente: esta aqui era dura e definida, aquela ali meio
indistinta; uma terceira era escorregadia, a quarta quebradia e
frgil... Mas entre todas elas havia algumas que ele podia sentir com
mais facilidade que outras e, j conhecendo a resposta, cortou uma s
para ter certeza: era seu prprio mundo de novo. Ele a fechou e procurou
com a ponta da faca uma fenda com uma caracterstica diferente.
Encontrou uma que era elstica e resistente e deixou a faca deslizar
para dentro dela e cortar. 28 Sim! O mundo que viu atravs daquela
janela no era o seu: ali o cho estava mais prximo e a paisagem no
era de campos verdes e cercas, mas um deserto com dunas ondulantes. Will
fechou aquela janela e abriu outra: a atmosfera carregada de fumaa de
uma cidade industrial, com uma fila de trabalhadores, acorrentados e de
expresso sombria, caminhando penosamente para uma fbrica. Fechou
aquela tambm e voltou a si. Sentia-se ligeiramente tonto. Pela primeira
vez compreendeu parte da dimenso do verdadeiro poder da faca e a pousou
muito cuidadosamente sobre a rocha  sua frente. -Voc vai ficar aqui o
dia inteiro? -perguntou Balthamos. -Estou pensando. Voc s pode passar
com facilidade de um mundo para outro se o cho estiver no mesmo lugar.
E talvez haja lugares em que est, e talvez seja nesses lugares que
ocorram muitos cortes entre os mundos... E voc teria que saber
exatamente como  seu prprio mundo com aponta da faca, caso contrrio
poderia no conseguir voltar nunca. Estaria perdido para sempre.
-Realmente. Mas ser que poderamos - -E voc teria que saber que mundo
tem o cho no mesmo lugar, caso contrrio no haveria sentido em abri-lo
-disse Will, tanto para si mesmo quanto para o anjo. -De maneira que no
 to fcil quanto eu havia imaginado. Talvez simplesmente tenhamos tido
sorte em Oxford e em Cittgazze. Mas eu vou apenas... Ele tornou apegar
a faca. Alm da sensao bem ntida e evidente que sentia quando tocava
um ponto que abriria uma fenda para seu mundo, tinha havido um outro
tipo de sensao em que havia tocado mais de uma vez: uma espcie de
ressonncia, como a sensao de bater num tambor pesado de madeira,
exceto,  claro, que vinha, como todas as outras, num movimento
minsculo atravs do ar vazio. L estava ela. Ele se afastou e procurou
sentir em outro lugar: l estava de novo. Will fez um corte e descobriu
que seu raciocnio estava correto. A ressonncia significava que o solo
no mundo que ele havia aberto estava 29 no mesmo lugar que neste. Estava
olhando para uma campina verdejante numa regio montanhosa, sob um cu
carregado, em que um rebanho de animais plcidos pastavam -animais de um
tipo que nunca vira antes, grandes como bises, com chifres largos e de
plo azul comprido, com uma crista de plos duros eriados descendo ao
longo de suas costas. Ele entrou pela janela. O animal mais prximo
levantou a cabea, olhou para ele sem curiosidade e ento virou de volta
para a relva. Deixando a janela aberta, na campina do outro mundo,
Willlevantou a faca, com sua ponta procurou os pontos familiares e
experimentou abri-los. Sim, ele podia abrir seu prprio mundo a partir
daquele e ainda estava bem acima das fazendas e das cercas; e sim, podia
encontrar com facilidade a ressonncia slida que era caracterstica do
mundo Cittgazze de onde acabara de sair. Com uma profunda sensao de
alvio, Will voltou para o acampamento  beira do lago, fechando todas
as janelas atrs de si. Agora podia encontrar seu caminho de volta para
casa; agora no se perderia; agora poderia se esconder quando precisasse
e se deslocar em segurana. Cada acrscimo no conhecimento vinha
acompanhado de um ganho em fora. Ele embainhoua faca na cintura e jogou
a mochila sobre o ombro. -Bem, agora est pronto? -disse a voz
sarcstica. -Estou. Posso explicar se quiser, mas no me parece muito
interessado. -Ah, acho qualquer coisa que voc faa uma fonte perptua
de fascinao. Mas no se incomode comigo. O que vai dizer para aquelas
pessoas que esto chegando? Will olhou em volta, espantado. Mais abaixo
na trilha -bem longe, muito mais abaixo -havia uma fileira de viajantes
com cavalos 30 de carga, subindo em marcha regular em direo ao lago.
Eles ainda no o tinham visto, mas se ficasse onde estava, logo veriam.
Will recolheu o manto de seu pai, que havia estendido sobre um
pedregulho para tomar sol. Pesava muito menos, agora que estava seco.
Olhou ao redor: no havia mais nada que pudesse levar. -Vamos seguir
adiante -disse. Gostaria de ter podido refazer o curativo, mas aquilo
podia esperar. Comeou a andar junto da beira do lago, afastando-se dos
viajantes, e o anjo o seguiu, invisvel na claridade do dia. Muito mais
tarde naquele dia eles desceram das montanhas de rochas nuas, para um
contraforte coberto de relva e rododendros anes. Will estava louco para
descansar e logo, decidiu, faria uma parada. O anjo tinha falado pouco.
De tempos em tempos Balthamos havia advertido: -No v por a -ou: -H
um caminho mais fcil  esquerda- e ele aceitava o conselho; mas na
verdade estava caminhando s por caminhar e para se manter longe
daqueles viajantes, porque enquanto o outro anjo no voltasse com mais
notcias, ele poderia muito bem ter ficado onde estavam. Agora o sol
estava se pondo, e Will achou que podia ver seu estranho companheiro. A
silhueta de um homem parecia tremular sob a luz e o ar estava mais denso
dentro dela. -Balthamos? -chamou. -Quero encontrar um riacho. Existe
algum por perto? -H uma nascente um pouco mais abaixo na encosta -disse
o anjo, logo acima daquelas rvores. -Obrigado, -agradeceu Will.
Encontrou a nascente e bebeu bastante gua, enchendo o cantil. Mas antes
que pudesse descer at o pequeno bosque, ouviu uma exclamao de
Balthamos e quando Will se virou avistou sua silhueta movendo-se
rapidamente pela encosta em direo -a qu? O anjo era Visvel apenas
como um lampejo de movimento e Will conseguia v-lo 31 melhor se no
olhasse diretamente para ele; mas Balthamos pareceu fazer uma pausa e
ouvir, ento se lanou pelo ar para deslizar rapidamente de volta para
junto de Will. -Aqui! -disse ele, e pela primeira vez sua voz no tinha
nenhum trao de desaprovao ou de sarcasmo. -Baruch veio por aqui! E h
uma daquelas janelas, quase invisvel. Venha, venha. Venha logo. Will o
seguiu cheio de entusiasmo, o cansao esquecido. A janela, observou
quando a alcanou, se abria para uma regio sombria, de paisagem
semelhante  tundra que era mais plana que as montanhas no mundo
Cittgazze e mais fria, com um cu carregado. Ele passou pela janela e
Balthamos o seguiu imediatamente. -Que mundo  este? -perguntou Will. -
o mundo da garota. Foi por aqui que elas passaram e Baruch tambm
atravessou e foi em frente para segui-las. Esto indo para o sul, j
esto bem longe em direo ao sul. -Como sabe? Voc l a mente dele?
-Claro que leio a mente dele. Aonde quer que ele v, minha cabea vai
com ele; sentimos as mesmas coisas, como se fssemos um s, embora
sejamos dois. Will examinou o terreno a seu redor. No havia nenhum
sinal de vida humana e o ar frio estava ficando mais gelado, a cada
minuto que se passava,  medida que a luz ia morrendo. -No quero dormir
aqui -declarou. -Vamos ficar no mundo Cittgazze para passar a noite e
voltar para c de manh. Pelo menos por l tem lenha e podemos fazer uma
fogueira. E agora que sei como  o mundo dela, posso encontr-lo com a
faca... Ah, Balthamos? Voc pode assumir alguma outra forma? -Por que eu
haveria de querer fazer isso? -Neste mundo, os seres humanos tm daemons
e se eu aparecer sem daemon, ficaro desconfiados. Lyra, inicialmente,
teve medo de mim por causa disso. De modo que se formos viajar pelo
mundo dela, 32 voc vai ter que fingir que  meu daemon e assumir a
forma de algum animal. Um pssaro, talvez. Assim pelo menos poderia
voar. -Ah, mas que coisa mais tediosa. -Mas voc pode fazer isso? -Eu
poderia... -Ento faa agora. Deixe-me ver. A silhueta do anjo pareceu
se condensar e girar num pequeno redemoinho no meio do espao e ento um
melro rodopiou e pousou na relva aos ps de Will. -Voe para o meu ombro
-disse Will. O pssaro fez isso e depois falou no tom de voz cido, j
familiar, do anjo: -Eu s farei isso quando for absolutamente
necessrio.  indescritivelmente humilhante. -Sinto muito -retrucou
Will. -Sempre que encontrarmos gente neste mundo, voc se tornar um
pssaro. No adianta reclamar nem discutir. Apenas faa. O melro
levantou vo de seu ombro e desapareceu no ar; em seguida, l estava o
anjo de novo, emburrado na semi-obscuridade. Antes de voltarem pela
janela, Will examinou bem o terreno que o cercava, farejando o ar,
fazendo um reconhecimento do mundo onde Lyra estava prisioneira. -Onde
est seu companheiro agora? -perguntou. -Seguindo a mulher rumo ao sul.
-Ento seguiremos nessa direo tambm, amanh de manh. No dia
seguinte, Will caminhou durante horas e no viu ningum. A regio
consistia, em sua maior parte, em pequenas colinas cobertas por uma
relva baixa, seca, e, sempre que se encontrava em qualquer ponto mais
elevado, ele olhava em volta buscando sinais de habitao humana, mas
no encontrou nenhum. A nica variao naquele vazio poeirento
verde-acastanhado era uma mancha distante de 33 um verde mais escuro,
para onde Will se dirigiu, porque Balthamos disse que era uma floresta e
que l havia um rio, que corria em direo ao sul. Quando o sol estava
em seu pice, ele tentou e no conseguiu dormir em meio a alguns
arbustos baixos; e,  medida que o anoitecer se aproximava, sentiu-se
cansado e com os ps doloridos. -Progresso lento -comentou Balthamos
acidamente. -No posso fazer nada quanto a isso -retrucou Will. -Se no
puder dizer alguma coisa construtiva,  melhor no falar nada. Quando
finalmente alcanou as bordas da floresta, o sol estava baixo e o ar
carregado de plen, to carregado que Will espirrou vrias vezes,
espantando um passarinho que voou piando com estridncia de algum lugar
prximo. -Foi a primeira coisa viva que vi hoje -observou Will. -Onde
vai acampar? -perguntou Balthamos. Agora, ocasionalmente, o anjo ficava
visvel nas sombras alongadas das rvores. O que Will conseguia ver de
sua expresso era petulante. -Vou ter que parar por aqui, em algum lugar
-respondeu Will. -Voc poderia ajudar a procurar um bom local. Estou
ouvindo um riacho, veja se consegue encontr-lo. O anjo desapareceu.
Will continuou andando penosamente, em meio s moitas de urze e de
mirtilo silvestre, desejando que houvesse alguma coisa como um caminho
para que seus ps seguissem e observando a luz com apreenso: teria que
escolher onde parar rapidamente, antes que a escurido o obrigasse a
faz-lo sem opo de escolha. -A esquerda -disse Balthamos, a um brao
de distncia. - Um riacho e uma rvore morta para servir de lenha. Por
aqui... Will seguiu a voz do anjo e logo encontrou o local que ele havia
descrito. Um riacho corria rapidamente em meio  rochas cobertas de
musgo e desaparecia sobre uma protuberncia numa fenda pequenina e
estreita, escura sob as rvores em arco. Junto ao riacho, uma margem
verdejante se estendia um pouco mais para trs at os arbustos e plantas
rasteiras. 34 Antes de se permitir descansar, Will tratou de catar lenha
e no demorou a encontrar um crculo de pedras enegrecidas pelo fogo, em
meio  relva, onde alguma outra pessoa fizera uma fogueira em alguma
ocasio muito tempo antes. Juntou uma pilha de gravetos e de galhos mais
pesados e com a faca os cortou em achas de bom tamanho antes de tentar
acend-los. No sabia qual era a melhor maneira de fazer aquilo e
desperdiou vrios fsforos antes de conseguir acender as chamas. O anjo
o observava com uma espcie de pacincia fatigada. Depois que a fogueira
estava ardendo, Will comeu dois biscoitos de aveia, um pedao de
carne-seca e um pouco do Kendal Mint Cake, arrematando com uns goles de
gua gelada. Balthamos ficou sentado ali perto e finalmente Will
perguntou: -Voc vai ficar me vigiando o tempo todo? No vou para lugar
nenhum. -Estou esperando Baruch. Ele logo estar de volta e ento posso
ignorar voc, se quiser. -Quer comer alguma coisa? Balthamos se mexeu
ligeiramente: estava tentado. -Quero dizer, eu nem sei se voc come
-emendou Will, mas se quiser alguma coisa, pode comer . -O que  aquilo?
perguntou o anjo cheio de melindres, apontando para o Kendal Mint Cake.
- um doce, acho que feito principalmente de acar ementa. Tome. Will
partiu um quadrado e ofereceu na mo estendida. Balthamos inclinou a
cabea e o cheirou. Ento pegou o quadrado, seus dedos leves e frios
contra a palma da mo de Will. -Creio que isto vai me alimentar-
comentou. -Um pedao  mais que suficiente, obrigado. Ficou sentado e
foi mordiscando em silncio. Will descobriu que se olhasse para o fogo,
com o anjo bem no canto de seu campo de viso, tinha uma impresso mais
forte dele. 35 -Onde est Baruch? -perguntou. -Ele pode se comunicar com
voc? -Sinto que ele est perto. Logo estar aqui. Quando ele voltar,
ns conversaremos. Conversar  melhor. E menos de dez minutos depois o
som suave de asas batendo chegou aos ouvidos deles e Balthamos se
levantou ansioso. No instante seguinte os dois anjos estavam se
abraando e Will, contemplando as chamas, observou a afeio mtua dos
dois. Era mais que afeio: eles se amavam apaixonadamente. Baruch
sentou ao lado de seu companheiro e Will mexeu no fogo, de maneira que
uma nuvem de fumaa subisse e passasse pelos dois. A fumaa teve o
efeito de delinear seus corpos, de modo que pde vlos claramente pela
primeira vez. Balthamos era esguio, as asas estreitas dobradas
elegantemente atrs dos ombros, e seu rosto tinha uma expresso que
mesclava desdm arrogante com uma terna e ardente simpatia, como se ele
fosse capaz de amar todas as coisas se sua natureza lhe permitisse
esquecer seus defeitos. Mas ele no via defeitos em Baruch, isto era
evidente. Baruch parecia ser mais jovem, como Balthamos dissera que era,
e era mais forte de constituio, as asas brancas como neve e macias.
Era mais simples por natureza; olhava para Balthamos como se este fosse
a fonte de todo conhecimento e felicidade. Will se deu conta de que
estava intrigado e comovido com o amor que tinham um pelo outro.
-Descobriu onde est Lyra? -perguntou, impaciente pelas notcias.
-Encontrei -respondeu Baruch. -H um vale do Himalaia, fica muito alto,
prximo de uma geleira, onde a luz  transformada em arco-ris pelo
gelo. Vou desenhar um mapa para voc aqui na terra, para que no deixe
de encontr-lo. A menina est prisioneira numa caverna, a mulher a
mantm adormecida. -Adormecida? E a mulher est sozinha? No h soldados
com ela? 36 -Est sozinha, sim. Se escondendo. -E no aconteceu nada de
mau com Lyra? -No. Est apenas adormecida e sonhando. Deixe-me mostrar
a voc onde esto. Com o dedo plido, Baruch desenhou um mapa na terra
nua junto da fogueira. Will pegou o bloco de anotaes e o copiou com
exatido. Mostrava uma geleira com uma curiosa formao espiralada,
estendendo-se para baixo entre dois picos montanhosos quase idnticos.
-Agora -disse o anjo -vamos chegar mais perto. O vale onde fica a
caverna desce pelo lado esquerdo da geleira e um rio de gua de neve
derretida corre atravs dele. O alto do vale fica aqui. Ele desenhou
outro mapa e Will tambm o copiou; e depois um terceiro, cada vez
chegando mais perto, de modo que Will sentiu que encontraria o caminho
para chegar l sem dificuldade -desde que cruzasse os sete ou oito mil
quilmetros entre a tundra e as montanhas. A faca era boa para cortar
aberturas entre mundos, mas no era capaz de abolir as distncias que
existiam dentro deles. -H um relicrio perto da geleira -Baruch
concluiu seu relato -com bandeirolas de seda vermelha meio rasgadas
pelos ventos. E uma garotinha traz comida at a caverna. Eles acreditam
que a mulher  uma santa que os abenoar se cuidarem de suas
necessidades. - mesmo? -comentou Will. -E ela est se escondendo. 
isso que eu no compreendo. Se escondendo da igreja? -Parece que sim.
Will dobrou os mapas e os guardou cuidadosamente. Tinha posto a caneca
de lato nas pedras na borda da fogueira para esquentar a gua e ento
salpicou um pouco de caf solvel dentro dela, mexendo com um graveto, e
enrolou a mo num leno antes de peg-la para beber. Um graveto em
chamas acomodou-se na fogueira; uma ave noturna piou. De repente, sem
nenhum motivo que Will pudesse ver, os dois anjos olharam para cima e na
mesma direo. Acompanhou o olhar deles, 37 mas no viu nada. Certa
ocasio, tinha visto sua gata fazer isso: levantar de repente, alerta e
desperta de seu cochilo, e ficar vigiando alguma coisa ou algum
invisvel entrar no quarto e atravess-lo de uma ponta  outra. Aquilo o
havia deixado de cabelos em p, e o que estava acontecendo agora tambm.
-Apague a fogueira -sussurrou Balthamos. Will pegou um punhado de terra
com a mo boa e apagou as chamas. Imediatamente, o frio o envolveu at
os ossos e ele comeou a tremer. Puxou o manto enrolando-se nele e olhou
para cima de novo. E agora havia alguma coisa para ver: acima das nuvens
uma forma brilhava, e no era a lua. Ouviu Baruch murmurar: -A
Carruagem? Ser possvel? -O que ? -sussurrou Will. Baruch se inclinou
chegando bem perto dele e sussurrou em resposta: -Eles sabem que estamos
aqui. Nos encontraram. Will, pegue a sua faca e Antes que pudesse
terminar, alguma coisa se lanou do cu e se abateu sobre Balthamos.
Numa frao de segundo Baruch tinha saltado sobre ela e Balthamos estava
se torcendo para libertar sua asa. Os trs seres lutaram assim, indo
para l e para c na semi- obscuridade, como trs enormes vespas
apanhadas numa imensa teia de aranha, sem emitir nenhum som: tudo o que
Will podia ouvir eram os gravetos se partindo e as folhas roando
enquanto eles lutavam. No podia usar a faca: todos se moviam muito
depressa. Em vez disso, tirou a lanterna eltrica da bolsa de lona e a
acendeu. Nenhum deles esperava por isso. O atacante abriu e levantou as
asas, Balthamos jogou o brao cobrindo os olhos e somente Baruch teve a
presena de esprito de se manter na posio em que estava. Mas Will
podia ver o que era, esse inimigo: um outro anjo, muito maior e mais
forte do que eles, e a mo de Baruch estava cravada SObre sua boca. 38
-Will! -gritou Balthamos. -A faca, corte uma sada E no mesmo instante o
atacante conseguiu se soltar violentamente das mos de Baruch e gritou:
-Senhor Regente! Eu os apanhei! A voz dele fez a cabea de Will tinir;
nunca havia escutado um grito daqueles. E um instante depois o anjo
teria levantado vo e escapado, mas Will deixou cair a lanterna e saltou
na frente dele. J havia matado um avantesma dos penhascos, mas usar a
faca contra um ser com uma forma igual  sua era muito mais difcil. A
despeito disso, envolveu as grandes asas que batiam em seus braos e
golpeou repetidamente as penas at que o ar se encheu de um redemoinho
de flocos brancos, lembrando-se, mesmo em meio  onda de sensaes
violentas, das palavras de Balthamos: Vocs tm carne de verdade, ns
no. Os seres humanos eram mais fortes que os anjos e era verdade: ele
estava levando o anjo ao cho. O atacante ainda estava gritando naquela
voz de arrebentar os tmpanos: -Senhor Regente! Para mim, para mim! Will
conseguiu lanar um olhar para o alto e viu as nuvens se movendo e
rodopiando, e aquele claro -alguma coisa imensa -ficando cada vez mais
poderoso, como se as prprias nuvens estivessem se tornando luminosas,
carregadas de energia, como plasma. Balthamos gritou: -Will, vamos
embora e acabe logo com isso antes que ele venha Mas o anjo estava
lutando violentamente e agora tinha conseguido libertar uma das asas e
estava fazendo fora para se levantar do cho, e Will tinha que
continuar a segur-lo, caso contrrio o perderia. Baruch correu para
ajud-lo e forou a cabea do atacante para trs. -No! -gritou
Balthamos de novo. -No! No! Ele se lanou sobre Will, sacudindo-lhe o
brao, o ombro, as mos, e o atacante estava tentando gritar novamente,
mas a mo de Baruch cobria-lhe a boca. Do alto veio um profundo tremor,
como um 39 poderosssimo dnamo, um som quase baixo demais para se
ouvir, embora sacudisse at os prprios tomos do ar e desse solavancos
na medula dos ossos de Will. -Ela est chegando -disse Balthamos, quase
soluando, e naquele momento parte de seu medo se transmitiu para Will.
-Por favor, por favor Will - Will olhou para o alto. As nuvens estavam
se abrindo e atravs da fenda escura um vulto descia rapidamente:
pareceu pequenino inicialmente, mas,  medida que foi se aproximando, a
cada segundo sua forma foi se tornando maior e mais imponente. Vinha
diretamente para eles, com inconfundvel malignidade; Will teve certeza
de que podia at ver seus olhos. -Will, voc precisa -disse Baruch em
tom aflito. Will se levantou, com a inteno de dizer "Segure-o bem
firme", mas no instante em que as palavras vieram  sua mente, o anjo
vergou tombando contra o cho, se dissolvendo e se espalhando como
nvoa, e depois desapareceu. Will olhou em torno, sentindo-se tolo e
nauseado. -Eu o matei? -perguntou com a voz trmula. -Voc teve de fazer
isso -disse Baruch. -Mas agora -Detesto isso- declarou Will, em tom
inflamado, eu realmente, mas realmente detesto esse negcio de matar!
Quando  que vai parar? -Ns temos que ir -interrompeu Balthamos em tom
abatido. -Depressa, Will, depressa, por favor -Os dois estavam
mortalmente assustados. Will tateou o ar com aponta da faca: qualquer
mundo, desde que sassem daquele. Cortou rapidamente e olhou para o
alto: aquele outro anjo vindo do cu estava a apenas segundos de
distncia e sua expresso era aterradora. Mesmo quela distncia e mesmo
naquele segundo ou pouco mais, Will sentiu estar sendo examinado e
vasculhado de uma ponta  outra de seu ser por um intelecto vasto,
brutal e impiedoso. E, o que era pior, ele tinha uma lana -estava
erguendo-a para atir-la 40 E no instante que o anjo precisou para
interromper seu vo, assumir uma posio ereta e levar o brao para trs
para lanar a arma, Will seguiu Baruch e Balthamos atravessando a
abertura e fechou a janela atrs de si. Enquanto seus dedos apertavam os
ltimos centmetros das bordas, sentiu uma onda de impacto de ar, -mas
aquilo desapareceu, estava em segurana: era a lana que o teria
trespassado naquele outro mundo. Eles estavam nas areias de uma praia
sob uma lua brilhante. rvores gigantescas parecendo samambaias cresciam
a alguma distncia mais para o interior; dunas baixas se estendiam ao
longo de quilmetros pela costa. Estava quente e mido. -Quem era
aquele? -perguntou Will, tremendo, encarando os dois anjos. -Aquele era
Metatron -respondeu Balthamos. -Voc deveria ter -Metatron? Quem  ele?
Por que atacou? E no minta para mim. -Temos que contar a ele -disse
Baruch para seu companheiro. -Voc j deveria ter contado. -Sim, deveria
-concordou Balthamos, mas estava aborrecido com ele e preocupado com
voc. -Conte agora, ento -disse Will. -E lembre-se, no adianta me
dizer o que devo fazer, nada disso me interessa, nada. A nica pessoa
que me interessa  Lyra, e minha me. E este- acrescentou para Balthamos
- o objeto de toda aquela especulao metafsica, como voc a definiu.
-Creio que devemos contar a voc nossas informaes -disse Baruch.
-Will, o motivo por que ns dois estivemos procurando voc e por que
devemos levar voc at Lorde Asriel  o seguinte. Ns descobrimos um
segredo do Reino, do mundo da Autoridade, e devemos compartilh-lo com
ele. Estamos seguros aqui? -acrescentou, olhando ao redor. -No h
alguma abertura? 41 -Este  um mundo diferente. Um universo diferente. A
areia onde estavam era macia e a curva da duna mais prxima,
convidativa. Sob a luz do luar podiam ver quilmetros de distncia;
estavam absolutamente sozinhos. -Ento conte-me -disse Will. -Conte-me
quem  Metatron e qual  esse segredo. Por que aquele anjo o chamou de
Regente? E o que  a Autoridade?  Deus? Ele se sentou e os dois anjos,
as formas to ntidas, sob a luz do luar, como jamais as vira antes,
sentaram-se com ele. Balthamos comeou a falar em tom calmo. -A
Autoridade, Deus, o Criador, o Senhor, Yahweh, El, Adonai, o Rei, o Pai,
o Todo-Poderoso, todos esses so nomes que ele deu a si mesmo. Ele nunca
foi o criador. Ele era um anjo como ns, o primeiro anjo,  verdade, o
mais poderoso, mas era feito de P como ns somos, e P  apenas um nome
para o que acontece quando a matria comea a compreender a si mesma. A
matria ama a matria. E busca saber mais a respeito de si mesma, e o P
adquire forma. Os primeiros anjos se condensaram a partir do P e a
Autoridade foi o primeiro de todos. Ele disse aos outros, que vieram
depois, que ele os havia criado, mas era mentira. Um desses que vieram
mais tarde era mais esperto do que ele e ela descobriu a verdade, de
modo que ele a baniu. Ns ainda a servimos. E a Autoridade ainda
prevalece no Reino e Metatron  seu Regente. "Contudo, o essencial com
relao ao que descobrimos na Montanha Nublada, no podemos lhe contar.
Juramos um ao outro que o primeiro a ouvir seria Lorde Asriel." -Ento
conte-me o que puder. No me mantenha na ignorncia. -Descobrimos um
meio de chegar  Montanha Nublada - disse Baruch e prosseguiu
imediatamente: -Desculpe-me; usamos esses termos com demasiada
facilidade. As vezes  chamada de a Carruagem. No  um lugar fiXo, ela
se move de um lugar para outro. Aonde quer que v,  o corao do Reino,
a cidadela dele, seu palcio. Quando 42 a Autoridade era jovem, no era
cercada de nuvens, mas  medida que o tempo passou, ele as foi reunindo
em torno de si, cada vez mais espessas. Ningum v o cume h milhares de
anos. De modo que a cidadela agora  conhecida como a Montanha Nublada.
-O que vocs descobriram l? -A Autoridade reside numa cmara no corao
da montanha. No pudemos chegar perto, embora o tenhamos visto. Seu
poder -Ele delegou grande parte de seu poder -interrompeu Balthamos,
-para Metatron, como eu estava dizendo. Voc viu como ele . Escapamos
dele antes, e agora ele nos viu de novo, e o que  pior, viu voc e viu
a faca. Eu bem que disse -Balthamos -interveio Baruch delicadamente, no
censure Will. Ns precisamos da ajuda dele, e ele no pode ser culpado
por no saber o que ns levamos tanto tempo para descobrir. Balthamos
virou o rosto. -Ento no vo me contar esse segredo de vocs?
-perguntou Will. -Tudo bem. Em vez disso, digam-me o seguinte: o que
acontece quando morremos? Balthamos olhou de volta para ele,
surpreendido. Baruch respondeu: -Bem, existe um mundo dos mortos. Onde
fica e o que acontece l, ningum sabe. Meu esprito, graas a
Balthamos, nunca foi para l; eu sou o que um dia foi o esprito de
Baruch. O mundo dos mortos  simplesmente uma escurido para ns. - um
campo de prisioneiros -disse Balthamos. -A Autoridade o criou no
princpio dos tempos. Por que quer saber? Quando chegar a hora voc
ver. -Meu pai acabou de morrer,  por isso que quero saber. Ele teria
me contado tudo o que sabia, se no tivesse sido morto. Voc diz que 
um mundo, quer dizer um mundo como este, um outro universo? Balthamos
olhou para Baruch, que deu de ombros. -E o que acontece no mundo dos
mortos? -prosseguiu Will. 43 - impossvel dizer- respondeu Baruch.
-Tudo a respeito do mundo dos mortos  segredo. Nem as igrejas sabem;
elas dizem a seus seguidores que vivero no Cu, mas isso  mentira. Se
as pessoas soubessem... -E o esprito de meu pai foi para l. -Sem
sombra de dvida, da mesma forma que incontveis milhes de pessoas que
morreram antes dele... Will sentiu sua imaginao tremer. -E por que no
foram procurar diretamente Lorde Asriel para contar seu grande segredo,
seja l o que for -perguntou, em vez de procurarem por mim? -No
tnhamos certeza -explicou Balthamos -de que acreditaria em ns, a menos
que trouxssemos uma prova de nossas boas intenes. Dois anjos de baixo
escalo, dentre todos os poderes com que ele est lidando, por que
haveria de nos levar a srio? Mas se pudssemos levar a faca para ele e
seu portador, poderia nos ouvir. A faca  uma arma poderosa e Lorde
Asriel ficaria satisfeito de ter voc a seu lado. -Bem, sinto muito
-disse Will, mas isso me parece muito fraco. Se tivessem alguma
confiana em seu segredo, no precisariam de uma desculpa para ver Lorde
Asriel. -H um outro motivo -disse Baruch. -Sabamos que Metatron
estaria em nosso encalo e queramos nos assegurar de que a faca no
casse em suas mos. Se pudssemos convencer voc a procurar Lorde
Asriel antes, ento pelo menos -Ah, no, isso no vai acontecer -disse
Will. -Vocs esto tornando mais dificil para mim a chance de alcanar
Lyra, no mais fcil. Ela  a coisa mais importante e vocs a esto
esquecendo completamente. Bem, eu no estou. Por que simplesmente no
vo procurar Lorde Asriel e me deixam em paz? Faam com que ele oua.
Poderiam voar at onde ele est muito mais rpido do que eu posso andar
e, primeiro, eu vou encontrar Lyra, haja o que houver. Faam isso. Podem
ir. Podem me deixar. 44 -Mas voc precisa de mim -disse Balthamos em tom
arrogante, porque posso fingir ser o seu daemon e no mundo de Lyra voc
chamaria ateno sem um daemon. Will estava furioso demais para falar.
Levantou-se e caminhou se afastando 20 passos pela areia macia, ento
parou, pois o calor e a umidade eram atordoantes. Ele se virou e viu os
dois anjos juntos, conversando animadamente, e ento os dois vieram at
junto dele, humildes e constrangidos, mas orgulhosos tambm. Baruch
disse: -Sentimos muito. Eu vou seguir sozinho ao encontro de Lorde
Asriel e dar a ele nossa informao; tambm vou pedir que lhe mande
ajuda para encontrar a filha dele. Levar dois dias de vo se eu navegar
corretamente. -E eu ficarei com voc -disse Balthamos. -Bem -disse Will,
obrigado. Os dois anjos se abraaram. Ento Baruch envolveu Will em seus
braos e o beijou em ambas as faces. O beijo foi leve e fresco, como as
mos de Balthamos. -Se continuarmos seguindo na direo de Lyra, voc
nos encontrar? -perguntou Will. -Eu nunca perderei Balthamos -respondeu
Baruch e deu um passo para trs. Ento ele saltou no ar, se elevou
rapidamente no cu e desapareceu em meio s estrelas que o salpicavam.
Balthamos ficou olhando na direo para onde ele se fora com anseio
desesperado. -Vamos dormir aqui ou deveramos seguir adiante? -perguntou
finalmente, virando-se para Will. -Dormir aqui -respondeu Will. -Ento
durma, eu ficarei montando guarda contra qualquer perigo. Will, eu fui
rude com voc e isso no foi correto de minha parte. 45 Voc  quem tem
que carregar o maior fardo e eu deveria ajud-lo, no censur-lo. Vou
tentar ser mais gentil daqui por diante. Deste modo Will se deitou na
areia morna e, em algum lugar ali perto, pensou, o anjo estava montando
guarda; mas aquilo no era grande consolo. 46 darei um jeito para
escaparmos daqui, Roger, prometo. E Will est vindo, tenho certeza de
que est! Ele no compreendeu. Abriu as palmas das mos plidas e
sacudiu a cabea. -Eu no sei quem  esse e ele no vir aqui -disse
Roger, e se vier, ele no me conhecer. -Ele est vindo me buscar- disse
ela, e Will e eu, ah, no sei como, Roger, mas juro que vamos ajudar. E
no se esquea de que temos outras pessoas do nosso lado. Temos Serafina
e temos Iorek, e 47 *3 COMEDORES DE CARNIA OS OSSOS DO CAVALEIRO SO
AGORA P E SUA BOA ESPADA, A FERRUGEM CORRI; SUA ALMA, CREIO, JAZ COM
OS SANTOS S. T. COLERIDGE Serafina Pekkala, a rainha do cl das bruxas
do Lago Enara, chorava ao voar pelos cus turbulentos do rtico. Chorava
de raiva, de medo e de remorso: raiva da mulher Coulter, a quem havia
jurado matar; medo do que estava acontecendo com sua terra adorada; e
remorso... Bem, enfrentaria o remorso mais tarde. Enquanto isso, olhou
para baixo, para a calota polar que se derretia, para as florestas das
terras baixas, inundadas, para o mar alto, volumoso, e sentiu o corao
se contrair angustiado. Mas no parou para visitar sua terra natal, nem
para consolar e encorajar suas irms. Em vez disso, voou rumo ao norte e
ainda mais para o norte, entrando nos nevoeiros e ventos cortantes que
cercavam Svalbard, o reino de Iorek Byrnison, o urso de armadura. Mal
reconheceu a ilha principal. As montanhas estavam nuas e enegrecidas, e
apenas alguns vales escondidos voltados contra o sol ainda conservavam
alguma neve em seus cantos de sombra, mas, de qualquer 48 maneira, o que
o sol estava fazendo ali, naquela poca do ano? A natureza inteira
estava enlouquecida. Serafina levou quase um dia inteiro para encontrar
o urso rei. Ela o avistou entre as rochas da extremidade norte da ilha,
nadando rapidamente atrs de uma morsa. Era mais difcil para os ursos
matar dentro d'gua: quando a terra estava coberta de gelo e os grandes
mamferos marinhos tinham que subir  tona para respirar, os ursos
tinham a vantagem de estar camuflados e suas presas fora de seu
elemento. Era assim que as coisas deviam ser. Mas Iorek Byrnison estava
com fome e nem as presas afiadas da enorme morsa conseguiram mant-lo 
distncia. Serafina ficou observando enquanto os dois grandes animais
lutavam, tingindo de vermelho a espuma do mar e viu Iorek levantar a
carcaa das ondas e coloc-la sobre uma larga plataforma de rocha,
observado a uma distncia respeitosa por trs raposas de plo
maltratado, que esperavam por sua vez de comer o banquete. Depois que o
urso rei acabou de comer, Serafina desceu voando para falar com ele.
Agora havia chegado a hora de enfrentar o remorso. -Rei Iorek Byrnison
-disse ela, por favor, poderia falar com o senhor? Primeiro vou deixar
as minhas armas. Ela colocou seu arco e flechas sobre a rocha molhada
entre eles. Iorek as examinou rapidamente e ela sabia que se sua face
pudesse registrar alguma emoo seria surpresa. -Fale, Serafina Pekkala
-disse ele com um rosnado. -Ns nunca lutamos, no ? -Rei Iorek,
fracassei em ajudar seu amigo, Lee Scoresby. Os olhos negros pequeninos
do urso e seu focinho manchado de sangue ficaram absolutamente imveis,
de repente. Serafina podia ver o vento agitando as pontas dos plos
branco-cremosos ao longo de seu dorso. Ele no disse nada. -O Sr.
Scoresby est morto -prosseguiu Serafina. -Antes de nos separarmos, dei
a ele uma flor para que me chamasse, se precisasse 49 de mim. Ouvi seu
chamado e voei at onde estava, mas cheguei tarde demais. Ele morreu
lutando contra uma brigada de soldados Muscovitas, mas desconheo os
motivos que os levaram at l e por que ele estava combatendo os
soldados imperiais e impedindo que avanassem quando poderia facilmente
ter escapado. Rei Iorek, estou consumida pelo remorso. -Onde isso
aconteceu? -quis saber Iorek Byrnison. -Em um outro mundo. Vou precisar
de algum tempo para contar o que aconteceu. -Ento comece. Serafina
contou o que Lee Scoresby havia decidido fazer: encontrar o homem que
era conhecido como Stanislaus Grumman. Contou a ele sobre como a
barreira entre os mundos havia sido rompida por Lorde Asriel e sobre
algumas das conseqncias -o derretimento do gelo, por exemplo. Falou
sobre o vo da bruxa Ruta Skadi atrs dos anjos e tentou descrever
aqueles seres voadores para o urso rei como Ruta os havia descrito para
ela: a luz que emanava deles, a claridade cristalina de sua aparncia, a
riqueza da sabedoria deles. Ento descreveu o que havia encontrado ao
responder ao chamado de Lee. -Fiz um feitio para proteger seu corpo,
para preserv-lo da decomposio -explicou. -Durar at que o veja, se
desejar fazer isso. Mas estou muito preocupada com isso, Rei Iorek.
Estou preocupada com tudo, mas especialmente com isso. -Onde est a
criana? -Eu a deixei com minhas irms, porque tinha que responder ao
chamado de Lee. -Naquele mesmo mundo? -Sim, no mesmo mundo. -Como posso
ir daqui para l? Ela explicou. Iorek Byrnison ouviu completamente
impassvel e depois disse: 50 -Eu irei at Lee Scoresby. E depois tenho
de ir para o sul. -Para o sul? -O gelo desapareceu destas terras. Tenho
estado pensando a respeito disso, Serafina Pekkala. Contratei um navio.
As trs pequenas raposas tinham estado esperando pacientemente. Duas
delas estavam deitadas, com a cabea repousando sobre as patas,
observando, e a outra ainda estava sentada, acompanhando a conversa. As
raposas do rtico, como boas comedoras de carnia que eram, haviam
aprendido alguma coisa da linguagem falada, mas seus crebros eram
formados de tal maneira que s podiam compreender frases com verbos
conjugados no presente. A maior parte do que Iorek e Serafina tinham
dito eram rudos sem significado para elas. Alm disso, quando falavam,
a maior parte do que diziam eram mentiras, de modo que no importava se
repetissem o que tinham ouvido: ningum conseguiria separar as partes
que eram verdade, embora os crdulos avantesmas-dos-penhascos
acreditassem em quase tudo e nunca aprendessem com suas decepes. Os
ursos e as bruxas estavam habituados com o fato de suas conversas serem
consumidas por elas, como os restos de carne que deixavam quando haviam
acabado de comer. -E voc, Serafina Pekkala? -prosseguiu Iorek. -O que
vai fazer agora? -Vou procurar os gpcios -respondeu ela. -Creio que
vamos precisar deles. -Lorde Faa -disse o urso, sim. So bons
combatentes. Boa jornada. Ele se afastou e deslizou para dentro d'gua
sem fazer rudo e comeou a nadar em seu ritmo regular e incansvel em
direo ao novo mundo. E, algum tempo depois, Iorek Byrnison chegou 
terra, pisando na vegetao rasteira enegrecida e nas rochas fendidas
pelo calor, na beira de uma floresta queimada. O sol ardia inclemente,
em meio  nvoa 51 enfumaada, mas ele ignorou o calor, assim como
ignorou a poeira de carvo que enegreceu seu plo branco e os
mosquitos-plvora que procuravam em vo pele para picar. Tinha
percorrido uma longa distncia e, a certo ponto em sua jornada, estivera
nadando pela entrada daquele outro mundo. Havia reparado na mudana no
gosto da gua e na temperatUra do ar, mas o ar ainda era bom para
respirar e a gua ainda sustentava seu corpo de maneira que tinha
continuado nadando e agora deixara o mar para trs e estava quase no
lugar que Serafina Pekkala havia descrito. Procurou em volta, os olhos
negros se detendo nas rochas que reluziam ao sol em uma parede de
penhascos de calcrio acima dele. Entre a borda da floresta queimada e
as montanhas, uma encosta rochosa de grandes pedregulhos e entulho
estava salpicada de pedaos de metal queimado e retorcido: traves e
suportes que haviam pertencido a alguma mquina complexa. Iorek Byrnison
os examinou com olhos de ferreiro e de guerreiro, mas no havia nada
naqueles fragmentos que pudesse aproveitar. Riscou uma linha com uma de
suas garras poderosas ao longo de um suporte menos danificado que os
outros, e, sentindo uma fragilidade na qualidade do metal, deu-lhe as
costas imediatamente e novamente vasculhou a parede montanhosa. Ento
avistou o que estava procurando: uma fossa estreita que permitia a
passagem entre as paredes denteadas e, na entrada, um grande pedregulho
baixo. Foi escalando em sua direo em ritmo constante. Sob suas patas
enormes, ossos secos se partiam estalando alto em meio ao silncio, pois
muitos homens haviam morrido ali, a carne de seus corpos tendo sido
depois consumida por coiotes, abutres e outros animais inferiores; mas o
grande urso os ignorou e continuou subindo cautelosamente em direo 
rocha. O solo no era firme e ele era pesado, de modo que mais de uma
vez o entulho de rocha deslizava sob suas patas e o arrastava para baixo
levantando massas de poeira e de cascalho. Mas to logo conseguia parar
de escorregar, retomava a escalada, pacientemente e com 52 implacvel
determinao at alcanar a prpria rocha, onde o solo era mais firme. O
pedregulho estava todo furado e lascado com marcas de balas. Tudo o que
a bruxa lhe havia contado era verdade. E, para confirmar, uma pequenina
flor do rtico, uma saxifraga escarlate, contrariando todas as
probabilidades, florescia viosa onde a bruxa a havia plantado, para
marcar o local, numa fissura da rocha. Iorek Byrnison contornou o
pedregulho at chegar ao lado superior. Era um bom abrigo contra um
inimigo que estivesse abaixo, mas no o bastante; pois dentre a
saraivada de balas que haviam arrancado fragmentos de rocha, houvera
algumas que tinham encontrado seu alvo e que estavam onde haviam
acertado, no corpo rgido do homem deitado na sombra. Era um corpo,
ainda, e no um esqueleto, porque a bruxa fizera um feitio para
preserv-lo da decomposio. Iorek podia ver o rosto de seu velho
companheiro abatido e crispado pela dor de seus ferimentos e ver os
buracos esgarados em suas roupas onde as balas haviam entrado. O
feitio da bruxa no cobrira o sangue que devia ter-se derramado e os
insetos, o sol e o vento o dispersaram completamente. Lee Scoresby no
parecia estar dormindo, nem estar em paz; parecia ter morrido em
combate; mas por sua expresso parecia saber que sua luta havia sido
bem-sucedida. E como o aeronauta texano era um dos raros seres humanos
que Iorek estimara, aceitou o ltimo presente que o homem lhe ofereceu.
Com movimentos destros de suas garras, rasgou e afastou as roupas do
homem, abriu o corpo com um corte e comeou a se banquetear com a carne
e o sangue de seu velho amigo. Era a primeira refeio que fazia em dias
e estava com fome. Mas uma complexa teia de pensamentos estava se
tecendo na mente do urso rei, contendo mais fios que fome e satisfao.
Havia a lembrana da garotinha, Lyra, a quem ele tinha dado o nome de
Lngua Mgica e que vira pela ltima vez atravessando a frgil ponte de
neve 53 sobre uma fenda de geleira em sua ilha natal de Svalbard. Ento
havia a agitao entre as bruxas, os rumores de pactos e de alianas e
guerra, depois havia o fato ainda mais estranho daquele novo mundo e a
insistncia da bruxa em que existiam muitos outros mundos como aquele, e
que o destino de todos eles de alguma forma dependia do destino da
criana. E ento havia a questo do gelo se derretendo. Ele e seu povo
viviam no gelo; o gelo era a casa deles; o gelo era a cidadela deles.
Desde que tinham ocorrido as grandes perturbaes no rtico, o gelo
havia comeado a desaparecer e Iorek sabia que tinha que encontrar uma
regio de gelo permanente para seus sditos ou eles pereceriam. Lee lhe
dissera que havia montanhas ao sul que eram to altas que nem mesmo seu
balo poderia voar acima delas e que tinham uma coroa de neve e gelo o
ano inteiro. Explorar essas montanhas seria sua prxima tarefa. Mas por
enquanto, algo mais simples dominava seu corao, algo que era ardente,
duro e inabalvel: o desejo de vingana. Lee Scoresby, que viera
resgatar Iorek do perigo em seu balo e lutara a seu lado no rtico de
seu prprio mundo, estava morto. Iorek o vingaria. A carne e os ossos
daquele bravo homem ao mesmo tempo o nutririam e o manteriam infatigvel
at que bastante sangue tivesse sido derramado para acalmar seu corao.
O sol estava se pondo quando Iorek terminou sua refeio e o ar estava
esfriando. Depois de reunir os fragmentos formando uma nica pilha, o
urso levantou a flor com a boca e a deixou cair no centro deles, como
seres humanos gostavam de fazer. Agora o feitio da bruxa estava
quebrado; o resto do corpo de Lee estava liberado para todos os que
viessem. Logo estaria alimentando uma dzia de tipos de vida diferentes.
Ento Iorek retomou o caminho, novamente descendo a encosta em direo
ao mar, rumo ao sul. 54 Os avantesmas-dos-penhascos gostavam de comer
raposas, quando conseguiam apanh-las. Os pequeninos animais eram
espertos e difceis de capturar, mas a carne era macia e farta. Antes de
matar aquela, o avantesma-dos-penhascos deixou que falasse e riu de sua
tola conversa fiada. -Urso tem que ir para o sul! Juro! Bruxa est
preocupada! Verdade! Juro! Prometo! -Ursos no vo para o sul, imunda
mentirosa! -Verdade! Rei urso tem que ir para o sul! Mostro morsa para
voc, carne boa, gorda -Rei urso ir para o sul? -E coisas voadoras tm
tesouro! Coisas voadoras, anjos, tesouro de cristal! -Coisas voadoras,
como avantesmas-dos-penhascos? Tesouro? -Como luz, no como
avantesmas-dos-penhascos. Rico! Cristal! E bruxa aflita, preocupada,
bruxa triste, Scoresby morto -Morto? Homem do balo morto? -A gargalhada
do avantesma-dos-penhascos ecoou nos penhascos ressecados. -Bruxa matou,
Scoresby morto, rei urso ir para o sul -Scoresby morto! Ha, ha, Scoresby
morto! O avantesma-dos-penhascos arrancou a cabea da raposa e lutou com
seus irmos pelas entranhas. 55 eles viro, eles viro! -Mas onde est
voc, Lyra? E isso ela no sabia responder. -Acho que estou sonhando,
Roger -foi tudo o que conseguiu encontrar para dizer. Atrs do
garotinho, ela podia ver mais espritos, dzias, centenas, as cabeas
juntas umas das outras, olhando tudo com muita ateno e ouvindo cada
palavra. -E aquela mulher? -perguntou Roger. -Espero que ela no esteja
morta. Espero que continue viva por tanto tempo quanto puder. Porque se
ela descer aqui, ento no haver nenhum lugar para nos escondermos,
ento ela ser nossa dona para sempre. Essa  a nica coisa boa que
consigo ver em estar morto, que ela no est. S que um dia ela
estar... Lyra ficou assustada. -Eu acho que estou sonhando e no sei
onde ela est! -disse. - Ela est em algum lugar por perto, e eu no
consigo 56 *4 AMA E OS MORCEGOS ELE JAZIA COMO SE A BRINCAR -A VIDA LHE
HAVIA ESCAPULIDO -COM A INTENO DE VOLTAR -MAS NO PARA J - EMILY
DICKINSON Ama, a filha do pastor, ficou com a imagem da menIna
adormecida marcada na memria: no conseguia parar de pensar nela. Nem
por um instante duvidou que fosse verdade o que a Sra. Coulter lhe havia
contado. Feiticeiros existiam, sem sombra de dvida, e era perfeitamente
possvel que lanassem feitios que fizessem as pessoas adormecer e que
uma me cuidasse de sua filha com aquela feroz dedicao e ternura. Ama
desenvolveu uma admirao que quase beirava a adorao pela bela mulher
na caverna e sua filha encantada. Sempre que podia ia ao pequeno vale,
para fazer pequenos favores  mulher ou simplesmente para tagarelar e
ouvir, pois a mulher tinha histrias maravilhosas para contar.
Repetidamente, ficava na esperana de ver pelo menos de relance a
adormecida, mas isso s havia acontecido uma vez, e ela aceitava que
provavelmente nunca mais acontecesse. 57 E durante o tempo que passava
ordenhando as ovelhas e fiando a l, ou moendo a cevada para fazer po,
pensava incessantemente no encantamento que fora lanado e por que isso
teria acontecido. A Sra. Coulter nunca lhe contara, de maneira que Ama
poderia dar asas  sua imaginao. Um dia ela pegou uma poro de po
arredondado, adoado com mel, e fez a caminhada de trs horas pela
trilha at Cho-Lung-Se, onde havia um monastrio. Depois de persuadir,
lanando mo de bajulao, com muita pacincia, e de subornar o porteiro
com seu po de mel, conseguiu obter uma audincia com o grande
curandeiro Pagdzin tulku, que havia curado um surto de febre branca
apenas um ano antes e que era imensamente sbio. Ama entrou na cela do
grande homem, fazendo uma reverncia muito respeitosa e oferecendo-lhe o
restante do po de mel com toda a humildade que pde reunir. O daemon
morcego do monge, uma fmea, esvoaou e girou rapidamente em torno dela,
assustando seu daemon, Kulang, que enfiou-se entre seus cabelos para se
esconder, mas Ama tentou se manter imvel e em silncio at que Pagdzin
tulku falou. -Diga, criana, o que ? Seja rpida, seja rpida -disse
ele, a longa barba grisalha se sacudindo a cada palavra. Na
semi-obscuridade, a barba e os olhos brilhantes eram quase tudo o que
ela conseguia ver. O daemon do monge se acomodou numa viga acima dele,
finalmente se aquietando, de modo que ela disse: -Por favor, Pagdzin
tulku, quero adquirir sabedoria. Eu gostaria de saber como fazer
feitios e encantamentos. Poderia me ensinar? -No -respondeu ele. Ela
estava esperando por isso. -Bem, ento poderia me ensinar apenas um
remdio? -pediu humildemente. -Talvez. Mas no vou lhe dizer o que .
Posso lhe dar o remdio, mas no contar seu segredo. 58 -Est timo,
muito obrigada, isto  uma grande bno -disse ela fazendo vrias
reverncias. -Qual  a doena e quem sofre dela? -perguntou o velho. -
uma doena do sono -explicou Ama. -E  o filho do primo de meu pai que
est sofrendo disso. Ela estava sendo muitssimo precavida, sabia,
trocando o sexo do doente, apenas para o caso do curandeiro ter ouvido
falar da mulher na caverna. -E que idade tem o menino? -Trs anos mais
velho que eu, Pagdzin tulku -arriscou Ama - de modo que ele tem 12 anos
de idade. Ele dorme e dorme, no consegue acordar. -Por que os pais dele
no vieram me procurar? Por que mandaram voc? -Porque moram longe, do
lado oposto de minha aldeia, e so muito pobres, Pagdzin tulku. S
fiquei sabendo da doena de meu parente ontem e vim imediatamente pedir
seu conselho. -Eu deveria ver o paciente e fazer-lhe um exame completo,
investigar as posies dos planetas na hora em que ele adormeceu. Essas
coisas no podem ser feitas apressadamente. -No existe nenhum remdio
que o senhor possa me dar para levar comigo? A fmea daemon morcego
despencou da viga e esvoaou furiosamente antes de bater no cho, depois
movendo-se rapidamente de um lado para outro do aposento, depressa
demais para que Ama pudesse acompanhar, mas os olhos do curandeiro viram
exatamente aonde ela ia e quando finalmente se acomodou de cabea para
baixo na viga e fechou suas asas escuras ao seu redor, o velho se
levantou e comeou a ir de uma prateleira para outra, de jarro em jarro
e de caixa em caixa, tirando uma colherada de p aqui, acrescentando uma
pitada de ervas ali, na ordem em que o daemon os havia visitado. Ele
colocou todos os ingredientes num almofariz e os triturou juntos,
balbuciando um encantamento enquanto o fazia. Ento bateu 59 com o pilo
na beirada do almofariz, soltando os ltimos gros, e pegou um pincel e
tinta, e escreveu alguns caracteres numa folha de papel. Depois que a
tinta secou, virou todo o p sobre a inscrio e dobrou o papel
rapidamente fazendo um pequeno embrulho quadrado. -Diga-lhes para
passarem este p com um pincel nas narinas da criana adormecida, um
pouquinho de cada vez,  medida que ele respirar -instruiu, e ele
acordar. Isso tem de ser feito com grande cautela. Se inspirar demais,
d uma s vez, ele sufocar. Devem usar um pincel muito macio.
-Obrigada, Pagdzin tulku -disse Ama, pegando o embrulho e colocando-o no
bolso de sua blusa. -Gostaria de ter mais um po de mel para lhe
oferecer. -Um  bastante -disse o curandeiro. -Agora v, e da prxima
vez que vier, conte-me toda a verdade, no apenas parte dela. A menina
ficou envergonhada e fez uma reverncia muito respeitosa para esconder
seu constrangimento. Esperava que no tivesse revelado coisas demais. Na
tarde seguinte correu para o vale assim que pde, levando uma poro de
arroz-doce embrulhada numa folha de couve. Estava impaciente para contar
 mulher o que tinha feito, dar-lhe o remdio e receber seus elogios e
agradecimentos, mas sobretudo estava ansiosa para que a adormecida
enfeitiada despertasse e conversasse com ela. Poderiam ser amigas! Mas
quando dobrou a curva no caminho e olhou para cima, no viu nenhum
macaco dourado, nenhuma mulher paciente sentados junto  entrada da
caverna. O lugar estava vazio. Ama correu os ltimos metros, temerosa de
que tivessem partido para sempre -mas l estavam a cadeira na qual a
mulher sentava, o equipamento de cozinha e tudo o mais. Ama vasculhou a
escurido mais para o fundo da caverna, o corao batendo acelerado. Mas
certamente a adormecida ainda no havia 60 acordado: na semi-obscuridade
Ama podia distinguir o contorno do saco de dormir, a mancha mais clara
que era o cabelo da menina e a curva branca de seu daemon adormecido.
Ela chegou um pouco mais perto. No havia dvida -os dois haviam sado e
deixado a menina enfeitiada sozinha. Um pensamento ecoou em Ama como
uma nota musical: e se ela a acordasse antes que a mulher voltasse...
Mas mal teve tempo para sentir a excitao dessa idia quando ouviu
rudos vindos do caminho e, com um arrepio de culpa, ela e seu daemon se
esconderam correndo num canto, atrs de uma protuberncia na rocha num
dos lados da caverna. Ela no deveria estar ali. Estava bisbilhotando.
Isso era errado. E, agora que o macaco dourado estava agachado na
entrada, farejando e virando a cabea de um lado para outro, Ama o viu
mostrar os dentes afiados e sentiu seu daemon se esconder entrando
debaixo de suas roupas, sob a forma de camundongo, tremendo de medo.
-Que foi? -perguntou a mulher falando com o macaco, e ento a caverna
escureceu  medida que sua forma ia surgindo na entrada. -A menina
esteve aqui? Sim, l est a comida que ela deixou. Mas creio que no
entrou. Devemos combinar um lugar no caminho para que ela deixe a
comida. Sem lanar um olhar para a adormecida, a mulher se inclinou para
atiar o fogo e colocou uma panela de gua para esquentar enquanto o
daemon se agachava no muito longe, montando guarda e vigiando o
caminho. De tempos em tempos, ele se levantava e passava em revista a
caverna e Ama, que estava comeando a sentir dormncia no corpo e
desconforto em seu esconderijo apertado, desejou ardentemente que
tivesse esperado do lado de fora em vez de entrar. Quanto tempo ficaria
aprisionada ali? A mulher estava misturando algumas ervas e ps na gua
aquecida. Ama podia sentir o cheiro das essncias adstringentes  medida
que subiam com o vapor. Ento houve um som vindo do fundo da caverna: 61
a garota estava murmurando e comeando a se mexer. Ama virou a cabea:
podia ver a adormecida enfeitiada se mexendo, se virando de um lado
para o outro, lanando o brao sobre os olhos. Ela estava acordando! E a
mulher no deu a menor ateno! Sem sombra de dvida tinha ouvido,
porque levantou a cabea por um instante, mas logo se virou de volta
para as ervas na gua fervente. Serviu a decoco numa taa e a deixou
repousar e, s ento, voltou toda a sua ateno para a menina que estava
despertando. Ama no conseguiu entender nenhuma dessas palavras, mas as
ouviu com espanto e desconfiana crescentes. -Calma, querida- disse a
mulher. -No se preocupe. Est em segurana. -Roger -murmurou a garota,
semidesperta. -Serafina! Para onde foi Roger... Onde est ele? -No h
mais ningum aqui, s ns -disse sua me; em tom montono, quase como se
a estivesse ninando. -Levante-se e deixe mame lavar voc... Upa,
levante-se, meu amor. Ama observou enquanto a menina, gemendo, lutando
para despertar, tentou afastar a me; e a mulher molhou uma esponja na
tigela de gua e limpou o rosto e o corpo da menina antes de sec-la. A
esta altura a garota estava quase acordada e a mulher teve que se mover
mais depressa. -Onde est Serafina? E Will? Ajudem-me, ajudem-me! No
quero dormir. No, no! No quero! No! A mulher estava segurando a taa
com a mo firme como ao, enquanto com a outra tentava levantar a cabea
de Lyra. -Fique quieta, querida, calma, agora fique quieta, beba seu ch
- Mas a garota se debateu e quase derramou a bebida, gritando mais alto:
-Deixe-me em paz! Eu quero ir! Me larga! Will, Will ajude-me. Ah, por
favor, me ajude! 62 A mulher estava agarrando seus cabelos e puxando-os
com fora, obrigando-a a virar a cabea para trs, empurrando a taa
contra sua boca. -No quero! No toque em mim, seno Iorek vai arrancar
sua cabea! Ah, Iorek, onde est voc? Iorek Byrnison! Ajude-me, Iorek!
No vou! No vou - Ento, depois de uma palavra da mulher, o macaco
dourado saltou sobre o daemon de Lyra, agarrando-o com os fortes dedos
negros. O daemon mudou de uma forma para outra, mais rapidamente do que
Ama jamais tinha visto um daemon mudar de forma antes:
gato-cobra-rato-raposa-lobo-chita-lagarto-doninha - Mas as garras do
macaco em momento algum afrouxaram; e ento Pantalaimon se tornou um
porco-espinho. O macaco guinchou de dor e o soltou. Trs longos espinhos
estavam enterrados, ainda tremulando, em sua pata. A Sra. Coulter rosnou
e com a mo livre deu um forte tapa na cara de Lyra, um tabefe com as
costas da mo, dado com tanta violncia que a jogou para trs
estonteada; e, antes que Lyra pudesse se recuperar, a taa estava em sua
boca e ela teria que engolir ou sufocar. Ama desejou poder cobrir os
ouvidos e no ouvir os sons: os goles forados, o choro, os soluos, as
splicas, as nsias de vmito eram quase impossveis de suportar. Mas,
pouco a pouco, foram se calando e apenas um ou dois soluos trmulos era
o que se podia ouvir da garota que agora estava mais uma vez mergulhando
no sono, -sono provocado por feitio, por encantamento? Que nada, sono
provocado por veneno! Aquilo no era sono de verdade, ela estava
drogada! Ama viu uma faixa de plos brancos se materializar junto do
pescoo da garota, enquanto seu daemon se esforava para assumir a forma
de um animal alongado, sinuoso, de plos cor de neve, com olhos negros
brilhantes e a ponta da cauda preta, e se aninhava em volta de seu
pescoo. E a mulher estava cantando baixinho, cantigas de ninar,
alisando os cabelos na fronte da garota, acariciando sua face quente e
seca, cantarolando cantigas das quais mesmo Ama podia ver que ela no
sabia 63 as letras, porque tudo o que cantava eram sries de slabas sem
sentido, la-la-la, ba-ba-boo-boo, a voz doce emitindo sons sem sentido.
Afinal aquilo parou, e ento a mulher fez uma coisa curiosa: pegou uma
tesoura e aparou o cabelo da garota, segurando a cabea da menina
adormecida e virando-a ora para l, depois para c, para ver como ficava
melhor. Ela pegou um cacho de cabelos louros queimados e o colocou num
medalho que usava numa corrente em volta do pescoo. Ama sabia por que:
ela iria us-lo para fazer algum outro feitio. Mas, primeiro, a mulher
o levou aos lbios e beijou. Ah, mas aquilo tudo era muito estranho. O
macaco dourado arrancou o ltimo espinho e disse alguma coisa para a
mulher, que estendeu a mo para pegar um morcego adormecido no teto da
caverna. O animalzinho preto se debateu e guinchou numa voz fina,
penetrante como uma agulha que espetou a cabea de Ama de uma orelha 
outra, e ento ela viu a mulher entregar o morcego a seu daemon, e viu o
daemon puxar uma das asas pretas, e puxar, at que ela foi arrancada e
se partiu ficando pendurada por um fio branco de msculo, enquanto o
morcego moribundo gritava e seus companheiros voavam em crculos,
angustiados e desnorteados. Craque -craque, estalo -era o que se ouvia
enquanto o macaco despedaava o bichinho membro por membro e a mulher se
deitava com uma expresso melanClica em seu saco de dormir junto da
fogueira e lentamente comia uma barra de chocolate. O tempo foi
passando. A luz desapareceu e a lua subiu, e a mulher e seu daemon
adormeceram. Ama, com os msculos enrijecidos e doloridos, se esgueirou
para fora de seu esconderijo e passou andando nas pontas dos ps pelas
pessoas que dormiam, sem fazer nenhum barulho, at estar a meio caminho
na descida da trilha. Com o medo dando-lhe velocidade, ela correu pela
trilha estreita, seu daemon sob a forma de uma coruja batendo as asas
silenciosamente a seu lado. O ar limpo e frio, o movimento constante das
copas 64 das rvores, o brilho das nuvens iluminadas pelo luar no cu
escuro e as milhes de estrelas a acalmaram um pouco. Ela parou quando
avistou o pequeno conjunto de casas de pedra e seu daemon pousou em seu
punho. -Ela mentiu! -exclamou Ama. -Ela mentiu para ns! O que podemos
fazer, Kulang? Podemos contar a Papai? O que podemos fazer? -No conte
-disse o daemon. -Vai causar ainda mais problemas. Temos o remdio.
Podemos acordar a menina. Podemos voltar l quando a mulher estiver fora
de novo, acordar a garota, e lev-la embora. S pensar naquela idia
enchia os dois de medo. Mas as palavras haviam sido ditas, o embrulhinho
de papel estava bem guardado no bolso de Ama e eles sabiam como us-lo.
65 acordar. .No consigo v-la, acho que ela est por perto, ela me
machucou. -Ah, Lyra, no fique com medo! Se voc tambm ficar com medo,
eu vou enlouquecer - Eles tentaram se abraar bem apertado, mas seus
braos passavam pelo ar vazio. Lyra tentou explicar o que estivera
dizendo, sussurrando bem junto do rosto plido de Roger na escurido:
-Eu s estou tentando acordar. Estou com tanto medo de dormir a minha
vida inteira e ento morrer... Eu quero acordar antes! No me importaria
que fosse apenas por uma hora, desde que eu estivesse realmente viva e
acordada. No sei se isto  mesmo real ou no, mas vou ajudar voc,
Roger! Juro que vou! -Mas se voc estiver sonhando, Lyra, pode ser que
no acredite mais quando acordar. Isso  o que eu faria, pensaria que
havia apenas sido um sonho. -No! -exclamou ela em tom feroz, e 66 *5 A
TORRE ADAMANTINA ... E COM TAL AMBIO, COM TAL INSNIA DO ONIPOTENTE
CONTRA O IMPRIO E TRONO FEZ AUDAZ E MPIO GUERRA, DEU BATALHAS. JOHN
MILTON, CANTO I,7 Um lago de enxofre liquefeito se estendia por todo o
comprimento de um imenso desfiladeiro soltando seus vapores pestilentos
em lufadas e exploses repentinas, e impedindo a passagem da figura
alada solitria parada  sua margem. Se ele subisse para o cu, os
batedores inimigos que o tinham avistado e perdido o encontrariam de
novo, imediatamente; mas se ele ficasse em terra, levaria tanto tempo
para conseguir atravessar aquele poo insalubre que sua mensagem poderia
chegar demasiado tarde. Teria que correr o risco maior. Ele esperou at
que uma nuvem de fumaa fedorenta se elevasse da superfcie amarela e
subiu voando rapidamente em seu ponto mais espesso. Quatro pares de
olhos em locais diferentes do cu viram o breve movimento e
imediatamente quatro pares de asas bateram vigorosamente no ar
empesteado pela fumaa, lanando os observadores adiante em meio a ela.
67 Ento teve incio uma caada em que os perseguidores no conseguiam
ver a caa, e em que a caa no conseguia ver absolutamente nada. O
primeiro a sair da nuvem de fumaa na margem oposta do lago levaria
vantagem e isto poderia significar sobrevivncia, ou poderia significar
sucesso em apanhar apresa. E, infelizmente, para o voador solitrio, ele
alcanou o ar limpo alguns segundos depois de um de seus perseguidores.
Imediatamente eles se aproximaram, deixando para trs esteiras de vapor,
tontos, todos os dois, por causa dos vapores nocivos. Inicialmente, a
presa levou vantagem, mas ento um outro caador saiu voando da nuvem e
num combate rpido e furioso todos os trs, girando no ar como lnguas
de chamas, subiram e desceram e subiram de novo, apenas para cair,
finalmente, entre as rochas do outro lado. Os outros caadores no
emergiram da nuvem. Na extremidade oeste de uma cadeia de montanhas com
cumes agudos serrilhados, em um pico que dominava os amplos panoramas da
plancie abaixo e dos vales atrs, uma fortaleza de basalto parecia
nascer da montanha como se algum vulco a tivesse lanado para o alto um
milho de anos antes. Nas vastas cavernas abaixo das altas muralhas,
provises de todos os tipos estavam armazenadas e rotuladas; nos
arsenais e depsitos, mquinas e artefatos de guerra estavam sendo
calibrados, armados e testados; nas fbricas abaixo da montanha, fogos
vulcnicos alimentavam forjas imensas onde fsforo e titnio estavam
sendo fundidos e combinados em ligas jamais conhecidas ou usadas antes.
No lado mais exposto da fortaleza, num ponto escondido no fundo da
sombra de um espigo, onde as imponentes muralhas se elevavam
diretamente dos antiqssimos rios de lava, havia um pequeno porto, uma
passagem subterrnea onde uma sentinela montava guarda dia e noite, e
desafiava qualquer um que tentasse entrar. Enquanto se efetuava a troca
da guarda nas trincheiras acima, a sentinela bateu os ps uma ou duas
vezes e passou as mos enluvadas 68 nos braos para se aquecer, pois era
a hora mais fria da noite e a pequena labareda de nafta no suporte de
pedra a seu lado no aquecia nada. Seu substituto viria dentro de mais
dez minutos e esperava ansioso pela caneca de chocolate, pela folha de
fumo e, sobretudo, por sua cama. Ouvir a barulheira de algum esmurrando
a pequena porta era a ltima coisa que ele esperava. Contudo, estava
alerta e abriu a portinhola, ao mesmo tempo abrindo a torneira que
permitia que um jato de nafta passasse alm da chama do piloto de gs do
suporte do lado de fora. No claro da chama, viu trs vultos encapuados
carregando entre eles uma quarta pessoa, cuja forma estava indistinta e
que parecia doente ou ferida. O vulto que vinha  frente atirou o capuz
para trs. Tinha um rosto que a sentinela conhecia, mas, de qualquer
maneira, deu a senha e disse: -Ns o encontramos no lago de enxofre. Diz
que seu nome  Baruch. Ele tem uma mensagem urgente para Lorde Asriel. A
sentinela destrancou a porta e seu daemon terrier estremeceu  medida
que os trs vultos manobravam seu fardo pela entrada estreita. Ento o
daemon emitiu um uivo suave, involuntrio, que rapidamente se calou,
quando a sentinela viu que o vulto sendo carregado era um anjo ferido:
um anjo de baixa posio na hierarquia e com pouco poder, mas mesmo
assIm um anjo. -Deitem-no no quarto da guarda -instruiu a sentinela e,
enquanto eles o faziam, girou a manivela da campainha do telefone e
relatou o que estava acontecendo ao oficial no comando do turno. Na
muralha mais alta da fortaleza havia uma torre de rocha de diamante:
apenas um lance de escadas conduzindo a um conjunto de aposentos que
tinham vista para o norte, para o sul, leste e oeste. O aposento maior
era mobiliado com uma mesa e cadeiras, um gaveteiro de mapas, um outro
tinha uma cama de campanha. Um pequeno banheiro completava o conjunto.
69 Lorde Asriel estava sentado na torre adamantina de frente para seu
capito espio, a mesa entre eles coberta por uma pilha de papis
espalhados. Uma lamparina de nafta ficava pendurada sobre a mesa e um
braseiro cheio de carves em brasa quebrava o frio intenso da noite.
Logo aps o vo da porta, um pequenino falco azul fmea estava pousado
num suporte. O capito espio chamava-se Lorde Roke. Tinha uma aparncia
bastante incomum: sua altura no alcanava mais que o tamanho da palma
da mo de Lorde Asriel e era esguio como uma liblula, mas os outros
comandantes de Lorde Asriel o tratavam com profundo respeito, pois
estava armado com um ferro venenoso nas esporas dos calcanhares. Era
seu costume sentar-se sobre a mesa e, tpico de seu comportamento
habitual, rejeitar qualquer coisa exceto enorme cortesia com um
linguajar arrogante e uma lngua ferina. Ele e os outros de seu povo, os
galivespianos,* possuam poucas das qualidades dos bons espies, exceto,
 claro, o tamanho excepcionalmente pequenino: eram to orgulhosos e
cheios de melindres que jamais teriam passado despercebidos se fossem do
tamanho de Lorde Asriel. -Sim -disse ele, a voz clara e penetrante, os
olhos brilhando como gotculas de tinta, sua filha, Lorde Asriel: tenho
informaes a respeito dela. Evidentemente, sei mais do que o senhor.
Lorde Asriel o encarou abertamente e o homenzinho soube imediatamente
que havia levado a melhor sobre a cortesia de seu comandante: a fora do
olhar de Lorde Asriel o empurrou como se tivesse levado um peteleco, de
modo que perdeu o equilbrio e precisou estender a mo para se apoiar no
copo de vinho de Lorde Asriel. Um * Galivespiano: traduo literal de
Gallivespian, palavra inexistente na lngua inglesa, provavelmente
criada a partir de gall wasp, vespinha-da-galha, numa aluso ao ferro
venenoso, ao comportamento agressivo e ao tamanho diminuto tambm
caractersticos do povo de Lorde Roke. [N.T.] 70 instante depois a
expresso de Lorde Asriel havia recuperado a brandura e virtuosidade
caractersticas, exatamente como a expresso de sua filha podia ser, e
dali por diante Lorde Roke tratou de ser mais cuidadoso. -No duvido
disso, Lorde Roke -disse Lorde Asriel, mas, por motivos que no
compreendo, a menina  o centro da ateno da igreja e preciso saber por
qu. O que esto dizendo a respeito dela? -O Magisterium est
fervilhando de especulaes; um grupo de um setor diz uma coisa, uma
outra faco est investigando outra e cada uma delas est tentando
esconder suas descobertas das outras. Os grupos mais ativos so o
Tribunal Consistorial de Disciplina e a Sociedade da Obra do Esprito
Santo -disse Lorde Roke. -Tenho espies em ambos. -Ento conseguiu
atrair um membro da Sociedade? -comentou Lorde Asriel. -Meus parabns.
Eles costumavam ser inexpugnveis. -Meu espio na Sociedade  Lady
Salmakia -disse Lorde Roke, uma agente muito hbil. H um padre cujo
daemon  um camundongo, que ela abordou quando dormiam. Minha agente
sugeriu que o homem realizasse um ritual proibido, destinado a invocar a
presena da Sabedoria. No momento crtico, Lady Salmakia apareceu diante
dele. O padre agora pensa que pode se comunicar com a Sabedoria sempre
que quiser, e que ela tem a forma de uma galivespiana e que mora na
estante de livros dele. Lorde Asriel sorriu e perguntou: -E o que ela
descobriu? -A Sociedade acredita que sua filha  a criana mais
importante que jamais viveu. Eles acham que uma grande crise ocorrer
dentro de pouco tempo e que o destino de tudo depender de como ela se
comportar nessa ocasio. Quanto ao Tribunal Consistorial de Disciplina,
no momento eles esto conduzindo um inqurito, ouvindo testemunhas de
Bolvangar e de outros lugares. Meu espio no Tribunal, o Cavaleiro
Tialys, mantm contato comigo todos os dias atravs do magneto 71
ressonante,* e tem me mantido informado sobre o que eles descobrem. Em
resumo, eu diria que a Sociedade da Obra do Esprito Santo descobrir,
muito brevemente, onde est a menina, mas no tomaro nenhuma medida. O
Tribunal Consistorial levar um pouco mais de tempo, mas quando
descobrirem agiro de maneira decisiva e imediatamente. -Avise-me assim
que souber de mais alguma coisa. Lorde Roke fez uma mesura e estalou os
dedos; o pequeno falco azul fmea, pousado no suporte de metal junto 
porta, abriu as asas e planou at a mesa. Tinha rdeas, sela e estribos.
Em um segundo Lorde Roke montou em seu dorso e saram voando pela janela
que Lorde Asriel estava mantendo aberta para eles. Ele deixou a janela
aberta por um minuto, a despeito do ar gelado, e se reclinou no banco
embutido sob a janela, brincando com as orelhas de seu daemon pantera
branca. -Ela veio me procurar em Svalbard e eu a ignorei -disse. - Voc
se lembra do choque que levei... precisava oferecer um sacrifcio e a
primeira criana a chegar foi minha prpria filha... Mas quando percebi
que havia uma outra criana com ela, de modo que estaria segura, eu
relaxei. Ser que foi um erro fatal? Depois disso no dei nenhuma
ateno a ela, nem por um momento, mas ela  importante, Stelmaria!
-Vamos pensar com clareza -respondeu o daemon. -O que ela pode fazer?
-Fazer... no muito. Ser que ela sabe de alguma coisa? -Lyra sabe ler o
aletmetro; ela tem acesso ao conhecimento. *Magneto ressonante:
traduo adaptada de lodestone resonator, aparelho criado pela
imaginao do autor que combina os princpios da ressonncia magntica
(baseada na resposta de eltrons, tomos, molculas ou ncleos a vrias
freqncias discretas de radiao em resultado de uma quantizao de
espao em um campo magntico) e o termo magneto que, no jargo de
telecomunicaes,  um aparelho para comunicao direta ponta a ponta.
[N.T.] 72 -Isso no  nada de especial. Outros tambm tm. E onde, por
todos os infernos, ela pode estar? Algum bateu  porta atrs dele e
Lorde Asriel se virou imediatamente. -Milorde -disse o oficial que
entrou, um anjo acabou de chegar ao porto oeste, est ferido, ele
insiste em falar com o senhor. E, um minuto depois, Baruch estava
deitado na cama de campanha que havia sido trazida para o aposento
principal. Um ordenana mdica havia sido chamado, mas era evidente que
havia pouca esperana para o anjo: estava terrivelmente ferido, as asas
rasgadas e os olhos baos. Lorde Asriel sentou perto dele e atirou um
punhado de ervas nos ties do braseiro. Como Will havia descoberto com
a fumaa de sua fogueira, isso teve o efeito de definir o corpo do anjo,
de modo que pde v-lo mais claramente. -Bem, senhor -disse Lorde
Asriel, que informaes tem para mim? -Trs coisas. Por favor, deixe-me
contar todas elas antes de falar. Meu nome  Baruch. Meu companheiro
Balthamos e eu somos do grupo rebelde, de maneira que quisemos lutar a
seu lado, assim que o senhor levantou seu estandarte. Mas queramos
trazer-lhe alguma coisa valiosa, porque nosso poder  pequeno e, no faz
muito tempo, conseguimos descobrir o caminho e chegar ao corao da
Montanha Nublada, a cidadela da Autoridade no Reino. E l descobrimos...
Ele teve que parar um instante para respirar e absorver a fumaa das
ervas, que pareceu acalm-lo. Ento prosseguiu: -Descobrimos a verdade a
respeito da Autoridade. Descobrimos que ele se isolou numa cmara de
cristal nas profundezas do interior da Montanha Nublada e que no se
ocupa mais das questes do dia-a-dia do Reino. Em vez disso, contempla
mistrios mais profundos. Em seu lugar, governando em seu nome, est um
anjo chamado Metatron. Tenho motivos para conhecer bem esse anjo, embora
na ocasio em que o conheci... 73 A voz de Baruch se calou. Os olhos de
Lorde Asriel soltavam fagulhas, mas ele controlou a lngua e esperou que
Baruch continuasse. -Metatron  orgulhoso -prosseguiu Baruch, depois de
recuperar um pouco as foras -e sua ambio  ilimitada. A Autoridade o
escolheu quatro mil anos atrs para ser seu Regente e fizeram seus
planos juntos. Eles tm um novo plano, que meu companheiro e eu
conseguimos descobrir. A Autoridade acredita que os seres conscientes de
todos os tipos se tornaram perigosamente independentes, de modo que
Metatron vai intervir muito mais ativamente nas questes humanas. Ele
pretende transferir secretamente a Autoridade da Montanha Nublada para
uma cidadela permanente, em algum outro lugar, e transformar a montanha
numa mquina de guerra. Em sua opinio, as igrejas em todos os mundos
so corruptas e fracas, fazem concesses com muita facilidade... ele
quer instaurar uma inquisio permanente, controlada diretamente a
partir do Reino. E a primeira campanha dele ser destruir sua
repblica... Agora os dois estavam tremendo, o anjo e o homem, mas um de
fraqueza e o outro de excitao. Baruch reuniu o que restava de suas
foras e prosseguiu: -A segunda coisa  a seguinte. Existe uma faca que
corta aberturas entre os mundos, bem como qualquer coisa que existir
neles. Seu poder  ilimitado, mas somente nas mos daquele que souber
us-la. E esta pessoa  um menino... Mais uma vez o anjo teve que parar
para se recuperar. Estava com muito medo; sentia que estava se
desvanecendo. Lorde Asriel percebeu o esforo que ele estava fazendo
para se manter inteiro e ficou tenso, sentado, agarrando os braos da
cadeira at que Baruch encontrou foras para continuar. -Meu companheiro
est com esse menino, agora. Queramos traz-lo diretamente ao senhor,
mas ele se recusou a vir, porque... Esta  a terceira coisa que tenho
que lhe contar: ele e sua filha so amigos. E ele no aceitar vir
enquanto no a encontrar. Ela est 74 - Quem  esse menino? - o filho
do xam. De Stanislaus Grumman. Lorde Asriel ficou to surpreendido que
involuntariamente se levantou, lanando rolos de fumaa na direo do
anjo. -Grumman tinha um filho? -perguntou. -Grumman no nasceu em seu
mundo. Seu nome tambm no era Grumman. Meu companheiro e eu fomos
levados a ele exatamente por seu desejo de encontrar a faca. Ns o
seguimos, sabendo que ele nos conduziria  faca e a seu portador, com a
inteno de trazer o portador ao senhor. Mas o garoto se recusou avir...
Mais uma vez Baruch precisou parar. Lorde Asriel tornou a sentar,
amaldioando sua prpria impacincia, e salpicou mais algumas ervas no
fogo. Seu daemon estava deitado bem perto, a cauda varrendo lentamente o
cho de carvalho, os olhos dourados de pantera jamais se despregando do
rosto contorcido de dor do anjo. Baruch respirou devagar vrias vezes e
Lorde Asriel se manteve em silncio. O bater da corda no mastro, l no
alto, era o nico som que se fazia ouvir. -V com calma, senhor -disse
Lorde Asriel com gentileza. - Sabe onde est minha filha? -Himalaia.
..em seu prprio mundo -sussurrou Baruch. - Grandes montanhas. Uma
caverna prxima a um vale cheio de arco-ris... -Fica a uma enorme
distncia daqui em ambos os mundos. Voc voou muito depressa. -Este  o
nico dom que possuo -disse Baruch, exceto o amor de Balthamos, a quem
nunca mais verei. -E se o senhor a encontrou to facilmente -Ento
qualquer outro anjo tambm poder encontrar. Lorde Asriel pegou um atlas
no gaveteiro de mapas e o abriu, procurando as pginas que mostravam o
Himalaia. -Poderia ser preciso? -perguntou. -Pode me mostrar exatamente
onde? 75 -Com a faca... -Baruch tentou dizer e Lorde Asriel percebeu que
sua mente estava divagando: -Com a faca ele pode entrar e sair de
qualquer mundo que quiser... O nome dele  Will. Mas eles esto correndo
perigo, ele e Balthamos... Metatron sabe que descobrimos seu segredo.
Eles nos perseguiram... Eles me apanharam sozinho nas fronteiras de seu
mundo... eu era irmo dele... foi por isso que descobrimos o caminho na
Montanha Nublada. Metatron um dia foi Enoque, filho de Jared, filho de
Mahalalel... Enoque teve muitas esposas. Amava os prazeres da carne...
Meu irmo Enoque me expulsou, porque eu... Ah, meu caro Balthamos...
-Onde est a garota? -Sim. Sim. Uma caverna... a me dela... vale cheio
de ventos e arco-ris... bandeirolas rasgadas no relicrio... Ele se
levantou na cama para olhar para o atlas. Ento a pantera branca
levantou-se de um salto, num movimento rpido e pulou para a porta, mas
era tarde demais. O ordenana que bateu  porta abriu sem esperar. Era
assim que as coisas eram feitas; no era culpa de ningum, mas ao ver a
expresso no rosto do soldado, que olhava para alm dele, Lorde Asriel
se virou e viu Baruch lutando e tremendo de esforo, na tentativa de
manter inteira sua forma ferida. O esforo foi mais do que ele podia
suportar. Uma corrente de vento vinda da porta aberta enviou uma lufada
de ar para cima da cama e as partculas da forma do anjo, frouxas devido
 sua fora que se esvaa, rodopiaram para o alto ao acaso e
desapareceram. -Balthamos! -veio um sussurro do ar. Lorde Asriel ps a
mo no pescoo de seu daemon pantera; ela o sentiu tremer e o acalmou.
Ele se virou para o ordenana. -Milorde, desculpe-me - -No foi culpa
sua. Leve meus cumprimentos ao Rei Ogunwe. Gostaria que ele e meus
outros comandantes viessem at aqui imediatamente. Tambm gostaria que o
Sr. Basilides estivesse presente, 76 com o aletmetro. Finalmente, quero
que a Esquadrilha n 2 de girpteros* seja armada e abastecida, bem como
um zepelim tanque, e que estejam prontos para decolar imediatamente rumo
ao sudoeste. Enviarei ordens complementares quando estiverem no ar. O
ordenana bateu continncia e, com mais um olhar rpido e constrangido
para a cama vazia, saiu e fechou a porta. Lorde Asriel batucou no tampo
da escrivaninha com um compasso de metal e cruzou o aposento, indo at a
janela aberta que dava para o sul. Na distncia abaixo, as fogueiras
sempre acesas lanavam sua luz e fumaa no ar sombrio e mesmo quela
grande altura o bater de martelos podia ser ouvido em meio ao uivar do
vento. -Bem, descobrimos um bocado de coisas, Stelmaria- disse ele em
voz baixa. -Mas no o suficiente. Houve outra batida  porta e o
aletometrista entrou. Era um homem plido, magro, de meia-idade; seu
nome era Teukros Basilides e seu daemon era um rouxinol. -Sr. Basilides,
boa noite -disse Lorde Asriel. -Vou explicar qual  o nosso problema e
gostaria que pusesse de lado tudo o mais enquanto trata dele... Ento
ele relatou ao homem o que Baruch havia contado e mostrou o atlas.
-Localize a tal caverna -instruiu. -Obtenha as coordenadas com tanta
preciso quanto for possvel. COmece imediatamente, por favor.
*Girptero: traduo literal de gyropter, palavra inexistente na lngua
inglesa; o Webster registra o termo gyroplane (1907), aeroplano
equilibrado e sustentado pelas foras aero-dinmicas agindo sobre
aeroflios horizontais, ou ligeiramente inclinados, de rotao
extremamente rpida. [N.T.] 77 bateu o p com tanta fora que chegou a
doer, mesmo no sonho. -Voc no acredita que eu seja capaz de fazer uma
coisa dessas, Roger, de maneira que no diga isso. Eu vou acordar e no
vou esquecer, pronto. Lyra olhou em volta, mas tudo o que podia ver eram
olhos arregalados e rostos sem esperana, rostos plidos, rostos
escuros, rostos velhos, rostos jovens, todos os mortos reunidos se
acotovelando em torno deles, silenciosos e tristes. O rosto de Roger era
diferente. A expresso dele era a nica que tinha esperana. -Por que
voc tem essa expresso? -perguntou ela. -Por que no est infeliz como
eles? Por que no perdeu a esperana? E ele respondeu: -Porque 78 *6
ABSOLVIO ANTECIPADA CONTAS, RELQUIAS, BULAS, INDULGNCIAS, BEATOS,
BONZOS, PEREGRINOS, FRADES EM MIL JUNTOS MONTES, BRINCOS DO VENTO...
JOHN MILTON, CANTO III,88 -Pois bem, Frei Pavel -disse o Inquisidor do
Tribunal Consistorial de Disciplina, quero que se lembre exatamente, se
puder, das palavras que ouviu a bruxa dizer no navio. Os 12 membros do
Tribunal observaram o clrigo no banco das testemunhas sob a luz fraca
do entardecer; era a ltima testemunha. Era um padre com a aparncia de
estudioso, cujo daemon tinha a forma de um sapo. O Tribunal vinha
ouvindo os depoimentos daquele caso j h oito dias, no prdio antigo,
de torres altas, da Faculdade de So Jernimo. -No consigo me lembrar
com exatido das palavras da bruxa -disse Frei Pavel, em tom fatigado.
-Nunca tinha presenciado tortura antes, conforme j expliquei ao
Tribunal ontem, e descobri que me deixava tonto e nauseado. De modo que,
exatamente as palavras que ela disse, no sei dizer, mas me lembro do
significado. A bruxa disse que a 79 menina Lyra tinha sido reconhecida
pelos cls do norte como aquela que realizaria uma profecia de que
tinham conhecimento h muito tempo. Ela teria o poder de fazer uma
escolha importantssima e que o destino de todos os mundos dependeria
dessa escolha. Alm disso, havia um nome que faria com que recordssemos
um caso semelhante e que faria com que a igreja a odiasse e a temesse.
-E a bruxa revelou este nome? -No. Antes que pudesse pronunci-lo, uma
outra bruxa, que estivera presente graas a um feitio que lhe dava
invisibilidade, conseguiu mat-la e fugir. -Ento, nessa ocasio, a
mulher Coulter tambm no poderia ter ouvido o nome? -Exatamente. -E
pouco depois a Sra. Coulter partiu? -Exato. -E o que descobriu depois
disso? -Descobri que a criana tinha ido para aquele outro mundo atravs
da fenda aberta por Lorde Asriel e que l ela conseguiu a ajuda de um
menino que possui, ou obteve, o uso de uma faca com poderes
extraordinrios- respondeu Frei Pavel. Ento ele pigarreou nervosamente
e prosseguiu. -Posso falar com franqueza e inteira liberdade para este
tribunal? -Com total liberdade, Frei Pavel- veio a resposta na voz de
tom spero e claro do Presidente. -No ser punido por nos contar as
coisas de que tem conhecimento, que lhe foram ditas por outros. Por
favor, continue. Tranqilizado, o padre prosseguiu. -A faca que est em
poder desse garoto  capaz de fazer aberturas entre os mundos. Alm
disso, ela tem um poder maior que esse. .. por favor, mais uma vez,
tenho medo do que estou dizendo. .. capaz de matar os anjos de mais
alta hierarquia e o que existe acima deles. No h nada que esta faca
no possa destruir. 80 Ele estava suando e tremendo, e seu daemon r,
caiu da beirada do banco das testemunhas para o cho, tamanha era sua
agitao. Frei Pavel arquejou de dor e a recolheu rapidamente, deixando
que bebesse um pouco da gua do copo que tinha diante de si. -E
perguntou mais alguma coisa sobre a menina? -perguntou o inquisidor.
-Descobriu o tal nome de que a bruxa falou? -Descobri. Mais uma vez
suplico que me dem a garantia de que -O senhor tem essa garantia
-declarou o Presidente em tom brusco. -No tenha medo. O senhor no  um
herege. Relate o que descobriu e no perca mais tempo. -Realmente
suplico que me perdoem. A criana, portanto, est na posio de Eva, a
mulher de Ado, a me de todos ns e origem de todo pecado. As
estengrafas anotando todas as palavras eram freiras da ordem de Santa
Filomela, que haviam feito voto de silncio; mas, ao ouvir as palavras
de Frei Pavel, uma delas no conseguiu conter uma exclamao abafada e
houve uma agitao de mos enquanto elas faziam o sinal-da-cruz. Frei
Pavel estremeceu e prosseguiu: -Por favor, lembrem-se, o aletmetro no
faz previses; ele diz: "Se certas coisas ocorrerem de tal maneira,
ento as consequncias sero...", e assim por diante. E ele diz que se
calhar de ocorrer de a criana ser tentada, como Eva foi, ento 
provvel que ela caia em tentao. Do resultado disso depender. ..tudo.
E se essa tentao realmente ocorrer e se a criana ceder a ela, ento o
P e o pecado triunfaro. O silncio foi total na sala do Tribunal. A
luz plida do sol que se filtrava atravs das grandes janelas com
esquadrias emolduras de chumbo sustentava em seus raios inclinados um
milho de partculas douradas, mas eram de poeira, no P; embora mais
de um dos membros do Tribunal tivesse visto nelas uma imagem daquele
outro P invisvel que pousava sobre todos os seres humanos, por mais
ordeiros e respeitadores da lei que fossem. 81 -Para finalizar, Frei
Pavel- disse o Inquisidor, diga-nos o que sabe sobre onde se encontra a
criana atualmente. -Ela est nas mos da Sra. Coulter- respondeu Frei
Pavel. - E esto no Himalaia. At o momento, isso foi tudo o que
consegui descobrir. Irei imediatamente pedir uma localizao mais
precisa e to lOgo a tiver comunicarei ao Tribunal, mas... Ele se calou,
se encolhendo de medo, e levou o copo at os lbios com a mo trmula.
-Sim, diga, Frei Pavel- pediu o Padre MacPail. -No esconda nada.
-Senhor Presidente, creio que a Sociedade da Obra do Esprito Santo sabe
mais a respeito disso do que eu. A voz de Frei Pavel estava to baixa
que era quase um sussurro. - verdade? -perguntou o Presidente, seus
olhos parecendo irradiar sua paixo, enquanto faiscavam. O daemon de
Frei Pavel emitiu um pequeno coaxar. O religioso tinha conhecimento da
rivalidade entre as duas divises do Magisterium, e sabia que ser
apanhado no fogo cruzado entre elas seria muito perigoso; mas esconder
as informaes que conhecia seria ainda mais perigoso. -Eu acredito
-prosseguiu, tremendo -que esto mais prximos de descobrir, exatamente,
onde a criana est. Eles dispem de outras fontes de conhecimento que
me so proibidas. -Sem dvida -concordou o Inquisidor. -E o aletmetro
lhe falou a respeito disso? -Falou sim. -Muito bem. Frei Pavel, deve
continuar a seguir esta linha de investigao. Se precisar de qualquer
coisa em termos de assistncia religiosa ou de secretariado,  s pedir.
Por favor, pode descer. Frei Pavel fez uma mesura, e com seu daemon r
no ombro, reuniu suas anotaes, e saiu da sala de audincia. As freiras
flexionaram os dedos. 82 o Padre MacPhail tamborilou com um lpis no
tampo de carvalho da mesa  sua frente. -Irm Agnes, Irm Monica -disse,
podem se retirar agora. Por favor, deixem a transcrio sobre a minha
mesa de trabalho ao final do dia. As duas freiras assentiram baixando a
cabea e se foram. -Cavalheiros -disse o Presidente, pois esta era a
forma de tratamento no Tribunal Consistorial, vamos suspender a sesso.
Os 12 membros, do mais velho (Padre Makepwe, muito idoso, de olhos
remelentos) ao mais jovem (Padre Gomez, plido e trmulo de zelo
fantico), reuniram suas anotaes e seguiram o Presidente at a cmara
do conselho, onde poderiam encarar uns aos outros sentados  mesa e
conversar com a mais absoluta privacidade. O atual Presidente do
Tribunal Consistorial era um escocs chamado Hugh MacPhail. Havia sido
eleito jovem: o cargo de presidente era vitalcio e ele estava apenas
com 40 e poucos anos, de modo que esperava-se que o Padre MacPhail
moldasse o destino do Tribunal Consistorial e, dessa maneira, de toda a
igreja, por muitos anos ainda. Era um homem de feies sombrias, alto e
imponente, com uma massa de cabelos crespos grisalhos, e teria sido
gordo no fosse pela disciplina brutal que impunha a seu corpo: s bebia
gua e s comia po e frutas; alm disso, praticava exerccios
diariamente, uma hora por dia, sob a superviso de um treinador de
atletas campees. Em resultado disso, era esqueltico, mas com a
musculatura bem delineada, enrugado e irrequieto. Seu daemon era um
lagarto. Depois que estavam sentados, o Padre MacPhail disse: -De modo
que este  o estado atual das coisas. Parece haver vrios pontos que
devemos ter em mente. "Em primeiro lugar, Lorde Asriel. Uma bruxa
simptica  igreja relatou que ele est reunindo um grande exrcito,
incluindo foras que podem ser angelicais. Suas intenes, at onde a
bruxa tem conhecimento, so malvolas com relao  igreja e com relao
 prpria Autoridade. 83 "Em segundo lugar, o Conselho de Oblao. As
aes deles ao criar o programa de pesquisa em Bolvangar e ao financiar
as atividades da Sra. Coulter sugerem que esto na esperana de
substituir o Tribunal Consistorial de Disciplina como o brao mais
poderoso e eficaz da Santa Igreja. Fomos passados para trs,
cavalheiros. Eles agiram impiedosa e habilmente. Deveramos nos sentir
repreendidos por nossa lassdo ao permitir que isso acontecesse.
Voltarei a abordar o que poderamos fazer a respeito disso brevemente.
"Em terceiro lugar, o garoto mencionado no depoimento de Frei Pavel, com
a faca que pode fazer aquelas coisas extraordinrias. Claramente,
devemos encontr-lo e nos apoderar da faca o mais rpido possvel. "Em
quarto lugar, o P. Tomei providncias para descobrir o que o Conselho
de Oblao sabe a respeito do assunto. Um dos telogos experimentais
trabalhando em Bolvangar foi persuadido a nos contar exatamente o que
eles descobriram. Conversarei com ele hoje  tarde, l embaixo." Um ou
dois padres se mexeram incomodados, pois "l embaixo" significava os
pores no subsolo do prdio: salas de ladrilhos brancos, com tomadas
para passagem de corrente anbrica,  prova de som e com bom escoamento
de lquidos. -Contudo, independentemente do que descobrirmos a respeito
do P -prosseguiu o Presidente, devemos manter nosso propsito em mente
com muita firmeza. O Conselho de Oblao fez esforos para compreender
os efeitos do P: ns devemos destru-lo totalmente. Nada menos que
isso. Se, para destruir o P, tambm tivermos de destruir o Conselho de
Oblao, o Colegiado dos Bispos, todas as agncias individuais atravs
das quais a Santa Igreja faz o trabalho da Autoridade, assim seja. Pode
ser, cavalheiros, que a prpria Santa Igreja tenha sido criada para
realizar exatamente esta tarefa e para perecer ao faz-lo. Mas  melhor
um mundo sem igreja e sem P que um mundo onde a cada dia temos que
lutar sob o fardo odioso do pecado. Melhor um mundo purgado de tudo
isso! 84 Com os olhos faiscantes, o Padre Gomez assentiu
apaixonadamente. -E, finalmente -disse o Padre MacPhail, a criana.
Ainda apenas uma criana, creio. Essa Eva, que ser tentada e que, se a
precedente de alguma forma servir de exemplo, cair e ceder  tentao,
e sua queda trar a runa de todos ns. Cavalheiros, de todas as
maneiras de lidar com o problema que ela representa para ns, vou propor
a mais radical e tenho confiana em que obterei sua concordncia,
-depois de uma breve pausa, ele prosseguiu. -Proponho que enviemos um
homem para encontr-la e mat-la antes que ela possa ser tentada. -Padre
Presidente -interveio o Padre Gomez imediatamente, venho fazendo
penitncias por antecipao todos os dias de minha vida adulta. Estudei,
treinei. O Presidente levantou a mo. Penitncia e absolvio
antecipadas eram doutrinas pesquisadas e desenvolvidas pelo Tribunal
Consistorial, mas no conhecidas pela grande maioria dos membros da
igreja. Implicavam fazer penitncia por um pecado ainda no cometido,
penitncia fervorosa e intensa, acompanhada por castigos e
autoflagelao, de maneira a acumular, por assim dizer, uma reserva de
crdito. Quando a penitncia tivesse atingido o nvel apropriado para um
pecado em particular, o penitente recebia a absolvio antecipada,
embora pudesse nunca ser conclamado a cometer o pecado. Por vezes, era
necessrio matar pessoas, por exemplo: e era muito menos perturbador
para o assassino se ele pudesse faz-lo em estado de graa. -Eu havia
pensado em voc -o Padre MacPhail retrucou gentilmente. -Ento tenho o
acordo do Tribunal? Sim. Quando o Padre Gomez partir, com nossa bno,
ele estar sozinho, no poder ser contatado ou chamado de volta.
Independentemente do que acontecer com qualquer outra coisa, ele seguir
seu caminho como a flecha de Deus, seguindo direto para a criana, e a
abater. Ele ser invisvel; chegar  noite, como o anjo que destruiu
os assrios; ser silencioso. Quo 85 melhor seria para todos ns se
tivesse havido um Padre Gomez no jardim do den! Nunca teramos sado do
paraso. O jovem padre estava quase chorando de orgulho. O Tribunal
concedeu sua bno. E, no canto mais escuro do teto, escondido entre as
vigas escuras de carvalho, estava sentado um homem do tamanho de um
palmo. Seus calcanhares estavam armados com esporas e ele ouviu todas as
palavras que eles disseram. Nos pores, o homem de Bolvangar, vestindo
apenas uma camisa branca suja e calas frouxas, sem cinto, estava de p
sob a lmpada, segurando as calas com uma das mos e seu daemon coelho
com a outra. Diante dele, na nica cadeira, sentava-se o Padre MacPhail.
-Dr. Cooper- comeou o Presidente, por favor, sente-se. No havia
moblia exceto a cadeira, o catre de madeira e um balde. A voz do
Presidente ecoou desagradavelmente nos ladrilhos brancos que revestiam a
parede e o teto. O Dr. Cooper sentou no catre. No conseguia tirar os
olhos do rosto esqulido, de cabelos grisalhos, do Presidente. Lambeu os
lbios ressecados e esperou para ver que nova provao estaria por vir.
-Ento, quase teve sucesso em fazer o corte e separar a criana de seu
daemon? -perguntou Padre MacPhail. Com a voz trmula, o Dr. Cooper
respondeu: -Chegamos  concluso que no adiantaria nada esperar, uma
vez que a experincia deveria se realizar de qualquer maneira, e pusemos
a criana na cmara experimental, mas ento a Sra. Coulter interveio
pessoalmente elevou a criana para seus aposentos. O daemon coelho abriu
os olhos redondos e lanou um olhar assustado para o Presidente, depois
tornou a fech-los e escondeu o rosto. -Isso deve ter sido aflitivo
-comentou o Padre MacPhail. -O programa todo era tremendamente difcil
-disse o Dr. Cooper, apressando-se em concordar. 86 -Fico surpreendido
que no tenham procurado a ajuda do Tribunal Consistorial, onde temos
nervos de ao. -Ns... Eu... ns tnhamos conhecimento de que o programa
havia sido autorizado pelo... Era um assunto do Conselho de Oblao, mas
disseram-nos que tinha a aprovao do Tribunal Consistorial de
Disciplina. Caso contrrio, nunca teramos participado. Nunca! -No, 
claro que no. E agora, passando para uma outra questo. Vocs tinham
alguma idia -disse Padre MacPhail, abordando o verdadeiro tema de sua
visita -do que tratavam as pesquisas de Lorde Asriel? De qual poderia
ter sido a fonte da energia colossal que ele conseguiu utilizar em
Svalbard? O Dr. Cooper engoliu em seco. No silncio, uma gota de suor
caiu de seu queixo para o cho de concreto e ambos os homens a ouviram
nitidamente. -Bem... -comeou ele -houve algum em nossa equipe que
observou que durante o processo de corte havia uma liberao de energia.
Control-la envolveria foras imensas, mas, exatamente como uma exploso
atmica  detonada por explosivos convencionais; isto poderia ser feito
atravs da concentrao de uma poderosa corrente ambrica... Contudo,
ele no foi levado a srio. Eu no dei ateno a suas idias,
-acrescentou com sinceridade -por saber que sem a devida autorizao
seriam herticas. -Muito prudente. E este colega agora, onde est? -Ele
foi um dos que morreram durante o ataque. O Presidente sorriu. Era uma
expresso to gentil que o daemon do Dr. Cooper estremeceu e desmaiou em
seu peito. -Coragem, Dr. Cooper -disse o Padre MacPhail. -Precisamos que
seja forte e bravo! H um trabalho muito importante a ser feito e uma
grande batalha a ser travada. Precisa merecer o perdo da Autoridade
atravs de plena cooperao conosco, sem nos esconder nada, nem mesmo
especulaes insensatas, nem sequer disse-me-disse. 87 Agora quero que
dedique toda a sua ateno ao que se recorda de ter ouvido seu colega
dizer. Ele chegou a conduzir alguma experincia? Deixou anotaes?
Relatou suas idias a mais algum? Que tipo de equipamento estava
usando? Pense em tudo, Dr. Cooper. Ter uma caneta e papel e todo o
tempo de que precisar. "E esta sala no  muito confortvel. Vou mandar
transferi-lo para um local mais adequado. H alguma outra coisa de que
precise, alguma pea de mobilirio, por exemplo? Prefere escrever sobre
uma mesa ou uma escrivaninha? Gostaria de uma mquina de escrever? Ou
ser que prefere ditar para uma estengrafa? "Diga aos guardas o que
quer e ter tudo o que precisar. Mas em todos os momentos, Dr. Cooper,
quero que pense em seu colega e se lembre de sua teoria. Sua grande
tarefa  se recordar e, se necessrio, redescobrir o que ele sabia.
Depois que souber de que instrumentos vai precisar, tambm os receber.
 uma tarefa importante, Dr. Cooper!  uma bno que lhe tenha sido
confiada! Agradea  Autoridade." -Eu agradeo, Padre Presidente!
Agradeo! Agarrando a cintura frouxa de suas calas, o filsofo se
levantou e fez uma mesura, quase sem perceber, depois continuou fazendo
mesuras enquanto o Presidente do Tribunal Consistorial de Disciplina
deixava a cela. Naquela noite, o Cavaleiro Tialys, o espio
galivespiano, foi seguindo seu caminho pelas ruas e vielas de Genebra
para se encontrar com sua colega, Lady Salmakia. Era uma jornada
perigosa para ambos: perigosa para qualquer um ou qualquer coisa que
tentasse impedi-los tambm, mas certamente cheia de perigos para os
pequeninos galivespianos. Mais de um gato  espreita havia encontrado a
morte em suas esporas, mas apenas uma semana antes o Cavaleiro quase
perdera o brao para os dentes de um cachorro vira-lata; s a ao
rpida da Lady o salvara. Eles se encontraram no stimo dos locais
combinados de encontro, entre as raizes de um pltano, numa pracinha
maltratada, e trocaram 88 as notcias. O contato de Lady Salmakia na
Sociedade lhe relatara que um pouco antes, naquela noite, tinham
recebido um convite amistoso do Presidente do Tribunal Consistorial para
se reunirem e discutirem questes de interesse mtuo. -Trabalho rpido
-comentou o Cavaleiro. -Contudo, aposto 100 contra um que ele no vai
falar a respeito de seu assassino. Contou a ela sobre o plano para matar
Lyra. No ficou surpreendida. - a coisa lgica afazer -observou. -So
pessoas muito lgicas. Tialys, acha que algum dia veremos essa criana?
-No sei, mas eu gostaria de ver. Boa sorte, Salmakia. Amanh, na fonte.
Naquelas ltimas breves palavras, no havia sido mencionada a nica
coisa a respeito da qual eles nunca falavam: o breve tempo que tinham de
vida, se comparado com o tempo de vidas humanas. Os galivespianos viviam
nove ou dez anos, raramente mais, e Tialys e Salmakia j estavam em seu
stimo ano de vida. Eles no temiam a velhice; a gente de seu povo
morria na plenitude da fora e do vigor, repentinamente, e tinham uma
infncia muito breve; mas, comparada  deles, a vida de uma criana como
Lyra se estenderia to longe no futuro como a vida das bruxas se
estendia muito alm da vida de Lyra. O Cavaleiro retornou para a
Faculdade de So Jernimo e comeou a redigir a mensagem que enviaria
para Lorde Roke atravs do magneto ressonante. Mas enquanto ele estava
no local do encontro, conversando com Salmakia, o Presidente tinha
mandado chamar o Padre Gomez. Em seu estdio, os dois rezaram juntos
durante uma hora e ento o Presidente concedeu ao jovem padre a
absolvio antecipada que transformaria o assassinato de Lyra em algo
que no era de forma alguma assassinato. O Padre Gomez parecia
transfigurado; a certeza que pulsava em suas veias parecia tornar
incandescentes at mesmo seus olhos. 89 Discutiram questes prticas
como dinheiro, e assim por diante, e ento o Presidente disse: -Depois
que sair daqui, Padre Gomez, estar completamente isolado, para sempre,
de qualquer auxlio que possamos dar. Nunca poder voltar; nunca mais
ter notcias nossas. No posso lhe dar melhor conselho do que o
seguinte: no procure a criana. Isto revelaria suas intenes. Em vez
disso, procure a tentadora. Siga a tentadora e ela o conduzir 
criana. -Ela? -perguntou o Padre Gomez chocado. -Sim, ela -confirmou o
Padre MacPhail. -Descobrimos muita coisa atravs do aletmetro. O mundo
de onde vem a tentadora  um mundo estranho. Ver muitas coisas que o
surpreendero, Padre Gomez. No permita que essas coisas estranhas o
distraiam da tarefa sagrada que tem que cumprir. Eu tenho f
-acrescentou gentilmente -na fora de sua f. A mulher est vagando,
guiada pelos poderes do mal, para um lugar onde poder, finalmente,
encontrar a criana a tempo de oferecer-lhe a tentao. Isto , claro,
se no tivermos sucesso em acabar com a menina no local onde se encontra
atualmente. Este permanece sendo nosso primeiro plano. O senhor, Padre
Gomez,  nossa derradeira garantia de que, se isso falhar, ainda assim
os poderes infernais no vencero. O Padre Gomez assentiu. Seu daemon,
um grande besouro de dorso verde iridescente, estalou os litros. O
Presidente abriu uma gaveta e entregou ao jovem padre um mao de
documentos dobrados. -Aqui est tudo o que sabemos sobre a mulher -disse
-e o mundo de onde ela vem, o lugar onde foi vista pela ltima vez. Leia
com ateno, meu caro Lus, e v com minha bno. Ele nunca havia usado
o nome de batismo do padre antes. O Padre Gomez sentiu lgrimas de
alegria arderem em seus olhos enquanto dava um beijo de despedida no
Presidente. 90 voc  Lyra. Ento ela compreendeu o que aquilo
significava. Sentiu-se tonta, mesmo em seu sonho; sentiu um grande fardo
se acomodar sobre seus ombros. E para torn-lo ainda mais pesado, o sono
estava ficando de novo mais intenso, e o rosto de Roger estava comeando
a se desfazer em sombra. -Bem, eu sei... eu sei... H uma poro de
gente diferente do nosso lado, como a Dra. Malone... sabe que existe uma
outra Oxford, Roger, exatamente como a nossa? Bem, ela... eu a encontrei
na... Ela ajudaria... Mas existe apenas uma pessoa em quem realmente...
Agora havia se tornado quase impossvel para ela ver o garotinho, e seus
pensamentos estavam se espalhando e se dispersando como ovelhas num
campo. -Mas podemos confiar nele, Roger, juro -disse, fazendo um esforo
final, 91 *7 MARY, SOZINHA LEVANTAM-SE DEPOIS, COMO OSCILADAS, AS
RVORES CORPULENTAS, CURVANDO OS LONGOS RAMOS CO'O PENDOR DOS FRUTOS...
JOHN MILTON, CANTO VII,207 Quase que no mesmo momento, a tentadora que o
Padre Gomez estava planejando seguir estava sendo, ela prpria, tentada.
-Obrigada, no, no, isto  tudo o que preciso, no preciso de mais
nada, obrigada - disse a Dra. Mary Malone para o casal idoso na
plantao de oliveiras, enquanto tentavam lhe dar mais comida do que
poderia carregar. Moravam isolados ali, no tinham filhos e viviam com
medo dos Espectros que tinham visto entre as rvores cinza-prateado;
mas, quando Mary Malone tinha aparecido subindo pela estrada, com sua
mochila, os Espectros haviam se assustado e se afastado. O velho casal
tinha acolhido Mary calorosamente na casinha de fazenda cercada por
vinhedos, oferecendo-lhe uma fartura de vinho, queijo, po e azeitonas,
e agora no queriam deix-la ir embora. -Eu preciso seguir adiante
-disse Mary novamente, muito obrigada, foram muito gentis, eu no
consigo carregar... Ah, est bem, mais um queijinho, obrigada. 92
Evidentemente eles a viam como um talism contra os Espectros. Ela
desejava que fosse verdade. Na semana que havia passado no mundo de
Cittgazze tinha visto tanta devastao, tantos adultos comidos por
Espectros e crianas selvagens vivendo de pilhagem e carnia, que havia
tomado horror queles vampiros etreos. Tudo o que sabia era que eles,
de fato, se afastavam quando ela se aproximava; mas no podia ficar com
todo mundo que queria que ficasse, porque tinha que seguir adiante.
Encontrou espao para o ltimo queijo de cabra embrulhado em folha de
videira, sorriu e fez mais uma mesura, bebeu um ltimo gole de gua da
fonte que borbulhava entre as pedras cinzentas. Ento juntou as palmas
das mos, gentilmente, como o casal idoso estava fazendo, e, com
firmeza, fez meia-volta e partiu. Aparentava estar mais determinada do
que se sentia. A ltima comunicao com aquelas entidades que chamava de
Partculas de Sombra e que Lyra chamava de P havia sido na tela de seu
computador que, seguindo as instrues delas, Mary havia destrudo.
Agora no sabia o que fazer. As instrues tinham ordenado que
atravessasse pela abertura na Oxford onde morava, a Oxford do mundo de
Will, e fizera isso -para se descobrir zonza e trmula de espanto
naquele extraordinrio outro mundo. Alm disso, sua nica tarefa seria
encontrar o menino e a menina e ento bancar a serpente, o que quer que
aquilo significasse. De modo que tinha caminhado, feito exploraes e
perguntas, e no havia descoberto nada. Mas agora, pensou, enquanto
dobrava na pequena trilha que se afastava da plantao de oliveiras,
teria que buscar orientao. Depois que estava longe o suficiente da
fazenda para ter certeza de que no seria interrompida, sentou-se
debaixo dos pinheiros e abriu a mochila. No fundo, embrulhado num leno
de seda vermelho, estava o livro que tinha j h 20 anos: um comentrio
do mtodo chins de adivinhao, o I Ching. 93 Ela o trouxera consigo
por dois motivos. Um era sentimental: seu av lhe dera o livro e ela o
usara muito quando menina na escola. O outro era que quando Lyra tinha
aparecido pela primeira vez no laboratrio de Mary, havia perguntado: "O
que  aquilo?", e apontado para o pster na porta que mostrava os
smbolos do I Ching; e, pouco depois, em sua leitura espetacular do
computador, Lyra havia descoberto (ela afirmara) que o P tinha muitas
outras maneiras de falar com os seres humanos e uma delas era o mtodo
da China que usava aqueles smbolos. De modo que, em seus rpidos
preparativos para deixar seu prprio mundo, Mary Malone havia trazido
consigo o Livro das Mutaes, como era chamado, e as pequenas varetas de
mileflio que usava para a leitura. E agora havia chegado a hora de
us-las. Ela estendeu o leno de seda no cho e comeou o processo de
dividir e contar, dividir e contar e separar, como havia feito tantas
vezes quando era uma adolescente curiosa e apaixonada, e que quase nunca
mais usara desde ento. Quase tinha esquecido como fazer, mas logo
percebeu que os detalhes do ritual lhe voltavam  memria e com a
recordao veio aquela sensao de calma e de ateno concentrada que
desempenhava um papel to importante para falar com as Sombras.
Finalmente, ela chegou aos nmeros que indicavam o hexagrama que ela
havia tirado, o grupo de seis linhas inteiras ou partidas, e ento
consultou o significado. Esta era aparte mais difcil, porque o Livro se
expressava num estilo demasiado enigmtico. Ela leu: Voltar-se para o
cume Em busca de provises e de alimentos Traz boa fortuna. Ficar 
espreita, observar ao redor, com os olhos aguados Como um tigre com uma
fome insacivel. 94 Isso parecia encorajador. Continuou lendo, seguindo
o comentrio atravs dos caminhos labirnticos por onde ele a conduzia;
at que chegou  seguinte passagem: A quietude  a montanha;  uma
vereda; significa pequenas pedras, portas e aberturas. Teria que
adivinhar. A meno de "aberturas" fazia lembrar a misteriosa janela no
ar por onde havia entrado neste mundo; e as primeiras palavras pareciam
dizer que ela deveria se mover em direo ao alto. Ao mesmo tempo
confusa e encorajada, tornou a guardar o livro e as varetas e comeou a
subir pela trilha. Quatro horas depois estava com muito calor e cansada.
O sol estava baixo no horizonte. A trilha irregular que estivera
seguindo havia acabado por desaparecer e ela estava subindo cada vez com
mais dificuldade em meio a pedregulhos e pedras menores. A sua esquerda
a encosta descia em direo a uma paisagem de plantaes de oliveiras e
limoeiros, de vinhedos malcuidados e moinhos de vento abandonados,
envoltos pela nvoa, sob a luz do crepsculo. A direita, um amontoado de
pequenas rochas e cascalho subia em direo  base de um penhasco de
pedra calcria esfarelada. Exausta, ela tornou a levantar a mochila e
ps o p sobre a pedra achatada seguinte -mas, antes mesmo de transferir
o peso, parou. A luz estava batendo em alguma coisa curiosa e ela cobriu
os olhos para proteg-los do reflexo intenso do entulho na base do
penhasco e tentou encontrar aquilo de novo. E l estava: era como uma
vidraa pairando em pleno ar, sem que nada a sustentasse, mas sem
reflexos que chamassem ateno para ela: apenas um retalho quadrado
destoante. E ento ela se lembrou do que o I Ching dissera: uma vereda,
pequenas pedras, portas e aberturas. Era uma janela como a da Avenida
Sunderland. S conseguia v-la por causa da luz; se o sol estivesse um
pouco mais alto, provavelmente no seria absolutamente visvel. 95 Ela
se aproximou do pequeno retalho de ar com uma curiosidade apaixonada,
pois no tinha tido tempo de examinar a primeira: fora obrigada a fugir
o mais rpido possvel. Mas examinou esta em detalhe, tocando a borda,
movendo-se em volta, de um lado para o outro, para ver como se tornava
invisvel do outro lado, reparando na diferena absoluta entre este e
aquele, e descobriu que sua mente estava quase explodindo de excitao
com o fato de tais coisas existirem. O portador da faca que fizera a
abertura, na poca da Revoluo Americana, tinha sido descuidado demais
para fech-la, mas pelo menos tinha cortado num ponto muito similar ao
mundo deste lado: junto a uma parede de rocha. Mas a rocha do outro lado
era diferente, no era calcrio e sim granito, e quando Mary atravessou
para o novo mundo, descobriu que estava no na base de um enorme
penhasco, mas quase no topo de uma pequena elevao de onde podia ver
uma vasta plancie. Ali, tambm estava anoitecendo, e ela sentou para
respirar o ar, descansar as pernas e saborear a maravilha sem pressa. U
ma ampla luz dourada e uma pradaria ou savana sem fim, diferente de tudo
o que ela jamais havia visto em seu mundo. Para comear, embora a maior
parte fosse coberta por relva baixa numa variedade infinita de tons de
marrom-desbotado-verde-ocre-amarelo e matizes dourados, e ondulando
muito suavemente, de tal maneira que a luz alongada do entardecer a
mostrava muito claramente, a pradaria parecia ser mesclada,
completamente mesclada, com o que pareciam ser rios de rocha com uma
superfcie cinza-claro. E, em segundo lugar, aqui e ali, na plancie,
havia grupos de rvores, as rvores mais altas que Mary jamais havia
visto. Certa vez, depois de assistir a uma conferncia sobre fsica de
alta energia, na Califrnia, tirou algum tempo para ir ver as grandiosas
sequias e ficou maravilhada; mas, qualquer que fosse a espcie dessas
rvores, eram pelo menos umas duas vezes e meia mais altas que as
sequias. A folhagem era densa e verde-escura, os vastos troncos,
vermelho-dourados, sob a luz pesada do crepsculo. 96 E, finalmente,
rebanhos de animais, demasiado distantes para ver claramente, pastavam
na pradaria. Havia uma estranheza no movimento deles que Mary no sabia
definir exatamente. Ela estava desesperadamente cansada, com sede e
faminta, para completar. Em algum lugar ali perto, contudo, podia ouvir
o som bemvindo de gua gotejando numa fonte e, apenas um minuto depois,
ela a encontrou: apenas uma infiltrao de gua lmpida saindo de uma
fissura coberta de musgo e uma minscula corrente de gua que descia
serpenteando pela encosta. Bebeu bastante, sentindo-se grata, e encheu
suas garrafas, depois tratou de se instalar confortavelmente porque a
noite estava caindo depressa. Reclinada na rocha, enrolada no saco de
dormir, ela comeu um pouco de po com queijo de cabra e ento adormeceu
profundamente. Acordou cedo com o sol da manh batendo em cheio em seu
rosto. O ar estava fresco e o orvalho havia se depositado em minsculas
gotculas sobre seus cabelos e o saco de dormir. Ficou deitada por
alguns minutos banhada pelo frescor, sentindo-se como se fosse o
primeiro ser humano que jamais viveu. Depois sentou-se, se espreguiou,
tremeu um pouco de frio e lar vou-se na gua fria da fonte, antes de
comer dois figos secos e passar o local em revista. Atrs da pequena
elevao que ela havia atravessado, o terreno se inclinava gradualmente
para baixo e depois subia de novo; o panorama mais amplo ficava logo 
frente, do outro lado da imensa pradaria. As sombras compridas das
rvores agora estavam viradas para ela e podia ver bandos de paSsarinhos
rodopiando diante delas, to pequeninos contra o fundo das copas verdes
gigantescas que pareciam partculas de poeira. Pondo a mochila de volta
nas costas, comeou a descer a caminho da relva espessa e vicejante da
pradaria, tendo como objetivo alcanar o grupo de rvores mais prximo,
a uns seis ou oito quilmetros de distncia. 97 A relva lhe chegava 
altura dos joelhos e crescendo em meio a ela havia moitas e arbustos de
galhos to baixos que no lhe alcanavam os calcanhares, de alguma coisa
parecida com junpero; e havia flores semelhantes a papoulas, a
botes-de-ouro, a centureas, dando um colorido de tons variados 
paisagem; e ento ela viu uma grande abelha, do tamanho da articulao
superior de seu polegar, visitando um captulo de flor azul e fazendo-o
dobrar-se e balanar. Mas quando o bichinho se afastou das ptalas
recuando e recomeou a voar, ela viu que no era um inseto, pois um
momento depois veio at sua mo e pousou em seu dedo, encostando um bico
longo como uma agulha contra sua pele, com a maior delicadeza, e ento
levantou vo, de novo, quando no encontrou nctar. Era um minsculo
beija-flor, as asas cobertas de penas cor de bronze movendo-se depressa
demais para que ela pudesse ver. Como todos os bilogos da Terra no a
invejariam, se pudessem ver o que ela estava vendo! Ela seguiu adiante e
viu que estava se aproximando de um rebanho daqueles animais que tinha
visto na tarde anterior e cujo movimento a intrigara sem que soubesse
por qu. Tinham mais ou menos o tamanho de veados ou antlopes e cor de
plo semelhante, mas o que a fez parar de supeto onde estava e esfregar
os olhos foi a disposio de suas pernas. Cresciam em forma de losango:
duas no centro, uma na frente e uma debaixo da cauda, de modo que os
animais se locomoviam com um curioso movimento balouante. Mary ficou
ansiosa para examinar um esqueleto e ver como a estrutura funcionava.
Por seu lado, os animais pastando a examinaram com olhares mansos e sem
curiosidade, no demonstrando medo algum. Teria adorado chegar mais
perto e dedicar algum tempo a observ-los, mas estava ficando quente e a
sombra das grandes rvores parecia convidativa; e, afinal, haveria muito
tempo. Pouco depois ela estava saindo da relva e entrando num daqueles
rios de pedra que tinha visto do morro: era mais uma coisa a respeito da
qual ficara curiosa. 98 Poderia ter sido, em tempos antigos, alguma
espcie de derramamento de lava. A cor no fundo era escura, quase preta,
mas a superfcie era mais clara, como se tivesse sido triturada ou
desgastada por esmagamento. Era lisa como uma estrada bem pavimentada,
no mundo de Mary e, certamente, era mais fcil caminhar por ali do que
em meio  relva. Ela seguiu pelo rio de rocha onde estava, que flua
numa curva larga em direo s rvores. Quanto mais perto chegava, mais
estarrecida ficava com o tamanho enorme dos troncos, to largos,
estimava, quanto a casa onde ela morava e to altos quanto -to altos
quanto... ela no conseguia nem fazer uma estimativa. Quando chegou ao
primeiro tronco, descansou as mos na casca da rvore vermelho-dourada
de sulcos profundos. O solo estava coberto at a altura de seus
calcanhares com esqueletos de folhas marrons, do comprimento de seu p,
macias e aromticas quando andava sobre elas. Logo se viu cercada por
uma nuvem de diminutas coisas voadoras, bem como um pequeno bando dos
minsculos beija-flores, uma borboleta amarela com asas do tamanho de
seu palmo e um nmero excessivo de coisas rastejantes para que pudesse
se sentir  vontade. O ar estava cheio de zumbidos, trinados e rangidos.
Mary foi andando pelo solo do arvoredo com a sensao de estar numa
catedral: havia a mesma quietude, a mesma sensao de altura das
estruturas, o mesmo sentimento de respeito e encantamento em seu ntimo.
Havia levado mais tempo do que imaginara para chegar ali. Era quase
meio-dia, pois os raios de luz atravessando a copa das rvores estavam
quase verticais. Sonolenta, Mary se perguntou por que os animais que
pastavam no vinham para a sombra das rvores durante aquela parte mais
quente do dia. Logo ela descobriu. Sentindo calor demais para continuar
andando, deitou-se para descansar entre as razes de uma das rvores
gigantes, com a cabea apoiada na mochila, e cochilou. 99 Estava com os
olhos fechados h uns 15 minutos ou coisa assim, e no estava exatamente
dormindo quando, de repente, de muito perto, veio um estrondo ressonante
de um impacto que fez o solo tremer E ento veio outro. Assustada, Mary
sentou, tratou de ficar alerta, e viu um movimento que se definiu num
objeto redondo, com cerca de 90 centmetros, rolando no solo, parando e
tombando de lado. E ento um outro caiu, mais longe; ela viu a coisa
macia despencar e a observou se chocar contra a raiz, semelhante a um
botaru, do tronco mais prximo e sair rolando. A idia de uma daquelas
coisas caindo em cima dela foi o bastante para faz-la agarrar a mochila
e sair correndo de debaixo das rvores. O que seria aquilo? Nozes?
Olhando cuidadosamente para cima, ela se aventurou mais uma vez sob a
copa das rvores para examinar de perto um daqueles objetos. Ela o virou
e ergueu, rolou-o para fora do grupo de rvores e ento o ajeitou na
relva para examin-lo melhor. Era perfeitamente circular e largo como a
palma de sua mo. Tinha uma depresso no centro, onde estivera preso 
rvore. No era pesado, mas era incrivelmente duro e coberto por plos
fibrosos que se estendiam ao longo do arco da circunferncia de tal modo
que ela podia correr a mo em torno do objeto acompanhando o sentido
deles com facilidade, mas no no sentido oposto. Tentou enfiar a faca na
superfcie, mas no obteve nenhum resultado. Seus dedos pareciam mais
lisos. Ela os cheirou: havia uma leve fragrncia neles, sob o cheiro de
poeira. Examinou a fruta esfrica de novo. No centro havia um ligeiro
brilho e quando ela o tocou novamente, sentiu-o deslizar com facilidade
sob seus dedos. Estava exudando uma espcie de leo. Mary colocou a
coisa no cho e refletiu sobre as maneiras como aquele mundo havia
evoludo. Se seus clculos a respeito daqueles universos estivessem
certos e eles fossem os mltiplos mundos previstos pela teoria quntica,
ento 100 alguns deles teriam se separado do seu muito antes que outros.
E, claramente, naquele mundo a evoluo havia favorecido rvores enormes
e grandes animais com esqueleto em forma de losango. Estava comeando a
ver como seus horizontes cientficos eram estreitos. Nada de botnica,
nada de geologia, nenhum conhecimento de qualquer espcie sobre biologia
-era ignorante como um beb. E ento ouviu um rugido baixo, semelhante a
um trovo, que foi difcil de localizar at que viu uma nuvem de poeira
se movendo ao longo de uma das estradas -vindo em direo ao grupo de
rvores, em direo a ela. Estava a cerca de um quilmetro e meio, mas
no estava se movendo devagar e, de repente, Mary sentiu medo. Voltou
correndo para dentro do arvoredo. Encontrou um espao estreito entre
duas enormes razes e se enfiou nele, espiando sobre o grande
arcobotante a seu lado na direo de onde a nuvem de poeira se
aproXImava. O que ela viu fez sua cabea girar e ficar tonta. De incio,
parecia uma gangue de motociclistas. Depois ela pensou que fosse um
rebanho de animais providos de rodas. Mas isso era impossvel. Nenhum
animal podia ter rodas. No estava vendo aquilo. Mas estava. Havia cerca
de uma dzia deles. Tinham mais ou menos o mesmo tamanho dos animais que
pastavam, mas eram mais esguios e de cor cinza, com chifres na cabea e
trombas curtas como as de elefantes. Tinham a mesma estrutura em formato
de losango que os outros, mas de alguma forma haviam evoludo; nas patas
isoladas da frente e de trs, tinham uma roda. Mas rodas no existiam na
natureza, insistiu sua mente; no podiam; era preciso que houvesse um
eixo, com uma superfcie de sustentao, que era completamente separado
da parte que rodava, no podia acontecer, era impossvel - Ento, quando
eles pararam, a menos de 50 metros de distncia, e a poeira assentou,
ela de repente fez a ligao, e no pde deixar de rir alto, com uma
tossidela de puro deleite. 101 As rodas eram nozes. Perfeitamente
circulares, incrivelmente duras e leves -no poderiam ter sido melhor
projetadas. As criaturas enganchavam uma garra no centro das nozes com
as pernas da frente e de trs e usavam as duas pernas laterais para dar
impulso contra o solo e se mover. Enquanto ela se maravilhava com
aquilo, tambm sentiu uma certa ansiedade, pois os chifres pareciam
formidavelmente afiados e, mesmo quela distncia, podia perceber
inteligncia e curiosidade no olhar daqueles seres. E estavam procurando
por ela. Um deles tinha avistado a noz que ela havia tirado da rvore e
rodou para fora da estrada em direo a ela. Quando a alcanou, ele a
carregou at uma pequena elevao com a tromba e a fez rolar na direo
de seus companheiros. Eles se reuniram em volta da noz e a tocaram
delicadamente com aquelas trombas fortes, flexveis, e Mary viu-se
interpretando os gorjeios, estalidos e apupos que estavam emitindo como
expresses de desaprovao. Algum havia mexido naquilo: estava errado.
Ento ela pensou: eu vim aqui com um propsito, embora ainda no o
compreenda. Mary, seja ousada. Tome a iniciativa. De modo que se
levantou e gritou, muito constrangida: -Aqui. Eu estou aqui. Eu dei uma
olhada na noz. Sinto muito. Por favor, no me machuquem. Imediatamente a
cabea deles virou rpido para olhar para ela, as trombas estendidas, os
olhos brilhantes voltados para a frente. As orelhas deles tinham se
empinado. Ela saiu do abrigo entre as razes e os encarou francamente,
estendeu as mos, percebendo que aquele gesto poderia no significar
nada para seres que no possuam mos. Contudo, era o que podia fazer.
Pegando a mochila, foi andando pela relva e entrou na estrada. De perto
-a menos de cinco passos de distncia -podia ver muito mais da aparncia
deles, mas sua ateno foi capturada por alguma coisa viva e consciente
nos seus olhares, por uma inteligncia. 102 Aqueles seres eram quase to
diferentes dos animais pastando quanto um ser humano de uma vaca. Mary
apontou para si mesma e disse: -Mary. A criatura mais prxima estendeu
sua tromba para ela. Mary chegou mais perto e a tromba tocou seu peito,
onde ela havia apontado, e ela ouviu uma voz vindo em sua direo da
garganta da Criatura: -Merry. -O que  voc? -perguntou, e: -Uquivoc,
respondeu a criatura. A nica coisa a fazer era responder . -Eu sou um
ser humano -disse. -Eusum Sorumano -disse a criatura e ento uma coisa
ainda mais estranha aconteceu: os seres riram. Seus olhos se franziram,
as trombas balanaram, eles lanaram a cabea para trs -e de suas
gargantas veio o som inconfundvel de riso. Ela no pde se conter: riu
tambm. Ento um outro ser se aproximou e tocou sua mo com a tromba.
Mary ofereceu a outra mo a seu toque suave, hirsuto, inquisitivo. -Ah
-disse ela, voc est sentindo o cheiro do leo da noz. -Nss -disse o
ser. -Se vocs conseguem emitir os sons de minha lngua, pode ser que um
dia possamos nos comunicar. Deus sabe como. Mary -disse apontando para
si mesma mais uma vez. Nada. Eles ficaram olhando. Ela repetiu o gesto.
-Mary. O ser mais prximo tocou seu prprio peito e falou. Foram trs
slabas ou duas? O ser falou de novo e dessa vez Mary fez um grande
esforo para repetir os mesmos sons. -Mulefa -ela disse hesitante. 103
Os outros repetiram "Mulefa" na voz dela, rindo, e pareciam at mesmo
estar implicando com o ser que havia falado. -Mulefa! -disseram
novamente, como se fosse uma excelente piada. -Bem, se podem rir,
suponho que no vo me comer -disse Mary. E, a partir daquele momento,
houve descontrao e afabilidade entre eles, e ela no se sentia mais
nervosa. E o prprio grupo relaxou: eles tinham coisas afazer , no
estavam vagando ao acaso. Mary viu que um deles tinha uma sela ou um
fardo nas costas e dois outros levantaram o fruto esfrico at ali e o
prenderam, amarrando-o com tiras, com movimentos hbeis e intricados das
trombas. Quando ficavam parados, se equilibravam com as pernas laterais
e quando se moviam, viravam tanto a perna da frente como a de trs para
seguir numa direo. Os movimentos deles eram ao mesmo tempo muito
graciosos e vigorosos. Um deles rodou at a beira da estrada e levantou
a tromba para emitir um bramido de chamado. O rebanho inteiro que
pastava levantou a cabea simultaneamente e comeou a trotar na direo
deles. Quando chegaram, os animais pararam pacientemente nas
proximidades e permitiram que as criaturas se movimentassem lentamente
entre eles, examinando-os, tocando-os e contando. Ento Mary viu um
estender a tromba abaixo de um deles e ordenh-lo; ento a criatura veio
at junto dela e levantou a tromba delicadamente at a boca de Mary . De
incio, ela recuou, mas havia uma expectativa nos olhos daquele ser, de
modo que ela tornou a se adiantar e abriu a boca. O animal esguichou um
pouco do leite doce e fino dentro de sua boca, observou-a engolir e deu
um pouco mais a ela, repetindo a operao vrias vezes. O gesto era to
inteligente e gentil que Mary impulsivamente atirou os braos em volta
da cabea do animal e o beijou, cheirando o calor empoeirado do plo e
sentindo os ossos duros por baixo e a fora musculosa da tromba. Pouco
depois, o lder barriu suavemente e os animais do pasto se afastaram. Os
mulefas estavam se preparando para ir embora. Ela sentia 104 alegria
pelo fato de terem-na recebido bem e tristeza por estarem partindo; mas
ento tambm sentiu surpresa. Um dos animais estava se abaixando, se
ajoelhando na estrada e acenando com a tromba, e os outros tambm
acenavam para ela, convidando-a... No havia dvida quanto a isso:
estavam se oferecendo para carreg-la, para lev-la com eles. Um outro
pegou sua mochila e a prendeu na sela de um terceiro e,
desajeitadamente, Mary montou no dorso do que estava ajoelhado,
perguntando a si mesma onde poria as pernas -na parte da frente ou na
parte de trs da criatura? E em que poderia se segurar? Mas, antes que
pudesse descobrir, a criatura havia se levantado e o grupo comeou a se
deslocar pela estrada, com Mary cavalgando entre eles. 105 porque ele 
Will. 106 *8 VODCA ESTRANGEIRO E PEREGRINO SOU ENTRE VS XODO Balthamos
sentiu a morte de Baruch no momento em que aconteceu. Ele gritou e saiu
voando muito alto no ar sobre a tundra, batendo as asas e soluando de
angstia em meio s nuvens; demorou algum tempo antes que conseguisse se
recompor e voltar para junto de Will, que estava totalmente acordado, de
faca na mo, vasculhando a escurido mida e fria. -O que est havendo?
-perguntou Will, quando o anjo apareceu tremendo a seu lado. - algum
perigo? Fique atrs de mim -Baruch est morto -exclamou Balthamos,
chorando, meu querido Baruch est morto -Quando? Onde? Mas Balthamos no
sabia dizer; ele sabia apenas que metade de seu corao havia deixado de
existir. No conseguia ficar quieto: tornou a voar bem alto, vagando
pelo cu como se procurando Baruch nesta ou naquela nuvem, gritando,
chorando, chamando; e ento sentia-se dominado pela culpa, descia voando
para insistir com Will para que se 107 escondesse e se mantivesse
calado, prometendo guard-lo e proteg-lo incansavelmente; e ento a
presso de sua perda e dor o derrubava no cho e ele se lembrava de
todas as provas de gentileza e de coragem que Baruch tinha dado, e havia
milhares, e no tinha se esquecido de nenhuma delas; ento exclamava que
um ser de to graciosa natureza jamais poderia simplesmente se apagar, e
alava vo, subindo s alturas dos cus, procurando em todas as
direes, destemida e furiosamente, consternado, amaldioando o prprio
ar, as nuvens e as estrelas. Finalmente Will disse: -Balthamos, venha
c. Desamparado, o anjo imediatamente atendeu ao seu chamado. Na
escurido gelada da tundra, o garoto que tiritava de frio sob seu manto
disse: -Agora, voc tem que tentar se acalmar e ficar calado. Voc sabe
que h coisas por a que atacaro se ouvirem algum rudo. Posso proteger
voc com a faca, se estiver perto de mim, mas se o atacarem l no alto,
no vou poder ajud-lo. E se voc morrer tambm, vai ser o fim para mim.
Balthamos, eu preciso de voc para me ajudar e me guiar at onde est
Lyra. Por favor, no se esquea disso. Baruch era forte. Seja forte
tambm. Seja como ele, por mim. De incio, Balthamos no falou, mas
depois disse: -Sim,  claro que devo fazer isso. Pode dormir agora,
Will, eu estarei aqui montando guarda, no desapontarei voc. Will
confiou nele; tinha que confiar. E pouco depois adormeceu de novo.
Quando acordou, encharcado pelo orvalho e gelado at os ossos, o anjo
estava de p junto dele. O sol estava raiando, e os juncos e as plantas
do pntano estavam salpicados de dourado. Antes que Will pudesse se
mexer, Balthamos disse: -Decidi o que devo fazer. Ficarei com voc noite
e dia e o farei com alegria e de boa vontade, em homenagem a Baruch.
Conduzirei 108 voc at Lyra, se puder, e depois conduzirei vocs dois
at Lorde Asriel. -Eu vivi milhares de anos e, a menos que eu seja
morto, viverei mais muitos outros milhares de anos; mas jamais conheci
um ser de natureza que me inspirasse a fazer o bem com tanto ardor, ou a
ser gentil, como Baruch me inspirava. Fracassei tantas vezes, mas a cada
vez a bondade dele estava l para me redimir. Agora no est mais, terei
que tentar sozinho. Talvez eu fracasse de vez em quando, mas mesmo assim
continuarei tentando. -Baruch ficaria orgulhoso de voc -disse Will
tremendo. -Agora quer que eu faa um vo de reconhecimento e veja onde
estamos? -Quero -disse Will - voe bem alto e me diga como  o terreno
mais adiante. Andar por essas terras pantanosas vai ser muito demorado.
Balthamos levantou vo. No tinha contado a Will todas as coisas que o
estavam preocupando, porque estava dando o melhor de si tentando no
preocup-lo; mas sabia que o anjo Metatron, o Regente, de quem tinham
escapado por to pouco, teria o rosto de Will firmemente gravado em sua
mente. E no somente seu rosto, mas tudo a respeito dele que os anjos
podiam ver, inclusive partes de que o prprio Will no tinha
conscincia, como aquele aspecto de sua personalidade que Lyra teria
chamado de seu daemon. Will agora corria grande perigo por causa de
Metatron e, em algum momento, Balthamos teria que lhe contar; mas ainda
no. Era difcil demais. Will, concluindo que seria mais rpido se
aquecer se comeasse a caminhar em vez de juntar combustvel e esperar
que uma fogueira se acendesse, simplesmente colocou a mochila nos
ombros, colocou o manto por cima cobrindo tudo e deu incio  marcha em
direo ao sul. Havia uma trilha, lamacenta, cheia de sulcos e
esburacada, de maneira que as pessoas s vezes passavam por ali; mas o
horizonte achatado estava to distante em todas as direes que ele no
tinha noo de estar avanando. 109 Algum tempo depois, quando a luz
estava mais clara, a voz de Balthamos falou a seu lado. -A cerca de um
dia de caminhada, fica um rio largo e uma cidade onde existe um cais
para os barcos atracarem. Voei alto o suficiente para ver que o rio se
estende a uma longa distncia diretamente para o sul e para o norte. Se
voc conseguisse transporte num barco, poderia avanar muito mais
depressa. -timo -disse Will, com muito entusiasmo. -E esta trilha vai
para a cidade? -Ela passa por uma aldeia, com uma igreja, fazendas e
pomares, depois segue para a cidade. -Gostaria de saber que lngua eles
falam. Espero que no me prendam se eu no souber falar a lngua deles.
-Na qualidade de seu daemon- retrucou Balthamos, eu traduzirei para
voc. Aprendi a falar muitas lnguas humanas; certamente compreendo a
que eles falam nesse lugar. Will seguiu caminhando. Era uma tarefa
maante, cansativa e mecnica, mas pelo menos estava em movimento e pelo
menos cada passo o levava para mais perto de Lyra. A aldeia era um lugar
feio e maltratado: um pequeno grupo de construes de madeira, com
padoques contendo renas e cachorros que latiram,  medida que eles se
aproximavam. A fumaa saa lentamente das chamins de lato e ficava
pairando baixa sobre os telhados de seixos. O terreno era pesado e se
prendia a seus ps, era evidente que h muito pouco tempo houvera uma
enchente: as paredes estavam marcadas pela lama at a metade da altura
das portas, vigas partidas de madeira e chapas soltas de ferro corrugado
mostravam onde cabanas, varandas e construes anexas haviam sido
levadas pelas guas. Mas aquela no era a caracterstica mais curiosa do
lugar. Inicialmente, Will pensou que estivesse perdendo o equilbrio;
aquilo chegou at a faz-lo tropear uma ou duas vezes: os prdios
ficavam dois ou trs graus fora da vertical, todos inclinados no mesmo
sentido. A cpula da igrejinha estava seriamente rachada. 110 Ser que
tinha havido um terremoto? Os cachorros estavam latindo com uma fria
histrica, mas sem ousar chegar perto. Balthamos, sendo um daemon, havia
assumido a forma de um grande cachorro, branco como a neve, de olhos
negros, pelagem espessa e uma cauda enroscada, e rosnava com tamanha
ferocidade que os cachorros de verdade se mantinham  distncia. Eram
magros e sarnentos, e as poucas renas que conseguiu ver tinham o plo
cheio de crostas e pareciam apticas. Will fez uma parada no centro da
aldeia e olhou em volta, se perguntando para onde deveria ir e, enquanto
estava parado ali, dois ou trs homens apareceram mais adiante e ficaram
parados olhando fiXo para ele. Eram as primeiras pessoas que via no
mundo de Lyra. Usavam casacos de feltro grosso, botas enlameadas,
chapus de pele e no pareciam nada amistosos. O cachorro branco mudou
de forma, transformando-se numa andorinha, e voou at o ombro de Will.
Ningum nem sequer piscou diante disso: cada um dos homens tinha um
daemon, reparou Will, cachorros em sua maioria, e era assim que as
coisas aconteciam naquele mundo. Em seu ombro, Balthamos sussurrou:
-Continue andando. No olhe nos olhos deles. Mantenha a cabea baixa.
Isso  considerado uma atitude respeitosa. Will continuou andando. Ele
sabia como passar despercebido; este era seu maior talento. Quando
afinal chegou onde eles estavam, os homens j tinham perdido o interesse
nele. Mas ento uma porta se abriu na maior casa da rua e uma voz gritou
alguma coisa bem alto. Balthamos disse baixinho: -O padre. Vai ter de
ser bem educado com ele. Vire-se e faa uma mesura. Will obedeceu. O
padre era um homem imenso, de barba grisalha, vestindo uma batina preta
com um daemon corvo pousado no ombro. 111 Seus olhos inquietos
percorreram o rosto e o corpo de Will, reparando em tudo. Fez sinal para
que se aproximasse. Will foi at a porta e fez outra mesura. O padre
disse alguma coisa e Balthamos sussurrou: -Ele est perguntando de onde
voc vem. Diga o que quiser. -Eu falo ingls -disse Will, falando bem
devagar e claramente. -No sei falar nenhuma outra lngua. -Ah, ingls!
-exclamou o padre alegremente na mesma lngua. -Meu caro rapaz! Seja
bem-vindo  nossa aldeia, nossa pequenina e no-mais-perpendicular
Kholodnoye! Como se chama e para onde est indo? -Meu nome  Will e
estou indo para o sul. Eu me perdi de minha famlia e estou tentando
encontr-los. -Ento precisa entrar e tomar alguma coisa -disse o padre
e passou um brao pesado em volta dos ombros de Will, empurrando-o pela
porta. O daemon corvo do homem estava demonstrando um vvido interesse
por Balthamos. Mas o anjo reagiu  altura da situao: transformou-se
num camundongo e enfiou-se na camisa de Will, como se fosse tmido. O
padre o levou at uma sala de visitas com a atmosfera pesada, impregnada
de fumaa de tabaco, onde um samovar de ferro batido fumegava vapor
silenciosamente sobre um console. -Como era mesmo seu nome? -perguntou o
padre. -Diga-me de novo. -Will Parry. Mas no sei como devo chamar o
senhor. -Otyets Semyon -respondeu o padre, alisando o brao de Will
enquanto o conduzia a uma cadeira. -Otyets significa Pai. Sou padre da
Santa Igreja. Meu nome de batismo  Semyon, e o nome de meu pai era
Boris, de modo que sou Semyon Borisovitch. Qual  o nome de seu pai?
-John Parry. 112 -John  Ivan. De modo que voc  Will Ivanovitch, e eu
sou o Padre Semyon Borisovitch. De onde voc vem, Will Ivanovitch, e
para onde est indo? -Estou perdido -respondeu Will. -Estava viajando
com minha famlia para o sul. Meu pai  soldado, mas estava fazendo uma
explorao no rtico, ento alguma coisa aconteceu e nos perdemos. De
modo que estou viajando para o sul porque era para onde ele iria seguir.
O padre abriu as mos espalmadas e disse: -Um soldado? Um explorador da
Inglaterra? H sculos que ningum to interessante assim passa pelas
estradas sujas de Kholodnoye, mas nesses tempos de grandes mudanas,
como podemos saber se ele no vai aparecer amanh? Mesmo voc  um
visitante bem-vindo, Will Ivanovitch. Deve passar a noite em minha casa
e conversaremos e comeremos juntos. Lydia Alexandrovna! -chamou. Uma
mulher idosa entrou silenciosamente. Ele falou com ela em russo e a
mulher assentiu, pegou um copo e o serviu de ch quente do samovar. Ela
trouxe o copo de ch para Will com um pires com gelia e uma colher de
prata. -Obrigado -disse Will. -A conserva  para adoar o ch- explicou
o padre. -Lydia Alexandrovna a preparou com mirtilos. O resultado era
que o ch ficava enjoativo e ao mesmo tempo amargo, mas Will bebeu assim
mesmo. O padre ficava se inclinando para a frente, para olhar mais de
perto para ele, e pegou suas mos para ver se estava com frio, ento
alisou seu joelho. Para distra-lo, Will perguntou por que os prdios da
aldeia estavam inclinados. -Houve uma convulso na terra -disse o padre.
-Est tudo previsto no Apocalipse de So Joo. Rios fluem para trs... o
grande rio, que fica a pouca distncia daqui, costumava correr para o
norte, desembocando no Oceano rtico. Vinha de muito longe, l das
montanhas da sia Central, e corria para o norte durante milhares de
anos, 113 desde que a Autoridade de Deus, o Pai Todo-Poderoso, criou a
Terra. Mas quando a terra tremeu e vieram a neblina e as enchentes, tudo
mudou e ento o grande rio passou a correr para o sul durante uma semana
ou mais antes de mudar de curso de novo e tornar a correr para o norte.
O mundo est de cabea para baixo. Onde voc estava quando houve a
grande convulso? -Estava muito longe daqui -respondeu Will. -No sabia
o que estava acontecendo. Quando a neblina clareou, tinha-me perdido de
minha famlia, e agora no sei onde estou. O senhor me disse o nome
deste lugar, mas onde fica? Onde estamos? -Traga-me aquele grande livro
na prateleira de baixo -disse Semyon Borisovitch. -Vou lhe mostrar. O
padre aproximou a cadeira da mesa e lambeu os dedos antes de virar as
pginas do grande atlas. -Aqui -disse ele, apontando com uma unha suja
para um ponto na Sibria Central, a uma grande distncia ao leste dos
Orais. O rio que corria prximo remava conforme o padre havia dito, da
regio norte das montanhas no Tibete por uma enorme distncia at chegar
ao rtico. Will examinou muito atentamente as montanhas do Himalaia, mas
no viu nada que se assemelhasse ao mapa que Baruch havia desenhado.
Semyon Borisovitch falava sem parar, insistindo com Will para que desse
detalhes de sua vida, de sua famlia, de sua casa, e Will, um experiente
dissimulador, respondeu com bastantes detalhes. Depois de algum tempo, a
governanta trouxe uma sopa de beterraba e po preto e, depois que o
padre disse uma longa prece de graas, eles comeram. -Bem, como devemos
passar nosso dia, Will Ivanovitch? - perguntOU Semyon Borisovitch.
-Vamos jogar cartas ou voc prefere conversar? Ele serviu mais um copo
de ch do samovar e Will aceitou sem muita vontade. -Eu no sei jogar
cartas -respondeu, e estou ansioso para seguir adiante e continuar
viajando. Se eu fosse para o rio, por exemplo, 114 acha que poderia
conseguir uma passagem num vapor seguindo para o sul? O rosto do padre
ficou sombrio e ele se persignou com um gesto delicado do punho. -H
tumultos na cidade -explicou. -Lydia Alexandrovna tem uma irm que veio
aqui e contou que h um navio transportando ursos rio acima. Ursos de
armadura. Eles vm do rtico. Voc no viu os ursos de armadura quando
esteve no norte? Opadre estava desconfiado e Balthamos sussurrou bem
baixinho de maneira que s Will pudesse ouvir: -Tenha cuidado. -E Will
soube imediatamente por que Balthamos tinha dito aquilo: seu corao
havia comeado a bater disparado quando Semyon Borisovitch mencionara os
ursos, por causa do que Lyra tinha contado a respeito deles. Precisava
tentar conter seus sentimentos. -Estvamos muito longe de Svalbard e os
ursos estavam ocupados com seus prprios negcios -disse Will. -Sim, foi
o que ouvi dizer- concordou o padre, para alvio de Will. -Mas agora
eles esto deixando sua terra natal e vindo para o sul. Eles tm um
barco e o povo da cidade no os deixa reabastecer. Tm medo dos ursos. E
devem ter mesmo, so fIlhos do diabo. Todas as coisas do norte so
demonacas. Como as bruxas, filhas do mal! A igreja deveria ter matado
todas elas h muitos anos. Bruxas... trate de nunca se meter com elas,
Will Ivanovitch, est me ouvindo? Sabe o que elas fazem quando voc
chega  idade certa? Tentam seduzir voc. Lanaro mo de todas as
artimanhas atraentes e enganadoras de que dispem, seu corpo, a pele
sedosa, a voz doce que possuem, e tomaro seu smen, voc sabe de que
estou falando, elas esgotam voc e o deixam oco, vazio! Tomam de voc
seu futuro, seus filhos que esto por nascer e no deixam nada. Elas
deveriam ser eliminadas, todas elas. O padre estendeu a mo para uma
prateleira ao lado de sua cadeira e pegou uma garrafa e dois copinhos.
115 -Agora vou lhe oferecer uma bebidinha, Will Ivanovitch -disse ele.
-Voc  jovem, de modo que no deve tomar muitos copos. Mas est
crescendo, de maneira que precisa conhecer algumas coisas, como o gosto
de vodca. Lydia Alexandrovna colheu os bagos no ano passado e eu
destilei o lcool, e aqui na garrafa est o resultado, o nico lugar
onde Otyets Semyon Borisovitch e Lydia Alexandrovna se deitam juntos!
Ele deu uma gargalhada e tirou a rolha da garrafa, enchendo cada copo
at a borda. Aquele tipo de conversa deixava Will terrivelmente
constrangido. O que deveria fazer? Como poderia se recusar a beber sem
ser descorts? -Otyets Semyon -disse, se levantando, foi muito gentil e
gostaria de poder ficar mais tempo para provar sua bebida e ouvi-lo
falar, porque as coisas que me disse foram muito interessantes. Mas
compreende que estou infeliz por causa de minha famlia e muito ansioso
para tornar a encontr-los, de modo que acho que devo ir andando, por
mais que me agradasse ficar. O padre juntou os lbios, fazendo um bico
que se projetava para fora da massa de sua barba, e franziu o cenho; mas
depois deu de ombros e disse: -Bem, ento v, se realmente tem que ir.
Mas, antes de partir, deve beber sua vodca. Levante-se comigo agora!
Pegue o copo e vire, tudo de uma s vez, assim! E ele virou o copo,
engolindo tudo de uma s vez, ento levantou seu corpo macio e chegou
bem junto de Will. Em seus dedos gordos e sujos o copo que ele ofereceu
parecia minsculo; mas estava cheio at a borda com a bebida
transparente e Will podia sentir o cheiro forte da bebida, do suor azedo
e das manchas de comida na batina do homem, e sentiu-se enjoado antes
mesmo de ter comeado. -Beba, Will Ivanovitch! -exclamou o padre, com
uma animao ameaadora. Willlevantou o copo e sem hesitar engoliu o
lquido oleoso que queimava de um gole s. Agora teria que se esforar
seriamente para no vomitar. 116 Mas havia mais uma provao a caminho.
Semyon Borisovitch se inclinou para a frente do alto de seu corpanzil e
agarrou Will pelos ombros. -Meu garoto -disse, e ento fechou os olhos e
comeou a entoar uma prece ou um salmo. Vapores de tabaco, de lcool e
de suor emanavam com intensidade de seu corpo e ele estava perto o
bastante para que a barba espessa, sacudindo para cima e para baixo,
roasse no rosto de Will. Will prendeu a respirao. As mos do padre
passaram para trs dos ombros de Will e ento Semyon Borisovitch o
estava abraando apertado e beijando-lhe as faces, direita, esquerda,
direita de novo. Will sentiu Balthamos enterrar as garras pequeninas em
seu ombro, e se manteve imvel. Sua cabea estava girando, seu estmago
se contraindo aos saltos, mas ele no se moveu. Finalmente acabou e o
padre deu um passo para trs e o empurrou para longe de si. -Ento v-
disse ele, v para o sul, Will Ivanovitch. V. Will pegou seu manto e a
mochila e tentou andar em linha reta enquanto saa da casa do padre e
seguia pela estrada que levava para fora da aldeia. Caminhou durante
duas horas, sentindo a nusea ir cedendo gradualmente e uma dor de
cabea latejante tomar seu lugar. Balthamos o fez parar a certo ponto e
colocou as mos frias no pescoo e na testa de Will, e a dor diminuiu um
pouco, mas Will fez uma promessa a si mesmo de que nunca mais tornaria a
beber vodca. E, bem no final da tarde, o caminho se alargou e saiu dos
juncos, e Will viu a cidade mais adiante  sua frente e, depois dela,
uma vasta extenso de gua, to larga que poderia ter sido wn mar. Mesmo
ainda de longe, Will podia ver que havia confuso por l. Nuvens de
fumaa explodiam de um ponto alm dos telhados, seguidas poucos segundos
depois pelo troar de uma arma. -Balthamos -disse Will, vai ter que ser
daemon de novo. Fique bem perto de mim e esteja atento ao perigo. 117
Entrou nos arredores da cidadezinha mal-ajambrada, onde os prdios se
inclinavam de maneira ainda mais perigosa que na aldeia e onde a
enchente tinha deixado suas manchas de lama nas paredes muito acima da
cabea de Will. Os arredores da cidade estavam desertos, mas  medida
que foi se dirigindo para o rio, o barulho de gente berrando, de gritos
e o crepitar do fogo de carabinas foi se tornando mais alto. E ali,
finalmente, havia pessoas: algumas observando de janelas no andar mais
alto, algumas esticando o pescoo, ansiosamente, em cantos de prdios,
para espiar mais adiante a zona do porto, onde os dedos de metal de
guindastes e de gruas e os mastros de grandes embarcaes se elevavam
acima dos telhados. Uma exploso sacudiu as paredes e o vidro de uma
janela prxima caiu, As pessoas recuaram e depois tornaram a espiar, e
mais gritos se elevaram no ar cheio de fumaa. Will chegou  esquina da
rua e olhou para a rea do porto. Quando a fumaa e a poeira baixaram um
pouco, ele viu uma embarcaO enferrujada ao largo da margem,
mantendo-se no mesmo lugar, a despeito da correnteza do rio e, no cais,
um bando de gente armada com carabinas ou pistolas rodeava um canho,
que, enquanto ele olhava, disparou de novo. Um claro de fogo, um tranco
de recuo e perto da embarcao uma grande exploso levantando jatos de
gua para todos os lados, Will protegeu os olhos do sol. Havia vultos no
barco, mas ele esfregou os olhos, muito embora soubesse o que deveria
esperar ver: no eram seres humanos, Eram enormes seres de metal ou
animais, usando pesadas armaduras e, na coberta de proa da embarcao,
de repente, uma flor de chamas se abriu, ardendo, e as pessoas gritaram
assustadas. A chama voou rapidamente pelo ar, subindo cada vez mais alto
e chegando mais perto, soltando fagulhas e fumaa, e ento caiu com um
grande estrondo de fogo perto do canho. Os homens gritaram e se
dispersaram, alguns correram envoltos em chamas para abeira d'gua e
mergulharam, logo sendo carregados para longe pela correnteza. 118 Will
encontrou um homem nas proximidades que parecia um professor. -O senhor
fala ingls? -Sim, falo. -O que est acontecendo? -Os ursos, eles esto
atacando, e tentamos lutar contra eles, mas  difcil, temos apenas um
canho e O lana-chamas na embarcao lanou uma pelota de piche em
chamas e, dessa vez, caiu ainda mais perto do canho. Trs grandes
exploses que se seguiram, quase que imediatamente depois, mostraram que
havia acertado a munio e os atiradores saltaram para longe, deixando o
cano do canho balanando, virado para baixo. -Ah -lamentou o homem, no
adianta, eles no sabem atirar - O comandante do navio virou a proa e
comeou a traz-lo para a margem. Muita gente gritou de medo e
desespero, especialmente quando mais um grande bulbo de chamas surgiu
com uma exploso na proa e alguns dos que estavam armados de carabinas
dispararam um ou dois tiros e fizeram meia-volta para fugir; mas dessa
vez os ursos no lanaram a bola de fogo e logo a embarcao estava
aproximando o costado do cais, o motor girando com esforo para mant-la
contra a corrente. Dois marinheiros (humanos, no ursos) saltaram para
passar cabos nos postes de amarrao e uma grande vaia acompanhada de
gritos de raiva subiu, de onde estavam os moradores da cidade, contra
aqueles humanos traidores. Os marinheiros no deram ateno; rapidamente
trataram de baixar uma prancha de desembarque. Ento, quando eles se
viraram para voltar para bordo, um tiro foi disparado de algum lugar
perto de Will e um dos marinheiros caiu. Seu daemon -uma gaivota
-desapareceu como se sua existncia tivesse sido apagada, como a chama
de uma vela. A reao dos ursos foi de pura fria. Imediatamente o
lana-chamas tornou a ser aceso e virado para apontar para a margem e
119  massa de chamas VOOU para O alto e depois caiu em cascata numa
centena de gotas incendirias sobre os telhados. E, no alto da prancha
de desembarque, surgiu um urso maior do que todos os outros, uma
apario poderosa, todo vestido em ferro, e as balas que choveram em
cima dele zuniam, ricocheteavam, ou acertavam com um impacto intil, sem
conseguir fazer a menor mossa na armadura macia. Will perguntou ao
homem a seu lado: -Por que eles esto atacando a cidade? -Eles querem
combustvel. Mas ns no negociamos com ursos. Agora que eles esto
abandonando seu reino e navegando rio acic ma, quem sabe o que faro? De
modo que devemos lutar contra eles. Piratas, ladres O grande urso tinha
descido a prancha de desembarque e, num grupo compacto, atrs dele,
vinham vrios outros, to pesados que o navio se inclinou e Will viu que
os homens no cais tinham voltado para junto do canho e estavam
carregando um projtil na culatra. Uma idia surgiu e ele correu para o
cais, parando exatamente no espao vazio entre os atiradores e o urso.
-Parem! -gritou Will. -Parem de lutar. Deixem-me falar com o urso! Houve
um silncio repentino e todo mundo ficou imvel, espantado com aquele
comportamento insano. O prprio urso, que estivera reunindo suas foras
para atacar os atiradores, parou onde estava, mas cada linha de seu
corpo tremia de ferocidade. As grandes garras se cravaram no solo e os
olhos negros faiscavam de raiva sob o elmo de ferro. -Quem  voc? O que
voc quer? -ele rugiu em ingls, uma vez que Will tinha falado nessa
lngua. As pessoas assistindo olharam umas para as outras, confusas, e
aqueles que compreendiam traduziram para os outros. -Lutarei com voc em
duelo -gritou Will, e se voc recuar, ento o combate tem que acabar.
120 o urso no se moveu. Quanto ao povo que assistia, to logo as
pessoas compreenderam o que Will estava dizendo, gritaram, vaiaram e
fizeram troa, com gargalhadas zombeteiras. Mas no por muito tempo,
pois Will se virou para encarar a multido e ficou bem ereto, o olhar
gelado, contido e perfeitamente imvel, at que as gargalhadas se
calaram. Podia sentir o melro Balthamos tremendo em seu ombro. Quando as
pessoas ficaram em silncio, ele gritou: -Se eu fizer o urso recuar,
vocs tero que concordar em vender combustvel para eles. Ento eles
seguiro seu caminho pelo rio e deixaro vocs em paz. Vocs tm que
aceitar esse acordo. Se no concordarem, eles destruiro todos vocs.
Ele sabia que o urso imenso estava a apenas alguns centmetros s suas
costas, mas no se virou; observou o povo da cidade confabulando,
gesticulando, discutindo, e depois de um minuto uma voz gritou: -Garoto!
Faa o urso aceitar o acordo! Will fez meia-volta. Engoliu em seco e
respirou fundo, ento gritou: -Urso! Voc tambm tem de concordar. Se
recuar diante de mim, o combate tem que cessar e voc poder comprar
combustvel e seguir em paz pelo rio. -Impossvel- rugiu o urso. -Seria
vergonhoso lutar com voc.  fraco como uma ostra fora de sua concha.
No posso lutar com voc. -Eu concordo -retrucou Will, e cada minsculo
fiapo de sua ateno agora estava concentrado naquele grandioso ser
feroz que tinha diante de si. - No  absolutamente uma luta justa. Voc
tem toda essa armadura e eu no tenho nenhuma. Voc poderia arrancar
fora minha cabea com uma boa patada. Ento, vamos torn-la mais justa.
D-me uma pea de sua armadura, qualquer uma que lhe agradar. Seu elmo,
por exemplo. Ento estaremos mais equilibrados e no ser vergonhoso
lutar contra mim. Com um rosnado que manifestava dio, raiva, desprezo,
o urso levantou uma das grandes garras e soltou a corrente que mantinha
seu elmo preso. 121 E ento um profundo silncio caiu sobre toda a rea
do cais. Ningum falava -ningum se mexia. Eles sabiam que estava
acontecendo alguma coisa, alguma coisa como nunca haviam visto antes, e
no sabiam dizer o que era. O nico som agora era o bater das guas do
rio contra os pilares de madeira, o zumbido do motor do navio e os
gritos inquietos das gaivotas acima; ento ouviu-se a grande pancada
metlica quando o urso atirou seu elmo aos ps de Will. Will colocou a
mochila no cho e ergueu o elmo, pondo-o de p. Mal conseguia
levant-lo. Consistia em uma nica chapa de ferro, escuro e cheio de
mossas, com os buracos para os olhos na parte de cima e uma corrente
macia embaixo. A corrente era to longa quanto o antebrao de Will e
grossa como seu polegar. -Ento esta  sua armadura -disse ele. -Bem,
no me parece muito forte. No sei se posso confiar nela. Deixe-me ver.
E tirou a faca da mochila, encostou a ponta contra aparte da frente do
elmo e cortou um canto, como se estivesse cortando manteiga. -Foi o que
pensei -comentou, e cortou mais um pedao, depois outro e mais outro,
reduzindo o objeto macio a uma pilha de fragmentos em menos de um
minuto. Ele se levantou e estendeu a mo com um punhado de pedaos.
-Isso era sua armadura -disse ele, e deixou que os pedaos cassem com
estrpito sobre o resto a seus ps, -e esta  minha faca. E, uma vez que
seu elmo no me serviu, terei que lutar sem ele. Est pronto, urso?
Creio que estamos bem equilibrados. Afinal, eu poderia cortar fora sua
cabea com um golpe de minha faca. Silncio total e absoluto. Os olhos
negros do urso reluziam como piche e Will sentiu uma gota de suor descer
por sua espinha. Ento a cabea do urso se moveu. Ele a sacudiu e deu um
passo para trs. - uma arma forte demais -disse. -No posso lutar
contra isso. Garoto, voc venceu. 122 Will sabia que um segundo depois
as pessoas iriam gritar vivas, apupos e assobiar, de modo que antes
mesmo que o urso tivesse terminado de dizer a palavra "venceu", Will
tinha comeado a se virar e a gritar, para mant-las caladas. -Agora
vocs tm que cumprir o acordo. Cuidem dos feridos e comecem a consertar
os prdios. Ento deixem o barco atracar e reabastecer. Ele sabia que
seria preciso um minuto para que aquilo fosse traduzido e deixou que a
mensagem se espalhasse entre a populao da cidade que assistia, e
tambm sabia que a pequena defasagem de tempo impediria que o alvio e a
raiva explodissem, como uma sucesso de bancos de areia frustra e
interrompe o fluxo de um rio. O urso observou e viu o que ele estava
fazendo, e por que, e compreendeu ainda mais plenamente que o prprio
Will o que o garoto havia conseguido. Will guardou a faca de volta na
mochila e ele e o urso trocaram um outro olhar, mas de um tipo diferente
dessa vez. Eles se aproximaram e atrs deles os ursos comearam a
desmantelar o lana-chamas; os outros dois navios manobraram
aproximando-se do cais. Em terra, algumas pessoas comearam a limpar os
destroos, mas muitas mais se aproximaram, se acotovelando para ver
Will, curiosas com relao quele garoto e o poder que ele tinha de
dominar o urso. Estava na hora de Will se tornar insignificante de novo,
de modo que fez a mgica que desviava todos os tipos de curiosidade que
aprendeu com sua me, e que os mantivera seguros durante anos.  claro
que no era magia, mas apenas uma maneira de se comportar. Ele se
obrigou a ficar calado e tornou seu olhar lnguido, estpido e lento, e
em menos de um minuto tornou-se menos interessante, menos atraente para
a ateno humana. As pessoas simplesmente ficaram entediadas com aquele
menino estpido, o esqueceram e se afastaram. Mas, a ateno do urso no
era humana e ele podia ver o que estava acontecendo, e sabia que era
mais um outro poder extraordinrio 123 que Will dominava. Ele se
aproximou e falou baixinho, naquela sua voz que parecia roncar
profundamente como o motor do navio. -Qual  o seu nome? -perguntou.
-Will Parry .Voc pode fazer um outro elmo? -Posso. O que voc quer?
-Vocs esto seguindo rio acima. Quero ir com vocs. Estou indo para as
montanhas e esta  a maneira mais rpida de chegar l. Vai me levar?
-Levo. Quero ver aquela faca. -Eu s a mostrarei a um urso em quem possa
confiar. H um urso, de quem ouvi falar, que merece confiana.  o rei
dos ursos, um bom amigo da garota que estou indo procurar nas montanhas.
O nome dela  Lyra da Lngua Mgica. O urso se chama Iorek Byrnison. -Eu
sou Iorek Byrnison -declarou o urso. -Eu sei que  -disse Will. O
combustvel para o navio estava sendo embarcado; os caminhes
basculantes eram estacionados paralelamente, a caamba girada para o
lado e levantada para permitir que o carvo descesse com estrondo pelas
calhas para dentro do poro e a poeira negra subia alto, muito acima
deles. Sem ser visto pelas pessoas da cidade, que estavam ocupadas
varrendo cacos de vidro e discutindo o preo do combustvel, Will seguiu
o rei urso, subindo pela prancha de embarque, e entrou abordo do navio.
124 *9 RIO ACIMA ... UMA SOMBRA SE LANA SOBRE A MENTE QUANDO UMA NUVEM
ENVOLVE, AO MEIO-DIA, O TODO-PODEROSO SOL... EMILY DICKINSON -Deixe-me
ver a faca -disse IorekByrnison. -Eu entendo de metal. Nada que seja
feito de ferro ou ao  um mistrio para um urso. Mas nunca VI uma faca
como a sua e gostaria de poder examin-la de perto. Will e o urso rei
estavam na coberta de proa do vapor, sob os raios quentes do sol que se
punha, e a embarcao navegava rapidamente, fazendo progresso em sua
rota rio acima; havia bastante combustvel a bordo, havia comida que
Will pudesse comer, e ele e Iorek Byrnison estavam, pela segunda vez,
medindo e avaliando os mritos um do outro. J haviam feito isso uma
primeIra vez. Will estendeu a faca para Iorek, oferecendo primeiro o
cabo, e o urso a recebeu delicadamente. Sua garra-polegar ficava de
frente para as quatro garras-dedos, permitindo-lhe manipular objetos com
a mesma destreza que seres humanos, ento ele virou a faca para um lado,
depois para o outro, trouxe-a at bem perto dos olhos, segurando-a de
maneira 125 que refletisse a luz, testando o gume -o gume de ao -num
pedao de ferro velho. -Este gume  o que voc usou para cortar minha
armadura - disse ele. -O outro  muito estranho. No sei dizer o que ,
o que  capaz de fazer, como foi feito. Mas quero compreender o que .
Como foi que isto veio parar em suas mos? Will contou a ele a maior
parte do que havia acontecido, deixando de fora apenas as coisas que
diziam respeito somente a ele: sua me, o homem que tinha matado, seu
pai. -Voc lutou por ela e perdeu dois dedos? -perguntou o urso.
-Mostre-me o ferimento. Will estendeu a mo. Graas ao ungento de seu
pai, as superfcies cortadas estavam cicatrizando bem, mas ainda estavam
muito sensveis. O urso as cheirou. -Musgo-sangneo -concluiu. -E mais
alguma coisa que no consigo identificar .Quem lhe deu ISSO? -Um homem
que me disse o que deveria fazer com a faca. Ento ele morreu. Ele tinha
um pouco de ungento numa caixa de chifre e curou meu ferimento. As
bruxas tentaram, mas o feitio que fizeram no funcionou. -E o que ele
disse para voc fazer com a faca? -perguntou Iorek Byrnison,
entregando-a de volta a Will cuidadosamente. -Disse para us-la numa
guerra combatendo ao lado de Lorde Asriel -respondeu Will. -Mas primeiro
preciso salvar Lyra da Lngua Mgica. -Ento ns ajudaremos -disse o
urso, e o corao de Will deu um pulo de prazer. Ao longo dos dias
seguintes, Will descobriu por que os ursos estavam fazendo aquela viagem
para a sia Central, to longe de sua terra natal. Desde a catstrofe
que havia aberto os mundos, todo o gelo do rtico havia comeado a
derreter, e novas e estranhas correntes tinham 126 aparecido nas guas
do mar. Uma vez que os ursos dependiam do gelo e dos seres que viviam no
mar gelado, concluram que logo estariam passando fome se ficassem onde
estavam; e, sendo racionais, decidiram como deveriam reagir. Teriam que
migrar para onde houvesse neve e gelo em abundncia: iriam para as mais
altas montanhas, para a cadeia que tocava o cu, a meio mundo de
distncia, mas inabalvel, eterna e coberta por muita neve. De ursos do
mar eles se tornariam ursos das montanhas, pelo tempo que fosse
necessrio at que o mundo voltasse a se acomodar. -Ento vocs no
esto em guerra? -perguntou Will. -Nossos velhos inimigos desapareceram
com as focas e as morsas. Se encontrarmos novos inimigos, sabemos como
lutar. -Pensei que uma grande guerra estivesse em vias de comear e que
envolveria todo mundo. De que lado voc lutaria se isso acontecesse? -Do
lado que oferecesse mais vantagem para os ursos. Que dvida! Tenho
alguma estima por muito poucas pessoas entre os humanos. Uma delas era
um homem que voava num balo. Ele est morto. Outra  a bruxa Serafina
Pekkala. A terceira  a menina Lyra da Lngua Mgica. Primeiro eu faria
o que fosse melhor para os ursos. Depois, o que fosse melhor para a
criana, ou para a bruxa, ou que pudesse vingar meu companheiro morto,
Lee Scoresby.  por isso que vou ajudar voc a salvar Lyra da Lngua
Mgica daquela abominvel mulher Coulter. Iorek contou a Will como ele e
alguns de seus sditos tinham nadado at a foz do rio e pago o aluguel
daquela embarcao com ouro, contratado a tripulao e utilizado o
derretimento do rtico de maneira vantajosa para eles ao deixar que o
rio os levasse para o interior at onde fosse possvel- e, como sua
nascente ficava exatamente nos contrafortes do norte das montanhas que
estavam procurando e como Lyra tambm estava prisioneira l, as coisas
tinham calhado de correr muito bem at agora. E assim o tempo foi
passando. 127 Durante o dia, Will cochilava no convs, descansando,
reunindo foras, porque estava exausto em cada partcula de seu ser.
Observou,  medida que a paisagem comeou a mudar e a estepe de
ondulaes suaves foi dando lugar a morros baixos cobertos de relva
verdejante, e depois ao relevo de terras mais altas, com o desfiladeiro
ou a catarata ocasional; e mesmo assim o vapor continuou navegando rumo
ao sul. Ele conversava com o capito e com os tripulantes, por educao,
mas lhe faltava a facilidade de comunicao imediata que Lyra tinha com
estranhos, achava difcil encontrar muito para dizer; e, de qualquer
maneira, no estavam muito interessados nele. Aquilo era apenas um
trabalho e, quando estivesse terminado, eles partiriam sem olhar para
trs. Alm disso, no gostavam muito dos ursos, apesar de todo o ouro.
Will era um estrangeiro e desde que pagasse por sua comida, pouco se
importavam com o que ele fizesse. Para completar, havia aquele seu
estranho daemon, que parecia tanto com uma bruxa: s vezes estava l e
outras vezes parecia ter desaparecido. Supersticiosos, como muitos
marinheiros, ficavam bem contentes em deix-lo em paz. Balthamos, por
sua vez, tambm se mantinha calado. Por vezes seu sofrimento e luto se
tornavam demasiado intensos para que pudesse suport-los e deixava o
barco para voar bem alto, entre as nuvens, buscando qualquer retalho de
luz ou sabor de ar, quaisquer estrelas cadentes ou arestas de presso
que pudessem record-lo das experincias que havia compartilhado com
Baruch. Quando falava,  noite na escurido da pequenina cabina onde
Will dormia, era apenas para comunicar quanto tinham progredido e que
distncia ainda faltava percorrer para chegarem  caverna e ao vale.
Talvez ele pensasse que Will tinha pouca compreenso e simpatia a
oferecer por seu sofrimento, porm, caso tivesse buscado, teria
encontrado muita. Tornou-se cada vez mais brusco e formal, embora nunca
sarcstico; aquela promessa, pelo menos, ele cumpriu. Quanto a Iorek,
ele examinava a faca obsessivamente. Olhava para ela durante horas a
fio, testando os dois gumes, arqueando-a, segurando-a 128 no alto,
voltada para a luz, tocando-a com a lngua, cheirando-a e at escutando
o som que o ar fazia quando flua sobre sua superfcie. Will no se
preocupava com a faca, pois Iorek era, evidentemente, um artfice de
imenso e reconhecvel talento; tambm no temia por Iorek, por causa da
delicadeza de movimento daquelas patas poderosas. Afinal Iorek veio
procurar Will e disse: -Este outro gume. Ele faz alguma coisa que voc
no me contou. O que  e como funciona? -No posso mostrar a voc aqui
-respondeu Will- porque o navio est em movimento. Mas assim que
pararmos eu mostro. -Posso imaginar o que  -disse o urso, mas no
consigo compreender o que estou pensando.  a coisa mais estranha que j
vi. E devolveu a faca a Will, com um longo olhar desconcertante e
indecifrvel de seus olhos negros profundos. Naquela altura, o rio havia
mudado de cor, porque estava se encontrando com os restos das primeiras
guas das enchentes que tinham descido do rtico. Will constatou que as
convulses haviam afetado a terra de maneira diferente em diferentes
lugares; uma aldeia aps a outra estava mergulhada em gua at a altura
de seus telhados e centenas de pessoas desabrigadas tentavam salvar o
que podiam com barcos a remo e canoas. A terra devia ter afundado um
pouco ali, porque o rio se alargou e seu curso se tornou mais lento, e
era difcil para o piloto traar sua rota com preciso em meio s
correntes de guas largas e barrentas. O ar ali era mais quente e o sol
ficava mais alto no cu, os ursos tinham dificuldade para se refrescar;
alguns deles nadavam ao lado do vapor enquanto este ia seguindo,
sentindo o sabor das guas de sua terra natal naquela terra estranha.
Mas finalmente o rio se estreitou e se tornou mais profundo de novo e,
logo adiante deles, comearam a se elevar as montanhas do grande
planalto central asitico. Certo dia, Will viu uma borda de cor branca
no horizonte e ficou observando enquanto ela foi crescendo pouco a
pouco, se separando em diferentes picos, com cadeias e desfiladeiros 129
entre eles, e to altos que pareciam que deviam estar muito prximos
-apenas a alguns quilmetros, mas ainda estavam muito longe; era s que
as montanhas eram imensas e, a cada hora que delas se aproximavam,
pareciam ainda mais inconcebivelmente altas. A maioria dos ursos nunca
tinha visto montanhas, exceto pelos penhascos em sua prpria ilha,
Svalbard, e ficaram em silncio quando levantaram o olhar para os
gigantescos contrafortes, ainda to distantes. -O que caaremos por l,
Iorek Byrnison? -perguntou um deles. -Existem focas nas montanhas? Como
viveremos? -Existe neve e gelo -foi a resposta do rei. -Nos sentiremos
confortveis. E existem animais selvagens em abundncia. Nossa vida vai
ser diferente durante algum tempo. Mas vamos sobreviver e, quando as
coisas voltarem a ser como devem e o rtico congelar de novo, ns ainda
estaremos vivos para voltar e retom-lo. Se tivssemos ficado l,
teramos morrido de fome. Estejam preparados para coisas estranhas e
para novos hbitos, meus ursos. Afinal, chegou um momento em que o vapor
no podia mais navegar, porque naquele ponto o leito do rio se
estreitava e se tornava raso. O capito parou a embarcao no fundo de
um vale, que normalmente  teria estado coberto de relva e de flores da
montanha, onde o rio fazia meandros sobre leitos de cascalho; mas o vale
agora era um lago e o capito insistiu em que no se arriscaria a ir
alm dele, porque depois daquele ponto no haveria profundidade
suficiente abaixo da quilha, mesmo com a grande enchente do norte. De
modo que eles ancoraram junto a uma das paredes do vale, onde uma
salincia de rocha formava uma espcie de plataforma, e desembarcaram.
-Onde estamos agora? -perguntou Will ao capito, cujo ingls era
limitado. O capito encontrou um velho mapa meio rasgado e apontou com
seu cachimbo, dizendo: -Este vale aqui, ns agora. Voc leva, continua.
130 -Muito obrigado -agradeceu Will, e se perguntou se deveria oferecer
pagamento pelo mapa; mas o capito j tinha se afastado para
supervisionar o desembarque da carga. No demorou muito para que os
cerca de 30 ursos e suas armaduras estivessem na margem estreita. O
capito gritou uma ordem e a embarcao comeou a virar com grande
esforo contra a corrente, manobrando at chegar ao meio do curso, e
ento soltou um apito explosivo que ecoou por muito tempo pelas paredes
do vale. Will sentou sobre um pedregulho, lendo o mapa. Se estivesse
certo, o vale onde Lyra estava prisioneira, de acordo com o anjo, ficava
a alguma distncia para leste e para o sul, e o melhor caminho para
chegar l era atravs de uma passagem estreita entre as montanhas
chamada desfiladeiro Sungchen. -Ursos, marquem este lugar -disse Iorek
Byrnison para seus sditos. -Quando chegar a hora de voltarmos para o
rtico, nos reuniremos aqui. Agora sigam seus caminhos, cacem,
alimentem-se e vivam. No faam guerra. No estamos aqui para guerrear.
Se houver ameaa de guerra, mandarei cham-los. Os ursos eram, em sua
maioria, criaturas de hbitos solitrios e s se reuniam em tempos de
guerra ou em emergncias. Agora que se encontravam nos limites de uma
terra de neve, estavam impacientes para partir, todos eles, fazer suas
exploraes cada um por si. -Ento vamos andando, Will- disse Iorek
Byrnison, e encontraremos Lyra. Willlevantou a mochila e eles se puseram
em marcha. Foi bom caminhar durante a primeira parte da jornada. O sol
estava quente; mas os pinheiros e os rododendros mantinham o calor mais
forte longe de seus ombros e o ar era fresco e lmpido. O terreno era
rochoso, mas as pedras eram espessamente recobertas de musgo e de
agulhas de pinheiros, e as encostas que subiram no eram muito ngremes.
Will descobriu que estava adorando o exerccio. Os dias que havia
passado a bordo, o repouso forado tinham devolvido suas foras. 131
Quando havia encontrado Iorek, estivera realmente nas ltimas. No sabia
disso, mas o urso sabia. E, to logo ficaram sozinhos, Will mostrou a
Iorek como o outro gume da faca funcionava. Abriu uma janela para um
mundo onde uma floresta pluvial equatorial de atmosfera escaldante e
mida gotejava, e onde vapores carregados com perfume forte escaparam
pairando no ar rarefeito da montanha. Iorek observou atentamente, tocou
a borda da janela com a pata e a farejou; atravessou a janela e entrou
no ar quente e mido para olhar em silncio. Os guinchados dos macacos,
o piar dos pssaros, os zumbidos dos insetos, o coaxar dos sapos e o
gotejar incessante de vapor de gua se condensando pareceram soar muito
alto para Will, que estava do lado de fora. Ento Iorek voltou e
observou Will fechar a janela, ento pediu para ver a faca de novo,
olhando to de perto o gume de prata que Will achou que estivesse
correndo o risco de cortar o olho. Ele o examinou por muito tempo e
depois devolveu a faca sem fazer maiores comentrios, exceto o seguinte:
-Eu estava certo; no teria podido lutar contra isto. Ento seguiram
caminho, falando pouco, algo que agradava aos dois. Iorek Byrnison
capturou uma gazela e a comeu quase inteira, deixando a carne mais macia
para que Will cozinhasse. E, quando acerta altura chegaram a uma aldeia,
enquanto Iorek esperava na floresta, Will trocou uma de suas moedas de
ouro por uma poro de po rstico achatado, frutas secas, botas de
couro de iaque e um colete de uma espcie de pele de ovelha, pois estava
ficando frio  noite. Ele tambm conseguiu perguntar sobre o vale com os
arco-ris. Balthamos o ajudou, assumindo a forma de um corvo, igual ao
daemon do homem com quem Will estava falando; ele tornou mais fcil a
troca de informaes entre eles e Will conseguiu obter indicaes teis
e claras sobre o caminho. Ficava a mais trs dias de caminhada. Bem,
eles estavam chegando l. 132 Mas outros tambm estavam. O grupo armado
enviado por Lorde Asriel, a esquadrilha de girpteros e o zepelim-tanque
com combustvel haviam alcanado a abertura entre os mundos: a fenda no
cu acima de Svalbard. Ainda tinham um longo caminho pela frente, mas
voavam sem parar, exceto para os trabalhos de manuteno essenciais; o
comandante, o africano Rei Ogunwe, mantinha contato duas vezes por dia
com a fortaleza de basalto. Ele tinha um galivespiano operador de
magneto a bordo de seu girptero e por seu intermdio tomava
conhecimento com a mesma rapidez que Lorde Asriel do que estava
acontecendo nos outros lugares. As notcias eram desconcertantes. A
pequena espi, Lady Salmakia, havia observado escondida nas sombras
enquanto os dois poderosos braos da igreja, o Tribunal Consistorial de
Disciplina e a Sociedade do Ofcio do Esprito Santo, concordavam em pr
de lado suas diferenas e reunir seus conhecimentos. A Sociedade tinha
um aletometrista que era mais gil e mais talentoso que Frei Pavel e,
graas a ele, agora o Tribunal Consistorial sabia exatamente onde Lyra
estava, e mais: eles sabiam que Lorde Asriel havia enviado tropas para
resgat-la. Sem perder tempo, o Tribunal havia convocado uma frota de
zepelins e, naquele mesmo dia, um batalho da Guarda Sua comeou a
embarcar nos zepelins que esperavam no ar tranqilo acima do lago de
Genebra. De modo que cada lado tinha conhecimento de que o outro tambm
estava se dirigindo para a caverna nas montanhas. E ambos sabiam que
quem chegasse l primeiro levaria vantagem, mas essa vantagem no fazia
grande diferena: os girpteros de Lorde Asriel eram mais rpidos que os
zepelins do Tribunal Consistorial, mas tinham uma distncia maior a
percorrer, e eram limitados pela velocidade de seu zepelim-tanque. E
havia uma outra questo a considerar: quem quer que se apoderasse
primeiro de Lyra, teria que lutar contra o exrcito adversrio para
sair. Seria uma tarefa mais fcil para o Tribunal Consistorial, porque
133 eles no tinham que se preocupar em retirar Lyra em segurana.
Estavam voando para l para mat-la. O zepelim que transportava o
Presidente do Tribunal Consistorial tambm levava outros passageiros,
sem que ele tivesse conhecimento. O Cavaleiro Tialys havia recebido uma
mensagem em seu magneto ressonante, ordenando que ele e Lady Salmakia
entrassem clandestinamente a bordo. Quando os zepelins chegassem ao
vale, ele e Lady Salmakia deveriam abandonar o grupo e seguir adiante
independentemente, encontrar um meio de chegar  caverna onde Lyra
estava sendo mantida e proteg-la, da melhor forma possvel, at que as
foras do Rei Ogunwe chegassem para resgat-la. A segurana de Lyra
deveria ser considerada mais importante que qualquer outra coisa. Entrar
clandestinamente no zepelim era arriscado para os espies e no apenas
por causa do equipamento que tinham que carregar. Alm do magneto
ressonante, os itens mais importantes eram um par de larvas de inseto e
seus alimentos. Quando os insetos adultos emergissem, eles se pareceriam
mais com liblulas do que com qualquer outra coisa, mas no seriam
semelhantes a nenhum tipo de liblula que os humanos do mundo de Will,
ou de Lyra, jamais tivessem visto antes. Para comear, seriam muito
maiores. Os galivespianos criavam esses insetos com muito cuidado e os
insetos de cada cl diferiam dos de outros. O cl do Cavaleiro Tialys
criava robustas liblulas listradas de vermelho e amarelo, de apetites
vigorosos e brutais, enquanto a que Lady Salmakia estava alimentando
seria uma criatura esguia, capaz de voar rapidamente, com um corpo azul
eltrico e a capacidade de brilhar na escurido. Cada espio era
equipado com uma quantidade dessas larvas que, ao serem alimentadas com
quantidades cuidadosamente medidas de leo e de mel, podiam manter em
estado de animao suspensa ou trazer rapidamente  maturidade. Tialys e
Salmakia agora disporiam de 36 horas, dependendo dos ventos, para trazer
 plena maturidade aquelas larvas; 134 porque este era aproximadamente o
tempo que o vo levaria e precisavam que os insetos emergissem antes que
o zepelim aterrissasse. O Cavaleiro e sua colega encontraram um lugar
esquecido atrs de uma antepara e trataram de se acomodar em segurana,
enquanto a aeronave era carregada e abastecida; e ento os motores
comearam a rugir, fazendo tremer a estrutura leve de ponta a ponta,
enquanto a equipe de terra soltava as amarras e os oito zepelins subiam
no cu noturno. O povo deles teria considerado a comparao um insulto
mortal, mas os dois conseguiram se esconder no mnimo to bem quanto
ratos. Daquele esconderijo, os galivespianos conseguiam ouvir muita
coisa e mantiveram contato de hora em hora com Lorde Roke, que estava a
bordo do girptero do Rei Ogunwe. Mas havia uma coisa que no podiam
mais descobrir no zepelim, porque o Presidente em nenhum momento tocou
no assunto: e era a questo do assassino, Padre Gomez, que j havia sido
absolvido do pecado que iria cometer se o Tribunal Consistorial
fracassasse em sua misso. O Padre Gomez estava em outro lugar e ningum
sabia disso, nem o estava seguindo. 135 *10 RODAS DO MAR ELEVOU-SE UMA
NUVEM PEQUENINA COMO A MO DE UM HOMEM I REIS -Pois  -disse a menina
ruiva no jardim deserto do Cassino. Ns vimos essa mulher, eu e o Paolo,
ns dois vimos. Ela apareceu por aqui j faz alguns dias. -E se lembram
de como ela era? -perguntou o Padre Gomez. -Ela parecia estar com calor
-disse o garotinho. -Estava com o rosto todo suado. -Que idade ela
parecia ter? -Cerca de... -a menina parou para refletir. -Acho que
talvez uns 40 ou 50 anos. No a vimos de perto. Poderia ter, talvez, uns
30. Mas estava com calor, como disse o Paolo e estava carregando uma
mochila bem grande, muito maior que a sua, deste tamanho... Paolo
sussurrou alguma coisa para ela, franzindo e revirando os olhos para
espiar o padre enquanto o fazia. O sol batia forte em seu rosto. -Ah, -
disse a menina com impacincia, eu sei. Os Espectros -disse ela para o
Padre Gomez, ela no tinha medo nenhum dos Espectros. 136 Simplesmente
andou pela cidade e nem se preocupou. Nunca vi um adulto fazer isso
antes,  verdade. Ela parecia nem sequer saber que eles existiam. Igual
a voc -acrescentou, olhando para ele com desafio. -Tem muita coisa que
eu no sei -concordou o Padre Gomez em voz branda. O garotinho puxou a
manga da menina e sussurrou novamente. -Paolo disse -ela contou ao padre
-que acha que voc vai pegar a faca de volta. O Padre Gomez sentiu a
pele se arrepiar. Lembrou-se do depoimento do Frei Pavel durante a
investigao do Tribunal Consistorial: devia ser esta a faca que ele
tinha mencionado. -Se eu puder -respondeu, pegarei. A faca vem daqui?
-Da Torre degli Angeli -disse a menina, apontando para a torre quadrada
de pedra que se elevava acima dos telhados marrom-avermelhados. Ela
cintilava ao sol forte do meio-dia. -E O garoto que roubou a faca matou
nosso irmo Tullio. Os Espectros pegaram o Tullio, direitinho. Se voc
quiser matar esse garoto, tudo bem. E a menina, ela era uma mentirosa,
era to m quanto ele. -Ento a menina tambm esteve aqui? -perguntou o
padre tentando no parecer muito interessado. -Uma mentirosa nojenta
-disse a menina ruiva com dio. - Quase matamos os dois, mas ento
vieram umas mulheres, mulheres voadoras -Bruxas -disse Paolo. -Bruxas, e
no pudemos lutar contra elas. Levaram os dois embora, a menina e o
garoto. No sabemos para onde foram. Mas a mulher, ela veio depois.
Pensamos que talvez ela tivesse alguma espcie de faca, para conseguir
manter os Espectros longe,  verdade. E talvez voc tambm tenha -disse
ela, levantando o queixo para encar-lo com audcia. -Eu no tenho
nenhuma faca -respondeu o Padre Gomez. -Mas tenho uma tarefa sagrada a
cumprir. Talvez isso esteja me protegendo desses... Espectros. 137 --
disse a menina, pode ser. De qualquer maneira, se quer encontrar a
mulher, ela foi para o sul, para as montanhas. No sabemos para onde.
Mas pode perguntar a qualquer um, eles vo saber se ela tiver passado,
porque no tem ningum igual a ela em Cingazze, no tinha antes e no
tem agora. Ela vai ser fcil de achar. -Obrigado, Anglica -agradeceu o
padre. -Deus as abenoe, CrIanas. Ele ps a mochila nas costas, saiu do
jardim e seguiu seu caminho pelas ruas quentes e silenciosas:
sentindo-se satisfeito. Depois de passar trs dias na companhia dos
seres de rodas, Mary Malone sabia bastante mais coisas a respeito deles
e eles sabiam de muita coisa a respeito dela. Naquela primeira manh,
eles a carregaram durante uma hora, mais ou menos, pela estrada de
basalto at um povoado  margem de um rio, e a viagem foi
desconfortvel; ela no tinha onde se apoiar e o lombo da criatura era
duro. Seguiram rapidamente, numa velocidade que a assustava, mas o
trovar de suas rodas sobre a superfcie dura da estrada e o compasso
rpido de suas patas eram de tal maneira estimulantes que a deixavam
animada aponto de esquecer o desconforto. E durante o percurso ela foi
compreendendo melhor a fisiologia daqueles seres. Como os animais de
pasto, seus esqueletos tinham uma estrutura em forma de losango, com uma
perna em cada um dos cantos. Em algum momento, num passado distante, uma
linhagem de seres ancestrais deveria ter desenvolvido aquela estrutura e
descoberto que funcionava, exatamente como os seres rastejantes no mundo
de Mary haviam desenvolvido a coluna dorsal. A estrada de basalto seguia
gradualmente para um terreno mais baixo e, depois de algum tempo, o
declive aumentava, de modo que os seres podiam andar com as rodas
livres. Eles encolhiam as pernas laterais e pilotavam inclinando-se para
um lado ou para o outro, lanando-se numa velocidade que Mary achava
aterradora, embora tivesse que 138 admitir que o ser em que estava
montada nunca lhe desse a menor sensao de perigo. Se ao menos ela
tivesse algo em que pudesse se apoiar, bem que teria gostado. Na base da
encosta de um quilmetro e meio, havia um grupo de rvores imensas e nas
vizinhanas um rio serpenteava em meandros no terreno plano coberto de
relva. A alguma distncia Mary viu um claro que parecia uma extenso
maior de gua, mas no passou muito tempo olhando para aquilo, porque os
seres estavam se dirigindo para um povoado na margem do rio e ela estava
louca de curiosidade para v-lo. Havia 20 ou 30 cabanas, mais ou menos
agrupadas num crculo, feitas de -ela teve que proteger os olhos contra
o sol para ver -vigas de madeira cobertas com uma espcie de mistura de
taipa nas paredes e com telhado de colmo. Os outros seres de rodas
estavam trabalhando: alguns consertavam os telhados, outros puxavam uma
rede do rio, outros ainda traziam lenha para uma fogueira. De maneira
que eles possuam uma lngua, tinham fogo e tinham uma sociedade. E,
mais ou menos nesse momento, ela percebeu uma mudana ocorrendo em sua
mente,  medida que a palavra criaturas se tornou a palavra pessoa.
Aqueles seres no eram humanos, mas eram pessoas, disse a si mesma, no
so eles, eles so ns. Agora estavam bastante prximos e, vendo o que
estava se aproximando, alguns dos aldees levantaram a cabea e gritaram
uns para os outros para olhar. O grupo que vinha pela estrada reduziu a
velocidade at parar e Mary desmontou, sentindo os msculos enrijecidos
e sabendo que ficaria dolorida depois. -Muito obrigada -disse para
seu... seu o qu? Seu cavalo? Sua bicicleta? Ambas as idias eram
absurdamente erradas para a amabilidade de olhar brilhante e inteligente
que estava a seu lado. Ela se decidiu, escolhendo -amigo. Ele levantou a
tromba e imitou as palavras dela: -Mutobigada -disse, e mais uma vez
riram, satisfeitos da vida. 139 Ela pegou a mochila que estava com um
dos outros (bigada! bigada!) e os seguiu, saindo da faixa de basalto
para a terra batida da aldeia. E ento a integrao de Mary comeou de
verdade. Nos dias que se seguiram, ela aprendeu tanta coisa que se
sentiu como se fosse novamente uma criana, desnorteada com a escola.
Para completar, as pessoas de rodas pareciam estar igualmente
maravilhadas com ela. Para comear, havia suas mos. Eles pareciam nunca
se cansar delas: as trombas delicadas examinavam cada articulao,
percorrendo os polegares, os ns dos dedos e as unhas, flexionando-os
delicadamente e observando com espanto quando ela pegava a mochila,
levava comida  boca, se coava, penteava o cabelo, se lavava. Em troca,
deixaram que ela examinasse suas trombas. Eram infinitamente flexveis e
tinham aproximadamente o mesmo comprimento do brao de Mary, mais
grossas no ponto onde se uniam  cabea e suficientemente fortes para
esmagar seu crnio, imaginava. As duas projees semelhantes a dedos que
ficavam na ponta eram capazes de uma fora enorme e de grande
delicadeza; os seres pareciam poder variar o tnus da pele no interior,
no que seria o equivalente s pontas dos dedos, de uma maciez de veludo
a uma solidez semelhante  madeira. Em resultado disso, podiam us-las
tanto para tarefas delicadas, como ordenhar um dos animais de pasto,
quanto para tarefas mais duras, como arrancar e curvar galhos. Pouco
apouco, Mary se deu conta de que as trombas tambm desempenhavam um
papel na comunicao. Um movimento de tromba podia modificar o
significado de um som, de modo que a palavra que soava como "tchah"
significava gua quando acompanhada de um movimento circular da tromba
da esquerda para a direita, "chuva" quando a tromba se virava para cima
na ponta, "tristeza" quando se virava em curva para baixo e "novos
brotos de relva" quando fazia um rpido peteleco para a esquerda. To
logo percebeu isso, Mary os imitou, 140 movendo o brao o melhor que
podia da mesma maneira, e os seres perceberam que ela estava comeando a
falar com eles, e o encantamento deles foi radiante. Depois que
comearam a conversar (principalmente na lngua deles, apesar de ela ter
conseguido ensinar-lhes algumas palavras em sua lngua: sabiam dizer
"bigadu" e "reuva", "aavore", "cu" e "rio", e pronunciar o nome dela,
com alguma dificuldade), progrediram muito mais rapidamente. A palavra
deles para se referirem a si mesmos como povo era mulefa, mas um
indivduo era zalif. Mary achava que havia uma diferena entre os sons
para zalif macho e zalif fmea, mas era demasiado sutil para que ela
percebesse com facilidade. Comeou a escrever tudo aquilo, a compilar um
dicionrio. Mas antes de se permitir se entregar verdadeiramente quela
tarefa, pegou seu livro maltratado e as varetas de mileflio e perguntou
ao I Ching: eu deveria estar aqui fazendo isso ou deveria seguir adiante
para algum outro lugar e continuar procurando? A resposta foi: A
QUIETUDE significa deter-se, a verdadeira quietude consiste em manter-se
imvel quando chega o momento de se manter imvel e avanar quando chega
o momento de avanar. Desse modo a inquietao se dissipa; ento para
alm da luta e do tumulto individuais, se pode compreender as grandes
leis do universo e agir em harmonia com elas. E prosseguia: Montanhas
prximas umas das outras: a imagem da QUIETUDE. Assim o homem superior
no permite que sua vontade e seus pensamentos o levem alm da situao
em que se encontra. Uma resposta mais clara seria impossvel. Ela juntou
as varetas e guardou o livro e ento percebeu que havia atrado a
ateno de um crculo de seres que a observavam. Um deles disse:
Pergunta? Permisso? Curioso. Ela respondeu: Por favor. Pode olhar.
Muito delicadamente as trombas se moveram, separando as varetas no mesmo
movimento de contagem que ela estivera fazendo, ou virando 141 as
pginas do livro. Uma coisa que os deixava espantadssimos era o fato de
ela ter duas mos; o fato de que ela podia segurar o livro e virar as
pginas ao mesmo tempo. Adoravam observ-la cruzar os dedos, ou fazer a
brincadeira de criana: "Esta  a igreja e esta  a torre da igreja", ou
fazer o movimento repetido de sobrepor, esfregando, o dedo polegar com o
indicador que era o que Ama estava fazendo, exatamente naquele mesmo
momento, no mundo de Lyra, como feitio para afastar os maus espritos.
Depois de terem examinado as varetas de mileflio e o livro, eles os
embrulharam cuidadosamente no pano e os puseram na mochila de Mary. Ela
sentia-se feliz e tranqilizada pela mensagem da China antiga, porque
significava que o que mais queria fazer era, naquele momento, exatamente
o que deveria fazer. De modo que se dedicou a aprender mais a respeito
dos mulefas, com o corao feliz. Descobriu que havia dois sexos e que
eles viviam em casais monogamicamente. Seus filhos tinham uma infncia
bastante longa: dez anos pelo menos, crescendo muito lentamente, pelo
menos at onde conseguia interpretar a explicao deles. Havia cinco
crianas naquele povoado, um quase crescido e os outros em algum ponto
no meio do caminho e, por serem menores que os adultos, no conseguiam
usar as rodas das nozes. As crianas se moviam como os animais de pasto,
com as quatro patas no cho, mas a despeito de toda a sua energia e
vontade de viver aventuras (correndo at junto de Mary e ento se
afastando timidamente, tentando subir pelos troncos das rvores,
despencando nas guas rasas, e assim por diante), pareciam desajeitadas,
como se estivessem fora de seu elemento. Em contraste, a velocidade e a
graa dos adultos era surpreendente, e Mary percebeu o quanto um jovem
em fase de crescimento devia ansiar pelo dia em que as rodas lhe
caberiam. Ela observou a criana mais velha, certo dia, ir
silenciosamente at a casa que servia de depsito, onde uma quantidade
de nozes eram guardadas, e experimentar encaixar sua garra dianteira no
buraco central; mas, 142 quando tentou se levantar, caiu imediatamente,
ficando preso, e o som atraiu um adulto. A criana lutou para se soltar,
guinchando de aflio, e Mary no conseguiu conter o riso diante do
quadro, o pai indignado e a criana travessa apanhada em flagrante, que
conseguiu se soltar no ltimo minuto e sair correndo. As rodas de nozes
eram claramente da maior importncia e logo Mary comeou a compreender
exatamente o quanto eram valiosas. Para comear, os mulefas passavam a
maior parte do tempo cuidando da manuteno de suas rodas. Levantando e
girando a garra, com destreza, eles deslizavam-na para fora do buraco e
ento usavam a tromba para examinar toda a roda, limpando a borda do
buraco, verificando se havia rachaduras. A garra era formidavelmente
forte, como uma espora de chifre ou de osso, saindo em ngulo reto com
relao  perna e ligeiramente curvada de modo que a parte mais alta, no
meio, sustentava o peso ao se apoiar no interior do buraco. Certo dia
Mary ficou observando enquanto uma zalif examinava o buraco em sua roda
da frente, tocando aqui e ali, levantando a tromba no ar e levando-a de
volta, como se testando o aroma. Mary lembrou-se do leo que havia
descoberto em seus dedos quando examinara a primeira noz. Depois de
pedir permisso  zalif, examinou sua garra e descobriu que a superfcie
era mais lisa e escorregadia do que qualquer coisa que j havia tocado
em seu mundo. Seus dedos simplesmente no conseguiam ficar parados sobre
aquela superfcie. A garra inteira parecia impregnada do leo
ligeiramente perfumado e depois de ter visto uma quantidade de aldees
experimentando o aroma, testando, verificando o estado de suas rodas e
garras, comeou a se perguntar o que teria vindo primeiro: roda ou
garra? "Ciclista" ou rvore? Embora, evidentemente, tambm houvesse um
terceiro elemento, e este era a geologia. Os seres s podiam usar rodas
num mundo que lhes oferecesse estradas naturais. Devia haver algum
aspecto na composio daqueles derramamentos de lava que os fazia correr
em tiras, como se fossem fitas estendidas, 143 sobre a vasta savana e
serem to resistentes s intempries e rachaduras. Pouco a pouco, Mary
comeou a ver a maneira como tudo era interligado e, aparentemente, tudo
aquilo era administrado pelos mulefas. Eles sabiam qual era a
localizao de todos os rebanhos de animais de pasto, de todos os
bosques de rvores-das-rodas, de todos os recantos de relva doce, e
conheciam todos os indivduos nos rebanhos, e cada rvore separadamente,
e discutiam seu bem-estar e seu destino. Numa ocasio, ela viu os
mulefas escolherem um rebanho de animais de pasto, selecionando alguns
indivduos e afastando-os do resto, para depois dar cabo deles
quebrando-lhes o pescoo com uma violenta torcida de tromba. Nada foi
desperdiado. Segurando flocos de pedra afiados como gilete com a
tromba, os mulefas tiraram apele e limparam os animais em minutos,
depois deram incio a um cuidadoso trabalho de corte da carne, separando
as partes no aproveitadas, a carne macia e as juntas mais duras,
cortando a gordura, removendo os chifres e os cascos, trabalhando de
maneira to eficiente que Mary admirou com o prazer que sentia ao ver
qualquer coisa ser bem-feita. Em pouco tempo, tiras de carne estavam
penduradas para secar ao sol e outras tinham sido cobertas de sal e
embrulhadas em folhas; as peles tinham sido absolutamente limpas de toda
gordura, que foi separada para ser usada mais tarde, e depois postas de
molho em poos de gua cheios de pedaos de casca de carvalho para
curtir; e a criana mais velha estava brincando com um par de chifres,
fingindo ser um animal de pasto, fazendo as outras crianas rirem.
Naquela noite houve carne fresca para comer e Mary se banqueteou. Da
mesma maneira, os mulefas sabiam onde se podia apanhar os melhores
peixes e exatamente quando e onde lanar suas redes. Procurando alguma
coisa que pudesse fazer, Mary se dirigiu aos rendeiros e se ofereceu
para ajudar. Quando ela viu como eles trabalhavam, no cada um por si,
mas de dois em dois, movendo as trombas em conjunto para dar um n,
compreendeu como tinham ficado surpreendidos com 144 suas mos, pois 
claro que ela podia dar ns sozinha. De incio, acreditou que aquilo lhe
dava uma vantagem -no precisava de mais ningum; mas depois percebeu
como aquilo a mantinha distante dos outros. Talvez todos os seres
humanos fossem assim. E, a partir daquele momento, usou s uma das mos
para dar ns nas fibras, dividindo sua tarefa com uma zalif fmea que
havia se tornado sua amiga pessoal, dedos e tromba se movendo para
dentro e para fora juntos. Mas de todas as coisas vivas de que o povo de
rodas cuidava, era com as rvores-das-rodas que tinham maior cuidado.
Havia meia dzia de arvoredos naquela rea que estavam sob os cuidados
daquele grupo. Havia outros mais distantes, mas esses eram de
responsabilidade de outros grupos. A cada dia uma equipe saa para
verificar o bem-estar das grandiosas rvores e para colher quaisquer
nozes que tivessem cado. O que os mulefas tinham a ganhar era evidente;
mas como as rvores poderiam se beneficiar desse intercmbio? Um belo
dia ela viu. Estava montada acompanhando o grupo, quando, de repente,
houve um rudo alto, craque, e todo mundo parou imediatamente, rodeando
um indivduo cuja roda havia se partido. Todo grupo levava consigo uma
ou duas de reserva, de modo que o zalif com a roda quebrada logo estava
novamente aparelhado; mas a roda quebrada foi cuidadosamente embrulhada
num pano elevada de volta para o povoado. L eles a abriram, retiraram
todas as sementes -ovais, achatadas e de cor clara, do tamanho da unha
do dedo mindinho de Mary -e examinaram cada uma cuidadosamente. Ento
explicaram que as nozes precisavam do atrito e do desgaste constantes,
que recebiam nas superfcies duras das estradas, para poderem se partir
e, tambm, que as sementes eram difceis de germinar. Sem os cuidados
dos mulefas, as rvores morreriam todas. Uma espcie dependia da outra
e, alm disso, era o leo que tornava tudo possvel. Era difcil
compreender, mas eles pareciam estar dizendo que o leo era o elemento
mais importante para a capacidade de pensar e de sentir que possuam; e
que os jovens no 145 tinham a sabedoria dos mais velhos porque no
podiam usar as rodas e, desse modo, absorver o leo atravs de suas
garras. E foi ento que Mary comeou a ver a ligao entre os mulefas e
a questo que havia ocupado os ltimos anos de sua vida. Mas, antes que
ela pudesse examin-la melhor (e as conversas com os mulefas eram longas
e complexas, porque eles adoravam qualificar e ilustrar seus argumentos
com dzias de exemplos, como se no tivessem se esquecido de nada e
todas as coisas de que jamais tivessem tido conhecimento estivessem
imediatamente disponveis para referncias), o povoado foi atacado. Mary
foi a primeira a ver os atacantes se aproximando, embora no soubesse o
que eram. Aconteceu no meio da tarde, quando estava ajudando a consertar
o telhado de uma cabana. Os mulefas s construam um andar, porque no
eram muito chegados a subidas; mas Mary no se incomodava de escalar at
o telhado e podia colocar o colmo e amarr-lo na estrutura com suas duas
mos, depois que lhe ensinaram a tcnica, muito mais rapidamente que
eles. De modo que estava sentada, apoiada nas vigas de uma casa, pegando
os maos de colmo que eram jogados para cima, para ela, e apreciando a
brisa fresca que vinha da gua, que estava amenizando o calor do sol,
quando seu olhar foi atrado por um lampejo branco. Vinha daquele lugar
de brilho distante que pensava ser o mar. Protegeu os olhos com a mo e
viu uma -duas -mais -uma frota de velas brancas altas emergindo da nvoa
quente, a alguma distncia, dirigindo-se com graa silenciosa para a foz
do rio. Mary!, chamou o zalif l embaixo. O que est vendo? Ela no
conhecia a palavra para vela, ou barco, de modo que disse alto, branco,
muitos. Imediatamente o zalif deu um grito de alarme e todo mundo que
pde ouvi-lo parou de trabalhar e correu para o centro do povoado, 146
chamando as crianas. Em menos de um minuto todos os mulefas estavam
prontos para fugir. Atal, a sua amiga, chamou: Mary! Mary! Venha!
Tualapi! Tualapi! Tudo tinha acontecido to depressa que Mary mal tivera
tempo de se mexer. A essa altura as velas j tinham entrado no rio,
avanando com facilidade contra a corrente. Mary ficou impressionada com
a disciplina dos marinheiros: manobravam to rapidamente, as velas se
movendo juntas como um bando de estorninhos, todas mudando de direo
simultaneamente. E eram to bonitas, aquelas velas esguias, brancas como
a neve, se dobrando e se inclinando e se enfunando - Havia umas 40
velas, no mnimo, e estavam subindo o rio muito mais rapidamente do que
ela havia imaginado. Mas no viu tripulantes abordo e ento se deu conta
de que no eram absolutamente barcos: eram pssaros gigantes e as velas
eram suas asas, uma na proa e uma na popa, mantidas erguidas e
flexionadas, sendo manobradas pela fora de seus prprios msculos. No
havia tempo para parar e estud-los, porque j haviam chegado  margem e
estavam subindo. Eles tinham pescoos como os de cisnes e bicos to
compridos quanto seu antebrao. As asas eram duas vezes mais altas que
ela e -lanando um olhar rpido para trs, por sobre o ombro, agora
assustada, enquanto fugia -eles tinham pernas poderosssimas: no era de
espantar que se movessem to depressa na gua. Ela correu muito atrs
dos mulefas, que gritavam seu nome enquanto corriam para fora do povoado
e seguiam para a estrada. Ela os alcanou bem a tempo: sua amiga Atal
estava esperando, e enquanto Mary montava em suas costas ela comeou
abater com os ps na estrada, se afastando a toda a velocidade, e
subindo a encosta atrs de seus companheiros. Os pssaros, que no
podiam se mover com a mesma velocidade em terra, logo desistiram da
perseguio e se viraram de volta para o povoado. 147 Eles abriram com
violncia os depsitos de alimentos, rosnando e rugindo, atirando os
bicos cruis para o alto, enquanto engoliam a carne-seca e todas as
frutas em conserva e os cereais. Tudo que havia de comestvel
desapareceu em menos de um minuto. E ento os tualapi descobriram o
depsito de rodas e tentaram abrir a pancadas as grandes nozes, mas
estava alm de suas foras. Mary sentiu seus amigos ficarem tensos de
preocupao ao seu redor, enquanto observavam do alto do pequeno morro e
viram uma noz depois da outra ser atirada no cho, chutada, arranhada
pelas garras das pernas poderosas, mas  claro que no sofreram nenhum
dano por causa disso. O que preocupava os mulefas era que vrias delas
estavam sendo empurradas aos trancos e com cotoveladas para dentro da
gua do rio, onde flutuavam pesadamente, descendo o rio em direo ao
mar. Ento os grandes pssaros brancos como a neve comearam a demolir
tudo que viam pela frente com brutais golpes longitudinais de seus ps e
com movimentos penetrantes, destruidores, sacudindo e arrancando as
coisas com seus bicos. Os mulefas ao redor de Mary estavam sussurrando,
quase chorando de tristeza. Eu ajudo, disse Mary. Ns fazemos de novo.
Mas as criaturas vis no tinham acabado ainda; levantando as belas asas
bem alto, agacharam-se em meio  devastao e esvaziaram seus
intestinos. O cheiro subiu a encosta trazido pela brisa; pilhas e poas
de excrementos verde-preto-marrom-esbranquiados se espalhavam em meio
s vigas partidas e aos maos de colmo espalhados. Ento, seus
movimentos desajeitados em terra dando-lhes um andar pomposo afetado, os
pssaros seguiram de volta para a gua e saram velejando, descendo o
rio, em direo ao mar. S quando a ltima asa branca tinha desaparecido
na neblina da tarde foi que os mulefas tornaram a descer pela estrada.
Estavam cheios de dor e raiva, mas principalmente estavam tremendamente
preocupados com o depsito de nozes. 148 Das 15 nozes que tinham estado
ali, s restavam duas. O resto tinha sido empurrado at a gua e
perdido. Mas, havia um banco de areia na curva seguinte do rio; e Mary
teve a impresso de avistar uma roda que tinha ficado presa ali; de modo
que, para a surpresa e aflio dos mulefas, ela tirou as roupas, amarrou
um pedao de corda em volta da cintura e nadou at l. No banco de areia
ela encontrou no uma, mas cinco das preciosas rodas, e passando a corda
pelas suas macias cavidades centrais, nadou de volta puxando-as atrs de
si. Os mulefas ficaram cheios de gratido. Eles nunca entravam na gua e
s pescavam da margem, tomando cuidado para manter os ps e as rodas
secos. Mary sentiu que finalmente tinha feito alguma coisa til para
eles. Mais tarde naquela noite, depois de uma parca refeio de razes
doces, eles contaram a ela por que tinham ficado to preocupados com as
rodas. Outrora, tinha havido um tempo em que as nozes eram abundantes e
em que o mundo era rico e cheio de vida, e os mulefas viviam com suas
rvores em perptua felicidade. Mas alguma coisa havia acontecido,
muitos anos atrs; alguma virtude havia sado e abandonado aquele mundo;
porque, a despeito de todo o esforo, todo o amor e ateno que os
mulefas pudessem dar a elas, as rvores-das-rodas estavam morrendo. 149
*11 AS LIBLULAS UMA VERDADE DE M F CONTADA  CAPAZ DE DERROTAR
QUALQUER MENTIRA POR TI INVENTADA WILLIAM BLAKE Ama subiu a trilha que
levava  caverna com leite e po na sacola s costas e uma dvida
terrvel fazendo pesar seu corao. Que jeito neste mundo poderia dar
para conseguir chegar perto da menina adormecida? Ela alcanou o
pedregulho onde a mulher lhe dissera para deixar a comida. Colocou as
coisas no cho, mas no voltou direto para casa; subiu mais um pouco,
ultrapassando a caverna e a massa espessa de rododendros, depois mais um
pouco ainda, at onde as rvores ficavam mais escassas e os arco-ris
comeavam. Ali, ela e seu daemon costumavam fazer uma brincadeira:
subiam acima das reentrncias na rocha e das pequenas cachoeiras
verde-esbranquiadas, passando pelos redemoinhos e pela espuma colorida
do espectro solar, at que os cabelos e as plpebras dela e o plo de
esquilo dele ficavam totalmente cobertos por um milho de minsculas
prolas de gua. A brincadeira era chegar ao topo sem limpar os olhos,
apesar da tentao, e logo a luz do sol brilhava e se dispersava em
vermelho, 150 amarelo, verde, azul e todas as cores intermedirias, mas
no podia passar a mo nos olhos para ver melhor at que se tivesse
chegado ao topo, seno estaria perdido o jogo. Seu daemon, Kulang,
saltou para a rocha que ficava na beira da pequena cachoeira mais alta e
ela sabia que imediatamente se viraria para se assegurar de que ela no
limparia a gua dos clios -s que ele no se virou. Em vez disso, ficou
agarrado na pedra, olhando para a frente. Ama limpou os olhos, porque o
jogo estava cancelado pela surpresa que seu daemon estava sentindo.
Quando escalou at ali para olhar por sobre a beirada, deu um pequeno
soluo de susto e ficou imvel, porque olhando para baixo, direto para
ela, estava a cara de um bicho que nunca vira antes: um urso, mas
imenso, aterrador, com quatro vezes o tamanho dos ursos pardos da
floresta e branco como marfim, com um focinho preto e olhos pretos, e
garras compridas como punhais. Ele estava apenas  distncia de um
brao. Ela podia ver cada plo em sua cabea. -Quem  essa? -disse a voz
de um garoto e, embora Ama no compreendesse as palavras, percebeu o
sentido com muita facilidade. Depois de um instante o garoto apareceu ao
lado do urso: com uma expresso feroz, olhos franzidos e o queixo
levantado. E seria aquilo ao lado dele um daemon, com forma de pssaro?
Mas um pssaro to estranho: diferente de todos que ela conhecia. Ele
voou at Kulang e falou rapidamente: Amigos. No vamos machucar vocs. O
grande urso branco no havia se movido um milmetro. -Suba at aqui
-disse o garoto e mais uma vez seu daemon traduziu para ela o sentido do
que ele dizia. Vigiando o urso com respeito e temor supersticiosos, Ama
subiu at o lado da pequena cachoeira e ficou parada timidamente no
rochedo. Kulang se transformou numa borboleta e pousou por um instante
em sua face, mas logo saiu para esvoaar em volta do outro daemon, que
estava pousado no ombro do garoto. 151 -Will- disse o garoto apontando
para si mesmo, e ela respondeu: -Ama. -Agora que podia v-lo direito,
estava quase com mais medo do garoto do que do urso: ele tinha um
ferimento terrvel: faltavam dois de seus dedos. Ama ficou tonta quando
viu aquilo. O urso se virou, entrando no riacho de guas leitosas, e se
deitou na gua, como que para se refrescar. O daemon do garoto levantou
vo e ficou esvoaando com Kulang entre os arco-ris e pouco a pouco
eles comearam a se entender. E o que ela descobria que eles estavam
procurando, seno uma caverna com uma garota adormecida? As palavras
jorraram numa torrente em sua resposta: -Eu sei onde ! E ela est sendo
mantda adormecida  fora, pela mulher que diz ser sua me, mas nenhuma
me seria to malvada, no ? A mulher a obriga a beber um lquido que a
faz dormir, mas eu tenho umas ervas para fazer com que ela acorde, se ao
menos conseguisse chegar junto dela! Will podia apenas sacudir a cabea
e esperar que Balthamos traduzisse. Levou mais de um minuto. -Iorek
-chamou, e o urso veio andando pesadamente at junto da margem do
riacho, lambendo os beios, pois acabara de engolir um peixe. -Iorek
-disse Will-, essa menina diz que sabe onde Lyra est. Vou at l com
ela para ver, enquanto voc fica aqui de vigia. Iorek Byrnison, parado
de quatro dentro do riacho, assentiu silenciosamente. Will escondeu a
mochila e afivelou a faca no cinto, antes de descer com alguma
dificuldade entre os arco-ris com Ama. Ele teve que esfregar os olhos e
se esforar para enxergar em meio aos reflexos ofuscantes para ver onde
era seguro pr os ps; a nvoa que enchia o ar estava gelada. Quando
chegaram  base das cachoeiras, Ama indicou que deveriam ir com cuidado
e no fazer barulho, e Will foi andando atrs dela, descendo a encosta,
por entre os rochedos cobertos de musgo e os imensos troncos retorcidos
dos pinheiros, onde a luz salpicada danava 152 num verde intenso, e um
bilho de minsculos insetos zumbiam e cantavam. E seguiram descendo e
descendo cada vez mais; ainda assim, a luz do sol os seguiu, penetrando
nas profundezas do vale, enquanto acima os galhos se agitavam sem cessar
no cu claro. Ento Ama parou. Will se escondeu atrs do tronco macio
de um cedro e olhou para onde ela estava apontando. Atravs de um
emaranhado de folhas e de galhos, ele viu a parede lateral de um
penhasco que se erguia verticalmente  direita e, a meio caminho na
subida -A Sra. CoUlter -sussurrou, seu corao batendo acelerado. A
mulher apareceu saindo de trs de um pedregulho e sacudiu um galho
coberto de folhas antes de larg-lo e esfregar as mos para limp-las.
Ser que estivera varrendo o cho? Suas mangas estavam arregaadas e o
cabelo preso por um leno. Will nunca poderia t-la imaginado com uma
aparncia to domstica. Mas ento houve um lampejo de dourado e aquele
macaco feroz apareceu, saltando sobre seu ombro. Como se estivessem
desconfiando de alguma coisa, os dois olharam atentamente ao redor e, de
repente, a Sra. Coulter no parecia mais nem um pouco domstica. Ama
estava sussurrando em tom urgente: tinha medo do daemon macaco dourado;
ele gostava de arrancar as asas de morcegos enquanto ainda estavam
vivos. -H mais algum com ela? -perguntou Will. -Nenhum soldado ou
coisa parecida? Ama no sabia. Nunca tinha visto soldados, mas, de fato,
as pessoas falavam de homens estranhos e assustadores, ou podiam ser
fantasmas, vistos nas encostas durante a noite... Mas sempre houvera
espritos e fantasmas nas montanhas, todo mundo sabia disso. De modo que
podiam no ter nada a ver com a mulher. Bem, pensou Will, se Lyra est
na caverna e a Sra. Coulter no sair, vou ter que ir l fazer uma
visita. -O que  esse remdio que voc tem? -perguntou Will. - O que
voc tem de fazer para acord-la? 153 Ama explicou. -E onde est agora?
Em minha casa, respondeu. Escondido. -Ento est certo. Espere aqui e
no se aproxime. Quando encontrar com ela, no deve dizer que me
conhece. Voc nunca me viu, nem viu o urso. Quando deve voltar para
trazer comida para ela? Meia hora antes do pr-do-sol, respondeu o
daemon de Ama. -Ento, quando voltar traga o remdio -instruiu Will. -Eu
me encontro com voc aqui. Ela ficou observando com intensa preocupao
enquanto ele seguia descendo a trilha. Com certeza no acreditava no que
ela havia acabado de contar sobre o daemon macaco, caso contrrio ele
no estaria indo para a caverna to displicentemente. Na verdade, Will
estava muito nervoso. Todos os seus sentidos pareciam mais aguados; de
modo que percebia at os insetos mais minsculos esvoaando nos raios de
sol e o farfalhar de cada folha, o movimentO das nuvens acima, apesar de
seus olhos em nenhum momento terem se despregado da boca da caverna.
-Balthamos -sussurrou, e o anjo daemon voou at seu ombro sob a forma de
um passarinho de olhos brilhantes com asas vermelhas. -Fique perto de
mim e vigie aquele macaco. -Ento olhe para a direita -respondeu
Balthamos secamente. E Will viu um lampejo de luz dourada na boca da
caverna que tinha cara e olhos e os estava observando. Eles estavam a
menos de 20 passos de distncia. Will se deteve, ficando imvel, e o
macaco dourado virou a cabea para olhar para dentro da caverna, disse
alguma coisa e virou-se de volta para ele. Will ps a mo no cabo da
faca, ento continuou a andar. Quando chegou  caverna, a mulher estava
esperando por ele. Estava sentada muito confortavelmente em sua
cadeirinha de lona, com um livro no colo, observando-o calmamente.
Vestia roupas de viagem de cor cqui, mas eram to bem cortadas e seu
corpo era to 154 gracioso que parecia um modelo de altssima costura, e
o pequeno buqu de botes de flores vermelhas que ela tinha prendido na
camisa parecia a mais elegante das jias. Os cabelos dela brilhavam e
seus olhos escuros faiscavam, as pernas nuas reluziam bronzeadas sob a
luz dourada do sol. Ela sorriu. Will quase retribuiu o sorriso, porque
no estava habituado com a doura e delicadeza que uma mulher podia
incutir num sorriso, e aquilo o deixou inquieto. -Voc  Will -disse
ela, naquela voz baixa, inebriante. -Como sabe o meu nome? -perguntou em
tom mal-educado. -Lyra diz seu nome quando est dormindo. -Onde est
ela? -A salvo. -Quero v-la. -Ento venha -disse ela e se levantou,
largando o livro sobre a cadeira. Pela primeira vez desde que chegara 
presena da Sra. Coulter, Will olhou para o daemon macaco dourado. O
plo dele era longo e lustroso, cada fio parecendo ser feito de ouro
puro, muito mais fino do que cabelo humano, e sua carinha e mos eram
pretas. Da ltima vez que Will tinha visto aquela cara, contorcida de
dio, fora na noite em que ele e Lyra tinham roubado de volta o
aletmetro de Sir Charles Latrom, na casa em Oxford. O macaco tinha
tentado mord-lo com os dentes afiados at que Will golpeara, da
esquerda para a direita, com a faca, obrigando o daemon a recuar, de
modo que pudesse fechar a janela e prend-los num mundo diferente. Will
refletiu que, agora, nada no mundo o faria dar as costas quele macaco.
Mas Balthamos, sob a forma de passarinho, o estava vigiando atentamente,
e Will entrou pisando com cuidado no solo da caverna e seguiu a Sra.
Coulter at o vulto pequenino deitado imvel nas sombras. E l estava
ela, sua amiga mais querida, adormecida. Parecia to pequenina! Ele
ficou surpreendido com o fato de que toda a fora e fogo 155 que eram
Lyra pudessem torn-la frgil e delicada quando estava dormindo.
Enroscado em seu pescoo estava Pantalaimon sob sua forma de arminho, a
pelagem reluzindo, e os cabelos de Lyra escorriam midos colados em sua
testa. Will se ajoelhou ao lado dela e afastou os cabelos. O rosto de
Lyra estava pelando. Pelo canto do olho Will viu o macaco dourado
agachado, pronto para dar o bote, e ps a mo sobre a faca, mas a Sra.
Coulter sacudiu a cabea muito ligeiramente e o macaco relaxou. Sem
parecer faz-lo, Will eStava memorizando com exatido o interior da
caverna: a forma e o tamanho de cada rocha, a inclinao do solo, a
altura exata do teto acima da garota dormindo. Teria que saber por onde
passar e encontr-la no escuro, e aquela era a nica OpOrtunidade que
teria de investigar isso. -Como est vendo, ela est em segurana -disse
a Sra. Coulter. -Por que a est mantendo aqui? E por que no deixa Lyra
acordar? -Vamos nos sentar. Ela no voltou para a cadeira em vez disso,
veio sentar-se com ele nas pedras cobertas de musgo na entrada da
caverna. Parecia to gentil e havia uma sabedoria to triste em seus
olhos, que a desconfiana de Will aumentou. Sentia que cada palavra que
ela dizia era uma mentira, que todas as suas aes escondiam uma ameaa
e cada sorriso era uma mscara de fingimento. Bem, ele teria que lhe dar
o troco e engan-la: teria que faz-la acreditar que era inofensivo. Mas
havia enganado muito bem todos os professores e policiais, todas as
assistentes sociais e vizinhos que algum dia tinham demonstrado algum
interesse por ele e por sua casa; vinha se preparando para isso durante
sua vida inteira. Certo, pensou ele. Posso cuidar muito bem de voc.
-Gostaria de beber alguma coisa? -perguntou a Sra. Coulter. -Eu tambm
vou beber... No h nenhum perigo. Veja. Ela cortou uma estranha fruta
marrom enrugada e espremeu o suco leitoso em duas pequenas canecas.
Bebeu numa e ofereceu a outra a Will, que tambm bebericou e achou o
suco fresco e doce. 156 -Como voc conseguiu chegar aqui? -perguntou
ela. -No foi difcil seguir vocs. -Estou vendo. Voc est com o
aletmetro de Lyra? -Estou -respondeu, e deixou que ela tentasse
descobrir sozinha se sabia us-lo ou no. -E voc tem uma faca, pelo que
me disseram. -Foi Sir Charles quem lhe contou isso, no foi? -Sir
Charles? Ah. ..o Carlo,  claro. Foi ele, sim. Deve ser fascinante.
Posso v-la? -No,  claro que no- retrucou. -Por que est mantendo
Lyra aqui? -Porque eu a amo -disse ela. -Sou a me dela. Ela est
correndo um perigo terrvel e no vou permitir que nada acontea a ela.
-Perigo de qu? -perguntou Will. -Bem... -disse ela, e colocou a
canequinha no cho, inclinando-se para a frente de maneira que seus
cabelos balanassem dos dois lados de seu rosto. Quando tornou a erguer
o tronco, puxou os cabelos para trs, enfiando-os atrs das orelhas com
as duas mos, e Will sentiu a fragrncia de algum perfume que ela estava
usando, combinado com o cheiro fresco de seu corpo, e se sentiu
inquieto. Se a Sra. Coulter percebeu sua reao, no demonstrou. Ento
prOSSeguiU. -Olhe, Will, no sei como voc veio a conhecer minha filha e
no sei do que voc j sabe, e, certamente, no sei se posso confiar em
voc; mas, igualmente, estou cansada de ter que mentir. De modo que aqui
vai a verdade: E prosseguiu. -Descobri que exatamente as pessoas da
instituio  qual eu pertencia, a igreja, constitUem um perigo para
minha filha. Francamente, eu acho que eles querem mata-la. De modo que
me VI diante de um dilema, sabe: obedecer  igreja ou salvar minha
filha. E eu tambm era uma servidora fiel da igreja. No havia ningum
mais dedicado; dei minha vida  igreja; fui sua servidora apaixonada
-ela fez uma pausa. 157 -Mas tive esta filha... -Ela se calou. -Sei que
no cuidei bem dela quando era pequena. Foi tirada de mim e criada por
estranhos. Talvez isso tenha tornado difcil para ela confiar em mim.
Mas quando estava crescendo, vi o perigo que estava correndo e, agora,
j por trs vezes, tentei salv-la desse perigo. Tive que me tornar uma
renegada e me esconder neste lugar remoto e pensei que estivssemos em
segurana; mas, agora, acabo de descobrir que voc nos achou com tanta
facilidade... bem, acho que pode compreender, isso me preocupa. A igreja
no deve estar muito longe de voc. E eles querem mat-la, Will. Eles
no permitiro que ela viva. -Por qu? Por que eles a odeiam tanto? -Por
causa do que acreditam que ela vai fazer. No sei o que ; gostaria
muito de saber, pois assim poderia mant-la ainda mais segura. Mas tudo
o que sei  que eles a odeiam e que no tm misericrdia, nenhuma. Ela
se inclinou para a frente, falando em tom urgente, baixo e cauteloso.
-Por que estou contando isso a voc? -continuou. -Posso confiar em voc?
Acho que vou ter que confiar. No posso mais fugir, no h mais para
onde ir. E se voc  amigo de Lyra, poderia ser meu amigo tambm. E eu
realmente estou precisando de amigos, realmente estou precisando de
ajuda. Agora tudo est contra mim. A igreja vai me destruir tambm,
exatamente como Lyra, se nos encontrarem. Eu estou sozinha, Will, sou s
eu numa caverna com minha filha e todas as foras de todos os mundos
esto tentando nos encontrar. E aqui est voc, para mostrar como,
aparentemente,  fcil nos achar. O que voc vai fazer, Will? O que voc
quer? -Por que a mantm adormecida? -perguntou ele, teimosamente,
evitando as perguntas. -Porque, o que aconteceria se eu a deixasse
acordar? Ela fugiria imediatamente. E ela no sobreviveria nem cinco
dias. -Mas por que no explica a ela e lhe d uma escolha? 158 -Voc
acha que ela me ouviria? Acha que, mesmo se me ouvisse, que acreditaria
em mim? Ela no confia em mim. Ela me detesta, Will. Voc deve saber
disso. Ela me despreza. Eu, bem... eu no sei como dizer isso... eu a
amo tanto que abandonei tudo o que eu tinha, uma carreira brilhante, uma
grande felicidade, posio e riqueza, tudo, para vir para esta caverna
nas montanhas e viver de po seco e frutas amargas, s para poder manter
minha filha viva. E se para fazer isso eu tiver que mant-la adormecida,
assim seja. Mas eu tenho que salvar sua vida. Sua me no faria o mesmo
por voc? Will sentiu o impacto de um choque de raiva diante do fato de
que a Sra. Coulter tivesse ousado se referir  me dele para defender
seus argumentos. Depois, esse primeiro choque foi complicado pelo
pensamento de que sua me, afinal, no o havia protegido; ele tivera que
proteg-la. Ser que a Sra. Coulter amava Lyra mais do que Elaine Parry
o amava? Mas isso era injusto: sua me no estava bem. OU a Sra. Coulter
no tinha conhecimento do turbilho de sentimentos que suas palavras
simples haviam criado ou ela era monstruosamente esperta. Seus belos
olhos observaram com brandura, enquanto o rosto de Will ficava afogueado
e ele se meXia desconfortavelmente; e, por um momento, a Sra. Coulter
ficou espantosamente parecida com sua filha. -Mas o que voc vai fazer?
-perguntou. -Bem, agora eu j vi Lyra -respondeu Will, e ela est viva,
isso est claro para mim e, creio, est em segurana. Isso  tudo o que
eu ia fazer. De maneira que agora que j fiz, posso ir embora, para
ajudar Lorde Asriel, como j deveria ter feito. Aquilo de fato a
surpreendeu um pouco, mas ela se controlou. -Voc no quer dizer... eu
pensei que poderia nos ajudar argumentou, bastante calmamente, sem
suplicar, mas questionando. -Com a faca. Eu vi o que voc fez na casa de
Sir Charles. Poderia nos botar em segurana, no poderia? Poderia nos
ajudar a fugir? -Agora, eu vou embora -disse Will, levantando-se. 159
Ela estendeu a mo. Um sorriso triste, um dar de ombros e um meneio de
cabea, como se cumprimentando um adversrio inteligente que tivesse
feito um bom movimento no tabuleiro de xadrez: isso foi tudo o que seu
corpo disse. Will descobriu que estava gostando dela, porque era
corajosa e porque parecia ser uma Lyra mais complexa, mais rica e mais
profunda. No conseguiu se impedir de gostar dela. De modo que apertou a
mo dela e viu que era firme, fresca e macia. A Sra. Coulter se virou
para o macaco dourado, que estivera sentado atrs dela o tempo todo, e
houve uma troca de olhares entre eles que Will no conseguiu
interpretar. Ento ela se virou de volta com um sorriso. -Adeus -disse
ele, e ela respondeu baixinho: -Adeus, Will. Will saiu da caverna,
sabendo que os olhos dela o estavam seguindo, e no se virou para trs
nem uma vez. Ama no estava em nenhum lugar a vista. Foi caminhando de
volta por onde tinha vindo, seguindo a trilha, at que ouviu o som da
cachoeira mais adiante. -Ela est mentindo -disse para Iorek Byrnison,
30 minutos depois. - claro que est mentindo. Ela mentiria mesmo se
isso tornasse as coisas piores para si mesma, porque ela simplesmente
gosta demais de mentir para parar. -Ento qual  o seu plano? -perguntou
o urso, que estava tomando um banho de sol, a barriga achatada contra um
pedao de neve entre as rochas. Will andou de um lado para o outro, se
perguntando se poderia usar a mesma manobra que tinha funcionado em
Headington: usar a faca para passar para outro mundo e ento ir para um
ponto que ficasse bem ao lado de onde Lyra estava deitada, cortar uma
outra abertura para voltar a entrar nesse mundo, pux-la pela abertura
para um local seguro e tornar a fechar. Era a coisa bvia a fazer: por
que estava hesitando? 160 Balthamos sabia. Sob sua prpria forma de
anjo, tremeluzindo como uma nvoa de calor sob a luz do sol, declarou:
-Voc foi tolo de ir v-la. Agora tudo o que quer  v-la de novo. Iorek
soltou um rosnado baixo e grave. De inicio, Will pensou que estivesse
fazendo uma advertncia a Balthamos, mas depois, com um ligeiro choque
de vergonha, percebeu que o urso estava concordando com o anjo. Os dois
tinham dado pouca ateno um ao outro at agora; suas maneiras de ser
eram totalmente diferentes; mas, com relao quilo, claramente tinham a
mesma opinio. E Will fez uma careta de desprezo, mas era verdade. Tinha
sido seduzido pela Sra. Coulter. Todos os seus pensamentos se voltavam
para ela: quando pensava em Lyra, era para se perguntar como seria
parecida com a me quando crescesse; se pensava na igreja, era para se
perguntar quantos padres e cardeais estariam enfeitiados por ela; se
pensasse em seu pai, morto, era para se perguntar se ele a teria
detestado ou admirado; e se pensasse em sua me... Ele sentiu seu
corao se contrair. Foi andando para longe do urso e ficou parado no
alto de um pedregulho de onde podia ver o vale inteiro. No ar limpo e
frio podia ouvir o toque-toque distante de algum cortando lenha, podia
ouvir um sino de ferro tilintando surdamente em volta do pescoo de uma
ovelha, podia ouvir o farfalhar das copas das rvores bem longe, l
embaixo. Mesmo as mais minsculas fendas nas rochas no horizonte estavam
ntidas e claras diante de seus olhos, bem como os abutres que voavam em
crculos sobre algum animal quase morto a muitos quilmetros de
distncia. No havia dvida quanto quilo: Balthamos estava certo. A
mulher o enfeitiara. Era agradvel e tentador pensar naqueles belos
olhos e na doura daquela voz, e recordar a maneira como seus braos
tinham se levantado para empurrar para trs os cabelos brilhantes... Com
um esforo, recuperou o controle de seus sentidos e ouviu um outro som,
totalmente diferente: um zumbido muito distante. 161 Virou-se para um
lado e depois para outro, tentando localiz-lo, e o descobriu ao norte,
exatamente na mesma direo de onde ele e Iorek tinham vindo. -Zepelins
-disse a voz do urso, assustando Will, pois no tinha ouvido o imenso
animal se aproximar. Iorek estava a seu lado, olhando na mesma direo,
e ento se levantou nas duas patas traseiras, ficando duas vezes mais
alto que Will, olhar fixo, atento. -Quantos? -Uns oito -disse Iorek
depois de um minuto e, ento, Will tambm os avistou: minsculos pontos
enfileirados. -Sabe me dizer quanto tempo vo levar para chegar aqui?
perguntOU Will. -Estaro aqui no muito depois do anoitecer. -Ento no
teremos muito tempo de escurido. Isso  uma pena. -Qual  o seu plano?
-Fazer uma abertura e atravs dela levar Lyra para um outro mundo, e
fechar antes que sua me possa nos seguir. A menina tem um remdio para
fazer Lyra acordar, mas no conseguiu explicar com muita clareza como
us-lo, de modo que ela ter que entrar na caverna tambm. Contudo, no
quero coloc-la em perigo. Talvez voc pudesse distrair a Sra. Coulter
enquanto cuidamos disso. O urso grunhiu e fechou os olhos. Will olhou ao
redor procurando o anjo e viu sua forma delineada em gotculas de nvoa
sob a luz do final da tarde. -Balthamos, -disse, vou voltar  floresta
agora, para encontrar um lugar seguro para fazer a primeira abertura.
Preciso que fique de vigia para mim e me avise no minuto em que ela se
aproximar, ela ou aquele daemon dela. Balthamos assentiu e levantou as
asas para sacudir a gua. Ento voou bem alto no ar frio e foi planando
sobre o vale enquanto Will comeava a procurar um mundo onde Lyra
pudesse estar em segurana. 162 Na antepara dupla do zepelim lder da
esquadrilha, que estalava e tamborilava, as liblulas estavam saindo de
seus casulos. Lady Salmakia se inclinou para a frente, sobre o casulo da
liblula azul-eltrico, ajudando a soltar as asas delicadas e midas,
tomando cuidado para que seu rosto fosse a primeira coisa a ser
registrada pelos olhos multifacetados, acalmando os nervos delicadamente
tensos, sussurrando seu nome para a pequena criatura de cor brilhante,
ensinando-lhe quem ela era. Alguns minutos depois o Cavaleiro Tialys
faria o mesmo com a sua. Mas no momento estava enviando uma mensagem
atravs do magneto ressonante e sua ateno estava totalmente ocupada
com o arco e seus dedos. Ele transmitiu: -Para Lorde Roke: "Estamos a
trs horas do horrio previsto de chegada ao vale. O Tribunal
Consistorial de Disciplina pretende enviar um peloto de combate para a
caverna assim que aterrissarem. "Esse peloto vaI se dIvIdIr em duas
unidades. A primeira abrIr caminho at a caverna, combatendo, se
necessrio, e matar a criana, cortando-lhe fora a cabea de maneira a
comprovar sua morte. Se possvel tambm querem capturar a mulher; porm,
se isto for impossvel pretendem mat-la. "A segunda unidade tem a
misso de capturar o garoto vivo. "O restante da fora enfrentar os
girpteros do Rei Ogunwe. Eles estimam que os girpteros chegaro pouco
depois dos zepelims. De acordo com suas ordens, Lady salmakia e eu
brevemente deixaremos o zepelim e voaremos diretamente para a caverna,
onde tentaremos defender a menina contra a primeira unidade de soldados
e mant-los  distncia at que cheguem os reforos. "Aguardamos sua
resposta. " A resposta veio quase imediatamente. 'Para o Cavaleiro
Tialys: " luz de suas informaes, aqui vai uma mudana de planos. 163
"De maneira a impedir que o inimigo mate a criana, que seria o pior
resultado possvel, voc e Lady salmakia devem cooperar com o garoto.
Enquanto ele tiver a faca, ele tambm tem a iniciativa, de modo que se
ele abrir um outro mundo e levar a menina para l, permitam que o faa e
tratem de segui-los na passagem. Permaneam ao lado deles em todos os
momentos, quaisquer que sejam as circunstncias." O Cavaleiro Tialys
respondeu: 'Para Lorde Roke: "Sua mensagem foi recebid e compreendida.
Lady salmakia e eu partiremos imediatamente." O pequenino espio fechou
o magneto ressonante e recolheu seu equipamento. -Tialys -veio um
sussurro da escurido, est saindo do casulo. Deve vir imediatamente.
Ele saltou para cima do esteio onde sua liblula estivera se esforando
para vir ao mundo e a ajudou delicadamente a se libertar do casulo
partido. Acariciando a grande cabea feroz, levantou as antenas pesadas,
ainda midas e enroscadas, e permitiu que a criatura sentisse o gosto de
sua pele at que estivesse inteiramente sob seu comando. Lady Salmakia
estava equipando sua liblula com os arreios que sempre tinha consigo
onde quer que fosse: rdeas de seda de teia de aranha, estribos de
titnio, uma sela de pele de beija-flor. No pesava quase nada. Tialys
fez o mesmo com a sua, ajeitando os tirantes em torno do corpo do
inseto, apertando, ajustando. A liblula usaria os arreios at morrer.
Ento ele rapidamente colocou a mochila sobre os ombros e cortou uma
abertura no tecido oleado da carcaa do zepelim. Ao lado dele, Lady
Salmakia havia montado em sua liblula e agora a incitou a sair pela
abertura estreita, para as fortes rajadas de vento. As asas alongadas e
frgeis tremeram enquanto se espremia para passar e ento o xtase de
voar se apoderou da pequenina criatura e ela mergulhou no vento. Poucos
segundos depois Tialys se juntou a ela no 164 ar turbulento, sua
montaria ansiosa para lutar contra a prpria noite que caa rapidamente.
Os dois rodopiaram em direo ao alto nas correntes de vento geladas;
levaram uns poucos momentos para descobrir onde estavam e tomar o curso
rumo ao vale. 165 *12 A QUEBRA AINDA ENQUANTO FUGIA, O OLHAR MANTINHA
VOLTADO PARA TRS, COMO SE SEU MEDO AINDA O ESTIVESSE SEGUINDO, VINDO
LOGO ATRS EDMUND SPENSER  medida que a escurido da noite ia caindo,
as coisas se encontravam no seguinte p. Em sua torre adamantina,
inquieto, Lorde Asriel andava de um lado para outro, sem cessar. Sua
ateno estava cravada na figura pequenina ao lado do magneto ressonante
e todas as outras transmisses tinham sido desviadas, todas as
partculas de sua mente estavam concentradas no pequeno bloco quadrado
de pedra sob a luz da lamparina. O Rei Ogunwe estava na cabine de
comando de seu girptero, rapidamente preparando um plano para frustrar
as intenes do Tribunal Consistorial, das quais acabara de tomar
conhecimento atravs do galivespiano em sua aeronave. O navegador
escreveu alguns nmeros num pedao de papel, que entregou ao piloto. A
questo essencial era velocidade: conseguir pr as tropas em terra
primeiro faria toda a diferena. Os girpteros eram mais velozes que os
zepelins, mas ainda estavam um pouco atrasados. Nos zepelins do Tribunal
Consistorial, a Guarda Sua preparava seu equipamento de combate. Suas
bestas eram mortais numa distncia 166 de at 460 metros e um arqueiro
podia carregar e disparar 15 flechas curtas por minuto. As barbatanas em
espiral, feitas de chifre, davam a essas setas um movimento giratrio e
tornavam a pontaria da arma precisa como a de uma espingarda. Tambm
era,  claro, silenciosa, algo que podia ser uma grande vantagem. A Sra.
Coulter estava acordada na entrada da caverna. O macaco dourado estava
inquieto e frustrado: os morcegos tinham deixado a caverna quando
comeara a escurecer e no havia nada que pudesse atormentar. Ficou
rondando em volta do saco de dormir da Sra. Coulter, esmigalhando com um
dedo pontudo os vaga-lumes que ocasionalmente vinham pousar na caverna e
esfregando sua luminescncia na pedra. Lyra continuava deitada,
acalorada e quase que igualmente inquieta, mas muito, muito
profundamente adormecida, confinada ao esquecimento pelo trago de bebida
que sua me a havia forado a engolir, apenas uma hora antes. Havia um
sonho que a ocupara durante muito tempo anteriormente e agora ele tinha
voltado, e pequenos gemidos, to caractersticos de Lyra, de pena, de
raiva e de determinao, sacudiam seu peito e sua garganta, fazendo
Pantalaimon ranger seus dentes de arminho em solidariedade. No muito
longe, sob os pinheiros batidos pelo vento na trilha da floresta, Will e
Ama estavam se aproximando a caminho da caverna. Will tinha tentado
explicar a Ama o que iria fazer, mas o daemon dela no tInha conseguido
compreender e quando ele cortou uma Janela e mostrou a ela, ficou to
apavorada que quase desmaiou. Ele teve que andar mais devagar e falar
baixinho para conseguir mant-la por perto, pois ela se recusava a
deix-lo tocar no embrulho de p e at mesmo contar a ele como deveria
ser usado. Afinal ele foi obrigado a dizer simplesmente: -Mantenha-se em
silncio e siga-me -e a esperar que ela o fizesse. Iorek, vestido em sua
armadura, estava em algum lugar nas proximidades, esperando para impedir
a passagem dos soldados dos zepelins, 167 de modo a dar a Will tempo
suficiente para agir. O que nenhum dos dois sabia era que as foras de
Lorde Asriel tambm estavam se aproximando: o vento, de tempos em
tempos, trazia aos ouvidos de Iorek um rudo distante de batimentos,
mas, apesar de conhecer o barulho que os motores de um zepelim faziam,
nunca tinha ouvido o som de um girptero, de modo que aquilo no lhe
dizia nada. Balthamos talvez pudesse ter-lhes dito, mas Will estava
preocupado com ele. Agora que tinham encontrado Lyra, o anjo comeara a
se recolher novamente em seu luto: estava calado, distrado e
mal-humorado. E aquilo, por sua vez, tornava mais difcil falar com Ama.
Quando fizeram uma parada na trilha, Will disse para o ar: -Balthamos?
Voc est a? -Estou -respondeu o anjo monotonamente. -Balthamos, por
favor, fique comigo. Fique perto e me avise de qualquer perigo. Eu
preciso de voc. -Eu ainda no abandonei voc -retrucou o anjo. E isso
foi o mximo que Will conseguiu arrancar dele. Bem longe nas alturas, no
ar turbulento, Tialys e Salmakia voavam alto sobre o vale, tentando ver
onde ficava a caverna. As liblulas fariam exatamente o que ordenassem,
mas seus corpos no lidavam com facilidade com o frio e, alm disso,
estavam sendo perigosamente sacudidas e jogadas pelo vento forte. Seus
cavaleiros as guiaram para mais baixo, sob a proteo das rvores, e
ento foram voando de galho em galho, procurando se situar na escurido
que aumentava. Will e Ama se esgueiraram sob o vento forte, ao luar, at
o ponto mais prximo que podiam alcanar que ainda ficasse fora do
ngulo de viso da caverna. Calhou de ser atrs de um arbusto muito
frondoso a pouca distncia da trilha; ali ele cortou uma janela no ar. O
nico mundo que conseguiu encontrar, com a mesma conformao de terreno,
era um lugar deserto, rochoso, onde a lua brilhava forte, do alto de um
cu estrelado, sobre um solo esbranquiado, descorado 168 como osso,
onde pequenos insetos se arrastavam e emitiam seus rudos secos,
rangidos, em meio a um vasto silncio. Ama o seguiu pela janela, com
dedos e polegares se esfregando furiosamente para proteg-la dos
demnios que deviam estar assombrando aquele lugar horrvel; e seu
daemon, imediatamente se adaptando, se transformou num lagarto e correu
sobre as rochas com ps ligeiros. Will percebeu um problema. Era
simplesmente que o luar intenso, banhando as rochas esbranquiadas, iria
brilhar como uma lanterna quando ele abrisse a janela na caverna da Sra.
Coulter. Teria que abri-la rapidamente, puxar Lyra para o outro lado e
fech-la imediatamente. Podiam deixar para acord-la naquele mundo, onde
era mais seguro. Ele parou na encosta ofuscante e disse para Ama: -Temos
que agir muito rpido e nos manter completamente silenciosos. No fazer
nenhum barulho, nem um sussurro. Ama compreendeu, embora estivesse
assustada. O pequeno embrulho de p estava no bolso de seu peito: tinha
verificado uma dzia de vezes, ela e seu daemon tinham ensaiado a tarefa
tantas vezes que tinha certeza de que seriam capazes de execut-la at
na escurido total. Eles foram escalando as rochas esbranquiadas, cor
de osso, Will medindo cuidadosamente a distncia at que calculou que
estariam dentro da caverna. Ento pegou a faca e cortou a menor janela
possvel, por onde pudesse ver, no maior que o crculo que ele fazia
juntando o polegar com o indicador. Rapidamente encostou o olho nela,
para impedir que o luar passasse, e olhou para o outro lado. Estava tudo
l: tinha calculado bem. Podia ver a entrada da caverna mais para a
frente, as rochas escuras, delineadas no cu noturno; podia ver o vulto
da Sra. Coulter, dormindo, com seu daemon dourado a seu lado; podia ver
at o rabo do macaco, descansando negligentemente sobre o saco de
dormir. Mudando de ngulo e olhando para mais perto, viu a rocha atrs
da qual Lyra estivera deitada. Contudo no conseguia v-la. Estaria
perto 169 demais? Ele fechou a janela, deu um ou dois passos para trs e
abriu de novo. Ela no estava l. -Escute -disse para Ama e seu daemon,
a mulher mudou Lyra de lugar e no consigo ver onde ela est. Vou ter
que atravessar a janela e procurar dentro da caverna at descobrir onde
ela est, ento corto outra janela assim que tiver encontrado. De modo
que fique um pouco afastada, mantenha-se fora do caminho para eu no
cortar voc acidentalmente quando voltar. -Ns devamos atravessar
juntos -disse Ama -porque eu sei como acord-la e voc no sabe, e eu
conheo a caverna melhor que voc. O rosto dela tinha uma expresso
teimosa, os lbios comprimidos, os punhos cerrados. Seu daemon lagarto
adquiriu um colar natural que ele levantou e abriu em volta do pescoo.
-Ah, ento est bem -concordou Will. -Mas vamos atravessar rapidamente e
em silncio absoluto, e voc faz exatamente o que eu mandar, na hora em
que eu disser, entendeu? Ela balanou a cabea concordando e, mais uma
vez, bateu de leve no bolso para se certificar de que o remdio estava
l. Will fez uma pequena abertura, bem baixa, olhou atravs dela e a
aumentou rapidamente, e de quatro, engatinhando nas mos e nos joelhos,
atravessou num instante. Ama estava bem atrs dele e, no total, a janela
ficou aberta durante menos de dez segundos. Os dois se agacharam no solo
da caverna, se escondendo atrs de um grande pedregulho, com Balthamos,
sob a forma de passarinho, bem ao lado; os olhos deles levaram alguns
instantes para se ajustar  luz brilhante do luar do outro mundo. Dentro
da caverna estava muito mais escuro e muito mais cheio de sons:
principalmente do vento agitando as rvores, mas tambm havia um outro
som mais baixo. Era o rugido do motor de um zepelim, e no estava muito
distante. Com a faca na mo direita, Will se equilibrou com cuidado e
olhou em volta. 170 Ama estava fazendo a mesma coisa e, com olhos de
coruja, seu daemon tambm olhava de um lado para outro; mas Lyra no
estava daquele lado da caverna. Quanto a isso no havia mais dvida.
Will levantou a cabea sobre o pedregulho e lanou um longo olhar na
direo da entrada, onde a Sra. Coulter e seu daemon estavam dormindo. E
ento seu corao se contraiu. L estava Lyra, deitada nas profundezas
de seu sono, bem ao lado da Sra. Coulter. Os contornos das duas se
fundiam na escurido; no era de espantar que ele no a tivesse visto.
Will tocou na mo de Ama e apontou. -Vamos ter que fazer isto com muito
cuidado -sussurrou. Alguma coisa estava acontecendo do lado de fora. O
rugido dos zepelins agora estava muito mais alto que o vento batendo nas
rvores e havia luzes se movendo por l, vindas do alto, iluminando o
solo, atravs dos galhos. Quanto mais depressa conseguissem tirar Lyra
dali, melhor, e isso significava correr at l agora, antes que a Sra.
Coulter acordasse, cortar uma abertura, pux-la por ela e fechar de
novo. Ele sussurrou para Ama. Ela assentiu. Ento, quando ele estava
pronto para agir, a Sra. Coulter acordou. Ela se mexeu e disse alguma
coisa; imediatamente o macaco dourado se levantou de um salto. Will
podia ver a silhueta dele na boca da caverna, agachado, alerta, e ento
a Sra. Coulter se levantou, protegendo os olhos da luz que vinha de
fora. A mo esquerda de Will segurava o pulso de Ama com firmeza. A Sra.
Coulter se levantou, totalmente vestida, gil, alerta, como se
absolutamente no tivesse estado dormindo pouco antes. Talvez tivesse
estado acordada o tempo todo. Ela e o macaco dourado estavam agachados,
escondidos junto  entrada da caverna, observando e ouvindo, enquanto as
luzes dos zepelins balanavam de um lado para outro acima das copas das
rvores e os motores rugiam, e gritos de vozes masculinas fazendo
advertncias ou dando ordens deixavam evidente que eles deveriam tratar
de se mexer depressa, muito depressa. 171 Will apertou o pulso de Ama e
avanou rapidamente, observando o solo para no tropear, correu
depressa, mantendo-se abaixado. Logo estava ao lado de Lyra e ela estava
profundamente adormecida, com Pantalaimon aninhado em volta de seu
pescoo; e ento Will levantou a faca e um minuto depois teria havido
uma abertura atravs da qual poderia puxar Lyra para um lugar seguro Mas
ele levantou o olhar. Olhou para a Sra. Coulter. Ela tinha se virado
para trs, em silncio; o claro vindo do cu, refletindo na parede
mida da caverna, iluminou seu rosto e, por um instante, no era mais
absolutamente o rosto dela; era o rosto da me dele, censurando-o, e seu
corao tremeu de dor; ento, quando ele golpeou com a faca, sua mente
devaneou e, com uma toro e um estalo, a faca caiu em pedaos no cho.
Estava quebrada. Agora ele no poderia mais cortar uma abertura para
sair. Ele disse para Ama: -Acorde-a. Agora. Ento se levantou, pronto
para lutar. Primeiro iria estrangular aquele macaco. Estava tenso,
pronto para enfrentar seu bote, e descobriu que ainda tinha o cabo da
faca na mo: pelo menos poderia us-lo para bater nele. Mas no houve
ataque, nem do macaco dourado, nem da Sra. Coulter. Ela simplesmente se
moveu um pouco para permitir que a luz vinda de fora mostrasse a pistola
em sua mo. Ao fazer isso, permitiu que a luz passasse mostrando o que
Ama estava fazendo: ela estava salpicando um p no lbio superior de
Lyra e observando enquanto Lyra inspirava o p, ajudando a empurr-lo
para dentro das narinas, usando a cauda de seu daemon como pincel. Will
ouviu uma alterao nos sons que vinham de fora: havia uma outra nota
alm do rugido dos zepelins. Parecia familiar, como uma intruso vinda
de seu mundo, e ele ento reconheceu o rudo de 172 um helicptero. Logo
veio outro e mais outro, e mais luzes estavam varrendo as rvores em
movimento contnuo l fora, num leque de radiao verde brilhante. A
Sra. Coulter virou-se rapidamente quando ouviu o novo som, mas por um
instante muito breve para que Will pudesse saltar e tomarlhe a arma.
Quanto ao macaco dourado, olhava furioso para Will, sem piscar,
agachado, pronto para saltar em cima dele. Lyra estava se mexendo e
murmurando. Will se abaixou e apertou a mo dela, e o outro daemon
sacudiu de leve Pantalaimon, levantando sua cabea, sussurrando para
ele. Do lado de fora veio um grito e um homem caiu do cu com uma
pancada violenta, nauseante, a menos de cinco metros da entrada da
caverna. A Sra. Coulter se manteve impassvel; olhou friamente para ele,
depois se virou de volta para Will. Um instante depois houve um disparo
de tiros de uma carabina vindo do alto e um segundo depois uma
tempestade de tiros se desencadeou, e o cu se encheu de exploses, do
crepitar de chamas, de rajadas de balas de armas de fogo. Lyra estava
lutando para recuperar a conscincia, arquejando, suspirando, gemendo,
se apoiando para se levantar e depois caindo enfraquecida e Pantalaimon
estava bocejando, se espreguiando e resmungando com o outro daemon,
despencando desajeitadamente para o lado quando seus msculos se
recusavam a obedecer. Quanto a Will, ele estava vasculhando o solo da
caverna com o maior cuidado, catando os pedaos da faca quebrada. No
havia tempo para se perguntar como aquilo teria acontecido, ou se ela
poderia ser reparada; mas ele era o portador da faca e tinha que juntar
e guardar todos os pedaos. A medida que foi encontrando cada pedao,
pegava-o cuidadosamente, cada nervo em seu corpo consciente dos dedos
que faltavam, e o enfiava na bainha. Podia ver os pedaos com facilidade
porque o metal refletia a luz vinda de fora: eram sete, o menor sendo a
ponta. Ele recolheu todos os pedaos e ento se virou para tentar
entender a luta que estava ocorrendo l fora. 173 Em algum lugar acima
das rvores, os zepelins estavam pairando no ar, e homens vinham
descendo por cordas, mas o vento tornava difcil para os pilotos
manterem as aeronaves estacionrias. Enquanto isso, os primeiros
girpteros tinham chegado ao alto do penhasco. S havia espao para que
aterrissasse um de cada vez e depois os carabineiros africanos tinham
que descer pela parede de rocha. Fora um deles que tinha sido abatido
por um tiro afortunado, disparado por algum nos zepelins oscilantes. A
essa altura os dois lados j tinham desembarcado tropas. Alguns tinham
sido mortos entre o cu e o solo; vrios estavam feridos e cados na
encosta ou entre as rvores. Mas nenhuma das duas foras havia alcanado
a caverna, e o poder ali dentro ainda estava nas mos da Sra. Coulter.
Will disse, falando mais alto que o barulho: -O que vai fazer? -Manter
vocs prisioneiros. -O que, como refns? Por que eles haveriam de dar
qualquer importncia a isso? Eles querem nos matar. -Uma fora quer, sem
dvida -respondeu ela, mas no tenho certeza com relao  outra.
Devemos torcer para que os africanos venam. Ela parecia satisfeita e,
no claro que vinha de fora, Will viu que seu rosto estava cheio de
felicidade, de vida e energia. -Voc quebrou a faca. -No, eu no
quebrei. Eu a queria inteira, de modo que pudssemos escapar. Foi voc
quem a quebrou. A voz de Lyra chamou aflita: -Will -murmurou. -Will, 
voc? -Lyra! -exclamou ele e se ajoelhou ao lado dela. Ama a estava
ajudando a se levantar. -O que est acontecendo? -perguntou Lyra. -Onde
estamos? Ah, Will, eu tive um sonho... 174 -Estamos numa caverna. No se
mexa muito depressa, seno vai ficar tonta. V andando devagar. Procure
recuperar suas foras. Voc esteve dormindo durante dias e dias. Os
olhos dela ainda estavam pesados e ela era sacudida por profundos
bocejos, mas estava desesperada para ficar desperta e ele a ajudou a se
levantar, pondo o brao dela sobre seu ombro e sustentando a maior parte
de seu peso. Ama observou timidamente, pois agora que a estranha menina
estava acordada, a deixava nervosa. Will inspirou sentindo o perfume do
corpo de Lyra com alegre satisfao: ela estava ali, ela era real. Eles
sentaram num pedregulho. Lyra segurou a mo dele e esfregou os olhos. -O
que est acontecendo, Will? -Nossa amiga aqui, Ama, conseguiu um p para
acordar voc -explicou ele, falando muito depressa, e Lyra se virou para
a menina, vendo-a pela primeira vez, e ps a mo sobre o ombro de Ama em
sinal de agradecimento. -Vim para c o mais rpido que pude -prosseguiu
Will, mas alguns soldados tambm vieram. No sei quem so eles. Vamos
sair assim que pudermos. L fora o barulho e a confuso estavam chegando
ao auge; um dos girpteros tinha levado uma rajada de balas de uma
metralhadora de um zepelim, enquanto os carabineiros saltavam para o
alto do penhasco, e explodira em chamas, no somente matando sua
tripulao, como impedindo os girpteros que faltavam de aterrissar.
Enquanto isso, mais um zepelim havia encontrado uma rea livre mais
abaixo no vale, e os homens armados de bestas que desembarcaram dele
agora vinham correndo, subindo pela trilha para dar reforo aos que j
estavam em ao. A Sra. Coulter estava seguindo tudo que podia da
entrada da caverna e, naquele momento, levantou a pistola, segurando-a
com as duas mos, e mirou cuidadosamente antes de atirar. Will viu o
claro do disparo, mas no ouviu nada por causa das exploses e do
tiroteio l fora. Se ela fizer isso de novo, pensou, vou correr e
derrub-la, e ele se virou para sussurrar para Balthamos, mas o anjo no
estava em nenhum 175 lugar por perto. Em vez disso, Will viu com
desolao que ele estava encolhido contra a parede da caverna, de volta
 sua forma de anjo, tremendo e choramingando. -Balthamos! -chamou
aflito. -Deixe disso, eles no podem machucar voc! E tem que nos
ajudar! Voc pode lutar, sabe disso, voc no  um covarde, e ns
precisamos de voc Mas, antes que o anjo pudesse responder, uma outra
coisa aconteceu. A Sra. Coulter gritou e abaixou-se para segurar o
tornozelo; simultaneamente, o macaco dourado agarrou alguma coisa no ar,
com um rosnado de satisfao. Uma voz -uma voz de mulher- mas de alguma
forma minscula- veio da coisa nas garras do macaco. -Tialys! Tialys!
Era uma mulher minscula, no maior que a mo de Lyra, e o macaco j
estava puxando e puxando um dos braos dela, de modo que ela gritava de
dor. Ama sabia que ele no pararia at t-lo arrancado fora, mas Will
saltou para a frente quando viu a pistola cair da mo da Sra. Coulter. E
ele pegou a arma -mas ento a Sra. Coulter ficou imvel e Will percebeu
que estava diante de um estranho impasse. O macaco dourado e a Sra.
Coulter estavam ambos absolutamente imveis. O rosto dela estava
contorcido de dor e de fria, mas ela no ousava se mexer, porque de p
sobre seu ombro estava um homem minSculo, com o calcanhar pressionado
contra o seu pescoo, as mos agarrando-lhe os cabelos; e Will, a
despeito de seu espanto, viu naquele calcanhar uma reluzente espora de
chifre e soube o que a fizera gritar um momento antes. Ele devia ter
espetado o tornozelo dela. Mas o homenzinho no podia mais ferir a Sra.
Coulter, por causa do perigo que sua companheira corria nas mos do
macaco; e o macaco no podia machucar a mulher, caso contrrio o
homenzinho 176 enfiaria sua espora envenenada na veia jugular da Sra.
Coulter. Nenhum deles podia se mover. Respirando fundo e engolindo com
dificuldade para controlar a dor, a Sra. Coulter virou os olhos cheios
de lgrimas para Will e disse calmamente: -Ento, Mestre Will, o que
acha que devemos fazer agora? 177 *13 TIALYS E SALMAKIA NOITE SOMBRIA,
SOMBRIA NOITE SOBRE ESTE DESERTO PERMITE QUE FULGURANTE TUA LUA SE
LEVANTE ENQUANTO MEUS OLHOS EU DESCANSE WILLIAM BLAKE Com a arma pesada
na mo, Will fez um movimento rpido e circular para o lado, e derrubou
o macaco dourado de onde estava empoleirado, deixando-o de tal maneira
atordoado que a Sra. Coulter gemeu alto e a pata do macaco relaxou o
suficiente para que a minScula mulher conseguisse se soltar. Um
instante depois, ela havia saltado para o alto das rochas e o homem se
afastado depressa da Sra. Coulter, ambos se movendo com a rapidez de
gafanhotos. As trs crianas no tiveram tempo para se espantar. O homem
estava preocupado: examinou o ombro e o brao de sua companheira
delicadamente e a abraou antes de gritar para Will: -Voc! Garoto!
-chamou, e embora sua voz fosse pequenina em volume, era grossa como a
de um homem adulto. -Est com a faca? - claro que estou -respondeu
Will. Se no sabiam que estava quebrada, no iria contar a eles. 178
-Voc e a menina tero que nos seguir. Quem  a outra criana? - Ama,
da aldeia -respondeu Will. -Diga a ela para voltar para l. Agora vamos
andando, antes que os suos cheguem. Will no hesitou.
Independentemente de quais fossem as intenes daqueles dois, ele e Lyra
ainda podiam fugir pela janela que ele tinha aberto atrs do arbusto
mais abaixo no caminho. De modo que a ajudou a se levantar e observou
curiosamente enquanto as duas figuras pequeninas montavam em -qu?
Passarinhos? No, liblulas, quase to compridas quanto o antebrao
dele, que tinham estado esperando escondidas nas sombras. Eles voaram
rapidamente para a entrada da caverna, onde a Sra. Coulter estava cada.
Ela estava meio atordoada de dor e sonolenta por causa da ferroada que
tinha levado do cavaleiro, mas estendeu a mo para cima quando iam
passando e gritou: -Lyra! Lyra, minha filha, minha querida! Lyra, no
v! No v! Lyra olhou para ela, angustiada; mas ento passou por cima
do corpo de sua me e soltou a mo que segurava sem muita firmeza seu
tornozelo. A mulher agora estava soluando; Will viu as lgrimas
brilhando em suas faces. Agachando-se junto da entrada da caverna, as
trs crianas esperaram at que houvesse uma breve pausa no tiroteio e
ento seguiram as liblulas enquanto voavam rpidas como setas descendo
a trilha. A luz tinha mudado: alm do claro frio dos holofotes
ambricos dos zepelins, havia o alaranjado de chamas ardendo. Will olhou
para trs uma vez. Sob a luz intensa, o rosto da Sra. Coulter era uma
mscara trgica de paixo e seu daemon se agarrava tristemente nela,
enquanto ela se ajoelhava e estendi  os braos, chorando: -Lyra! Lyra,
meu amor! Tesouro do meu corao, minha garotinha, s minha! Ah, Lyra,
no v, no me deixe! Minha filha querida... voc est partindo meu
corao 179 Um imenso e furioso soluo sacudiu Lyra, pois afinal a Sra.
Coulter era a nica me que jamais teria e Will viu uma cascata de
lgrimas escorrer pelas faces da menina. Mas tinha que ser impiedoso.
Puxou a mo de Lyra e, quando o cavaleiro montado na liblula passou
voando ligeiro perto de sua cabea, insistindo para que se apressassem,
ele a conduziu correndo agachados, trilha abaixo para longe da caverna.
Na mo esquerda de Will, sangrando novamente por causa do golpe que
tinha acertado no macaco, estava a pistola da Sra. Coulter. -Sigam para
o alto do penhasco -ordenou o cavaleiro -e entreguem-se aos africanos.
Eles so sua nica esperana. Tomando cuidado com aquelas esporas
afiadas, Will no disse nada, embora no tivesse a menor inteno de
obedecer. S iria para um nico lugar, e este era a janela atrs do
arbusto; de modo que manteve a cabea baixa e correu depressa, e Lyra e
Ama correram atrs dele. -Alto! Havia um homem, trs homens, bloqueando
o caminho adiante, uniformizados; homens brancos, armados com bestas e
com daemons com forma de mastins, rosnando -a Guarda Sua. -Iorek!
-gritou Will imediatamente. -Iorek Byrnison! - Podia ouvir o urso se
aproximando ruidosamente e rosnando no muito longe, e ouvir os gritos e
lamentos dos soldados desafortunados que cruzaram seu caminho. Mas uma
outra pessoa surgiu de lugar nenhum para ajud-los: Balthamos, num gesto
de desespero, arremessou-se entre as crianas e os soldados. Os homens
caram para trs, perplexos, enquanto aquela apario surgia de repente,
tremeluzindo, diante deles. Mas eram combatentes bem treinados e, um
instante depois, seus daemons saltaram sobre o anjo, os dentes ferozes
brilhando em lampejos brancos na escurido -e Balthamos recuou: ele
gritou de medo e de vergonha, e se encolheu para trs. Ento saltou para
o alto, batendo 180 as asas com fora. Will ficou olhando consternado,
enquanto o vulto de seu guia e amigo voava nas alturas e desaparecia de
vista em meio  copa das rvores. Lyra estava acompanhando tudo aquilo
com o olhar ainda atordoado. No havia levado mais que dois ou trs
segundos, mas foi o suficiente para que os suos se reagrupassem e
agora o lder deles estava levantando a besta e Will no teve
alternativa: levantou a pistola, cerrou a mo direita sobre a coronha e
apertou o gatilho, e a exploso sacudiu seus ossos, mas a bala acertou o
corao do homem. O soldado caiu para trs como se tivesse levado um
coice de cavalo. Simultaneamente, os dois pequeninos espies se lanaram
sobre os outros dois, saltando das liblulas em cima de suas vtimas,
antes que Will pudesse piscar .A mulher encontrou um pescoo, o homem um
pulso e cada um deu um golpe rpido, para trs, com o calcanhar. Houve
um arquejar de sufocamento angustiado e os dois suos morreram, seus
daemons desaparecendo no meio de um uivo. Will saltou por cima dos
corpos e Lyra foi com ele, correndo to rpido quanto podia, com
Pantalaimon, sob a forma de gato selvagem, seguindo em seus calcanhares.
Onde est Ama?, pensou Will e, naquele mesmo momento, a viu se
desviando, escapulindo e correndo por um outro caminho. Agora ela vai
estar em segurana, pensou, e um segundo depois viu o claro da janela
l atrs dos arbustos. Ele agarrou o brao de Lyra e a puxou naquela
direo. O rosto deles estava arranhado, as roupas, rasgadas, os
tornozelos se torciam tropeando em razes e pedras, mas encontraram a
janela e mergulharam atravs dela para o outro mundo, sobre as rochas
brancas como osso sob o claro fulgurante da lua, onde somente o ranger
dos insetos quebrava o imenso silncio. E a primeira coisa que Will fez
foi abraar o estmago e vomitar, sacudido pelas nsias de nusea,
dominado por um horror mortal. Agora j eram dois os homens que ele
havia matado, sem falar no rapaz na Torre dos Anjos... Will no queria
isso. Seu corpo se revoltava contra o que seu instinto o levara a fazer,
e o resultado era aquela 181 agoniante crise de nusea, amarga, seca, e
vmitos que o deixavam de joelhos, at que seu estmago e seu corao
estivessem vazios. Lyra ficou assistindo sem poder fazer nada, segurando
Pan no colo, balanando-o apertado contra o peito. Finalmente Will se
recuperou um pouco e, imediatamente, viu que no estavam sozinhos
naquele mundo, porque os pequeninos espies tambm estavam ali, com seus
fardos arrumados no cho ali por perto. As liblulas estavam voando
baixo sobre as rochas, caando mariposas. O homem fazia uma massagem no
ombro da mulher e ambos olhavam severamente para as crianas. Os olhos
deles eram to brilhantes e as feies to distintas que no havia
dvida quanto a seus sentimentos, e Will teve certeza de que formavam um
par formidvel, fossem quem fossem. Ele disse para Lyra: -O aletmetro
est na minha mochila, ali. -Ah, Will, eu quis tanto que voc o tivesse
encontrado, mas o que foi que aconteceu? Voc encontrou seu pai? E meu
sonho, Will,  demais para acreditar, as coisas que temos que fazer. Ah,
nem me atrevo a pensar nisso... E o aletmetro est em segurana! Voc o
trouxe at aqui, mantendo-o em segurana para mim... As palavras
jorravam, saindo to depressa de sua boca que ela nem esperava
respostas. Ela virou o aletmetro de um lado para outro, os dedos
alisando o disco pesado de metal e o mostrador de cristal liso, com os
ponteiros facetados que eles conheciam to bem. Will pensou: O
aletmetro vai nos dizer como consertar a faca! Mas antes perguntou:
-Voc est se sentindo bem? Est com fome ou com sede? -No sei... ,
at que estou. Mas no muita. De qualquer maneira -Deveramos nos
afastar dessa janela -disse Will -por segurana, para o caso de eles
descobrirem e atravessarem tambm. -Sim,  verdade -concordou Lyra, e
eles foram subindo pela encosta, Will carregando sua mochila e Lyra,
feliz da vida, carregando 182 a bolsinha onde guardava o aletmetro.
Pelo canto do olho Will viu que os dois pequenos espies os seguiam, mas
que se mantinham  distncia e que no faziam ameaas. Depois do cume
havia uma protuberncia na rocha que oferecia um abrigo e eles sentaram
debaixo dela, depois de verificarem se no havia cobras, fizeram uma
refeio de frutas secas e beberam gua do cantil de Will. Will falou em
voz baixa. -A faca est quebrada. No sei como aconteceu. A Sra. Coulter
fez alguma coisa, ou disse alguma coisa, e eu pensei em minha me e isso
fez a faca se torcer, ou ficar presa ou... eu no sei o que aconteceu.
Mas estamos imobilizados enquanto no pudermos consert-la. Eu no
queria que aquelas pessoas pequeninas soubessem, porque, enquanto
pensarem que ainda posso usar a faca, estou em posio de superioridade.
Achei que talvez voc pudesse perguntar ao aletmetro e -Claro!
-exclamou ela, imediatamente. -Claro, vou perguntar. Um instante depois
ela tinha tirado o instrumento da bolsa e colocado onde o luar batia
forte de modo que pudesse ver o mostrador com clareza. Afastando os
cabelos para trs, prendendo-os atrs das orelhas, exatamente como Will
tinha visto sua me fazer, comeou a girar os ponteiros da maneira j
familiar e Pantalaimon, agora em forma de camundongo, sentou-se no
joelho dela. Mas no foi fcil ver como ela havia pensado; talvez o luar
fosse enganador. Ela teve que virar o instrumento e mudar de posio
umas duas vezes, e piscar para clarear a viso, antes que os smbolos se
tornassem mais definidos, ntidos, ento conseguiu ler. Ela mal tinha
comeado quando soltou uma pequena exclamao de surpresa e olhou para
Will, com os olhos brilhando, enquanto os ponteiros giravam. Mas ainda
no havia acabado e ela continuou lendo, at que o instrumento ficou
imvel. Ela o guardou, dizendo: 183 -Iorek? Ele est por perto, Will?
Achei que tinha ouvido voc cham-lo, mas depois pensei que fosse apenas
meu desejo de que ele estivesse aqui. Est de verdade? -Est. Ele
poderia consertar a faca? Foi isso que o aletmetro disse? -Ah, ele pode
fazer qualquer coisa com metal, Will! No apenas a armadura, tambm pode
fazer coisas delicadas... -E contou a ele sobre a caixinha que Iorek
tinha feito para ela para prender a mosca-espi. -Mas onde est ele?
-Est por perto. Ele poderia ter vindo quando chamei, mas evidentemente
estava lutando... E Balthamos! Ah, mas ele devia estar com tanto medo...
-Quem? Will explicou rapidamente, sentindo o rosto ficar vermelho por
causa da vergonha que o anjo devia estar sentindo. -Mas eu lhe contarei
mais a respeito dele depois -disse. - to estranho... Ele me disse
tantas coisas, e acho que tambm as compreendo... -Ele passou as mos
nos cabelos e esfregou os olhos. -Voc tem de me contar tudo -disse ela
com firmeza. - Tudo o que voc fez depois que ela me apanhou. Ah, Will,
voc ainda est sangrando? Coitada de sua mo... -No. Meu pai curou
minha mo. Eu s abri um pouquinho a ferida, quando bati no macaco, mas
agora est melhor. Ele me deu um ungento que tinha preparado... -Voc
encontrou seu pai? -Isso mesmo, na montanha, naquela noite... Ento ele
deixou que Lyra limpasse o ferimento e passasse mais um pouco de
ungento da caixinha de chifre, enquanto contava a ela parte do que
tinha acontecido: a luta com o estranho, a revelao que os dois tinham
tido um segundo antes que a flecha da bruxa acertasse o alvo, seu
encontro com os anjos, a viagem at a caverna e seu encontro com Iorek.
184 -Tudo isso aconteceu e eu estava dormindo -admirou-se, maravilhada.
-Sabe, eu acho que ela foi gentil, cuidou bem de mim, Will. eu acho que
foi... no creio que tenha querido me fazer mal... Ela fez tantas coisas
ms, mas... Lyra esfregou os olhos. -Ah, mas meu sonho, Will, no
consigo nem contar como foi estranho! Foi como quando leio o aletmetro,
toda aquela nitidez, tudo claro e uma compreenso to profunda que voc
no consegue ver o fundo, tudo claro at l embaixo. -Foi... Lembra-se
de que eu lhe falei de meu amigo Roger e como os Papes o apanharam, de
como tentei salv-lo e deu tudo errado e Lorde Asriel o matou?
-perguntou. -Bem, eu o vi. No meu sonho vi o Roger novamente, s que ele
estava morto, era um fantasma e estava, como se estivesse acenando para
mim, me chamando, s que eu no conseguia ouvir. Ele no queria que eu
estivesse morta, no era isso. Ele queria falar comigo. "E... Fui eu que
o levei para l, para Svalbard, onde ele foi morto, ele morreu por minha
culpa. E me lembrei de quando costumvamos brincar na Faculdade Jordan,
Roger e eu, no telhado, pela cidade inteira, nos mercados e na margem do
rio, e l nos Barreiros... Eu, Roger e todos os outros... E fui para
Bolvangar para traz-lo de volta para casa em segurana, s que consegui
apenas piorar as coisas e, se eu no pedir desculpas a ele, tudo aquilo
no ter valido nada, ter sido apenas uma enorme perda de tempo. Tenho
que fazer isso, sabe, Will. Tenho que descer  terra dos mortos e
encontrar o Roger e... pedir desculpa. Ento ns poderemos... eu
poderei... Depois disso, no importa." -Esse lugar onde os mortos esto
-disse Will. - um mundo como este, como o meu ou o seu, como qualquer
um dos outros?  um mundo onde eu poderia chegar com a faca? Ela olhou
para ele, espantada com a idia. -Voc poderia perguntar -prosseguiu
ele. -Faa isso agora. Pergunte onde fica e como podemos chegar l. 185
Ela se debruou sobre o aletmetro, tendo que esfregar os olhos e olhar
bem de perto novamente, e seus dedos se moveram rapidamente. Um minuto
depois ela tinha a resposta. -Certo -disse ela, mas  um lugar estranho,
Will... To estranho... Ser que realmente poderamos fazer isso?
Realmente poderamos ir at a terra dos mortos? Mas... que parte de ns
faz isso? Porque os daemons desaparecem quando morremos, j vi isso, e
nossos corpos, bem, eles apenas ficam na cova e apodrecem, no ? -Ento
deve haver uma terceira parte. Uma parte diferente. -Voc sabe -disse
ela, cheia de animao, acho que isso deve ser verdade! Porque posso
pensar em meu corpo e posso pensar em meu daemon, de modo que tem que
haver uma outra parte, para pensar! -Exato. E isso  o esprito. Os
olhos de Lyra faiscaram. Ento disse: -Talvez pudssemos libertar o
esprito de Roger de l. Talvez pudssemos salv-lo. -Talvez. Poderamos
tentar. -Isso, vamos fazer isso! -concordou imediatamente. - Vamos
juntos.  exatamente isso que vamos fazer! Mas, se no conseguissem
consertar a faca, pensou Will, no poderiam fazer coisa alguma. Logo que
sua cabea clareou e seu estmago se acalmou, ele se levantou e chamou
os pequeninos espies. Estavam nas proximidades, ocupados com alguma
espcie de minsculo aparelho. -Quem so vocs? -perguntou. -E de que
lado esto? O homem acabou o que estava fazendo e fechou uma caixa de
madeira, parecendo um estojo de violino, no maior que uma casca de noz.
A mulher falou primeiro. -Somos galivespianos -respondeu. -Eu sou Lady
Salmakia e meu companheiro  o Cavaleiro Tialys. Somos espies de Lorde
Asriel. 186 Ela estava de p sobre um pedregulho, a uns trs passos de
distncia de Will e Lyra, seu corpo e feies ntidos e brilhantes sob o
luar. Sua voz pequenina era perfeitamente clara e baixa, sua expresso
confiante. Usava uma saia rodada de tecido prateado e um corpete verde
sem mangas, e seus ps, munidos de esporas, estavam descalos, como os
do homem. As roupas dele eram igualmente coloridas, mas a camisa tinha
mangas compridas e as calas largas chegavam ao meio da batata da perna.
Ambos pareciam fortes, competentes, impiedosos e orgulhosos. -De que
mundo vocs vm? -perguntou Lyra. -Nunca vi pessoas como vocs. -Nosso
mundo tem os mesmos problemas que o seu -disse Tialys. -Somos rebeldes,
fora-da-lei. Nosso lder, Lorde Roke, ouviu falar da revolta de Lorde
Asriel e lhe jurou que seramos seus aliados, prometeu nosso apoio. -E o
que querem fazer comigo? -Lev-la para seu pai -respondeu Lady Salmakia.
-Lorde Asriel enviou um exrcito comandado pelo Rei Ogunwe para resgatar
voc e o menino, elevar vocs dois para a fortaleza dele. Estamos aqui
para ajudar. -Ah, mas e se eu no quiser ir para junto de meu pai? E se
eu no confiar nele? -Lamento muito ouvir isso -disse ela, mas estas so
as ordens que recebemos: levar vocs at ele. Lyra no conseguiu se
controlar: deu uma grande gargalhada diante da idia daquelas pessoas
minsculas obrigando-a a fazer qualquer coisa. Mas aquilo foi um erro.
Num movimento repentino, a mulher agarrou Pantalaimon e, segurando seu
corpo de camundongo num aperto feroz, encostou a ponta da espora na
perna dele. Lyra arquejou: foi um choque, exatamente como o choque que
havia sentido quando os homens de Bolvangar o agarraram. Ningum devia
tocar o daemon de outra pessoa -era uma violao. 187 Mas ento viu que
Will havia agarrado o homem com a mo direita, segurando e apertando com
firmeza suas pernas de modo que no pudesse usar as esporas, e
levantando-o alto. -Estamos novamente num impasse- comentou Salmakia
calmamente. -Ponha o cavaleiro no cho, menino. -Primeiro largue o
daemon de Lyra -disse Will. -No estou com disposio para discutir.
Lyra viu, com um frio no estmago de excitao, que Will estava
perfeitamente pronto para esmagar a cabea do galivespiano contra a
rocha. E os dois seres pequeninos sabiam disso. Salmakia afastou o p da
perna de Pantalaimon e, imediatamente, ele lutou para se libertar e
assumiu a forma de um gato-do-mato, sibilando feroz, os plos em p, o
rabo batendo de um lado para o outro. Os dentes arreganhados estavam a
um palmo do rosto da mulher e ela olhou para ele com absoluta
compostura. Depois de um momento, ele lhe deu as costas e fugiu correndo
para o colo de Lyra, sob a forma de arminho, e Will cuidadosamente
colocou Tialys de volta sobre a pedra ao lado de sua parceira. -Voc
deveria demonstrar algum respeito -disse o cavaleiro para Lyra. - uma
criana desatenciosa e insolente, e vrios homens bravos morreram esta
noite para garantir sua segurana.  melhor se comportar com educao.
-Sim -disse ela com humildade, sinto muito, sinceramente. -Quanto a voc
-ele prosseguiu, virando-se para Will. Mas Will o interrompeu. -Quanto a
mim, no vou admitir que fale comigo desse modo, de maneira que  melhor
no tentar. Respeito a gente d e recebe. Agora escute com ateno. Voc
no est no comando aqui; ns estamos. Se quiser ficar e ajudar, ento
vai fazer o que dissermos. Caso contrrio, pode voltar para junto de
Lorde Asriel agora. No adianta nem discutir o assunto. Lyra percebeu a
indignao dos dois, mas Tialys estava olhando para a mo de Will, que
estava sobre a bainha da faca em seu cinto, e 188 sabia que ele estava
pensando que enquanto Will tivesse a faca seria mais forte do que eles.
Ento, a qualquer custo, eles no deveriam saber que estava quebrada.
-Muito bem -disse o cavaleiro. -Vamos ajudar vocs, porque esta foi a
misso que nos foi dada. Mas tm que nos dizer o que pretendem fazer.
-Isso  justo -disse Will. -Eu direi a vocs. Ns vamos voltar ao mundo
de Lyra, assim que tivermos descansado, e vamos nos encontrar com um
amigo nosso, um urso. Ele no est longe. - o urso de armadura? Muito
bem -disse Salmakia. -Ns o vimos lutar. Ajudaremos vocs a fazer isso.
Mas depois devem vir conosco at Lorde Asriel. -Iremos -disse Lyra,
mentindo, falando com a maior seriedade. -Ah, sim, depois ns faremos
isso, com certeza. Pantalaimon agora estava mais calmo e curioso, de
modo que ela o deixou subir em seu ombro e mudar de forma. Ele tornou-se
uma liblula, to grande quanto as outras duas que estavam esvoaando no
ar enquanto eles conversavam, e saiu voando para se juntar a elas.
-Aquele veneno -perguntou Lyra, virando-se de volta para os
galivespianos, esse veneno que tm nas esporas,  mortal? Porque picaram
minha me, a Sra. Coulter, no foi? Ela vai morrer? -Foi apenas uma
pequena ferroada -respondeu Tialys. -Uma dose inteira a teria matado,
sim, mas um pequeno arranho a deixar fraca e tonta durante meio dia ou
coisa assim. E sentindo uma dor de enlouquecer, ele sabia, mas no
contou isso a ela. -Preciso falar em particular com Lyra -disse Will.
-Vamos nos afastar apenas por um minuto. -Com essa faca -disse o
cavaleiro, voc pode cortar uma abertura de um mundo para outro, no 
verdade? -Voc no confia em mim? -No. 189 -Est bem, ento vou
deix-la aqui. Se no estiver comigo, no poderei us-la. Will
desafivelou a bainha da faca e a colocou sobre a pedra e ento ele e
Lyra se afastaram e sentaram num ponto de onde podiam ver os
galivespianos. Tialys estava olhando muito atentamente para o cabo da
faca, mas sem tocar nela. -Vamos ter que continuar com eles por enquanto
-disse Will. -Assim que a faca estiver consertada, fugiremos. -Eles so
to rpidos, Will- disse ela. -E no se incomodariam nem um pouco,
matariam voc. -Espero apenas que Iorek possa consert-la. No tinha
percebido quanto precisamos dela. -Ele vai consertar -disse ela
confiante. Lyra estava observando Pantalaimon, enquanto esvoaava e
dardejava no ar, abocanhando minsculas mariposas como as outras
liblulas. No conseguia ir to longe quanto elas iam, mas era
igualmente rpido e o colorido de suas cores ainda mais vivo. Levantou a
mo e ele pousou nela, as longas asas transparentes vibrando. -Acha que
podemos confiar neles enquanto dormimos? perguntou Will. -Podemos. So
impetuosos, violentos, mas acho que so honestos. Os dois voltaram para
o rochedo e Will disse para os galivespianos: -Agora eu vou dormir.
Seguiremos adiante quando amanhecer. O cavaleiro assentiu e Will se
deitou encolhido, adormecendo imediatamente. Lyra sentou ao lado dele,
com Pantalaimon sob a forma de gato, confortavelmente aninhado em seu
colo. Que sorte para Will que ela agora estivesse acordada para cuidar
dele! Era realmente muito corajoso e ela o admirava tanto que nem
saberia dizer o quanto; mas Will no sabia mentir, nem trair, nem
enganar, coisas que ela fazia to naturalmente quanto respirar. Quando
pensou nisso, sentiu-se animada e virtuosa, pois ela o fazia por Will,
nunca por si mesma. 190 Tinha pretendido consultar o aletmetro
novamente, mas, para sua profunda surpresa, descobriu que estava to
cansada quanto se tivesse passado todo aquele tempo acordada em vez de
inconsciente e deitou-se ali perto, fechou os olhos, s para tirar um
cochilo rpido, garantiu a si mesma, antes de adormecer. 191 *14 SAIBA O
QUE  LABUTA SEM ALEGRIA  VIL LABUTA SEM SOFRIMENTO  VIL SOFRIMENTO
SEM LABUTA  VIL ALEGRIA SEM LABUTA  VIL JOHN RUSKIN Will e Lyra
dormiram a noite inteira e acordaram quando o sol bateu em suas
plpebras. Na verdade, acordaram quase juntos, num intervalo de
segundos, com o mesmo pensamento: mas quando olharam em volta o
Cavaleiro Tialys estava calmamente montando guarda nas proximidades. -As
foras do Tribunal Consistorial bateram em retirada- disse-lhes. -A Sra.
Coulter est nas mos do Rei Ogunwe e a caminho de Lorde Asriel. -Como
sabe disso? -perguntou Will, sentando-se com o corpo ainda enrijecido.
-Voc voltou l pela janela? -No. Ns falamos pelo magneto ressonante.
Relatei nossa conversa -disse Tialys para Lyra -ao nosso comandante,
Lorde Roke, e ele concordou que fssemos com vocs encontrar o urso, e
que depois que o tiverem visto, devero vir conosco. De modo que somos
aliados, e ns ajudaremos vocs tanto quanto pudermos. 192 -timo -disse
Will. -Ento vamos comer juntos. Vocs comem a nossa comida? -Obrigada,
comemos sim -disse Lady Salmakia. Will tirou da mochila seus ltimos
pssegos secos e o po de centeio dormido, que era tudo o que lhe
restava, e dividiu tudo entre eles, embora,  claro, os espies no
comessem muito. -Quanto  gua, parece no haver nenhuma aqui neste
mundo -comentou Will. -Teremos que esperar at voltarmos para beber.
-Ento  melhor fazermos isso logo -disse Lyra. Primeiro, contudo, ela
pegou o aletmetro. Agora podia ver com clareza, ao contrrio da noite
anterior, mas seus dedos estavam lentos e endurecidos depois de ter
dormido tanto. Ela perguntou se ainda havia algum perigo no vale. No,
veio a resposta, todos os soldados se foram e os aldees esto em suas
casas; de modo que eles se prepararam para partir. A janela parecia
estranha na luz forte, ofuscante do deserto, dando para o arbusto
frondoso na sombra, um quadrado de vegetao espessa muito verde,
pendurada no espao, como uma pintura. Os galivespianos quiseram
examin-la e ficaram espantadssimos ao ver como simplesmente no estava
l se olhada por trs, e como apenas passava a existir quando se dava a
volta para o outro lado. -Eu terei que fech-la depois que atravessarmos
-disse Will. Lyra tentou apertar e juntar as bordas, mas seus dedos no
conseguiam encontr-las; os espies tambm no conseguiram, a despeito
da delicadeza de suas mos. S Will era capaz de sentir exatamente onde
estavam as bordas e ele as fechou bem e rapIdamente. -Em quantos mundos
se pode entrar com a faca? -perguntou Tialys. -Tantos quantos existirem
-respondeu Will. -Ningum teria tempo para descobrir quantos. Ele
levantou a mochila nas costas e foi encabeando o grupo seguindo pelo
caminho na floresta. As liblulas ficaram encantadas com o ar fresco e
mido e saram dardejando como agulhas pelos raios de 193 sol. O
movimento das rvores acima estava menos violento e o ar fresco e
tranqilo; de modo que foi ainda mais chocante ver os escombros de um
girptero pendurado entre os galhos, com o corpo de seu piloto africano
preso pelo cinto com a metade cada para fora pela porta, e encontrar a
carcaa carbonizada do zepelim um pouco mais acima -tiras negras de
fuligem, esteios e tubulaes enegrecidos, vidros quebrados, e depois os
corpos: trs homens reduzidos a cinzas, seus membros contorcidos e
encolhidos como se ainda estivessem ameaando lutar. E aqueles eram
apenas os que tinham tombado perto da trilha. Havia outros corpos e mais
destruio no penhasco acima e entre as rvores mais abaixo. Chocadas e
silenciadas, as duas crianas seguiram em meio  carnificina, enquanto
os espies em suas liblulas olhavam em torno mais friamente,
acostumados a combates, reparando em como aquele havia decorrido e em
quem tinha sofrido mais perdas. Quando chegaram ao alto do vale, onde as
rvores escasseavam e as cachoeiras com arco-ris comeavam, pararam
para beber bastante daquela gua fria como gelo. -Espero que a menina
esteja bem -disse Will. -Nunca teramos conseguido tirar voc de l se
ela no a tivesse acordado. Ela foi consultar um religioso especialmente
para obter aquele p. -Ela est bem -disse Lyra, porque eu perguntei ao
aletmetro, ontem  noite. Porm, ela acha que somos demnios. Tem medo
de ns. Provavelmente deseja que nunca tivesse se metido nessa coisa
toda, mas est bem e em segurana. Subiram pelo lado das cachoeiras e
tornaram a encher o cantil de Will antes de comearem a atravessar o
plat em direo  cordilheira para onde o aletmetro dissera a Lyra que
Iorek tinha ido. E ento veio um dia de longa e dura caminhada: nenhum
problema para Will, mas um tormento para Lyra, cujas pernas estavam
enfraquecidas e fora de forma depois de seu sono prolongado. Mas Lyra
teria preferido que lhe cortassem a lngua a confessar como se sentia
mal: 194 mancando, apertando os lbios, tremendo, ela acompanhou o passo
de Will e no disse nada. S quando sentaram ao meio-dia ela se permitiu
um gemido e isso somente quando Will havia se afastado para satisfazer
suas necessidades. Lady Salmakia disse: -Descanse. No h nenhuma
vergonha em estar cansada. -Mas no quero desapontar Will! E no quero
que ele pense que sou fraca e que o estou atrasando. -Isso  a ltima
coisa que ele pensaria. -Voc no sabe -retrucou Lyra em tom malcriado.
-No conhece Will, do mesmo jeito que no me conhece. -Mas conheo
impertinncia quando ouo -disse a pequenina dama calmamente. -Faa o
que estou dizendo agora e descanse. Guarde sua energia para a caminhada.
Lyra teve vontade de se rebelar, mas as esporas reluzentes da dama
estavam muito ntidas  luz do sol, de modo que se calou. Seu
companheiro, o cavaleiro, estava abrindo o estojo do magneto ressonante
e, com a curiosidade vencendo o ressentimento, Lyra ficou observando
para ver o que ele fazia. O instrumento parecia um pedao curto de lpis
feito de pedra fosca, de cor preta-acinzentada, deitado sobre uma base
de madeira, e o cavaleiro movia rapidamente um pequeno arco, como um
arco de violino, sobre a extremidade, enquanto apertava os dedos em
vrios pontos ao longo da superfcie. Os lugares no eram marcados, de
modo que ele parecia estar tocando ao acaso, mas pela intensidade de sua
expresso e a fluncia precisa de seus movimentos, Lyra percebeu que era
um processo difcil, exigindo habilidade da mesma forma que quando lia o
aletmetro. Depois de vrios minutos, o espio guardou o arco e colocou
um par de fones de ouvido, os fones no maiores que a unha do dedo
mindinho de Lyra, e foi enrolando, bem apertada, uma das pontas do fio
em volta de um gancho numa das extremidades da pedra, esticando o resto
at o outro gancho na outra ponta e enrolando em volta daquela. 195
Atravs da manipulao dos dois ganchos e da tenso no fio entre eles,
ele evidentemente podia ouvir a resposta para sua mensagem. -Como  que
isto funciona? -perguntou ela depois que ele acabou. Tialys olhou para
ela como se para avaliar se estava realmente interessada, depois disse:
-Seus cientistas, como  que os chama, telogos experimentais, devem
conhecer algo que se chama enredamento quntico. Significa que podem
existir duas partculas que tm somente propriedades em comum, de modo
que o que quer que acontea com uma, acontece com a outra no mesmo
instante, no importa a que distncia estejam. Bem, em nosso mundo
existe uma maneira de pegar um magneto ou m comum, enredar todas as
suas partculas e depois dividi-lo em dois, de modo que ambas as partes
ressoem juntas. A outra parte deste est com Lorde Roke, nosso
comandante. Quando toco neste aqui com meu arco, o outro reproduz os
sons com exatido, e assim nos comunicamos. Ele guardou todo o
equipamento e disse alguma coisa para a dama. Ela veio se juntar a ele e
os dois se afastaram um pouco, falando baixo demais para que Lyra
pudesse ouvir, embora Pantalaimon tivesse se transformado numa coruja e
virado suas grandes orelhas para eles. Pouco depois, Will voltou e eles
seguiram adiante, mais lentamente,  medida que o dia foi passando, e a
trilha se tornava mais ngreme e alinha de neve se aproximava.
Descansaram mais uma vez no alto do vale, pois Will sabia que Lyra
estava quase chegando ao limite de suas foras: estava mancando muito e
seu rosto estava plido. -Deixe-me ver seus ps -disse ele, porque se
estiverem com bolhas, passo um pouco de ungento neles. E estavam muito
empolados e feridos, de modo que ela deixou que ele esfregasse o blsamo
de musgo-sangneo, fechando os olhos e rangendo os dentes. Enquanto
isso, o cavaleiro estava ocupado e, depois de alguns minutos, guardou
seu magneto ressonante e disse: 196 -Comuniquei nossa posio a Lorde
Roke e eles estaro enviando um girptero para nos buscar assim que
tiverem falado com seu amigo. Will assentiu. Lyra no prestou ateno.
Pouco depois ela se endireitou, esgotada, sentou-se e calou as meias e
os sapatos, e mais uma vez retomaram a caminhada. Mais uma hora se
passou e a maior parte do vale ficou na sombra, Will comeou a se
perguntar se encontrariam algum abrigo antes que a noite casse; e ento
Lyra deu um grito de alvio e de alegria. -Iorek! Iorek! Ela o tinha
visto antes de Will. O urso rei ainda estava a alguma distncia, o plo
branco se confundindo contra um trecho de neve, mas quando a voz de Lyra
ecoou ele virou a cabea, levantou-a para farejar e desceu aos saltos
pela encosta da montanha ao encontro deles. Ignorando Will, ele abraou
Lyra, encobrindo o rosto dela com seu plo, grunhindo to profundamente
que Will pde sentir da cabea aos ps. Lyra, entretanto, sentiu aquilo
com prazer e at esqueceu, por instantes, as bolhas e o cansao. -Ah,
Iorek, meu querido, estou to contente de ver voc! Nunca imaginei que
fosse voltar a encontrar voc, depois do ocorrido em Svalbard e de todas
as coisas que aconteceram... o Sr. Scoresby est bem? Como vai seu
reino? Est aqui sozinho? Os pequenos espies tinham desaparecido; em
todo caso, agora parecia que s havia eles trs na encosta da montanha
que escurecia, o menino, a menina e o grande urso branco. Como se nunca
tivesse querido estar em nenhum outro lugar, Lyra montou quando Iorek
lhe ofereceu as costas e seguiu orgulhosa e feliz enquanto seu amigo
querido a carregava para o alto, cobrindo o ltimo trecho do caminho at
chegar a sua caverna. Will, preocupado, no ficou escutando, enquanto
Lyra conversava com Iorek, embora ouvisse seu grito de consternao a
certo ponto e a ouvisse dizer: 197 -O Sr. Scoresby... Oh, no! Ah, mas
que coisa terrvel! De verdade, morto? Voc tem certeza, Iorek? -A bruxa
me contou que ele partiu para tentar encontrar um homem chamado Grumman.
Will agora comeou a ouvir com mais ateno, pois Baruch e Balthamos
tinham lhe contado parte daquilo. -O que aconteceu? Quem o matou?
-perguntou Lyra, com a voz trmula. -Ele morreu lutando. Impediu uma
companhia inteira de soldados moscovitas de avanar, enquanto o homem
escapava. Eu encontrei seu corpo. Morreu com bravura. Eu o vingarei.
Lyra estava chorando copiosamente e Will no sabia o que dizer, pois
aquele homem desconhecido morrera para salvar seu pai; e tanto Lyra
quanto o urso tinham conhecido e amado Lee Scoresby, e ele no. Logo
Iorek virou para um lado e se dirigiu para a entrada de uma caverna
muito escura, fazendo contraste com a neve. Will no sabia onde estavam
os espies, mas tinha certeza absoluta de que estavam por perto. Queria
falar discretamente com Lyra, mas no enquanto no pudesse ver os
galivespianos e ter certeza de no estar sendo ouvido. Deixou a mochila
na entrada da caverna e sentou-se exausto. Atrs dele o urso estava
acendendo fogo e Lyra observava, curiosa, apesar de sua tristeza. Iorek
segurou uma pequena pedra de algum tipo de minrio de ferro na pata
dianteira esquerda e bateu com ela, no mais que trs ou quatro vezes,
contra uma outra similar, no cho. A cada vez que batia, uma poro de
fagulhas irrompiam e iam exatamente para onde Iorek as estava
direcionando: uma pilha de gravetos quebrados e mato seco. Pouco depois
aquilo estava em chamas e Iorek calmamente colocou uma acha de lenha,
depois outra e mais outra at que a fogueira estivesse ardendo bem. As
crianas gostaram, porque fazia muito frio agora, e veio, ento, algo
ainda melhor: o pernil de alguma coisa que deveria ter sido uma 198
cabra. Iorek comeu sua parte crua,  claro, mas espetou o pedao inteiro
da carne num galho bem pontudo, e colocou-o para assar para os dois. -
fcil caar aqui nessas montanhas, Iorek? -perguntou ela. -No. Meu povo
no pode viver aqui. Eu estava enganado, mas foi um engano de sorte,
pois encontrei voc. Quais so seus planos agora? Will olhou em volta,
examinando a caverna. Estavam sentados perto da fogueira e a luz do fogo
lanava reflexos amarelos e alaranjados no plo do rei urso. Will no
conseguia ver nenhum sinal dos espies, mas no adiantava: tinha que
pedir. -Rei Iorek -comeou ele, minha faca est quebrada... -ento ele
lanou um olhar para alm de onde o urso estava e disse: -No, espere.
-Estava apontando para a parede. -Se estiverem me ouvindo -prosseguiu
falando mais alto, mostrem-se e faam isso honestamente. No nos
espionem. Lyra e Iorek Byrnison viraram-se para ver com quem ele estava
falando. O homenzinho saiu das sombras e ficou parado calmamente na luz,
numa reentrncia mais alta que a cabea das crianas. Iorek rosnou.
-Voc no pediu permisso a Iorek Byrnison para entrar na caverna dele
-disse Will. -E ele  um rei, e voc apenas um espio. Deveria
demonstrar mais respeito. Lyra adorou ouvir aquilo. Olhou para Will
cheia de prazer e viu seu rosto feroz, cheio de desprezo. Mas a
expresso do cavaleiro, enquanto olhava para Will, era de desagrado.
-Temos sido sinceros edito a verdade para vocs -disse ele. -Foi um ato
desonroso nos enganar. Will se levantou. Seu daemon, Lyra pensou, teria
a forma de uma tigresa, e ela se encolheu diante da fria que imaginou
que o grande animal mostraria. -Se enganamos vocs, foi porque era
necessrio -retrucou. - Por acaso teriam concordado em vir aqui se
soubessem que a faca estava quebrada? Claro que no. Teriam usado seu
veneno para nos deixar 199 inconscientes e teriam pedido ajuda e teriam
nos sequestrado e nos levado para Lorde Asriel. De modo que tivemos que
enganar voc, Tialys, e vai ter que engolir isso. Iorek Byrnison
perguntou: -Quem  este? -Espies -disse Will. -Enviados por Lorde
Asriel. Eles nos ajudaram a escapar ontem, mas se esto do nosso lado,
no deveriam se esconder e ficar ouvindo nossas conversas. E se fizeram
isso, so as ltimas pessoas a ter o direito de falar em desonra. O
olhar do espio foi to furioso que parecia pronto para lutar contra o
prprio Iorek, sem nem dar ateno ao desarmado Will; mas Tialys estava
numa posio indefensvel e sabia disso. Tudo o que podia fazer era
baixar a cabea, fazer uma mesura e pedir desculpas. -Majestade -disse
para Iorek, que imediatamente rugiu. Os olhos do Cavaleiro lanavam
fascas de dio para Will, de desafio e advertncia para Lyra, e de um
respeito frio e desconfiado para Iorek. A clareza de suas feies
tornava todas essas expresses vvidas e fortes, como se uma luz
estivesse voltada para ele. A seu lado Lady Salmakia estava saindo da
sombra e, ignorando completamente as crianas, fez uma reverncia para o
urso. -Perdoe-nos -disse para Iorek -O hbito de esconder as coisas 
difcil de quebrar e meu companheiro, o Cavaleiro Tialys, e eu, Lady
Salmakia, estivemos vivendo entre nossos inimigos por tanto tempo que,
por uma questo de puro hbito, negligenciamos a obrigao de lhe
oferecer a reverncia devida. Estamos acompanhando esse menino e essa
menina para assegurar que cheguem em segurana aos cuidados de Lorde
Asriel. No temos nenhum outro objetivo e, certamente, no temos
quaisquer intenes que lhe possam ser prejudiciais, Rei IorekByrnison.
Se Iorek tinha dvidas de como seres to pequeninos poderiam fazer-lhe
mal, no demonstrou; no s sua expresso era naturalmente difcil de
decifrar, como ele tambm tinha suas prprias regras de etiqueta e a
dama tinha falado com grande cortesia e elegncia. 200 -Desam e venham
para junto da fogueira -convidou. -H bastante comida, mais que de
sobra, se estiverem com fome. Will, voc tinha comeado a falar da faca.
-Sim -disse Will, e pensei que isso nunca poderia acontecer, mas est
quebrada. E o aletmetro disse a Lyra que voc poderia consert-la. Eu
ia pedir mais educadamente, mas, indo direto ao ponto, pode consertar a
faca, Iorek? -Mostre-me. Will sacudiu a bainha tirando todos os pedaos
e os arrumou no solo rochoso, empurrando-os aqui e ali, at estarem
encaixados em seus lugares certos, de modo que pudesse ver que estavam
todos ali. Lyra levantou um galho em chamas e, sob aquela luz, Iorek se
abaixou todo para olhar bem de perto cada pedao, tocando delicadamente
com suas garras macias e levantando para vir-lo primeiro para um lado,
depois para o outro e examinar o ponto em que quebrara. Will ficou
maravilhado com a destreza daquelas imensas garras negras. Ento Iorek
voltou a se endireitar, sentado, a cabea virada para o alto, para as
sombras. -Posso -disse ele, respondendo exatamente a pergunta e nada
mais. Lyra, sabendo o que ele estava querendo dizer, perguntou: -Ah, mas
voc vai consertar, Iorek? Voc no pode imaginar como isto 
importante; se no pudermos consert-la, ento estaremos numa encrenca
desesperadora e no somente ns -Eu no gosto dessa faca -disse Iorek.
-Tenho medo do que ela pode fazer. Nunca vi nada to perigoso. As
mquinas de combate mais mortferas so brinquedos se comparadas a essa
faca, o mal que ela pode causar  ilimitado. Teria sido infinitamente
melhor se jamais tivesse sido feita. -Mas com ela... -comeou Will.
Iorek no o deixou acabar, e prosseguiu: 201 -Com ela voc pode fazer
coisas estranhas. O que voc no sabe  o que a faca faz sozinha. Suas
intenes podem ser boas. Mas a faca tambm tem intenes. -Como 
possvel isso? -perguntou Will. -As intenes de um instrumento so o
que ele faz. Um martelo tem a inteno de golpear, um torno tem a
inteno de segurar, prender bem, uma alavanca tem a inteno de
levantar. Elas so a finalidade para a qual o instrumento  feito. Mas
por vezes um instrumento pode ter outros usos que voc no conhece. Por
vezes, ao fazer o que voc pretende, voc tambm faz o que a faca
pretende, sem ter conhecimento disso. Est vendo o gume mais afiado
dessa faca? -No -respondeu Will, pois era verdade: o gume se reduzia a
uma finura to aguda que o olhar no conseguia alcanar. -Ento como
pode saber tudo o que faz? -No posso. Mas ainda assim tenho que us-la
e fazer o que puder para ajudar que coisas boas aconteam. Se no
fizesse nada, eu seria pior que intil. Eu seria culpado. Lyra estava
acompanhando aquele dilogo atentamente; vendo que Iorek ainda relutava,
disse: -Iorek, voc sabe como eram malvadas aquelas pessoas de
Bolvangar. Se no conseguirmos vencer, eles vo continuar a fazer aquele
tipo de coisas para sempre. E, alm disso, se no tivermos a faca, eles
poderiam se apoderar dela. Nunca tnhamos ouvido falar sobre a faca
quando conheci voc, e mais ningum tambm tinha ouvido, mas agora
conhecemos a faca e temos que us-la; no podemos simplesmente no usar.
Seria covarde e tambm seria errado, seria a mesma coisa que entreg-la
a eles e dizer, tUdo bem, tratem de us-la, no os impediremos. Est
certo, ns no sabemos o que ela faz, mas eu posso perguntar ao
aletmetro, no posso? Ento saberamos. E poderamos pensar nela da
maneira apropriada, em vez de ficar imaginando coisas e ficar com medo.
Will no queria mencionar seu motivo mais premente: se a faca no fosse
consertada, ele nunca mais voltaria para casa, nunca mais veria 202 sua
me; ela nunca saberia o que havia acontecido; pensaria que ele a havia
abandonado, como seu pai fizera. A faca tinha sido diretamente
responsvel pela desero dos dois. Ele tinha que us-la para voltar
para ela, caso contrrio jamais perdoaria a si mesmo. Iorek Byrnison no
disse nada durante um longo tempo, mas virou a cabea para olhar para
fora, para a escurido. Ento se levantou devagar e foi andando
silenciosamente at a entrada da caverna e olhou para o alto, para as
estrelas: algumas eram as mesmas que conhecia, do norte, e algumas lhe
eram estranhas. Atrs dele, Lyra virou a carne sobre o fogo e Will
examinou seus ferimentos, para ver como estavam sarando. Tialys e
Salmakia permaneceram sentados em silncio na reentrncia. Ento IOrek
virou-se para eles. -Muito bem, vou consertar, mas sob uma condio
-disse. - Embora eu ache que seja um erro. Meu povo e eu no temos
deuses, nem espritos ou daemons. Vivemos e morremos e  s. As questes
humanas no nos trazem nada, exceto sofrimento e problemas, mas temos
uma lngua, fazemos guerra e usamos ferramentas; talvez devssemos
escolher um lado. Mas o conhecimento pleno  melhor do que meio
conhecimento. Lyra, leia seu instrumento. Saiba o que , descubra
exatamente o que est pedindo. Depois, se ainda quiser, eu consertarei a
faca. Imediatamente, Lyra pegou o aletmetro e chegou mais perto do fogo
de modo a poder ver o mostrador. A luz bruxuleante, inconstante, tornava
mais difcil ver, ou talvez fosse a fumaa entrando em seus olhos, e a
leitura demorou mais do que habitualmente. Quando afinal ela piscou e
suspirou, saindo do transe, seu rosto estava preocupado. -Nunca o vi to
confuso -disse ela. -Disse uma poro de coisas. Acho que entendi
direito. Eu acho que sim. Primeiro ele falou de equilbrio. Disse que a
faca podia ser m ou que podia fazer o bem, mas que era um equilbrio
to frgil, to delicado, que o mais leve pensamento ou desejo podia
faz-lo oscilar para um lado ou para o outro... E estava se referindo a
voc, Will, estava se referindo ao que voc desejasse 203 ou pensasse,
s que no disse o que seria um bom pensamento ou um mau pensamento. E
prosseguiu: -Ento... disse que sim -seus olhos faiscaram em direo aos
espies. -Disse que sim, que devemos faz-lo, devemos consertar a faca.
Iorek olhou para ela com firmeza, ento assentiu uma vez. Tialys e
Salmakia desceram para olhar mais de perto e Lyra disse: -Vai precisar
de mais combustvel, Iorek? Eu e Will podemos ir buscar, com certeza.
Will compreendeu o que ela estava querendo dizer: longe dos espies eles
poderiam conversar. Iorek disse: -Abaixo do primeiro contraforte na
trilha h um arbusto de madeira resinosa. Tragam o mximo que puderem.
Ela se levantou de um salto imediatamente e Will foi junto. A lua estava
clara, brilhante, o caminho era uma trilha de marcas de pegadas meio
apagadas na neve, o ar cortante e frio. Os dois se sentiam confiantes,
esperanosos e vivos. No falaram at estarem bem afastados da caverna.
-O que mais ele disse? -perguntou Will. -Disse coisas que no compreendi
e ainda no compreendo agora. Disse que a faca seria a morte do P, mas
depois disse que era a nica maneira de manter o P vivo. No
compreendi, Will. Mas disse novamente que era perigosa, ficava repetindo
isso. Disse que se ns, voc sabe, o que eu pensei -Se formos ao mundo
dos mortos -... se fizermos isso... disse que poderamos nunca mais
voltar, Will. Poderamos no sobreviver. Ele no disse nada e
continuaram caminhando, agora mais comedidamente, procurando o arbusto
que Iorek havia mencionado e calados pelo pensamento da responsabilidade
que poderiam estar aceitando. 204 -Mas temos que ir -argumentou ele, no
temos? -Eu no sei. -Ora, mas agora ns sabemos. Voc tem que falar com
Roger e eu tenho que falar com meu pai. Agora ns temos que ir. -Estou
com medo -disse ela. E ele sabia que Lyra nunca admitiria isso para mais
ningum. -Ele falou o que aconteceria se no fssemos? -perguntou. -S
vazio. S um branco total. Eu realmente no compreendi, Will. Mas acho
que queria dizer que, mesmo se fosse assim to perigoso, ns ainda
deveramos tentar salvar o Roger. Mas no vai ser como quando eu o
resgatei de Bolvangar; na verdade, eu no sabia o que estava fazendo,
naquela ocasio, simplesmente fui l e tive sorte. Quero dizer, apareceu
todo tipo de gente para ajudar, como os gpcios e as bruxas. No vai
haver ningum para ajudar l, aonde temos que ir. E posso ver... Em meu
sonho eu vi... O lugar era... Era pior que Bolvangar.  por isso que
estou com medo. -Pois do que eu estou com medo -disse Will depois de um
minuto, sem olhar para ela - de ficar preso em algum lugar e nunca mais
voltar a ver minha me. De lugar nenhum, uma lembrana veio  sua mente:
era bem pequeno e aquilo foi antes dos problemas dela comearem, e ele
estava doente. A noite inteira, parecia, sua me tinha ficado sentada no
escuro, na beira da cama dele, cantando cantigas de ninar, contando
histrias e, enquanto sua vOz querida estava l, ele sabia que estava
seguro. No podia abandon-la agora. No podia! Cuidaria dela a vida
inteira, se precisasse. E como se Lyra soubesse exatamente o que ele
estava pensando, disse, calorosamente: -,  verdade, isso seria
terrvel... Sabe, com minha me, nunca percebi... simplesmente cresci
sozinha, na verdade; no me lembro de ningum me pegando no colo, me
abraando, ou me fazendo carinho; sempre foi s eu e Pan, desde que me
lembro... No me lembro da Sra. Lonsdale me tratando assim; ela era a
governanta na Universidade 205 Jordan, tudo o que fazia era se assegurar
de que eu estivesse limpa, s pensava nisso, ah, e em boas maneiras...
Mas na caverna, Will, eu realmente senti... ah,  estranho, eu sei que
ela fez coisas terrveis, mas realmente senti que me amava e que estava
cuidando de mim... Deve ter pensado que eu ia morrer, dormindo aquele
tempo todo, imagino que devo ter apanhado alguma doena, mas ela nunca
deixou de cuidar de mim. E me lembro de acordar uma ou duas vezes e ela
estava me segurando em seus braos... me lembro disso realmente, tenho
certeza... Isso  o que eu faria no lugar dela, se tivesse uma criana.
De modo que ela no sabia por que estivera adormecida aquele tempo todo.
Ser que deveria contar a ela e trair aquela lembrana, ainda que fosse
falsa? No, claro que no devia. - aquele o arbusto? -perguntou Lyra. O
luar estava claro o bastante para mostrar cada folha. Will partiu um
galho fino e o cheiro de resina pinfera ficou forte em seus dedos. -E
no vamos dizer nada queles pequenos espies -acrescentou ela. Eles
juntaram braadas de galhos do arbusto e carregaram de volta para a
caverna. 206 *15 A FORJA ... ENQUANTO EU CAMINHAVA EM MEIO S CHAMAS DO
INFERNO, ENCANTADO COM OS PRAZERES DO ESPRITO... WILLIAM BLACK Naquele
momento, os galivespianos estavam conversando a respeito da faca. Tendo
feito um duvidoso acordo de paz com IorekByrnison, subiram de volta para
sua salincia na rocha, para se manter fora do caminho e enquanto o
crepitar das chamas crescia e os estalos e os rugidos do fogo enchiam o
ar, Tialys disse: -No devemos nunca sair do lado dele. To logo a faca
esteja consertada; devemos nos manter mais perto que uma sombra. -Ele 
vivo demais. Vigia todos os cantos atrs de ns -observou Salmakia. -A
garota  mais crdula. Acho que poderamos conquist-la. Ela  inocente
e ama com facilidade. Poderamos nos dedicar a ela. Acho que deveramos
fazer isso, Tialys. -Mas ele tem a faca.  ele quem pode us-la. -Ele
no vai a lugar nenhum sem ela. -Mas ela tem que segui-lo, se ele tiver
a faca. E creio que, assim que a faca estiver intacta de novo, vo
us-la para fugir de ns. Voc viu 207 como ele fez e a impediu de falar
quando ia dizer mais alguma coisa? Eles tm algum objetivo secreto, e 
muito diferente do que queremos que faam. -Vamos ver. Mas creio que
voc tem razo, Tialys. Devemos nos manter perto do menino a qualquer
custo. Ambos tinham observado com algum ceticismo enquanto IorekByrnison
arrumava suas ferramentas na oficina improvisada. Os poderosos operrios
nas fbricas de peas de artilharia no subsolo da fortaleza de Lorde
Asriel, com seus altos-fornos e laminadores, suas forjas ambricas e
prensas hidrulicas, teriam rido do fogo aberto, do martelo de pedra, da
bigorna consistindo em um pedao da armadura de Iorek. No obstante
isso, o urso havia avaliado as dificuldades, tomado as providncias e
assumido muito seriamente sua tarefa, e na preciso de seus movimentos
os pequenos espies comearam a ver alguma qualidade que fazia calar seu
escrnio. Quando Lyra e Will entraram trazendo a lenha, Iorek os
instruiu sobre como colocar os galhos cuidadosamente na fogueira.
Examinava cada galho, virando-o de um lado para outro, e depois dizia a
Will ou a Lyra para coloc-lo neste ou naquele ngulo especfico, ou
para quebrar uma parte e coloc-la separadamente na beira. O resultado
foi uma fogueira de extraordinria ferocidade, com toda a sua energia
concentrada em um dos lados. A essa altura o calor na caverna era
intenso. Iorek continuou a alimentar a fogueira e mandou as crianas
fazerem mais duas viagens descendo a trilha para garantir que houvesse
combustvel suficiente para a operao inteira. Ento o urso apanhou uma
pequena pedra no cho e pediu a Lyra para procurar mais pedras do mesmo
tipo. Explicou que aquelas pedras, quando aquecidas, deixavam escapar um
gs que cercaria e envolveria a lmina, impedindo o ar de entrar em
contato com ela, pois se o metal quente entrasse em contato com o ar, o
absorveria um pouco e seria enfraquecido por ele. 208 Lyra ps-se a
procurar e, com a ajuda dos olhos de coruja de Pantalaimon, logo tinha
juntado uma dzia de pedras ou mais para entregar. Iorek explicou-lhe
como coloc-las e onde, e mostrou a ela exatamente o tipo de corrente de
ar que deveria obter, abanando um galho cheio de folhas, para se
assegurar de que o gs flusse de maneira constante sobre a pea
trabalhada. Will foi encarregado de cuidar do fogo, e Iorek passou
vrios minutos lhe dando instrues e se assegurando de que
compreendesse os princpios que deveria usar .Havia uma quantidade de
coisas que dependiam de posicionamento exato e Iorek no podia parar
para corrigir cada uma delas. Will tinha que compreender todas, pois s
assim as faria corretamente. Alm disso, ele no deveria esperar que a
faca tivesse exatamente o mesmo aspecto depois de consertada. Ficaria
mais curta, pois cada pedao da lmina partida deveria recobrir
ligeiramente o seguinte, de maneira a poderem ser forjados juntos; e a
superfcie oxidaria um pouco, a despeito do gs da pedra, de modo que
parte do jogo de cores se perderia; e sem dvida o cabo ficaria
queimado. Mas a lmina voltaria a ser igualmente afiada e funcionaria.
De modo que Will ficou observando enquanto as chamas rugiam, lambendo os
galhos de madeira resinosa e, com os olhos lacrimejando e as mos
chamuscadas, ajustou cada novo galho que foi acrescentando at que o
calor estivesse concentrado como Iorek queria. Enquanto isso, o prprio
Iorek amolava e martelava uma pedra do tamanho de um punho, depois de
ter rejeitado vrias at encontrar uma com o peso certo. Com golpes
poderosos foi lhe dando forma e polindo, o cheiro de cordite de pedras
espatifadas se juntando  fumaa nas narinas dos dois espies que
observavam l do alto. At Pantalaimon estava em ao, tomando a forma
de um corvo para poder bater as asas e avivar as chamas fazendo o fogo
arder mais depressa. Finalmente o martelo ficou pronto, com o formato
que Iorek queria, e ele colocou os dois primeiros pedaos da lmina da
faca sutil 209 no meio da lenha que ardia com ferocidade no centro da
fogueira e disse a Lyra para comear a abanar para dirigir o gs das
pedras sobre eles. O urso ficou observando, seu focinho branco comprido
e plido no claro do fogo, e Will viu a superfcie do metal comear a
reluzir, ficando incandescente, primeiro vermelha, depois amarela e
ento branca. Iorek estava acompanhando isso muito atentamente, a pata
estendida pronta para retirar rapidamente os pedaos. Depois de alguns
momentos, o metal mudou novamente e a superfcie ficou brilhante e
faiscante, e fagulhas, exatamente como as de fogos de artifcio,
saltavam dela, espirrando para o alto. Ento Iorek entrou em ao. A
pata direita se moveu, rpida como um dardo, e tirou primeiro um pedao
depois outro, segurando-os entre as pontas de suas garras macias e
colocando-os sobre aplaca de ferro que era a chapa das costas de sua
armadura. Will sentiu o cheiro das garras queimando, mas Iorek no deu
ateno quilo e, movendo-se com uma velocidade extraordinria, ajustou
o ngulo em que os pedaos se sobrepunham e ento levantou a pata
esquerda bem alto e bateu violentamente com o martelo de ferro. A ponta
da faca saltou na pedra sob o golpe violento. Will estava pensando que
todo o resto de sua vida dependia do que acontecesse naquele minsculo
tringulo de metal, aquela ponta que encontrava as frestas no interior
dos tomos, e todos os seus nervos tremeram, percebendo cada fasca e
cada chama, e o alargamento de todos os tomos na gelosia do metal.
Antes que isso comeasse, tinha imaginado que apenas uma fornalha de
tamanho normal, com todas as ferramentas e equipamento da maior
qualidade, poderia dar conta do trabalho naquela lmina; mas naquele
instante se deu conta de que aquelas eram as melhores ferramentas e que
o grande talento de Iorek havia construdo a melhor fornalha do mundo.
Iorek rugiu acima do clangor: -Segure-a mantendo-a imvel em sua mente!
Voc tambm tem que forj-la! Esta tarefa  to sua quanto minha! 210
Will sentiu todo o seu ser tremer sob os golpes do martelo de pedra no
punho do urso. O segundo pedao da lmina tambm estava se aquecendo e o
galho com folhas na mo de Lyra empurrava o gs ao longo de seu
comprimento para banhar os dois pedaos em seu fluxo e impedir a entrada
do ar corrosivo. Will percebia tudo aquilo e sentia os tomos de metal
se ligarem uns aos outros fechando a fratura, mais uma vez formando
novos cristais, se fortalecendo e se ordenando na grade invisvel 
medida que a fuso se efetuava. -A ponta! -rugiu Iorek. -Mantenha a
ponta alinhada! Ele queria dizer com sua mente, e Will o fez
imediatamente, percebendo os minsculos obstculos e depois os
minsculos encaixes  medida que as extremidades se alinhavam com
perfeio. Ento, aquela solda se fez e Iorek se virou para o pedao
seguinte. -Mais uma pedra -gritou para Lyra, que jogou a primeira para o
lado e colocou uma segunda no ponto exato para aquecer. Will verificou o
combustvel e quebrou um galho em dois para direcionar melhor as chamas,
e Iorek comeou a trabalhar novamente com o martelo. Will sentiu uma
nova camada de complexidade ser acrescentada  sua tarefa, porque tinha
que manter o novo pedao conectado na posio exata com os dois
anteriores, ao mesmo tempo, e compreendia que somente se fizesse isso
com absoluta preciso poderia ajudar Iorek a consert-lo. E assim o
trabalho continuou. Will no tinha idia de quanto tempo levou; Lyra,
por sua vez, comeou a sentir os braos doerem, os olhos lacrimejarem, a
pele chamuscada e vermelha, e todos os ossos de seu corpo doiam de
cansao; mas, mesmo assim, continuou a colocar cada pedra exatamente
como Iorek lhe explicara, e mesmo o exausto Pantalaimon continuava a
levantar as asas e a bat-las sobre as chamas. Quando chegou a hora de
fazer a ltima solda, a cabea de Will zunia e ele estava to exausto
pelo esforo intelectual que mal conseguiu levantar o galho seguinte
para botar na fogueira. Tinha que compreender 211 cada conexo, caso
contrrio a faca no ficaria inteira e unida; e quando chegasse a hora
da conexo mais complicada, a ltima, que fixaria a lmina quase
terminada na pequena parte que permanecia presa ao cabo -se no
conseguisse segur-las com sua plena conscincia, juntamente com todas
as outras, ento a faca simplesmente se desfaria em pedaos, como se
Iorek nunca tivesse comeado. O urso percebeu isso tambm e fez uma
pausa, antes de comear a aquecer o ltimo pedao. Olhou para Will e em
seus olhos Will no conseguia ver nada, nenhuma expresso, apenas um
brilho negro sem fundo. Apesar disso, compreendeu: aquilo era trabalho,
e era trabalho duro, difcil, mas que estavam  altura de realiz-lo,
todos eles. E isso foi o bastante para Will, de modo que se virou de
volta para o fogo e direcionou sua mente para o pedao quebrado da
lmina no cabo da faca e se preparou para a ltima e mais difcil parte
da tarefa. E assim, juntos, ele, Iorek e Lyra forjaram a faca, e quanto
tempo demorou para que a ltima solda fosse concluda, no tinha idia;
mas depois que Iorek deu a ltima martelada, depois que Will sentiu que
o ltimo minsculo alinhamento se fez,  medida que os tomos se
ligavam, soldando-se sobre a linha quebrada, deixou-se cair no cho da
caverna e permitiu que a exausto o dominasse. Ali perto, Lyra estava no
mesmo estado, os olhos vidrados e vermelhos, irritados, o cabelo cheio
de fuligem e de fumaa; e mesmo Iorek estava com a cabea baixa, pesada,
o plo chamuscado em vrios lugares, riscas escuras de cinza marcando
seu tom branco-cremoso. Tialys e Salmakia tinham se revezado, dormindo
em turnos, um deles sempre alerta. Agora ela estava acordada e ele
dormindo, mas  medida que a lmina esfriava, passando de vermelha para
cinzenta e, finalmente, prateada, e quando Will estendeu a mo para o
cabo, ela acordou seu parceiro pondo a mo em seu ombro. Ele
imediatamente ficou alerta. Mas Will no tocou na faca: apenas manteve a
palma perto dela, pois o calor ainda era intenso demais para sua mo. Os
espies relaxaram na salincia de rocha quando Iorek disse para Will:
212 -Vamos l fora. Ento disse para Lyra: -Fique aqui e no toque na
faca. Lyra ficou sentada perto da bigorna onde a faca estava esfriando e
Iorek disse a ela para abafar o fogo e no deixar que se apagasse: ainda
faltava uma ltima operao. Will seguiu o grande urso at a encosta
escura da montanha. O frio veio intenso e instantneo, depois do calor
infernal na caverna. -Eles no deveriam ter feito aquela faca -disse
Iorek, depois de terem caminhado um pouco. -Talvez eu no devesse t-la
consertado. Sinto-me inquieto e nunca me senti inquieto antes, nunca
tive dvidas. Agora estou cheio de dvidas. Ter dvidas  uma coisa
humana, no  coisa de urso. Se estou me tornando humano, alguma coisa
est errada, alguma coisa vai mal. E eu a tornei pior. -Mas quando o
primeiro urso fez a primeira pea de uma armadura, isso tambm no foi
mau, do mesmo modo? Iorek ficou em silncio. Continuaram caminhando at
alcanarem um grande monte de neve fofa e Iorek se deitou nele, e rolou
de um lado para o outro, de frente, de bruos e mergulhando, lanando
nuvens de neve bem alto, no ar noturno, at que pareceu que ele prprio
era feito de neve, que era a personificao de toda a neve do mundo.
Depois que acabou, rolou de bruos, se levantou e se sacudiu
vigorosamente; ento, vendo que Will ainda esperava uma resposta para
sua pergunta, disse: -Sim, creio que pode ter sido, tambm. Mas antes
daquele primeiro urso de armadura, no havia outros. No conhecemos nada
anterior a isso. Foi naquela ocasio que o costume comeou. Conhecemos
nossos costumes, eles so firmes e slidos, e os seguimos sem fazer
mudanas. A natureza do urso  fraca sem os costumes consagrados, como a
carne do urso fica desprotegida sem armadura -declarou. -Mas acho que eu
sa dos limites da natureza do urso ao consertar esta faca. Creio que
fui to tolo quanto Iofur Raknison. O tempo 213 dir. Mas estou inseguro
e cheio de dvidas. Agora voc tem que me contar: por que a faca
quebrou? Will esfregou a cabea dolorida com as duas mos. -A mulher
olhou para mim e eu pensei que ela tivesse o rosto de minha me
-relatou, tentando se recordar da experincia com toda a honestidade que
possua. -E a faca encontrou um obstculo, alguma coisa que no
conseguiu cortar e, porque minha mente estava empurrando-a para cortar e
fazendo fora para pux-la para trs, as duas coisas ao mesmo tempo, ela
se partiu. Isso  o que eu acho. A mulher sabia o que estava fazendo,
tenho certeza. Ela  muito esperta. -Quando voc fala da faca, voc fala
de sua me e de seu pai. -Falo?  verdade... acho que falo sim. -O que
vai fazer com ela? -No sei. De repente, Iorek investiu contra Will e o
esbofeteou com fora com a pata esquerda: com tanta fora que Will caiu
meio atordoado na neve e saiu rolando e rolando at que acabou parando a
alguma distncia mais abaixo na encosta com a cabea zunindo. Iorek
desceu lentamente at onde Will estava se esforando para se levantar e
exigiu: -Responda e me diga a verdade. Will sentiu a tentao de dizer:
"Voc no teria feito isso se eu estivesse com a faca em minha mo." Mas
sabia que Iorek tinha conhecimento disso e que Iorek sabia que ele
prprio tambm tinha conhecimento disso, e que seria uma descortesia e
uma estupidez diz-lo; mas mesmo assim sentiu-se tentado. Controlou a
lngua at estar de p, ereto e encarando Iorek, cara a cara. -Eu disse
que no sabia -explicou, se esforando muito para manter a voz calma
-porque ainda no examinei com clareza exatamente o que vou fazer. O que
isso significa.  uma coisa que me d medo. 214 E tambm deixa Lyra com
medo. Mas, de qualquer maneira, concordei assim que ouvi o que ela
disse. -E o que foi isso? -Queremos descer  terra dos mortos e falar
com o esprito do amigo de Lyra, Roger, aquele que foi morto em
Svalbard. E, se realmente existir um mundo dos mortos, ento meu pai
tambm estar l, e se pudermos falar com espritos, quero falar com ele
-explicou, continuando: -Mas estou dividido, estou em conflito,
indeciso, porque tambm quero voltar e cuidar de minha me, porque eu
poderia fazer isso e tambm porque meu pai e o anjo Balthamos me
disseram que eu deveria ir at Lorde Asriel e oferecer a ajuda da faca a
ele, e acho que eles tambm estavam certos... -O anjo fugiu -disse o
urso. -Ele no era um guerreiro. Fez o mximo que podia e ento chegou
um momento em que no podia fazer mais nada. Ele no foi o nico a
sentir medo; eu tambm sinto medo. De modo que tenho que refletir sobre
tudo isso. Talvez, s vezes a gente no faa a coisa certa porque a
coisa errada parece mais perigosa, e no queremos parecer medrosos, de
modo que vamos l e fazemos a coisa errada s porque  perigosa; nos
empenhamos mais em no parecer medrosos do que em escolher corretamente.
 muito difcil. Foi por isso que no respondi. -Compreendo -disse o
urso. Eles ficaram parados ali, em silncio, pelo que pareceu muito
tempo, especialmente para Will, que tinha pouca proteo contra o frio
intenso. Mas Iorek ainda no havia acabado e Will ainda estava
enfraquecido e atordoado por causa da pancada, e no estava muito
confiante na firmeza de seus ps, de modo que ficaram onde estavam.
-Bem, eu me comprometi de vrias maneiras -disse o urso rei. - possvel
que ao ajudar voc eu tenha condenado meu reino  destruio definitiva.
E  possvel que no tenha, e que essa destruio estivesse a caminho de
qualquer maneira; e  possvel que eu a tenha 215 impedido de ocorrer.
De modo que estou angustiado, tendo que fazer coisas que no so da
natureza do urso e ficar tecendo possibilidades e tendo dvidas como um
ser humano -prosseguiu. -E vou lhe dizer uma coisa. Voc j sabe disso,
mas no quer saber, e  por isso que vou lhe dizer francamente, de modo
que no possa se enganar. Se quiser ser bem-sucedido em sua tarefa, no
deve mais pensar em sua me. Deve deix-la de lado, tir-la da mente. Se
sua mente estiver dividida, a faca se quebrar -advertiu. -Agora vou me
despedir de Lyra. Voc deve esperar na caverna; aqueles dois espies no
vo querer voc longe dos olhos deles e eu no quero que estejam ouvindo
quando eu estiver falando com ela. Will ficou sem palavras, embora seu
peito e sua garganta parecessem que iam explodir. Afinal conseguiu
falar: -Obrigado, Iorek Byrnison -mas isso foi tudo o que conseguiu
dizer . Foi subindo a encosta, andando ao lado de Iorek, em direo 
caverna, onde as brasas da fogueira ardiam quentes e brilhantes ainda
incandescentes na vasta escurido em volta. Chegando l, Iorek executou
os ltimos procedimentos para concluir o conserto da faca sutil. Ele a
colocou entre as cinzas em brasa mais vivas, at a lmina ficar
incandescente, e Will e Lyra viram uma centena de cores rodopiando nas
profundezas enfumaadas do metal e, quando julgou que o momento estava
certo, Iorek disse a Will para peg-la e mergulh-la diretamente na neve
que havia se acumulado l fora. O cabo de pau-rosa estava enegrecido
pelo fogo e chamuscado, mas Will enrolou a mo numa camisa dobrada,
dando vrias voltas, e fez o que Iorek havia mandado. No silvar e no
claro de vapor que subiu, sentiu os tomos finalmente se acomodarem
unidos, e soube que a faca estava afiada como antes, a ponta
infinitamente aguada. Mas, de fato, tinha um aspecto diferente. Estava
mais curta e muito menos elegante, e havia uma superfcie fosca prateada
sobre cada um dos pontos de solda. Ela agora tinha um aspecto feio;
parecia estar exatamente como estava, ferida. 216 Depois que esfriou,
ele a guardou na mochila e, ignorando os espies, sentou para esperar
por Lyra. Iorek a levara um pouco mais para cima na encosta, para um
ponto fora do raio de viso da caverna, e l, deixara que ela se
sentasse aconchegada no abrigo de seus grandes braos, com Pantalaimon,
sob a forma de camundongo, aninhado em seu peito. Iorek inclinou a
cabea para Lyra e passou o focinho nas mos chamuscadas e cheias de
cinza e fumaa. Sem dizer uma palavra, comeou a lamb-las e limp-las;
o toque de sua lngua foi apagando o ardor das queimaduras e ela se
sentiu mais segura do que nunca em sua vida. Mas quando suas mos
estavam livres da fuligem e fumaa, Iorek falou. Ela sentiu sua voz
vibrar nas suas costas. -Lyra da Lngua Mgica, que plano  esse de
visitar os mortos? -Isso me veio num sonho, Iorek. Eu vi o esprito de
Roger e soube que estava chamando por mim... Voc se lembra de Roger;
bem, depois que deixamos voc, ele foi morto e foi por minha culpa, pelo
menos senti que tinha sido. E acho que eu deveria acabar o que comecei,
 s isso: devo ir e dizer a ele que sinto muito e, se puder, devo
tir-lo de l. Se Will puder abrir um caminho at o mundo dos mortos,
ento devemos fazer isso. -Poder no  a mesma coisa que dever. -Mas se
voc deve e pode fazer, ento no h desculpa. -Enquanto voc estiver
viva, seu compromisso  com a vida. -No, Iorek- disse ela, com
delicadeza, nosso compromisso  cumprir nossas promessas, por mais
difceis que sejam. Sabe, vou lhe contar um segredo: estou morrendo de
medo. E gostaria muito de nunca ter tido aquele sonho, e que Will nunca
tivesse pensado em usar a faca para ir l. Mas j aconteceu, de maneira
que no podemos deixar de ir. Lyra sentiu Pantalaimon tremendo e o
acariciou com as mos doloridas. -Mas ns no sabemos como chegar l
-prosseguiu ela. - No vamos saber coisa nenhuma, enquanto no
tentarmos. O que voc vai fazer, Iorek? 217 -Vou voltar para o norte,
com meu povo. No podemos viver nas montanhas. At mesmo a neve 
diferente. Pensei que pudssemos viver aqui, mas para ns  mais fcil
viver no mar, mesmo se estiver quente. Valeu a pena descobrir isso. E,
alm disso, acho que vo precisar de ns. Sinto que vai haver uma
guerra, Lyra da Lngua Mgica; sinto cheiro de guerra no ar, ouo seus
rudos. Conversei com Serafina Pekkala antes de vir para c e ela me
disse que ia se juntar a Lorde Faa e aos gpcios. Se houver guerra, vo
precisar de ns. Lyra se endireitou, excitad ao ouvir o nome de seus
velhos amigos. Mas Iorek no havia acabado. Ele prosseguiu: -Se voc no
descobrir uma maneira de sair do mundo dos mortos, no voltaremos a nos
encontrar, porque eu no tenho esprito. Meu corpo permanecer na terra
e depois se tornar parte dela. Mas se acontecer de voc e eu
sobrevivermos, ento voc ser sempre uma visitante bem-vinda e honrada
em Svalbard; e o mesmo se aplica a Will. Ele contou a voc o que
aconteceu quando nos encontramos? -No -respondeu Lyra, disse apenas que
tinha sido na margem de um rio. -Ele me desafiou e me venceu. Pensei que
nunca ningum poderia fazer isso, mas esse garoto ainda criana foi
audacioso demais para mim e muito esperto. No estou nada contente com o
fato de que venha a fazer o que est planejando, mas no h mais ningum
em quem eu confiaria para acompanh-la, exceto este garoto. Vocs dois
esto  altura um do outro. Boa viagem, Lyra da Lngua Mgica, minha
querida amiga. Ela levantou os braos, abraou o pescoo dele e apertou
o rosto contra seu plo, sem conseguir falar. Depois de um minuto, ele
se levantou com delicadeza e soltou os braos dela; ento se virou e foi
se afastando silenciosamente, caminhando para a escurido. Lyra achou
que o contorno de seu corpo desapareceu quase que imediatamente na
brancura do terreno coberto de neve, mas isso poderia ter sido porque
seus olhos estavam cheios de lgrimas. 218 Quando Will ouviu os passos
de Lyra vindo pela trilha, olhou para os espies e disse: -No se movam,
a faca est aqui, no vou us-la. Fiquem onde esto. Ele saiu e
encontrou Lyra parada, chorando, com Pantalaimon sob a forma de lobo
levantando a cabea para o cu escuro. Ela estava muito calada. A nica
luz vinha do reflexo plido do que restava da fogueira sobre a escarpa
de neve e isso, por sua vez, se refletia nas faces molhadas de Lyra, e
suas lgrimas encontraram reflexo nos olhos de Will, e assim, aqueles
ftons uniram os dois numa teia silenciosa. -Eu amo tanto o Iorek, Will!
-Lyra conseguiu sussurrar, com a voz trmula. -E ele parecia velho!
Parecia estar com fome, velho e triste... Ser que agora tudo depende de
ns, Will? No podemos contar com mais ningum, no ... Somos s ns.
Mas ainda no somos crescidos. Somos apenas crianas. Somos jovens
demais. Se o pobre Sr. Scoresby est morto e Iorek est velho... Tudo
fica dependendo de ns, tudo o que tem de ser feito. -Vamos conseguir-
respondeu ele. -No vou mais pensar no que j aconteceu. Ns vamos
conseguir. Mas, agora, temos que dormir, e se ficarmos neste mundo,
aqueles tais dos girpteros podem vir, os tais que os espies pediram
que viessem... Vou cortar uma abertura agora e encontraremos um outro
mundo para dormir, e se os espies vierem conosco, vai ser uma pena;
vamos ter que nos livrar deles numa outra oportunidade. -Est bem
-concordou ela, e fungou, limpou o nariz com as costas do punho, depois
esfregou os olhos com as palmas das duas mos. -Vamos fazer isso. Voc
tem certeza que a faca vai funcionar? Testou a faca? -Eu sei que vai
funcionar. Com Pantalaimon em forma de tigre, o que, esperavam,
desencorajaria os espies de se aproximar, Will e Lyra voltaram 
caverna e pegaram suas mochilas. 219 -o que vocs esto fazendo?
-perguntou Salmakia. -Vamos para um outro mundo -respondeu Will, pegando
a faca. Segurar a faca fez com que se sentisse inteiro novamente; no
havia percebido o quanto a amava. -Mas devem esperar pelos girpteros de
Lorde Asriel -disse Tialys, em tom duro. -No vamos esperar -retrucou
Will. -Se chegar perto da faca, eu mato voc. Venham conosco se
quiserem, mas no podem nos obrigar a ficar aqui. Ns vamos embora.
-Voc mentiu! -No -interveio Lyra, eu menti. Will no mente. Voc no
pensou nisso. -Mas para onde esto indo? Will no respondeu. Procurou 
sua frente, no ar sombrio, e cortou uma abertura. Salmakia argumentou:
-Isto  um erro. Vocs deveriam perceber isso e nos escutar. Vocs no
pensaram -Sim, pensamos sim -retrucou Will, pensamos muito e contaremos
a vocs o que pensamos amanh. Podem vir conosco para onde estamos indo,
ou podem voltar para junto de Lorde Asriel. A janela aberta dava para o
mundo para onde Will tinha fugido com Baruch e Balthamos, e onde tinham
dormido em segurana: a praia sem fim, quente e mida, com as rvores
gigantescas parecendo samambaias, atrs das dunas. -Aqui, vamos dormir
aqui, aqui est bom -disse. Deixou que os outros atravessassem e
imediatamente fechou a janela. Enquanto Lyra se deitava onde estavam,
exausta, Lady Salmakia ficou montando guarda e o cavaleiro abriu seu
magneto ressonante e comeou a tocar sua mensagem para a escurido. 220
*16 A NAVE DA INTENO DA CPULA LUSTROSA PENDURADOS POR MAGIA SUTIL
DESCEM BRILHANTES EM FILEIRAS DIVERSAS, COMO ESTRELAS, CANDELABROS E
LAMPARINAS FORNIDAS DE ASFALTO E NAFTA QUE DE SI PRODUZEM LUZ... JOHN
MILTON, CANTO I,30 -Minha filha! Minha filha! Onde est ela? O que vocs
fizeram? Minha Lyra, melhor seria se arrancassem as fibras de meu
corao, ela estava segura comigo, segura, e agora, onde est ela? O
grito da Sra. Coulter ressoou no pequeno gabinete no alto da torre
adamantina. Ela estava amarrada a uma cadeira, os cabelos desgrenhados,
as roupas rasgadas, os olhos desesperados; e seu daemon macaco se
debatia e lutava no cho preso por uma corrente de elos de prata. Lorde
Asriel estava sentado ali perto, escrevendo num pedao de papel, sem dar
nenhuma ateno. Um ordenana estava postado a seu lado, olhando
nervosamente para a mulher. Quando Lorde Asriel lhe entregou o papel,
ele bateu continncia e saiu apressado, seu daemon terrier colado nos
calcanhares, com o rabo entre as pernas. 221 Lorde Asriel virou-se para
a Sra. Coulter. -Lyra? Francamente, no me interessa- disse, a voz baixa
e rouca. -Aquela criana miservel deveria ter ficado onde foi deixada e
feito o que lhe mandavam fazer. No posso mais desperdiar tempo nem
recursos com ela; se ela se recusa a ser ajudada, que arque com as
conseqncias. -Voc no est falando srio, Asriel, seno no teria
-Estou falando serssimo, cada palavra. A confuso que ela provocou 
totalmente fora de proporo com relao a seus mritos. Uma menina
inglesa comum, no muito inteligente -Mas ela ! -rebateu a Sra.
Coulter. -Est bem; esperta, mas no intelectualmente inteligente;
impulsiva, desonesta, ambiciosa -Corajosa, generosa, carinhosa. -Uma
criana absolutamente comum, sem nenhuma qualidade que a distinga
-Absolutamente comum? Lyra? Ela  singular. Pense no que ela j fez.
Pode no gostar dela, se quiser, Asriel, mas no ouse falar com ares
condescendentes sobre sua filha. E ela estava segura comigo, at -Voc
tem razo -disse ele, se levantando. -Ela  singular. Ter conseguido
domesticar e amolecer voc, isso no  feito corriqueiro. Ela conseguiu
lhe tirar seu veneno, Marisa. Ela lhe arrancou os dentes. Seu ardor se
apagou numa garoa de piedade sentimental. Quem poderia imaginar? A
agente impiedosa da igreja, a perseguidora fantica de crianas, a
inventora de mquinas horrendas para seccion-las e vasculhar as
entranhas aterrorizadas de seus pequenos seres em busca de qualquer
prova de pecado... e ento aparece uma pirralha, insolente, malcriada e
ignorante, de unhas sujas, e voc cacareja e abre as asas como uma
galinha chocadeira. Bem, admito: a menina deve ter algum dom que eu
nunca vi. Mas se tudo o que esse dom faz  transformar voc em me
dedicada,  um dom um bocado enfadonho, pequeno e insignificante. E
agora  melhor voc tratar de ficar calada. Mandei 222 chamar meus
comandantes de estado-maior para uma conferncia urgente e, se no puder
se controlar e parar com essa gritaria, vou mandar amorda-la. A Sra.
Coulter era mais parecida com sua filha do que imaginava. Sua resposta
quelas palavras foi cuspir na cara de Lorde Asriel. Ele limpou o rosto
calmamente e disse: -Uma mordaa tambm acabaria com esse tipo de
comportamento. -Ah, por favor, corrija-me se eu estiver errada, Asriel-
retrucou; algum que exibe a seus oficiais subordinados uma prisioneira
amarrada numa cadeira , evidentemente, um prncipe de cortesia.
Desamarre-me, seno vou obrigar voc a me amordaar. -Como quiser-
respondeu ele, e pegou um leno de seda numa gaveta; mas antes que
pudesse amarr-lo sobre a boca da Sra. Coulter, ela sacudiu a cabea.
-No, no -pediu, Asriel, no faa isso, estou implorando, por favor,
no me humilhe. Lgrimas de raiva escorreram de seus olhos. -Muito bem,
vou desamarrar voc, mas ele vai ficar acorrentado -disse, e colocou o
leno de volta na gaveta antes de cortar as cordas com um canivete. Ela
esfregou os punhos, se levantou, se espreguiou e, s ento, percebeu o
estado em que estavam suas roupas e cabelos. Estava abatida e plida;
ainda havia resqucios do veneno dos galivespianos em seu corpo,
provocando dores terrveis em suas articulaes, mas no ia deixar que
ele visse isso. -Pode se lavar ali dentro -disse Lorde Asriel, apontando
para um pequeno aposento, pouco maior que um armrio. Ela pegou seu
daemon acorrentado, cujos olhos malvolos lanaram um olhar furioso para
Lorde Asriel por sobre seu ombro, e entrou para se lavar e se arrumar. O
ordenana entrou para anunciar: 223 -Sua Majestade o Rei Ogunwe e Lorde
Roke. O general africano e o galivespiano entraram: o Rei Ogunwe
vestindo um uniforme limpo, com um ferimento na tmpora coberto por um
curativo, e Lorde Roke planando rapidamente at pousar na mesa, montado
em seu falco azul. Lorde Asriel os cumprimentou calorosamente e
ofereceu vinho. O pssaro deixou que seu cavaleiro desmontasse e depois
voou para a arandela junto da porta, enquanto o ordenana anunciava o
terceiro dos comandantes supremos, um anjo chamado Xaphania. Ela era de
hierarquia muito mais alta que Baruch ou Balthamos e visvel, atravs de
uma luz tremeluzente, desconcertante, que parecia vir de algum outro
lugar. Nesse momento a Sra. Coulter reapareceu, mais arrumada, e todos
os trs comandantes lhe fizeram uma mesura; se ela ficou surpreendida
com a aparncia deles, no deu sinal, mas inclinou a cabea retribuindo
o cumprimento e sentou-se calmamente com o macaco acorrentado nos
braos. Sem perder tempo, Lorde Asriel pediu: -Diga-me o que aconteceu,
Rei Ogunwe. O africano, um homem forte, de voz grave, relatou: -Matamos
17 guardas suos e destrumos dois zepelins. Perdemos cinco homens e um
girptero. A menina e o menino fugiram. Capturamos Lady Coulter, a
despeito de sua resistncia corajosa, e a trouxemos para c. Espero que
ela sinta que a tratamos com cortesia. -Estou muito contente com a
maneira com que o senhor me tratou, majestade -disse ela, com uma
ligeirssima nfase nas palavras o senhor. -Os outros girpteros
sofreram algum estrago? Temos feridos? -perguntou Lorde Asriel. -Algum
estrago e alguns feridos, mas nada srio. -Bom. Muito obrigado, Rei;
seus homens se saram muito bem. Lorde Roke, quais so as notcias? 224
O galivespiano respondeu: -Meus espies esto com o menino e a menina em
um outro mundo. As duas crianas esto bem e em segurana, apesar de a
menina ter sido mantida drogada, dormindo, durante vrios dias. O menino
perdeu a possibilidade de usar a faca durante os eventos na caverna; por
causa de algum acidente, a faca se partiu em pedaos. Mas agora est
inteira de novo, graas ao animal do norte, de seu mundo, Lorde Asriel,
um urso gigante, um ferreiro muito habilidoso. To logo a faca foi
consertada, o garoto cortou uma passagem para um outro mundo, onde eles
esto agora. Meus espies esto com eles,  claro, porm h uma
dificuldade: enquanto o menino tiver a faca, no pode ser compelido a
fazer nada; contudo, se o matassem quando estivesse dormindo, a faca
seria intil para ns. Por enquanto, o Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia
iro com eles para onde forem, de modo que pelo menos saibamos onde
esto. Eles parecem ter um plano; de qualquer maneira, esto se
recusando a vir para c. -Eles esto em segurana nesse outro mundo onde
esto agora? -perguntou Lorde Asriel. -Esto numa praia prxima de uma
floresta de rvores samambaias. No h nenhum sinal de vida animal nas
redondezas. Neste exato momento, o menino e a menina esto dormindo;
falei com o Cavaleiro Tialys h menos de cinco minutos. -Muito obrigado
-disse Lorde Asriel. -Agora que seus dois agentes esto seguindo as
crianas, evidentemente no temos mais espies no Magisterium. Teremos
que confiar no aletmetro. Pelo menos - Ento a Sra. Coulter falou, para
a surpresa de todos. -No posso falar com relao aos outros rgos da
igreja -disse, mas no que diz respeito ao Tribunal Consistorial de
Disciplina, o leitor em quem confiam  Frei Pavel Rasek. E ele 
competente, mas lento. No sabero onde Lyra est por pelo menos mais
algumas horas. -Obrigado, Marisa- disse Lorde Asriel. -Por acaso voc
tem alguma idia do que Lyra e esse garoto pretendem fazer a seguir? 225
-No -respondeu ela, nenhuma. Conversei com o menino e ele pareceu ser
uma criana teimosa, e uma criana muito habituada a guardar seus
segredos. No posso imaginar o que v fazer. Quanto a Lyra, ela 
absolutamente imprevisvel. -Milorde -disse o Rei Ogunwe, poderamos
saber se a senhora agora faz parte deste conselho de estado-maior? E se
fizer, qual  sua funo? Se no fizer, no deveria ser levada para
outro lugar? -Ela  nossa prisioneira e minha convidada, e, na qualidade
de ex-agente da Igreja, pode ter informaes que seriam teis. -E
revelar alguma coisa por sua livre e espontnea vontade? Ou precisar
ser torturada? -perguntou Lorde Roke, observando-a francamente enquanto
falava. A Sra. Coulter deu uma gargalhada. -Eu imaginava que os
comandantes de Lorde Asriel fossem mais bem informados e que soubessem
que no deveriam esperar obter a verdade atravs de tortura -declarou.
Lorde Asriel no pde deixar de apreciar sua insinceridade descarada.
-Eu garantirei o comportamento da Sra. Coulter -disse ele. -Ela sabe o
que acontecer se nos trair; embora no v ter OpOrtunidade de fazer
isso. Contudo, se algum dos senhores tiver qualquer dvida, por favor,
que se manifeste agora, sem receio. -Eu tenho -disse o Rei Ogunwe, - mas
duvido do senhor, no dela. -Por qu? -disse Lorde Asriel. -Se ela o
tentasse, no resistiria. Foi correto captur-la, mas errado convid-la
a participar deste conselho. Trate-a com a maior cortesia, oferea-lhe
todo o conforto, mas faa com que seja levada para algum outro lugar e
fique longe dela. -Bem, eu o convidei a falar -comentou Lorde Asriel- e
devo aceitar sua censura. Sua presena  mais valiosa para mim do que a
dela, Rei. Mandarei que seja levada daqui. 226 Ele estendeu a mo para a
campainha, mas antes que pudesse tocar, a Sra. Coulter falou. -Por favor
-disse em tom urgente, primeiro ouam-me. Eu posso ajudar. Estive mais
prxima do corao do Magisterium do que qualquer outra pessoa que vocs
possam vir a encontrar. Eu sei como eles pensam, posso prever como vo
agir. Esto se perguntando por que deveriam confiar em mim, o que me fez
deix-los?  simples: eles vo matar minha filha. No momento em que
descobri quem ela , o que ela , as profecias que as bruxas fazem a
respeito dela, soube que tinha que abandonar a igreja; soube que era
inimiga deles e eles eram meus inimigos; eu no sabia o que vocs eram,
nem o que eu era para vocs, isso era um mistrio; mas sabia que tinha
que me posicionar contra a igreja, contra tUdo em que eles acreditavam
e, se necessrio, contra a Autoridade. Eu... Ela parou de falar. Todos
os comandantes estavam ouvindo atentamente. Ento ela olhou para Lorde
Asriel, encarando-o olhos nos olhos, e pareceu estar falando somente
para ele, a voz baixa apaixonada, os olhos brilhantes faiscando. -Eu fui
a pior me do mundo. Permiti que minha nica filha fosse levada para
longe de mim quando era um beb pequeno, porque no me interessava por
ela; a nica coisa que me interessava era satisfazer minha ambio. No
pensei nela durante anos e as poucas vezes em que pensei, foi apenas
para lamentar o constrangimento que seu nascimento me causou -confessou.
-Mas a igreja comeou a se interessar pelo P e por crianas, e alguma
coisa despertou em meu corao, e me lembrei que era me e que Lyra
era... minha filha -disse. -E como havia uma ameaa, eu a salvei dessa
ameaa. Agora, j em trs ocasies, interferi para tir-la de perigo.
Primeiro quando o Conselho de Oblao comeou seu trabalho: fui 
Faculdade Jordan e a levei para morar comigo, em Londres, onde podia
mant-la a salvo do Conselho... pelo menos era o que eu esperava. Mas
ela fugiu. Depois de uma pausa, ela continuou. 227 -A segunda vez foi em
Bolvangar, quando a encontrei bem a tempo, sob a lmina... sob a lmina
da... Meu corao quase parou... Era o que eles, ns, tnhamos feito com
as outras crianas, mas quando foi com a minha... Ah, vocs no podem
nem conceber o horror daquele momento, espero que nunca venham a sofrer
o que sofri naquela ocasio... Mas consegui libert-la; eu a tirei de
l; eu a salvei pela segunda vez. -Mas mesmo quando estava fazendo isso,
ainda me sentia fazendo parte da igreja, uma servidora, uma servidora
leal, devotada e fiel, porque estava trabalhando a servio da Autoridade
-continuou. -E ento tomei conhecimento da profecia das bruxas. De
alguma forma, em algum momento, brevemente, Lyra ser tentada, como Eva
foi tentada, isso  tudo o que dizem. Que forma esta tentao ter, no
sei, mas afinal, ela est crescendo. No  difcil imaginar. E agora que
a igreja sabe disso tambm, eles vo mat-la. Se tudo depende dela,
poderiam se arriscar a deix-la viver? Ousariam correr o risco de que
ela recuse essa tentao, qualquer que seja? -perguntou. -No, eles
esto determinados a mat-la. Se pudessem, voltariam ao Jardim do den
para matar Eva, antes que ela fosse tentada. Matar no  difcil para
eles; o prprio Calvino ordenou a morte de crianas; eles a matariam com
pompa e circunstncia, preces, lamentaes, salmos e hinos, mas a
matariam. Se ela cair nas mos deles, j estar morta, -prosseguiu. -De
modo que, quando ouvi o que a bruxa disse, salvei minha filha pela
terceira vez. Eu a levei para um lugar onde a mantive a salvo e onde
pretendia ficar. -Voc a drogou -disse o Rei Ogunwe. -Manteve Lyra
inconsciente. -Fui obrigada a fazer isso -explicou a Sra. Coulter
-porque ela me odiava. -Nesse ponto, a voz dela, que estivera carregada
de emoo, mas controlada, explodiu num soluo e tremeu enquanto
continuava: -Ela sentia medo de mim e me odiava, e teria fugido 228 de
minha presena como um passarinho foge de um gato se no a tivesse
drogado, deixando-a totalmente inconsciente. Sabe o que isso significa
para uma me? Mas era a nica maneira de mant-la em segurana! Todo
aquele tempo na caverna... adormecida, os olhos fechados, o corpo
impotente, seu daemon aninhado em seu pescoo. Oh, eu senti um amor to
grande, uma tamanha ternura, to profunda, to profunda. ..Era minha
prpria filha, foi a primeira vez que eu pude fazer aquelas coisas por
ela, a minha pequenina... Eu dava banho nela e a alimentava, mantendo-a
em segurana e agasalhada, cuidando para que seu corpo estivesse
nutrido, enquanto dormia... Deitava ao lado dela,  noite, a embalava em
meus braos, chorava em seus cabelos, beijava seus olhos fechados, minha
pequenIna... Ela no tinha nenhuma vergonha. Falava baixinho; no
declamava ou levantava a voz; e quando um grande soluo a sacudia, era
abafado, transformando-se quase num pequeno gemido, como se estivesse
contendo suas emoes por uma questo de cortesia. O que tornava suas
mentiras deslavadas ainda mais eficazes, pensou Lorde Asriel com
desagrado; ela mentia at a medula dos ossos. Dirigia suas palavras
principalmente para o Rei Ogunwe, sem parecer faz-lo, e Lorde Asriel
percebeu isso tambm. No s o rei era seu principal acusador, como
tambm era humano, ao contrrio do anjo ou de Lorde Roke, e ela sabia
muito bem como influenci-lo. Na verdade, contudo, foi no galivespiano
que ela causou maior impresso. Lorde Roke percebeu nela uma natureza
to prxima da natureza do escorpio como jamais encontrara e tinha
pleno conhecimento da fora da picada que podia detectar sob seu tom
gentil. Melhor manter os escorpies onde se pudesse v-los, pensou. De
modo que ele apoiou o Rei Ogunwe quando este ltimo mudou de opinio e
defendeu que ela ficasse, e Lorde Asriel se viu vencido: pois ele agora
a queria fora dali, mas j havia concordado em cumprir os desejos de
seus comandantes. 229 A Sra. Coulter olhou para ele com uma expresso de
leve e virtuosa preocupao. Estava certo de que mais ningum podia
perceber o brilho de triunfo furtivo nas profundezas de seus belos
olhos. -Ento fique -disse ele. -Mas j falou demais. Agora fique
calada. Quero considerar esta proposta de uma guarnio na fronteira
sul. Os senhores viram o reltrio:  factvel?  desejvel? Depois
quero passar em revista o arsenal. E depois quero ouvir Xaphania sobre
as disposies das foras angelicais. Primeiro a guarnio. Rei Ogunwe?
O lder africano comeou. Eles falaram durante algum tempo e a Sra.
Coulter ficou impressionada com a preciso das informaes que eles
tinham das defesas da igreja, e a avaliao clara que tinham das foras
de seus lderes. Mas agora que Tialys e Salmakia estavam com as
crianas, e Lorde Asriel no tinha mais um espio no Magisterium, os
conhecimentos deles logo estariam perigosamente desatualizados. Uma
idia veio  mente da Sra. Coulter, e ela e o daemon macaco trocaram um
olhar que pareceu uma poderosa centelha ambrica; mas no disse nada, e
acariciou seu plo dourado enquanto ouvia os comandantes. Ento Lorde
Asriel disse: -Agora basta. Este  um problema que teremos que resolver
mais adiante. Agora vamos passar em revista o arsenal. Pelo que me
informaram, esto prontos para testar a nave da inteno. Vamos at l
para ver. Ele tirou uma chave de prata de seu bolso e abriu o cadeado da
corrente que prendia os ps e mos do macaco, e cuidadosamente evitou
tocar at mesmo aponta de um plo dourado. Lorde Roke montou em seu
falco e acompanhou os outros enquanto Lorde Asriel seguia na frente,
descendo a escada da torre e saindo para as muralhas. Estava soprando um
vento frio, mordiscando-lhes as plpebras, e o falco azul-escuro voou
bem alto numa poderosa lufada, fazendo crculos e gritando no vento
forte. Rei Ogunwe vestiu o casaco e pousou sua mo na cabea de seu
daemon na forma de guepardo. 230 A Sra. Coulter disse humildemente para
o anjo: -Se me permite, senhora, seu nome  Xaphania? - -respondeu o
anjo. Sua aparncia impressionava a Sra. Coulter exatamente como a de
seus companheiros tinha impressionado a bruxa Ruta Skadi, quando os
encontrara no cu: ela no estava brilhando, mas resplandecia, embora
no houvesse fonte de luz. Era alta, estava nua, tinha asas e seu rosto
marcado era mais velho do que o de qualquer ser vivo que a Sra. Coulter
jamais tivesse visto. - um dos anjos que se rebelaram h muito tempo?
-Sou. E desde ento estive vagando entre muitos mundos. Agora prestei
juramento de lealdade a Lorde Asriel porque vejo em sua grande
empreitada a melhor possibilidade de finalmente destruir a tirania. -Mas
e se fracassarem? -Ento seremos todos destrudos e a crueldade reinar
para sempre. Enquanto elas falavam, seguiam as passadas rpidas de Lorde
Asriel pelas muralhas batidas pelo vento em direo a uma imponente
escadaria que descia to profundamente que nem mesmo as luzes brilhando
em candeeiros nas paredes podiam revelar o fundo. Passando por eles, o
falco azul desceu rpido, voando em crculos, planando para baixo e
mais para baixo na escurido, com a luz de cada candeeiro fazendo suas
penas bruxulearem enquanto passava, at se tornar apenas uma minscUla
fagulha e depois nada. O anjo tinha se adiantado pondo-se ao lado de
Lorde Asriel, e a Sra. Coulter viu-se descendo ao lado do rei africano.
-Perdoe minha ignorncia, majestade -disse ela, mas nunca tinha visto ou
ouvido falar em um ser como o homem no falco azul at a luta na caverna
ontem... De onde ele vem? Pode me dizer alguma coisa sobre seu povo? No
gostaria de ofend-lo por nada no mundo, mas se falar sem saber nada a
seu respeito, posso ser involuntariamente indelicada. 231 -Faz bem em
perguntar -respondeu o Rei Ogunwe. -O povo dele  orgulhoso. O mundo
deles se desenvolveu de maneira diferente do nosso; nele existem dois
tipos de seres conscientes, os humanos e os galivespianos. Os humanos
so, em sua maioria, criados da Autoridade e vm tentando exterminar o
povo pequenino desde os tempos mais remotOS de que se tem memria. Eles
os consideram diablicos. De modo que os galivespianos ainda no
conseguem confiar realmente naqueles que tm noSso tamanho. Mas so
guerreiros ferozes e orgulhosos, inimigos mortais e valiosos espies.
-Todo o povo deles est com vocs ou esto divididos como os humanos?
-H alguns que esto com o inimigo, mas a maioria est conosco. -E os
anjos? Sabe, at recentemente pensei que anjos fossem uma inveno da
Idade Mdia; que fossem apenas seres imaginrios...  desconcertante
ver-se falando com um deles, no acha? QuantOS esto com Lorde Asriel?
-Sra. Coulter -comentoU o rei, essas perguntas so exatamente o tipo de
coisa que um espio gostaria de descobrir. -Belo tipo de espio eu
seria, para perguntar assim, de maneira to transparente -retrUCOU ela.
-SoU uma prisioneira, majestade - No poderia fugir, mesmo se tivesse um
lugar seguro para onde escapar. De agora em diante, sou inofensiva, pode
confiar em minha palavra. -Se me garante isso, fico contente em
acreditar -disse o rei. -Os anjos so mais difceis de compreender que
qualquer ser humano. Para comear, no so todos de um mesmo tipo,
alguns tm poderes maiores que outros; e existem alianas complexas
entre eles, e inimizades antiqssimas, a respeito das quais sabemos
muito pouco. A Autoridade os vem suprimindo desde que ele adquiriu
existncia. Ela parou de sbito. Estava genuinamente chocada. O rei
africano parou ao lado dela, pensando que estivesse se sentindo mal, e,
de fato, o claro da luz do candeeiro logo acima lanava sombras de
assustadora palidez em seu rosto. 232 -Diz isso de maneira to casual
-comentou ela -como se fosse algo de que eu tambm devesse ter
conhecimento, mas... Como  possvel? A Autoridade criou os mundos, no
criou? Ele existia antes de tudo. Como pode ele ter adquirido
existncia? -Isso  conhecimento angelical- disse Ogunwe. -Alguns de ns
ficaram chocados ao saber que a Autoridade no  o criador. Pode ter
havido um criador, ou pode no ter havido: no sabemos. Tudo o que
sabemos  que a certo ponto a Autoridade assumiu o controle e, desde
ento, os anjos tm se rebelado e seres humanos tambm lutaram contra
ele. Esta  a ltima rebelio. Nunca antes seres humanos, anjos e seres
de todos os mundos tiveram uma causa comum. Esta  a maior fora jamais
reunida. Mas ainda assim pode no ser suficiente. Veremos. -Mas o que
pretende Lorde Asriel? O que  este mundo e por que ele veio para c?
-Ele nos trouxe para c porque este mundo  vazio. Isto , vazio de vida
consciente. No somos colonialistas, Sra. Coulter. E no viemos para
conquistar, e sim para construir. -E ele vai atacar o reino do cu?
Ogunwe olhou para ela francamente. -No vamos invadir o reino -declarou,
mas se o reino nos invadir,  melhor estarem prontos para a guerra,
porque estamos preparados. Sra. Coulter, eu sou um rei, mas o feito de
que mais me orgulho foi me unir a Lorde Asriel para criar um mundo onde
no existam quaisquer reinos. Um mundo sem reis, sem bispos, sem padres.
O reino do cu tem sido conhecido por este nome desde que a Autoridade
pela primeira vez se colocou acima do resto dos anjos. E no queremos
ter nada disso. Este mundo  diferente. Pretendemos ser cidados livres
da repblica do cu. A Sra. Coulter queria falar mais, fazer uma dzia
de perguntas que subiram a seus lbios, mas o rei tinha seguido adiante,
no querendo deixar seu comandante esperando, e ela teve que segui-lo.
233 A escada descia to fundo, levando to longe, que quando afinal
chegaram ao andar trreo, o cu atrs deles no alto da escadaria estava
totalmente invisvel. Muito antes de chegarem  metade, ela estava quase
sem flego, mas no se queixou, e seguiu descendo at que a escadaria se
abriu para um imenso salo iluminado por cristais incandescentes, nos
pilares que sustentavam o teto. Escadas de mo, pontes de guindastes
rolantes, vigas e passadios cruzavam a escurido acima, com pequenos
vultos se movimentando resolutamente. Lorde Asriel estava falando com
seus comandantes quando a Sra. Coulter os alcanou e, sem esperar para
deix-la descansar, ele prosseguiu, atravessando o grande salo, onde
ocasionalmente um vulto brilhante passava voando ligeiro pelo ar ou
pousava no cho para dar uma palavra rpida com ele. O ar estava denso e
quente. A Sra. Coulter reparou que, provavelmente como cortesia para
Lorde Roke, cada pilar tinha uma arandela vazia, na altura de uma cabea
humana, de modo que seu falco pudesse se empoleirar ali e permitir que
o galivespiano fosse includo nas conversas. Mas no ficaram no grande
salo por muito tempo. No lado mais distante, um assistente abriu uma
pesada porta dupla para permitir que passassem, seguindo para a
plataforma de uma estrada de ferro. Ali, esperando, havia um pequeno
vago fechado, puxado por uma locomotiva ambrica. O engenheiro fez uma
mesura, e seu daemon macaco recuou para trs de suas pernas ao ver o
macaco dourado. Lorde Asriel falou rapidamente com o homem e convidou os
outros a entrarem no vago que, como o salo, era iluminado por aqueles
cristais incandescentes, encaixados em luminrias de prata, presas a
painis espelhados de mogno. To logo Lorde Asriel se juntou a eles, o
trem comeou a se mover, deslizando suavemente para fora da plataforma e
entrando num tnel, acelerando rapidamente. Somente o som das rodas no
trilho plano dava alguma idia da velocidade que estavam desenvolvendo.
234 -Para onde estamos indo? -perguntou a Sra. Coulter. -Para o arsenal-
respondeu Lorde Asriel laconicamente, e virou-se para falar em voz baixa
com o anjo. A Sra. Coulter virou-se para Lorde Roke: -Diga-me, milorde,
seus espies so sempre enviados em pares? -Por que pergunta? -Simples
curiosidade. Meu daemon e eu nos vimos diante de um impasse quando os
encontramos recentemente naquela caverna e fiquei intrigada ao ver como
combatiam bem. -Por que intrigada? No esperava que seres de nosso
tamanho fossem bons combatentes? Ela olhou friamente para ele,
consciente da ferocidade de seu orgulho. -No -retrucou. -Pensei que os
venceramos com facilidade e por muito pouco eles no nos derrotaram.
Fico feliz por admitir meu erro. Mas sempre lutam em pares? -Vocs
formam um par, no formam, voc e seu daemon? Esperava que lhes
concedssemos a vantagem? -perguntou ele, e seu olhar arrogante, de
faiscante limpidez, mesmo sob a luz suave dos cristais, a desafiava a
perguntar mais. Ela baixou o olhar modestamente e no disse nada.
Passaram-se alguns minutos e a Sra. Coulter sentiu que o trem os estava
levando para baixo, para ainda mais fundo no corao da montanha. No
podia calcular qual a distncia que haviam percorrido, mas quando pelo
menos 15 minutos tinham se passado, o trem comeou a reduzir a
velocidade e, finalmente, pararam numa plataforma onde as luzes
ambricas pareciam muito fortes depois da escurido do tnel. Lorde
Asriel abriu as portas e eles saltaram para uma atmosfera to quente e
carregada de enxofre que a Sra. Coulter no pde conter um grito
sufocado. O ar ressoava com as pancadas de poderosos martelos e com o
guinchar fragoroso de ferro sobre pedra. Um auxiliar abriu as portas de
sada da plataforma e imediatamente o barulho dobrou de intensidade, e o
calor os envolveu como 235 uma onda quebrando. O fulgor intenso de uma
luz muito quente fez com que protegessem os olhos; somente Xaphania no
pareceu incomodada pelo assalto furioso de som, luz e calor. Depois que
seus sentidos se ajustaram, a Sra. Coulter olhou em volta, cheia de
curiosidade. J tinha visto forjas, siderrgicas e fbricas em seu
mundo: as maiores pareciam uma oficina de ferreiro de aldeia diante
daquela. Martelos do tamanho de casas eram levantados em um momento at
o teto distante e ento lanados violentamente para baixo para achatar
blocos de ferro do tamanho de troncos de rvores, esmagando-os e
transformando-os em placas numa frao de segundo, com uma pancada que
fazia a prpria montanha tremer; de uma abertura na parede de rocha
corria um rio de metal fundido sulfuroso at ser contido por um porto
de rocha de diamante, e o fluxo brilhante e fervente corria por canais e
comportas, passando sobre diques, at alcanar fileiras e mais fileiras
de formas, onde se acomodava para esfriar numa nuvem de fumaa
malfazeja; gigantescas mquinas de cortar e cilindros cortavam, dobravam
e comprimiam lminas de ferro com maIs de 25 centmetros de espessura
como se fosse papel de seda e ento aqueles martelos monstruosos as
esmagavam, achatando-as de novo, estendendo e comprimindo o metal em
camadas, uma sobre a outra, com tamanha fora que as diferentes camadas
se tornavam uma nica camada mais dura, repetidas vezes. Se Iorek
Byrnison pudesse ter visto aquele arsenal, poderia ter admitido que
aquelas pessoas sabiam alguma coisa sobre como trabalhar com metal. A
Sra. Coulter podia apenas olhar e se maravilhar. Era impossvel falar e
ser ouvido e ningum sequer tentou. E agora Lorde Asriel estava
gesticulando para o pequeno grupo, para que o seguisse por um passadio
gradeado, suspenso sobre uma galeria ainda maior, abaixo, onde mineiros
trabalhavam com picaretas e ps para arrancar os metais reluzentes da
rocha matriz. Eles percorreram o passadio e desceram por um longo
corredor de rocha, onde estalactites pendiam fulgurando com estranhas
cores e 236 onde as pancadas, os rangidos e as marteladas foram
gradualmente desaparecendo. A Sra. Coulter sentiu uma brisa fresca
passar sobre seu rosto acalorado. Os cristais que lhes davam luz no
estavam mais montados em candeeiros nem envoltos em pilares reluzentes,
e sim espalhados no cho, e no havia tochas acesas para aumentar o
calor, de modo que, pouco a pouco, o grupo comeou a sentir frio
novamente; e afinal saram, muito repentinamente, para o ar livre
noturno. Estavam num lugar onde parte da montanha havia sido cortada
fora, criando um espao largo e aberto como um campo de exerccios. Mais
adiante, podiam ver, sob uma luz fraca, enormes portes na encosta da
montanha, alguns abertos, outros fechados; e, de uma das portas
gigantescas, homens vinham puxando alguma coisa coberta por um oleado.
-O que  aquilo? -perguntou a Sra. Coulter para o rei africano e ele
respondeu: -A nave da inteno. A Sra. Coulter no tinha nenhuma idia
do que aquilo pudesse significar e observou com intensa curiosidade
enquanto eles se preparavam para retirar o oleado. Ela se manteve perto
do Rei Ogunwe como se em busca de abrigo e perguntou: -Como funciona? O
que faz? - o que vamos ver -respondeu o rei. Tinha a aparncia de uma
espcie de complexo aparelho de perfurao, ou a cabine de comando de um
girptero, ou a cabine de um gigantesco guindaste. Tinha uma abbada de
vidro sobre um assento, com pelo menos uma dzia de alavancas e
manivelas enfileiradas diante dele. Repousava sobre seis pernas, cada
uma delas articulada e aparafusada num ngulo diferente no corpo, de
modo que parecia ao mesmo tempo vigorosa e deselegante; e o corpo em si
era uma massa de tubulaes, cilindros, pistes, cabos enrolados em
anis, engrenagens, vlvulas e calibradores. Era difcil dizer o que era
estrutura e o que no era, porque s estava iluminado por trs e a maior
parte estava escondida na sombra. 237 Lorde Roke, montado em seu falco,
tinha planado diretamente acima do aparelho, voando em crculos no alto,
examinando-o de todos os lados. Lorde Asriel e o anjo estavam juntos
numa animada discusso com os engenheiros e havia homens descendo da
prpria nave, um carregando uma prancheta, outro um pedao de cabo. Os
olhos da Sra. Coulter observaram a nave avidamente, memorizando cada
pea, fazendo sentido de sua complexidade. E enquanto observava, Lorde
Asriel saltou para o assento, prendendo um cinturo de couro sobre a
cintura e os ombros, e colocando e ajustando um capacete na cabea. Seu
daemon, a pantera branca, saltou para segui-lo e ele se virou para
ajustar alguma coisa ao lado dela. O engenheiro chamou, Lorde Asriel
respondeu, e os homens se afastaram, recuando para a porta. A nave da
inteno se moveu, embora a Sra. Coulter no tivesse muita certeza de
como. Era quase como se tivesse estremecido, embora l estivesse,
absolutamente imvel, ainda equilibrada com uma estranha energia sobre
aquelas seis pernas de inseto. Enquanto olhava, a nave se moveu de novo,
e ento ela viu o que estava acontecendo: vrias de suas peas estavam
girando, virando de um lado para o outro, vasculhando o cu escuro
acima. Lorde Asriel estava totalmente absorvido, ora empurrando uma
alavanca, ora checando o mostrador de um instrumento, ajustando os
vrios controles; e ento, de repente, a nave da inteno desapareceu.
De alguma forma tinha saltado para o ar. Estava pairando acima deles
agora, alta como o topo da copa de uma rvore, virando lentamente para a
esquerda. No havia rudo de motor, nenhuma indicao de como se elevava
vencendo a gravidade. Simplesmente pairava no ar. -Oua -disse o Rei
Ogunwe. -Ao sul. Ela virou a cabea e esforou-se para ouvir. Havia um
vento que gemia, na curva da face da montanha, e havia os golpes
violentos de martelo das prensas que ela sentia atravs das solas dos
ps, e havia o som de vozes vindo da porta iluminada, mas, diante de
algum sinal, as 238 vozes se calaram e as luzes foram apagadas. E no
silncio a Sra. Coulter pde ouvir, muito indistintamente, o
chop-chop-chop ritmado dos motores de girpteros nas rajadas de vento.
-Quem so eles? -perguntou em voz baixa. -Chamarizes -respondeu o rei.
-Meus pilotos, voando numa misso cujo objetivo  levar inimigos a
segui-los. Observe. Ela abriu bem os olhos tentando ver alguma coisa
atravs da pesada escurido com suas poucas estrelas. Acima deles, a
nave da inteno se mantinha firme, estacionria, como se estivesse
ancorada e presa com ferrolho naquele mesmo ponto; nenhuma rajada de
vento provocava o mais leve efeito nela. Nenhuma luz saa da cabine, de
modo que era muito difcil v-la, e o vulto de Lorde Asriel havia
desaparecido completamente de vista. Ento ela avistou o primeiro grupo
de luzes voando baixo no cu, no mesmo instante em que o rudo do motor
se tornou alto o bastante para ser ouvido constantemente. Seis
girpteros voavam em alta velocidade, um deles aparentemente com
problemas, pois deixava uma esteira de fumaa atrs de si e voava mais
baixo que os outros. Eles vinham voando em direo  montanha, mas num
curso que os levaria a passar por ela e seguir adiante. E, atrs deles,
em perseguio cerrada, vinha uma variada coleo de objetos voadores.
No era fcil distinguir o que eram, mas a Sra. Coulter viu um pesado
girptero de um tipo estranho, duas aeronaves de asas retaS, um enorme
pssaro que planava velozmente sem esforo, carregando dois passageiros
armados e trs ou quatro anjos. -Um ataque areo -comentou o Rei Ogunwe.
Eles estavam se aproximando dos girpteros. Ento um feixe de luz
irrompeu de uma das aeronaves de asas retas, seguido, um ou dois
segundos depois, pelo som, um estampido surdo. Mas o projtil no
atingiu seu alvo, o girptero danificado, pois no mesmo instante que
viram a luz e antes que ouvissem o estampido, os observadores na
montanha viram um claro sair da nave da inteno e o projtil explodiu
no ar. 239 A Sra. Coulter mal teve tempo para compreender aquela
seqncia quase instantnea de luz e som antes que a batalha estivesse
em curso. Tampouco a batalha foi fcil de acompanhar, uma vez que o cu
estava to escuro e o movimento de cada um dos objetos voadores era to
rpido; mas uma srie de clares quase silenciosos iluminou a encosta da
montanha, acompanhada por silvos curtos como vapor escapando. Cada
claro, de alguma forma, acertou um atacante diferente: o avio se
incendiou e explodiu, o pssaro gigante emitiu um grito como o rasgar de
uma cortina da altura de uma montanha e despencou para as rochas
distantes abaixo e, quanto aos anjos, cada um deles simplesmente
desapareceu numa pluma de ar brilhante, uma mirade de partculas
cintilando e reluzindo cada vez menos intensamente at que se apagavam
como fogos de artifcio que se esgotam. E ento fez-se o silncio. O
vento levou embora o som dos girpteros chamarizes, que agora haviam
desaparecido atrs do flanco da montanha. Muito distantes vindas de
baixo, chamas iluminavam a parte inferior da nave da inteno, de alguma
forma ainda pairando no ar e agora se virando lentamente, como se para
olhar em torno. A destruio dos participantes do raide areo era to
completa que a Sra. Coulter, que j vira muitas coisas chocantes para se
deixar impressionar, no pde deixar de ficar chocada com aquilo.
Enquanto olhava para a nave da inteno, esta pareceu tremeluzir ou se
deslocar e ento ali estava ela, de novo solidamente em terra. O Rei
Ogunwe correu apressado em sua direo, bem como os outros comandantes e
os engenheiros, que tinham aberto as portas e deixado a luz iluminar o
campo de provas. A Sra. Coulter ficou onde estava, intrigada com o
funcionamento da nave da inteno. -Por que ele est nos mostrando a
nave? -perguntou seu daemon em voz baixa. -Certamente no pode ler
nossos pensamentos -respondeu ela, no mesmo tom. 240 Estavam pensando
naquele momento na torre adamantina, quando a centelha de idia brilhara
entre eles. Tinham pensado em fazer uma proposta a Lorde Asriel: de se
oferecerem para ir para o Tribunal Consistorial de Disciplina e
trabalhar como seus espies. Ela conhecia todas as alavancas do poder;
era capaz de manipular todas. De incio, seria difcil convenc-los de
sua boa-f, mas conseguiria faz-lo. E agora que os espies
galivespianos tinham partido para ir com Will e Lyra, certamente Asriel
no resistiria a uma oferta semelhante. Mas agora, enquanto observavam a
estranha mquina voadora, uma outra idia ocorreu com ainda maior
intensidade e ela abraou o macaco dourado com alegria. -Asriel -chamou
em tom inocente, posso ver como funciona a mquina? Ele olhou para
baixo, a expresso distrada e impaciente, mas tambm cheia de
satisfao. Estava encantado com a nave da inteno: ela sabia que no
conseguiria resistir  vontade de exibi-la. O Rei Ogunwe se afastou e
Lorde Asriel estendeu a mo e a puxou para cima, para a cabine de
comando. Ajudou-a a se instalar no assento e observou enquanto ela
examinava os controles. -Como funciona? Que energia move a nave? -As
suas intenes -respondeu ele. -Da o nome. Se voc tenciona que se mova
para a frente, ela se mover. -Isto no  resposta. Vamos, diga-me. Que
tipo de motor  este? Como voa? No pude ver nada de aerodinmico. Mas
esses controles... vista por dentro.  quase igual a um girptero. Ele
estava achando difcil no contar a ela; e, uma vez que era uma deciso
que dependia apenas de sua vontade, contou. Estendeu um cabo na
extremidade do qual havia um punho de couro, com marcas fundas feitas
pelos dentes de seu daemon. -Seu daemon- explicou -tem que segurar este
punho, com os dentes ou com as mos, pouco importa. E voc tem que usar
o capacete. H uma corrente que flui entre eles, e um capacitor
amplifica a 241 corrente. Ah,  mais complicado que isso, mas a mquina
 fcil de pilotar. Pusemos controles iguais aos de um girptero porque
j estamos familiarizados com eles, mas no final acabaremos no
precisando de controles ou instrumentos.  claro, s um ser humano com
um daemon pode pilot-la. -Compreendo. E ela o empurrou violentamente,
de modo que ele caiu da nave. No mesmo instante, ela enfiou o capacete
na cabea e o macaco dourado agarrou o punho de couro. Ela pegou e puxou
o instrumento que num girptero inclinaria o aeroflio e empurrou o
acelerador para a frente e, imediatamente, a nave da inteno saltou
para o ar. Mas ela ainda no tinha perfeito domnio dos controles. A
nave ficou parada durante alguns momentos, ligeiramente inclinada, antes
que ela encontrasse os controles para faz-la se mover para a frente e,
naqueles poucos segundos, Lorde Asriel fez trs coisas. Levantou-se de
um salto; ergueu a mo para impedir o Rei Ogunwe de ordenar aos soldados
que atirassem na nave da inteno e disse: -Lorde Roke, v com ela, por
favor. O galivespiano comandou seu falco azul para que subisse
imediatamente, e o pssaro voou direto para a porta ainda aberta da
cabine. Os observadores abaixo podiam ver a cabea da mulher olhando
para um lado e para outro, o macaco dourado fazendo o mesmo, e puderam
constatar que nenhum dos dois percebeu o corpo pequenino de Lorde Roke
saltar de seu falco para dentro da cabine, bem atrs deles. Um momento
depois, a nave da inteno comeou a se mover e o falco se afastou num
crculo e veio pousar no punho de Lorde Asriel. No mais de dois
segundos depois, a nave estava desaparecendo de vista no cu mido e
estrelado. Lorde Asriel observou com pesarosa admirao. -Bem, Rei,
estava absolutamente certo -disse ele, e eu deveria t-lo ouvido logo de
incio. Ela  a me de Lyra; eu deveria ter esperado alguma coisa desse
tipo. 242 -No vai persegui-la? -perguntou o Rei Ogunwe. -Para que, e
destruir uma nave em perfeitas condies? No, de jeito nenhum. -Para
onde acha que ela vai? Procurar a criana? -No inicialmente. Ela no
sabe onde encontr-la. Sei exatamente o que ela vai fazer: vai procurar
o Tribunal Consistorial e entregar a nave a eles como prova de boa-f, e
ento vai ficar espionando. Ser nossa espi no Tribunal. Ela j tentou
todos os outros tipos de duplicidade, esta ser uma experincia nova. E
to logo descobrir onde est a garota, ir para l e ns a seguiremos.
-E quando Lorde Roke contar a ela que foi junto? -Ah, creio que ele vai
preferir fazer disso uma surpresa, no acha? Os dois riram e seguiram de
volta para a oficina, onde um modelo mais novo e mais avanado da nave
da inteno aguardava para ser inspecionado por eles. 243 *17 LEO E
LACA ... ORA A SERPENTE ERA A MAIS ASTUTA DE TODOS OS ANIMAIS DO CAMPO
QUE O SENHOR DEUS TINHA FEITO GNESIS 2,3 Mary Malone estava construindo
um espelho. No por vaidade, pois tinha muito pouca vaidade, mas porque
queria testar uma idia que tivera. Queria tentar capturar as Sombras e,
sem os instrumentos de seu laboratrio, tinha que improvisar com os
materiais de que dispunha. A tecnologia dos mulefas praticamente no
empregava metais. Eles faziam coisas extraordinrias com pedra, madeira,
cordas, conchas e chifre, mas os poucos metais de que dispunham eram
arrancados a marteladas de pepitas, em estado bruto, de cobre e de
outros metais que encontravam na areia do rio, e nunca eram usados para
fazer ferramentas. Eram usados para ornamentos. Por exemplo, na
celebrao do casamento, o casal mulefa trocava tiras de cobre
reluzente, que eram dobradas de maneira a fazer um anel em volta de um
de seus chifres, com um significado muito semelhante ao de uma aliana.
De modo que ficaram fascinados com o canivete do exrcito suo que era
o objeto mais precioso que Mary possua. 244 A zalif que era sua amiga
pessoal, chamada Atal, soltou uma exclamao espantada, certo dia quando
Mary abriu o canivete, mostrou todos os acessrios e explicou o melhor
que pde, com seu vocabulrio limitado, para que serviam. Um dos
acessrios era uma lupa em miniatura com a qual comeou a queimar um
desenho num galho seco e foi isso que a fez comear a pensar nas
Sombras. Naquela ocasio, estavam pescando, mas o rio estava com as
guas baixas e os peixes deveriam estar em outro lugar, de modo que
deixaram as redes estendidas na gua, sentaram na margem coberta de
relva e ficaram conversando, at que Mary viu o galho seco, que tinha
uma superfcie branca e lisa. Ela queimou o desenho, -uma simples
margarida -na madeira e encantou Atal; mas,  medida que alinha fina de
fumaa foi subindo do ponto onde a luz do sol focalizada tocava a
madeira, Mary pensou: Se isso se tornasse um fssil e um cientista o
encontrasse daqui a dez milhes de anos, ainda poderiam encontrar
Sombras rodeando-o porque eu trabalhei nele. Ela mergulhou num estado de
torpor e devaneio induzido pelo sol at que Atal perguntou: Com o que
est sonhando? Mary tentou explicar de que tratava seu trabalho, sua
pesquisa, o laboratrio, a descoberta das partculas de Sombra, a
revelao fantstica de que eram conscientes e sentiu o relato da
experincia inteira se apoderar dela novamente, de tal modo que desejou
profundamente estar de volta em meio ao seu equipamento. No esperava
que Atal acompanhasse sua explicao, em parte por causa de seu domnio
imperfeito da lngua deles, mas em parte porque os mulefas pareciam to
prticos, to fortemente enraizados no mundo fsico do dia-a-dia, e
muito do que estava falando era matemtica; mas Atal a surpreendeu ao
dizer: Sim -sabemos de que voc est falando -ns chamamos de... e ento
ela usou uma palavra que soou como a palavra que usavam para dizer luz.
245 Mary perguntou: Luz?, e Atal respondeu: No luz, mas... e disse a
palavra mais devagar para que Mary aprendesse, explicando: como a luz
batendo na gua quando faz pequenos crculos, ao pr-do-sol e a luz
batendo sai em flocos brilhantes, ns chamamos desse nome, mas  um
faz-parece. Faz-parece era o termo que eles empregavam para metfora,
Mary havia descoberto. De modo que disse: No  realmente luz, mas voc
v e parece com aquela luz batendo na gua ao pr-do-sol? E Atal
respondeu: Sim. Todos os mulefas tm isso. Voc tem tambm. Foi assim
que soubemos que voc era como ns e no como os animais de pasto, que
no tm isso. Apesar de voc ter uma aparncia to estranha e horrvel
Voc  como ns porque voc tem -e de novo veio aquela palavra que Mary
no conseguia ouvir de maneira suficientemente clara para repetir: algo
como sraf, ou sarf, acompanhada por um ligeiro movimento da tromba para
a esquerda. Mary ficou excitada. Tinha que se controlar e se manter
calma de maneira a encontrar aS palavras certas. O que vocs sabem a
respeito disso? De onde vem? De ns e do leo, foi a resposta de Atal, e
Mary sabia que estava se referindo ao leo nas grandes rodas feitas
daquelas nozes. De vocs? Depois que j somos crescidos. Mas sem as
rvores isso simplesmente desapareceria de novo. Com as rodas e o leo,
fica conosco. Depois que j somos crescidos... Mais uma vez Mary teve
que se controlar para no se tornar incoerente. Uma das coisas que havia
comeado a desconfiar com relao s Sombras era que crianas e adultos
reagiam de maneira diferente a elas, ou atraiam tipos diferentes de
atividade de Sombra. Lyra no tinha dito que os cientistas de seu mundo
haviam descoberto algo assim com relao ao P, que era o nome que davam
s Sombras? Aqui estava a mesma coisa novamente. 246 E estava
relacionado ao que as Sombras tinham lhe dito na tela do computador,
pouco antes de ela partir de seu prprio mundo: qualquer que fosse
aquela questo, estava relacionada com a grande mudana na histria
humana simbolizada pela histria de Ado e Eva; com a Tentao, a Queda,
o Pecado Original. Em suas investigaes com crnios fsseis, seu colega
Oliver Payne tinha descoberto que cerca de 30 mil anos atrs, havia
ocorrido um grande aumento no nmero de partculas de Sombra associadas
aos restos mortais de seres humanos. Alguma coisa havia acontecido
naquela ocasio, algum desenvolvimento na evoluo, para tornar o
crebro humano um canal ideal para ampliar seus efeitos. Mary perguntou
a Atal: H quanto tempo existem mulefas? E Atal respondeu: Trinta e trs
mil anos. Aquela altura ela j era capaz de interpretar as expresses de
Mary, ou pelo menos as mais bvias, e deu uma risada ao ver o queixo de
Mary cair. O riso deles era to franco e cheio de alegria, to
contagiante, que Mary geralmente no se continha e ria tambm, mas
naquele momento permaneceu sria e espantada, e disse: Como pode saber
com tanta exatido? Vocs tm uma histria de todos esses anos? Ah, sim,
temos, disse Atal. A partir do momento que tivemos o sraf, tivemos
memria e despertar. Mas, antes disso, no sabiamos nada. O que
aconteceu que deu o sraf a vocs? Descobrimos como usar as rodas. Um dia
um ser sem nome descobriu uma noz e comeou a brincar, e enquanto ela
brincava ela Ela? Ela, sim. No tinha nome antes disso. Ela viu uma
serpente se enroscando atravs do buraco na esfera e a serpente disse A
serpente falou com ela? No! No! Isso  faz-parece. A histria conta
que a serpente disse: O que voc sabe? De que se lembra? O que v
adiante? E ela disse: Nada, nada, 247 nada. De modo que a serpente
disse: Enfie o p no buraco do fruto onde eu estava brincando e se
tornar sbia. Ento ela enfiou o p no lugar onde a serpente estivera.
E o leo penetrou em seu p e fez com que ela visse com mais clareza do
que antes e a primeira coisa que ela viu foi o sraf. Era uma coisa to
estranha e agradvel que quis compartilhar imediatamente com todos os
seus parentes. De modo que ela e seu parceiro pegaram as primeiras e
descobriram que sabiam quem eram, sabiam que eram mulefas e no animais
de pasto. Eles deram nome um ao outro. Chamaram a si mesmos de mulefas.
Deram nome  rvore-das-sementes e a todas as criaturas e plantas.
Porque ficaram diferentes, disse Mary. Sim, ficaram. E seus filhos
tambm, porque  medida que mais nozes caam, eles mostraram a seus
filhos como us-las. E quando as crianas ficavam crescidas, comeavam a
gerar o sraf tambm, e quando estavam bastante grandes para usar as
rodas, o sraf voltava com o leo e ficava com eles. De modo que viram
que tinham que plantar mais rvores-de-rodas, por causa do leo, mas a
casca das nozes era to dura que raramente germinavam. E os primeiros
mulefas viram o que deveriam fazer para ajudar as rvores, que era usar
as rodas para circular e quebr-las, de modo que mulefas e
rvores-de-rodas sempre viveram juntos. Mary compreendeu de imediato
cerca de um quarto do que Atal estava dizendo, mas depois, fazendo
perguntas e dedues, descobriu o resto de maneira bastante precisa; e
seu domnio da lngua tambm estava aumentando a cada minuto. Quanto
mais aprendia, mais difcil as coisas se tornavam, pois cada coisa nova
que descobria sugeria meia dzia de perguntas, cada uma conduzindo a uma
direo diferente. Mas ela forou sua mente a continuar seguindo a
questo do sraf , porque era a mais importante; e fora por isso que
tinha pensado no espelho. Fora a comparao do sraf com os reflexos de
luz na gua que lhe sugerira o espelho. A luz refletida como claro do
sol sobre o mar era polarizada: era possvel que as partculas de
Sombra, quando se comportassem como ondas de luz, tambm pudessem ser
polarizadas. 248 No posso ver o sraf como voc pode, explicou, mas
gostaria de fazer um espelho com a laca-de-seiva, porque acho que
poderia me ajudar a ver. Atal ficou animada com essa idia e,
imediatamente, elas recolheram a rede e comearam a juntar as coisas de
que Mary iria precisar. Como prova de que a sorte lhes sorria, havia
trs belos peixes na rede. A laca-de-seiva era um produto de uma outra
rvore, muito menor, que os mulefas cultivavam para este propsito. Ao
ferver e dissolver a seiva no lcool, que faziam com suco de frutas
destilado, os mulefas preparavam uma substncia com uma consistncia
semelhante  do leite e de uma cor mbar delicada, que utilizavam como
verniz. Chegavam a passar at 20 mos numa base de madeira ou de concha,
deixando que cada mo curtisse sob um pano molhado antes de aplicar a
seguinte e, gradualmente, iam criando uma superfcie de grande dureza e
brilho. Geralmente a tornavam opaca com a aplicao de vrios xidos,
mas por vezes a deixavam transparente e aquilo era o que interessara
Mary: porque a laca transparente de tonalidade mbar tinha a mesma
curiosa propriedade do mineral conhecido como espato-de-islndia. Ela
dividia os raios de luz em dois, de modo que quando se olhava atravs
dela via-se duplo. Mary no tinha muita certeza do que queria fazer; s
sabia que se fizesse vrias tentativas com diferentes abordagens pelo
tempo que fosse necessrio, sem se preocupar e sem se impacientar,
acabaria descobrindo. Lembrou-se de citar as palavras do poeta Keats
para Lyra e de sua compreenso imediata de que aquele era seu estado de
esprito quando lia o aletmetro -era disso que Mary precisava. De modo
que comeou tratando de encontrar um pedao mais ou menos achatado de
madeira semelhante ao pinho e de lixar a superfcie com arenito (como
no havia metal, no havia plainas) at deix-la o mais lisa e plana que
pde. Aquele era o mtodo usado pelos mulefas e funcionava bastante bem,
desde que se dedicasse tempo e esforo. Ento ela visitou a plantao de
laca com Atal, tendo explicado cuidadosamente o que pretendia fazer, e
pediu permisso para retirar 249 um pouco de seiva. Os mulefas tiveram
prazer em concordar, mas estavam ocupados demais para lhe dar ateno.
Com a ajuda de Atal, ela extraiu uma quantidade da seiva pegajosa e
resinosa e, ento, seguiu-se o longo processo de ferver, dissolver,
ferver de novo, at que o verniz estivesse pronto para ser usado. Os
mulefas usavam mechas de uma fibra de uma outra planta semelhante a
algodo para aplic-lo e, seguindo as instrues de um arteso, ela
entregou-se ao trabalho paciente de pintar e repintar, uma vez aps a
outra, o seu espelho, sem ver quase nenhuma diferena a cada vez, uma
vez que a camada de laca era to fina, mas, deixando-as secar sem pressa
e descobrindo que, gradualmente, a espessura estava aumentando. Mary
passou mais de 40 mos -perdeu a conta de quantas, mas, quando afinal
sua laca acabou, a superfcie estava com pelo menos cinco milmetros de
espessura. Depois da ltima camada, vinha o trabalho de dar polimento:
um dia inteiro esfregando a superfcie, delicadamente, em suaves
movimentos circulares, at que seus braos comearam a doer e sua cabea
a latejar e ela no tinha mais condies de trabalhar. Ento ela dormiu.
Na manh seguinte, o grupo foi trabalhar numa capoeira que chamavam de
madeira-de-n, para verificar se os brotos estavam crescendo conforme
planejado quando haviam sido plantados, apertando os tranados de modo
que os galhos adquirissem as formas adequadas. Eles apreciavam muito a
ajuda de Mary nessa tarefa, pois szinha ela podia penetrar em espaos
maIs estreitos que os mulefas e, com suas duas mos, trabalhar em
espaos mais apertados. S quando esse trabalho foi concludo e voltaram
ao povoado foi que Mary pde comear a fazer sua experincia -ou melhor,
sua brincadeira, uma vez que no tinha uma idia muito clara do que
estava fazendo. Primeiro tentou usar a folha de laca simplesmente como
um espelho, mas, por falta de um fundo prateado, tudo o que conseguia
ver era um tnue duplo reflexo na madeira. 250 Ento pensou que do que
precisava realmente era da laca sem a madeira, mas sentiu-se desanimada
diante da idia de fazer outra folha de laca; e, de qualquer modo, como
conseguiria deix-la lisa sem uma superfcie para servir de base?
Ocorreu-lhe a idia de simplesmente ir cortando fora a madeira de modo a
deixar s a laca. Aquilo tambm levaria tempo, mas pelo menos tinha o
canivete suo. E ela ento comeou a cortar lascas muito delicadamente
a partir da borda, tomando o maior cuidado para no arranhar a laca por
trs, mas, finalmente, conseguindo remover a maior parte do pinho, e
deixando uma desordem de restos e lascas de madeira colados de maneira
irremovvel na placa de verniz claro e duro. Ela se perguntou o que
aconteceria se deixasse de molho na gua. Ser que a laca amoleceria se
ficasse molhada? No, respondeu seu mestre arteso, ela permanecer dura
para sempre; mas por que no fazer assim? -e ele lhe mostrou um lquido,
que era mantido numa tigela de pedra, que corroeria qualquer pedao de
madeira em apenas algumas horas. Pelo cheiro e pelo aspecto, Mary achou
que parecia ser um cido. Aquilo praticamente no danificaria em nada a
laca, disse o arteso, e, qualquer dano que houvesse, ela poderia
reparar com bastante facilidade. Ele estava intrigado com o projeto de
Mary e a ajudou a aplicar, delicadamente, o cido na madeira, explicando
como o preparavam, moendo, dissolvendo e destilando um mineral que
encontravam nas margens de alguns lagos rasos que ela ainda no
visitara. Gradualmente a madeira amoleceu e se soltou, e Mary ficou com
uma placa de laca transparente amarelo-acastanhada, mais ou menos do
tamanho da pgina de um livro. Ela poliu o reverso da mesma forma que
fizera com aparte de cima, at que ambos os lados estivessem lisos e
polidos como o mais refinado dos espelhos. E quando olhou atravs
dele... No viu nada em particular. Era perfeitamente lmpido, mas
mostrava-lhe uma imagem dupla, a da direita bem perto da que ficava 
esquerda e cerca de 15 graus para cima. 251 Ela se perguntou o que
aconteceria se olhasse atravs de duas placas, uma sobre a outra. Ento
pegou o canivete suo novamente e tentou riscar uma linha na placa de
modo a poder cort-la em dois pedaos. Depois de vrias tentativas e de
muito trabalho, usando uma pedra lisa para manter o canivete afiado, ela
conseguiu riscar uma linha de sulco profundo o bastante para arriscar
tentar partir a placa. Colocou um galho fino sob o sulco riscado e
empurrou com fora para baixo a placa de laca, como vira um vidraceiro
fazer para cortar uma vidraa, e funcionou: agora ela tinha duas placas.
Ela as juntou e olhou atravs delas. A colorao mbar estava mais densa
e, como um filtro fotogrfico, realava certas cores e apagava outras,
dando uma aparncia ligeiramente diferente  paisagem. A coisa curiosa
era que a dupla imagem havia desaparecido e tudo era de novo uma coisa;
mas no havia nenhum sinal de Sombras. Mary foi separando as duas peas,
observando como a aparncia das coisas mudava  medida que o fazia.
Quando estavam afastadas cerca de um palmo, algo curioso aconteceu: a
colorao mbar desapareceu e tudo parecia ter sua cor normal, mas em
tom mais lustroso e mais vvido. Naquele ponto Atal aproximou-se para
ver o que ela estava fazendo. Agora j pode ver sraf, perguntou. No,
mas posso ver outras coisas, respondeu Mary , e tentou mostrar a ela.
Atal estava interessada, mas apenas por educao, sem nem um pouco do
sentimento de descoberta que animava Mary , e logo a zalif se cansou de
olhar atravs das pequenas placas de laca e se acomodou na relva para
cuidar da manuteno de suas rodas. Por vezes, os mulefas cuidavam das
garras uns dos outros, por pura sociabilidade, e, uma ou duas vezes,
Atal havia convidado Mary a cuidar das suas. Mary, por sua vez, deixava
Atal arrumar seu cabelo, apreciando como a tromba macia o levantava e
deixava cair, acariciando e massageando seu couro cabeludo. 252 Ela
percebeu que Atal queria fazer isso agora, de modo que largou as duas
placas de laca e passou as mos sobre a superfcie incrivelmente lisa e
macia das garras de Atal, aquela superfcie mais macia e escorregadia
que Teflon que se encaixava na borda inferior do buraco central e servia
de mancal quando a roda girava. Os contornos se encaixavam com
perfeio,  claro, e quando Mary passou a mo pelo interior da roda no
sentiu nenhuma diferena de textura: era como se os mulefas e as nozes
realmente fossem um nico ser que, por um milagre, podiam se separar e
depois se encaixar unindo-se de novo. Esse contato acalmava Atal e,
portanto, Mary tambm. Sua amiga era jovem e solteira, e no havia
jovens machos naquele grupo, de modo que ela teria que se casar com um
zalif de fora; mas, contatos com outros grupos no eram fceis, e por
vezes Mary achava que Atal se preocupava com seu futuro. De maneira que
no se incomodava com o tempo que passava com ela e naquela ocasio
estava contente por limpar os buracos da roda de toda a poeira e fuligem
que ali se acumulavam, e espalhar gentilmente o leo perfumado sobre as
garras de sua amiga, enquanto a tromba de Atal se levantava arrumando
seus cabelos. Quando Atal estava satisfeita, voltou a encaixar suas
rodas e se afastou para ajudar na preparao da refeio da noite. Mary
retomou suas placas de laca e quase que imediatamente fez a descoberta.
Ela levantou as duas placas, mantendo-as a uma distncia de um palmo uma
da outra, de modo que mostrassem a imagem ntida e clara que vira
anteriormente, mas alguma coisa havia acontecido. Enquanto olhava
atravs delas, viu um enxame de cintilaes douradas rodeando a silhueta
de Atal. As cintilaes s eram visveis atravs de uma pequena parte da
laca e ento Mary se deu conta do porqu: naquele ponto havia pegado na
superfcie com os dedos cobertos de leo. -Atal! -chamou. -Depressa!
Volte aqui! Atal se virou e veio rodando. 253 -Deixe-me tirar um pouco
de leo -pediu Mary, s o bastante para passar sobre as placas de laca.
De boa vontade, Atal deixou que ela tornasse a passar os dedos pelos
buracos das rodas e observou curiosamente enquanto Mary cobria uma das
placas com um filme da substncia suave e lmpida. Ento ela juntou e
pressionou as placas uma contra a outra, e as fez girar, para espalhar o
leo de maneira uniforme e, mais uma vez, as levantou mantendo-as a uma
distncia de um palmo uma da outra. E quando olhou atravs delas, tudo
estava diferente. Ela podia ver Sombras. Se Mary tivesse estado na Sala
Privativa da Faculdade Jordan quando Lorde Asriel havia projetado os
fotogramas que tinha feito com a emulso especial, teria reconhecido o
efeito. Por toda parte para onde olhava havia partculas de ouro,
exatamente como Atal havia descrito: cintilaes de luz, flutuando e se
deslocando, por vezes movendo-se numa corrente de inteno, um fluxo com
direo e propsito. Em meio a tudo aquilo estava o mundo que ela via a
olho nu: a relva, o rio, as rvores; mas onde quer que visse um ser
consciente, um dos mulefas, a luz era mais espessa e mais cheia de
movimento. A luz de maneira alguma obscurecia suas formas; ao contrrio,
tornava-as mais ntidas. Eu no sabia que era bonito, disse Mary para
Atal. Ora, mas  claro que , respondeu sua amiga.  estranho imaginar
que voc no pudesse ver. Olhe para o pequenino... Ela indicou uma das
crianas pequenas brincando na relva alta, saltando desajeitadamente
atrs de gafanhotos, parando de repente para examinar uma folha,
tropeando e caindo, logo se levantando depressa outra vez, para ir
correndo dizer alguma coisa para sua me, se distraindo novamente com um
pedao de galho partido, tentando apanh-lo, descobrindo formigas em sua
tromba e gritando cheio de agitao... Havia uma nvoa dourada em volta
dele, da mesma forma que em volta dos abrigos, das redes de pesca, da
fogueira acesa -contudo, a dele era mais forte, embora no muito. Porm,
ao contrrio da nvoa 254 que envolvia as outras coisas, a dele era
cheia de pequenas correntes rodopiantes de inteno, que se moviam em
crculos, em redemoinhos que, de repente, paravam de se mover e ficavam
flutuando, se deslocando no ar at desaparecer, enquanto outros nasciam.
Por outro lado, j ao redor de sua me, as partculas douradas
cintilantes eram muito mais intensas, e as correntes em que se moviam
eram mais tranqilas e mais fortes. Ela estava preparando a comida,
espalhando farinha numa pedra achatada, fazendo o po fino que se
parecia com po srio ou tortilhas, ao mesmo tempo vigiando seu fIlho, e
as Sombras ou o sraf ou o P que a banhava parecia a mais perfeita
imagem de responsabilidade e de sbia ateno e cuidado. Ento
finalmente voc consegue ver, disse Atal. Bem, agora deve vir comigo.
Mary olhou para sua amiga sem compreender. O tom de Atal era estranho:
era como se estivesse dizendo: " Finalmente voc est pronta; estivemos
esperando; agora as coisas tm que mudar." E outros estavam aparecendo,
vindo do outro lado da colina, saindo de seus abrigos, vindo da margem
do rio: membros do grupo, mas estranhos tambm, mulefas que ela no
conhecia e que olhavam curiosamente para onde ela estava. O som de suas
rodas na terra batida era baixo e constante. Para onde devo ir?,
perguntou Mary. Por que todos eles esto vindo para c? No se preocupe,
disse Atal, venha comigo, no vamos machucar voc. Aquela reunio
parecia ter sido planejada h muito tempo, pois todos eles sabiam para
onde ir e o que esperar. Havia um monte, uma pequena elevao, numa das
extremidades do povoado, que tinha uma forma simtrica e era coberto de
terra batida compactada, com rampas em cada um dos cantos, e o grupo de
mulefas -mais ou menos uns 50, no mnimo, Mary calculava -estava se
dirigindo para ele. A fumaa das fogueiras onde se cozinhava pairava no
ar do entardecer e o sol que se punha espalhava seu tipo particular de
nvoa dourada sobre 255 tudo; e Mary sentia o cheiro de milho assando, e
o cheiro agradvel caracterstico dos mulefas -parte leo, parte carne
de temperatura relativamente alta e constante, um cheiro doce parecido
com o de cavalos. Atal insistiu para que ela seguisse para o monte. O
que est acontecendo? Conte-me!, pediu Mary. No, no... No eu.
Sattamax vai falar... Mary no conhecia o nome Sattamax e o zalif que
Atal indicou era um estranho para ela. Era mais velho do que qualquer um
que tivesse visto at ento: na base de sua tromba havia uns tufos de
fios brancos dispersos e ele se movia com dificuldade, como se tivesse
artrite. Todos os outros se movimentavam com cuidado em torno dele e
quando Mary deu uma espiada atravs das placas de laca, viu por que: a
nuvem de Sombras do velho zalif era to rica e complexa que a prpria
Mary sentiu-se tomada por um grande respeito, embora soubesse muito
pouco sobre o que aquilo significava. Quando Sattamax estava pronto para
falar, o resto do grupo ficou em silncio. Mary parou bem perto do
monte, Atal manteve-se junto dela, para tranqiliz-la; mas podia
perceber todos os olhos cravados nela e se sentia como se fosse uma
aluna nova, no primeiro dia de aula. Sattamax comeou a falar. Sua voz
era grave, com tons ricos e variados, os gestos de sua tromba, pequenos
e graciosos. Estamos todos aqui reunidos para dar as boas-vindas 
estrangeira Mary. Aqueles dentre ns que j a conhecem tm motivos para
ser gratos a ela por suas atividades desde que chegou para viver entre
ns. Esperamos at que ela tivesse algum domnio de nossa lngua. Com a
ajuda de muitos de ns, mas especialmente da zalif Atal a estrangeira
Mary agora pode nos compreender. Mas havia uma outra coisa que ela
precisava compreender e isso era o sraf. Ela sabia de sua existncia,
mas no podia v-lo como ns, at que fez um instrumento atravs do qual
pde olhar. 256 E agora que conseguiu, est pronta para aprender mais
sobre o que deve fazer para nos ajudar. Mary, suba at aqui, venha ficar
junto comigo. Ela se sentia atordoada, embaraada, perplexa e confusa,
mas fez o que tinha que fazer e subiu, posicionando-se ao lado do velho
zalif. Achou que era melhor falar, de modo que comeou: Todos vocs
fizeram com que eu me sentisse como uma amiga. So gentis e
hospitaleiros. Eu venho de um mundo onde a vida  muito diferente, mas
alguns de ns tm conhecimento do sraf como vocs, e estou grata pela
ajuda que me deram para fazer este vidro atravs do qual posso v-lo.
Se, de alguma maneira, eu puder ajud-los, terei muito prazer em
faz-lo. Ela falou de maneira muito mais desajeitada do que quando
conversava com Atal e ficou temerosa de no ter sido muito clara no que
dissera. Era difcil saber para onde se virar quando se tinha que
gesticular ao mesmo tempo em que se falava, mas eles pareceram
compreender. Sattamax de novo tomou a palavra.  bom ouvi-la falar.
Esperamos que possa nos ajudar. Se no puder, no sei como
sobreviveremos. Os tualapi mataro todos ns. H mais deles do que
jamais houve e, a cada ano que passa, o nmero deles aumenta. Alguma
coisa em nosso mundo saiu de seu eixo. Durante a maioria dos 33 mil anos
desde que os mulefas existem, sempre cuidamos da terra. Tudo era
equilibrado. As rvores prosperavam, os animais de pasto eram saudveis
e, mesmo que de vez em quando os tualapi atacassem, a proporo entre
quantos de ns e quantos deles existiam permanecia constante. Mas h 300
anos as rvores comearam a adoecer. Ns as observamos com preocupao e
tratamos delas com grande cuidado, mas mesmo assim descobrimos que
estavam produzindo menos nozes e perdendo suas folhas fora da estao,
algumas delas morreram imediatamente, algo que jamais havia acontecido.
Toda a nossa memria reunida no foi capaz de encontrar uma causa para
isso. 257 Sem dvida, tudo isso aconteceu lentamente, mas tambm  lento
o ritmo de nossa vida. No sabamos disso at que voc viesse. Tnhamos
visto borboletas e pssaros, mas eles no tm sraf. Voc tem, por mais
estranha que possa nos parecer; mas  rpida e age de imediato, como os
pssaros, como as borboletas. Voc percebeu que havia necessidade de
alguma coisa para ajud-la a ver sraf e no mesmo instante, com os
materiais que conhecemos h milhares de anos, inventou um instrumento
para fazer isso. Comparada conosco, voc pensa e age com a velocidade de
um pssaro.  assim que nos parece, e  por isso que sabemos que nosso
ritmo parece lento para voc. Mas esse fato  nossa nica esperana.
Voc pode ver coisas que no podemos, consegue ver conexes,
possibilidades e alternativas que so invisveis para ns, exatamente
como o sraf era invisvel para voc. E embora no possamos ver uma
maneira de sobreviver, esperamos que voc possa. Esperamos que voc
descubra rapidamente a causa da doena das rvores e encontre uma cura;
esperamos que invente um meio de lidarmos com os tualapi, que so to
numerosos e to fortes. E esperamos que possa faz-lo brevemente, caso
contrrio todos ns morreremos. Houve um murmrio de acordo e aprovao
do grupo. Todos eles olhavam para Mary e ela se sentia, mais do que
nunca, como a nova aluna numa escola que aguardasse com convico e
grandes esperanas seu bom desempenho. Tambm sentia-se estranhamente
lisonjeada: a imagem de si mesma como sendo rpida e gil como um
pssaro era nova e agradvel, porque sempre havia pensado em si mesma
como determinada e vagarosa. Mas junto com isso veio o sentimento de que
eles haviam percebido as coisas de maneira terrivelmente errada, se as
viam desse modo; que absolutamente no compreendiam; ela no tinha a
menor possibilidade de satisfazer aquela esperana desesperada que
alimentavam. Mas, da mesma maneira, tinha. Eles estavam esperando.
sattamax, disse, mulefas, vocs depositaram sua confiana em mim e farei
o melhor que puder. Vocs tm sido gentis e a vida de vocs  boa e 258
bonita, de modo que tentarei com todo o meu empenho ajudar vocs, e
agora que vi o sraf, sei o que estou fazendo. Obrigada por confiarem em
mim. Eles assentiram, murmuraram e a acariciaram com suas trombas,
enquanto ela descia. Estava amedrontada com o que havia concordado em
fazer . Exatamente naquele momento no mundo de Cittgazze, o padre
assassino, Padre Gomez, vinha caminhando com esforo, subindo por uma
trilha difcil e irregular nas montanhas, entre os troncos retorcidos
das oliveiras. A luz do entardecer passava obliquamente entre as folhas
prateadas e a atmosfera estava cheia do rudo de grilos e cigarras. Mais
adiante ele podia avistar uma pequenina casa de fazenda, abrigada entre
os vinhedos, onde uma cabra balia e um riacho corria descendo pelos
rochedos cinzentos. Havia um homem idoso cuidando de alguma tarefa ao
lado da casa e uma mulher idosa conduzindo a cabra na direo de um
banco e um balde. Na aldeia, a alguma distncia mais para trs,
haviam-lhe dito que a mulher que estava seguindo tinha passado por ali e
que havia falado em subir para as montanhas; talvez aquele casal de
velhos a tivesse visto. No mnimo poderia haver queijo e azeitonas para
comprar e gua da nascente para beber. O Padre Gomez estava muito
habituado a viver frugalmente e havia tempo de sobra. 259 *18 OS
SUBRBIOS DOS MORTOS OH, QUEM DERA FOSSE POSSVEL, QUE AO MENOS UNS DOIS
DIAS PUDSSEMOS PASSAR A CONSULTAR OS MORTOS... JOHN WEBSTER Lyra
acordou antes do amanhecer, com Pantalaimon tremendo de frio em seu
peito, e se levantou para andar um pouco e se aquecer enquanto a luz
cinza comeava a infiltrar-se no cu. Nunca tinha visto tamanho
silncio, nem mesmo no rtico coberto de neve; no havia o mnimo
oscilar de vento e o mar estava to parado que nem a menor ondulao
quebrava na areia; o mundo parecia em estado de suspenso entre inspirar
e expirar. Will estava deitado encolhido, dormindo profundamente, com a
cabea sobre a mochila para proteger a faca. O manto havia escorregado
descobrindo seu ombro e ela tornou a cobri-lo, ajeitando-o, fazendo de
conta que estava tomando cuidado para evitar tocar em seu daemon, e que
tinha a forma de uma gata, enroscada e encolhida exatamente como ele.
Ela deve estar aqui em algum lugar, pensou. 260 Carregando Pantalaimon
ainda sonolento, ela se afastou de Will e sentou na encosta de uma duna
de areia a uma certa distncia de modo que a voz deles no o acordasse.
-Esse povo pequenino -disse Pantalaimon. -No gosto deles -declarou Lyra
em tom decidido. -Acho que deveramos fugir deles assim que pudermos.
Acho que se os apanharmos com uma rede ou coisa parecida, Will pode
cortar uma abertura e fechar, e pronto, estaremos livres. -Ns no temos
uma rede -retrucou Pan -nem nada parecido. De qualquer maneira, aposto
que so espertos demais para isso. Ele est nos vigiando agora.
Pantalaimon tinha assumido a forma de um falco ao dizer isso e seus
olhos eram mais aguados que os dela. A escurido do cu estava se
transformando, de minuto em minuto, no mais plido azul etreo e quando
ela olhou para a areia mais abaixo, a primeira ponta de sol acabava de
subir acima da linha do mar, ofuscando-a. Como estava no alto da duna, a
luz a alcanou alguns segundos antes de tocar a praia e ela a observou
fluir ao seu redor e seguir na direo de Will; e ento viu o vulto de
um palmo de altura do Cavaleiro Tialys, de p ao lado da cabea de Will,
ntido e absolutamente desperto, vigiando-os. -A questo  que eles no
podem nos obrigar a fazer o que querem -observou Lyra. -Tm que nos
seguir. Aposto que esto cheios disso. -Se eles nos apanhassem -comentou
Pan, referindo-se a ele e Lyra -e estivessem com os ferres prontos para
nos espetar, Will teria que fazer o que eles mandassem. Lyra pensou a
respeito daquilo. Lembrava-se vividamente do grito terrvel de dor da
Sra. Coulter, das convulses com os olhos revirados, da medonha lngua
pendurada, com a saliva escorrendo, da boca do macaco dourado,  medida
que o veneno entrava em sua corrente sangnea... E aquilo fora apenas
um arranho, como recentemente haviam recordado em algum ponto  sua
me. Will teria que ceder e fazer o que eles quisessem. 261 -Mas vamos
supor que eles acreditassem que Will no cederia -argumentou ela, vamos
supor que eles acreditassem que Will fosse to impiedoso que seria capaz
de simplesmente nos ver morrer. Talvez fosse melhor ele fazer com que
acreditem nisso, se puder. Lyra tinha trazido o aletmetro consigo e
agora que estava bastante claro para enxergar, pegou seu adorado
instrumento e colocou-se sobre o pano de veludo aberto em seu colo.
Pouco a pouco, foi mergulhando naquele estado de transe em que as muitas
camadas de significado se esclareciam para ela e onde podia ver as teias
intricadas de conexes que ligavam todas elas.  medida que seus dedos
encontravam os smbolos, sua mente formulou as palavras: como podemos
nos livrar dos espies? Ento o ponteiro comeou a girar de um lado para
o outro no mostrador, mais rpido do que jamais o vira se mover antes
-to depressa, na verdade, que ela receou pela primeira vez que perderia
alguns de seus giros e paradas; mas, alguma parte de sua conscincia os
estava contando e viu imediatamente o significado do que o movimento
dizia. O aletmetro dizia: No tente, porque a vida de vocs depende
deles. Aquilo foi uma surpresa, e uma surpresa no muito feliz. Mas ela
prosseguiu e perguntou: Como podemos chegar  terra dos mortos? A
resposta veio: Desam. Sigam a faca. Sigam adiante. Sigam a faca. E
finalmente ela perguntou, hesitante, meio envergonhada: Isso  a coisa
certa a fazer? Sim, disse o aletmetro imediatamente. Sim. Ela suspirou,
saindo de seu transe, enfiou os cabelos atrs das orelhas, sentindo o
calor do sol comear a aquecer seu rosto e ombros. Agora tambm havia
sons no mundo: os insetos estavam despertando e uma brisa muito suave
agitava, de leve, as folhas de relva crescendo mais acima na duna. Ela
guardou o aletmetro e foi andando de volta para perto de Will, com
Pantalaimon fazendo-se to grande quanto podia assumindo a forma de um
leo, na esperana de amedrontar os galivespianos. 262 O homem estava
usando seu magneto ressonante e quando acabou, Lyra perguntou: -Estava
falando com Lorde Asriel? -Com um representante dele -respondeu Tialys.
-A gente no vai para l. -Foi o que eu disse a ele. -E o que ele disse?
-Isso foi apenas para meus ouvidos, no para os seus. -Como quiser-
retrucou. -Voc  casado com aquela dama? -No. Somos colegas. -Tem
filhos? -No. Tialys continuou a desmontar e guardar seu magneto
ressonante e, enquanto o fazia, Lady Salmakia acordou, bem ali pertinho,
levantando-se graciosa e lentamente at estar sentada na pequena
depresso que fizera na areia macia. As liblulas ainda dormiam,
amarradas com cordas finas como teias de aranha, as asas midas de
orvalho. -Existem pessoas grandes em seu mundo ou so todas pequenas
como vocs? -perguntou Lyra. -Sabemos como lidar com pessoas grandes
-retrucou Tialys, no muito prestativamente, e foi falar em voz baixa
com a dama. Eles falavam baixo demais para que Lyra pudesse ouvir, mas
gostou de observ-los beber gotas de orvalho das folhas de grama gaviera
para matar a sede. A gua deve ser diferente para eles, Pantalaimon:
imagine s, gotas do tamanho de seu punho! Deve ser difcil entrar
nelas; devem ter uma espcie de capa elstica, como um balo. A essa
altura Will tambm estava acordando, ainda demonstrando cansao. A
primeira coisa que fez foi procurar os galivespianos, que retriburam
seu olhar, totalmente concentrados nele. Ele desviou o olhar e virou-se
para Lyra. -Eu quero lhe contar uma coisa -disse ela. -Chegue aqui,
afaste-se... 263 -Se vocs se afastarem de ns -disse a voz lmpida de
Tialys, tm que deixar a faca. Se no quiserem deixar a faca, tero que
conversar aqui. -No podemos ter privacidade? -reagiu Lyra indignada. -
No queremos que ouam o que vamos dizer! -Ento afastem-se, mas deixem
a faca. No tinha importncia, afinal, no havia mais ningum nas
proximidades e, certamente, os galivespianos no poderiam us-la. Will
enfiou a mo na mochila para pegar o cantil e dois biscoitos, passando
um para Lyra, e afastou-se com ela subindo pela encosta da duna. -Eu
perguntei ao aletmetro -Lyra contou a Will -e ele disse que no
deveramos tentar fugir do povo pequenino, porque eles vo salvar nossa
vida. De modo que pode ser que tenhamos que continuar com eles. -Voc
disse a eles o que amos fazer? -No! E tambm no pretendo contar.
Porque apenas vam contar para Lorde Asriel naquele violino que fala e
ele iria para l para nos impedir. De modo que simplesmente temos que ir
e no falar sobre o assunto na frente deles. -Mas, eles so espies
-argumentou Will. -Devem ser bons em ouvir s escondidas. De modo que
talvez seja melhor no mencionarmos mais o assunto. Sabemos para onde
vamos. Assim, apenas vamos tratar de ir e no falar nisso, e eles tero
que aceitar isso e vir junto. -Eles no podem nos ouvir agora: Esto
longe demais. Will, eu tambm pergunteI como chegar l. Ele dIsse para
seguIr a faca, s ISSO. -Parece fcil- disse ele. -Mas aposto que no .
Sabe o que Iorek me disse? -No. Ele disse... quando fui me despedir,
ele disse que seria muito difcil para voc, mas que achava que
conseguiria. Mas no me disse por qu... -A faca quebrou porque eu
pensei em minha me -explicou ele. -De maneira que tenho que tir-la de
minha mente, no pensar 264 mais nela. Mas...  como quando algum diz:
no pense em um crocodilo, e voc pensa, no consegue deixar de
pensar... -Bem, na noite passada voc conseguiu cortar uma janela sem
problemas -argumentou Lyra. - verdade, mas porque estava cansado, acho.
Bem, veremos. Disse apenas para seguir a faca? -Isso foi tudo o que ele
disse. -Ento podamos tratar de ir agora. S que no me resta muita
comida. Deveramos encontrar alguma coisa para levar conosco, po e
frutas ou coisa assim. De modo que primeiro vou encontrar um mundo onde
possamos arranjar comida e depois comearemos a procurar o caminho de
verdade. -Est bem -concordou Lyra, bastante feliz por estar de partida
novamente, com Pan e Will, viva e acordada. Os dois caminharam de volta
para onde os espies esperavam, sentados, muito atentamente ao lado da
faca, com suas mochilas nas costas. -Gostaramos de saber o que vocs
pretendem -disse Salmakia. -Bem, de qualquer maneira, no vamos ao
encontro de Lorde Asriel -disse Will. -Temos uma outra coisa a fazer
antes. -E vo nos dizer o que , j que  evidente que no podemos
impedi-los de faz-lo? -No -respondeu Lyra, porque vocs iriam contar a
eles. Tero de vir junto conosco, sem saber para onde estamos indo. 
claro que poderiam desistir disso e voltar para l. -Absolutamente no
-declarou Tialys. -Queremos algum tipo de garantia -disse Will. -Vocs
so espies, de modo que certamente devem ser desonestos, faz parte da
profisso. Precisamos saber que podemos confiar em vocs. Na noite
passada estvamos todos cansados demais e no tnhamos condies de
pensar no assunto, mas no haveria nada que os impedisse de esperar 265
at que tivssemos dormido e ento nos dessem uma ferroada, deixando-nos
imobilizados, chamando em seguida Lorde Asriel naquele magneto. Poderiam
fazer isso facilmente. De modo que precisamos de uma garantia concreta
de que no faro. Uma promessa no basta. Os dois galivespianos tremeram
de raiva diante desse insulto  sua honra. Tialys, fazendo um esforo
para se controlar, disse: -No aceitamos exigncias unilaterais. Voc
tem que nos dar alguma coisa em troca. Voc tem de nos dizer quais so
suas intenes e ento eu lhe entregarei o magneto ressonante, que
ficar a seus cuidados. Voc dever me permitir us-lo quando eu quiser
enviar uma mensagem, mas sempre saber quando isso acontecer e no
poderemos us-lo sem que voc esteja de acordo. Esta ser nossa
garantia. E agora voc nos dir para onde vo e por qu. Will e Lyra
trocaram um olhar para confirmar. -Est bem -disse Lyra, isso  justo.
De modo que vou contar para onde estamos indo: estamos indo para o mundo
dos mortos. No sabemos onde fica, mas a faca o encontrar. Isso  o que
vamos fazer. Os dois espies estavam olhando para ela com incredulidade,
boquiabertos. Ento Salmakia piscou os olhos e disse: -O que voc diz
no faz sentido. Os mortos esto mortos, isso  tudo. No existe nenhum
mundo dos mortos. -Eu tambm pensei que isso fosse verdade -disse Will.
Mas agora no tenho certeza. Pelo menos com a faca poderemos descobrir .
-Mas por qu? Lyra olhou para Will e o viu balanar a cabea,
concordando. -Pois bem -comeou ela. -Antes que eu conhecesse Will,
muito antes de ficar adormecida, deixei esse meu amigo em uma situao
de perigo e ele foi morto. Eu pensei que estava salvando 266 a vida
dele, s que estava apenas tornando tUdo muito pior. E enquanto estive
dormindo, sonhei com ele e pensei que talvez pudesse corrigir meu erro,
se fosse ao lugar para onde ele foi e dissesse como lamento e pedisse
desculpas. E Will quer encontrar o pai dele, que morreu exatamente
quando tinha acabado de encontr-lo. Como podem ver, Lorde Asriel no
pensaria nisso. Nem a Sra. Coulter. Se fssemos at Lorde Asriel,
teramos que fazer o que ele quer, e ele no pensaria absolutamente em
Roger... esse  o meu amigo que morreu... isso no teria nenhuma
importncia para ele. Mas  importante para mim. Para ns. De modo que
isso  o que queremos fazer. -Menina -disse Tialys, quando morremos,
tudo acaba. No existe nenhuma outra vida. Voc j viu a morte. J viu
corpos de pessoas mortas e viu o que acontece com um daemon quando a
morte vem. Ele desaparece. O que mais pode haver para se viver depois
disso? -Ns vamos l e vamos descobrir -respondeu Lyra. -E agora que j
contamos a vocs, pode me entregar seu magneto ressonante. Ela estendeu
a mo e Pantalaimon, sob a forma de leopardo, levantou-se com
imponncia, o rabo balanando lentamente, para reforar a exigncia
dela. Tialys tirou a mochila das costas e colocou-a na palma da mo de
Lyra. Era surpreendentemente pesada; no para ela,  claro, mas ficou
maravilhada com a fora de Tialys. -E quanto tempo acha que essa
expedio vai levar? -perguntou o cavaleiro. -No sabemos -respondeu
Lyra. -No sabemos nada sobre isso, exatamente como vocs. Simplesmente
teremos que ir e ver. -Para comear -disse Will, temos que arranjar mais
gua e mais comida, algo que seja fcil de carregar. De modo que vou
procurar um mundo onde possamos conseguir isso e ento partiremos.
Tialys e Salmakia montaram em suas liblulas e tiveram que control-las
para mant-las no cho. Os grandes insetos estavam impacientes para
voar, mas o domnio de seus cavaleiros era absoluto e Lyra,
observando-os 267  luz do dia pela primeira vez, viu a extraordinria
fineza dos arreios e rdeas de seda cinza, os estribos prateados e as
minsculas selas. Will pegou a faca e uma forte tentao levou-o a
buscar o ponto de toque conhecido de seu prprio mundo: ainda estava com
o carto de crdito; poderia comprar os alimentos com que estava
habituado; poderia at telefonar para a Sra. Cooper e pedir  notcias de
sua me. A faca chocou-se com um som desagradvel como o de uma unha
arranhando uma pedra spera e seu corao quase parou. Se quebrasse a
lmina de novo, seria o fim. Depois de alguns instantes, tentou de novo.
Em vez de tentar no pensar em sua me, disse para si mesmo: Sim, eu sei
que ela est l, mas s que no vou olhar nessa direo enquanto fao
isso... E dessa vez funcionou. Encontrou um novo mundo e deslizou a faca
para cortar uma janela e, alguns momentos depois, todos eles estavam
parados no que parecia ser um ptio de fazenda em algum pas do norte,
como a Holanda ou a Dinamarca, onde o ptio de lajes de pedra estava bem
varrido e limpo e havia uma fileira de portas de baias abertas. O sol
brilhava atravs de um cu parcialmente nublado e havia o cheiro de
alguma coisa queimando no ar, bem como de alguma coisa menos agradvel.
No se ouvia nenhum som de vida humana, embora um zumbido alto, to
intenso e vigoroso que parecia uma mquina, viesse dos estbulos. Lyra
foi at l olhar e voltou imediatamente, parecendo plida. -Tem quatro
-ela engoliu em seco, ps a mo na garganta, depois se recuperou, quatro
cavalos mortos. E milhes de moscas... -Olhe -mostrou Will, engolindo em
seco, ou talvez seja melhor no olhar. Ele estava apontando para os ps
de framboesa que delimitavam a horta. Tinha acabado de ver um par de
pernas de homem, uma com um sapato e uma sem, projetando-se da parte
mais fechada dos arbustos. Lyra no quis olhar, mas Will foi at l ver
se o homem ainda estava vivo e se precisava de ajuda. Voltou sacudindo a
cabea, parecendo assustado. 268 Os dois espies j estavam na porta da
casa, que estava aberta. Tialys voltou rapidamente e disse: -L dentro o
cheiro est melhor -e ento voou de volta para o umbral, enquanto
Salmakia fazia o reconhecimento mais adiante  nas outras instalaes.
Will seguiu o cavaleiro. Encontrou-se numa grande cozinha quadrada, um
lugar antiquado, com peas de porcelana branca num armrio de cozinha de
madeira, uma mesa de pinho limpa e um fogo de lenha apagado, com uma
chaleira preta fria. A porta ao lado dava para uma despensa com duas
prateleiras cheias de mas que enchiam o ar com sua fragrncia. O
silncio  era opressivo. -Will, este aqui  o mundo dos mortos?
-perguntou Lyra baixinho. O mesmo pensamento havia ocorrido a Will. Mas
ele respondeu: -No, eu acho que no.  um mundo onde no estivemos
antes. Olhe, vamos tratar de apanhar tudo o que pudermos carregar. Tem
uma espcie de po de centeio, isso vai ser bom levar,  leve, e tem
queijo... Quando tinham recolhido o mximo que podiam carregar, Will
colocou uma moeda de ouro numa gaveta na grande mesa de pinho. -Qual  o
problema? -perguntou Lyra, ao ver Tialys levantar as sobrancelhas.
-Sempre se deve pagar pelo que se leva. Naquele momento Salmakia entrou
pela porta de trs pousando com a liblula sobre a mesa com um cintilar
de azul-eltrico. -H homens vindo para c -disse ela -; esto a p e
armados. Esto a apenas alguns minutos de distncia. E h uma aldeia em
chamas depois dos campos. E, enquanto ela falava, eles comearam a ouvir
o som de botas marchando no cascalho, uma voz dando ordens e o tilintar
de metal. -Ento devemos ir -disse Will. Ele tateou no ar com aponta da
faca. A lmina parecia estar deslizando sobre uma superfcie muito lisa,
como um espelho, e ento ela penetrou lentamente at que ele pde
cortar. Mas era resistente como 269 um tecido grosso e, depois que
acabou de fazer a abertura, Will piscou surpreendido e assustado: pois o
mundo para o qual tinha aberto a janela era igual em todos os detalhes
ao mundo onde estavam. -O que est acontecendo? -perguntou Lyra. Os
espies estavam olhando pela janela, perplexos. Mas era mais que
perplexidade o que sentiam. Exatamente como o ar havia resistido  faca,
alguma coisa naquela abertura oferecia resistncia, impedindo a passagem
deles. Will teve que fazer fora contra alguma coisa invisvel e depois
ajudar a puxar Lyra atrs dele, e os galivespianos praticamente no
conseguiam fazer nenhum progresso. Tiveram que pousar as liblulas nas
mos das crianas e, mesmo depois disso, foi como pux-las contra a
resistncia de uma presso no ar; as asas transparentes  se dobraram e
se retorceram e os pequeninos cavaleiros tiveram que acariciar suas
cabeas e sussurrar para acalmar seu medo. Mas, depois de alguns
segundos de esforo, todos eles haviam passado pela abertura e Will
encontrou aborda da janela (embora fosse impossvel de ver) e a fechou,
prendendo o som dos soldados em seu prprio mundo. -Will- chamou Lyra;
ele se virou e viu que havia uma outra pessoa na cozinha com eles. Seu
corao deu um pulo. Era o homem que tinha acabado de ver, menos de dez
minutos antes, absolutamente morto em meio aos arbustos, com a garganta
cortada. Era um homem de meia-idade, magro, com a aparncia de algum
que passava a maior parte do tempo ao ar livre. Mas agora parecia quase
enlouquecido, ou paralisado, de choque. Os olhos dele estavam to
arregalados que se podia ver o branco ao redor de toda a ris; ele
agarrava abeira da mesa com a mo trmula. Will ficou satisfeito de ver
que sua garganta estava intacta. O homem abriu a boca para falar, mas as
palavras no saram. Tudo o que conseguiu fazer foi apontar para Will e
Lyra. Lyra tomou a iniciativa: 270 -Perdoe-nos por estarmos em sua casa,
mas tivemos que fugir dos homens que estavam chegando. Sinto muito se
assustamos o senhor. Eu sou Lyra e este  Will, e estes so nossos
amigos, o Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia. Poderia nos dizer qual  seu
nome e onde estamos? Aquele pedido, com palavras to normais, pareceu
fazer com que  o homem recuperasse a razo e um calafrio sacudiu seu
corpo como se ele estIvesse despertando de um sonho. -Eu estou morto
-disse ele. -Estou cado l fora, morto. Sei que estou. Vocs no esto
mortos. O que est acontecendo? Deus do cu, eles me cortaram a
garganta. O que est acontecendo? Lyra deu um passo chegando mais perto
de Will quando o homem disse Estou morto e Pantalaimon correu para se
esconder em seu peito, sob a forma de camundongo. Quanto aos
galivespianos, estavam lutando para controlar suas liblulas, pois os
grandes insetos pareciam sentir averso ao homem e voavam dardejando de
um lado para outro na cozinha, em busca de uma sada. Mas o homem no
lhes deu ateno. Ainda estava tentando compreender o que havia
acontecido. -O senhor  um esprito? -perguntou Will cautelosamente. O
homem estendeu a mo e Will tentou apert-la, mas seus dedos se fecharam
no ar. Um formigamento frio foi tudo o que Will sentiu. Quando viu
aquilo acontecer, o homem olhou para sua prpria mo apavorado. O choque
inicial estava comeando a passar e ele podia sentir pena de seu estado
lastimvel. - verdade -disse, eu estou morto... estou morto e vou para
o inferno... -No diga isso -disse Lyra, ns iremos juntos. Como se
chama? -Eu era DirkJansen -respondeu, mas j no... eu j no sei o que
fazer... No sei para onde ir... Will abriu a porta, o ptio da fazenda
parecia igual, a horta atrs da cozinha no havia se modificado, o mesmo
sol encoberto brilhava. E l estava o corpo do homem, intocado. 271 Um
pequeno gemido escapou da garganta de Dirk Jansen, como se no houvesse
mais como negar. As liblulas escapuliram rapidamente pela porta e
voaram raso sobre o solo, depois dispararam para o alto, mais velozes do
que pssaros. O homem estava olhando em volta, desamparado, levantando
as mos, depois baixando-as, gemendo baixinho. -No posso ficar aqui...
No posso ficar -estava dizendo. - Mas esta no  a fazenda que conheci.
Est tudo errado. Tenho que ir. -Para onde o senhor vai? -perguntou
Lyra. -Descer a estrada. No sei. No posso ficar aqui... Salmakia veio
voando e se empoleirou na mo de Lyra. As pequeninas garras da liblula
a espetavam enquanto a dama falava: -Tem gente saindo da aldeia... gente
como este homem... todos esto andando na mesma direo. -Ento iremos
com eles -decidiu Will, e enfiou a ala da mochila no ombro. Dirk Jansen
j estava passando por seu prprio corpo, desviando os olhos. Era quase
como se estivesse bbado, parando, seguindo adiante, ziguezagueando ora
para a direita ora para a esquerda, tropeando em pequenos sulcos e nas
pedras no caminho que seus ps tinham conhecido to bem. Lyra foi atrs
de Will e Pantalaimon transformou-se num gavio e voou o mais alto que
pde, fazendo Lyra sufocar um grito. -Eles tm razo -disse Pan quando
desceu. -H fileiras de pessoas, todas saindo da aldeia. Gente morta...
E logo eles tambm as avistaram: eram em torno de 20 pessoas, mais ou
menos, homens, mulheres e crianas, todos andando do mesmo modo que Dirk
Jansen, inseguros e em estado de choque. A aldeia ficava a uns 800
metros de distncia e as pessoas vinham andando na direo deles, juntas
umas das outras, pelo meio da estrada. Quando Dirk Jansen viu os outros
espritos, saiu correndo, cambaleante, e eles estenderam as mos para
cumpriment-lo. -Mesmo se no souberem para onde esto indo, esto todos
indo para l juntos -observou Lyra. - melhor irmos com eles. 272 -Voc
acha que eles tinham daemons aqui neste mundo? - perguntOU Will. -No
sei. Se visse um deles em seu mundo, saberia que era um esprito? -
difcil dizer. Eles no parecem exatamente normais... Tinha um homem que
eu costumava ver na minha cidade e ele costumava ficar perambulando do
lado de fora das lojas, sempre segurando a mesma velha sacola de
plstico, e nunca falava com ningum nem entrava. E ningum nunca olhava
para ele. Eu costumava fingir que ele era um esprito, um fantasma. Eles
se parecem um pouco com ele. Talvez meu mundo seja cheio de espritos e
eu nunca tenha percebido. -No acho que o meu seja -disse Lyra em tom de
dvida. -De qualquer maneira, este deve ser o mundo dos mortos. Essas
pessoas acabaram de ser mortas, os soldados devem ter feito isso... e
aqui esto elas e  exatamente igual ao mundo em que estiveram vivas.
Pensei que fosse ser muito diferente... -Bem, est escurecendo. Olhe!
Ela estava agarrando o brao dele. Will parou e olhou em volta, e viu
que Lyra tinha razo. No muito tempo antes de ele ter encontrado a
janela em Oxford e t-la atravessado, entrando no outro mundo de
Cittgazze, tinha havido um eclipse do sol e, como milhes de outros,
Will ficara parado do lado de fora ao meio-dia observando enquanto a luz
forte do dia fora escurecendo e enfraquecendo, at que uma espcie de
estranho crepsculo havia coberto as casas, as rvores, o parque. Tudo
estava ntido como se em plena luz do dia, mas havia menos luz para ver
as coisas, como se as foras de um sol moribundo estivessem se
esgotando. O que estava acontecendo agora era parecido, mas mais
estranho, porque os contornos das coisas tambm estavam perdendo
definio e comeando a ficar borrados. -A gente no est ficando cego,
no  isso -disse Lyra, assustada, porque a questo no  que a gente
no possa ver as coisas,  que as coisas esto desbotando... 273 A cor
lentamente estava desaparecendo do mundo. Um cinza fosco, esverdeado,
tinha substitudo o verde intenso das rvores e da grama, uma cor de
areia acinzentada substitua o amarelo forte de um campo de milho, um
cinza-avermelhado cobria os tijolos de uma bela casa de fazenda. As
prprias pessoas, agora mais prximas, tinham comeado a perceber isso
tambm e estavam apontando e se segurando nos braos uns dos outros
tentando se acalmar. As nicas coisas de cores intensas na paisagem
inteira eram o vermelho-e-amarelo brilhante e o azul-eltrico das
liblulas e seus pequeninos cavaleiros, e Will, Lyra e Pantalaimon, que
em forma de gavio voava em crculos logo acima. Agora eles estavam
chegando perto das primeiras pessoas e era evidente: eram todas
espritos. Will e Lyra deram um passo para ficarem mais perto um do
outro, mas no havia nada a temer, pois os espritos estavam muito mais
assustados do que eles e estavam recuando, no querendo se aproximar.
Will gritou para eles: -No tenham medo. No vamos machucar vocs. Para
onde esto indo? Eles olharam para o homem mais velho do grupo, como se
fosse o gula. -Estamos indo para onde todos vo -disse ele. -Parece que
eu sei, mas no me lembro de ter aprendido. Parece que fica mais adiante
na estrada. Saberemos quando chegarmos l. -Mame -chamou uma criana,
por que est ficando escuro de dia? -Fique quieta, querida, no se
preocupe -disse a me. -No vai adiantar nada se preocupar .Acho que
estamos mortos. -Mas para onde estamos indo? -perguntou a criana. -Eu
no quero estar morta, mame! -Estamos indo visitar o vov -disse a me
aflita. 274 Mas a criana no aceitou o consolo e chorou muito sentida.
Os outros no grupo olhavam para a me, uns com simpatia, outros com
irritao, mas no havia nada que pudessem fazer para ajudar e todos
continuaram andando, desconsoladamente, em meio  paisagem que ia
perdendo as cores, enquanto os gritos dbeis da criana continuavam se
repetindo sem parar. O Cavaleiro Tialys tinha falado com Salmakia antes
de seguir adiante e se afastar rapidamente, voando pouco acima da
superfcie, e Will e Lyra acompanharam a liblula com olhos vidos por
suas cores vivas e vigor  medida que foi se tornando cada vez menor. A
pequenina dama veio voando e empoleirou seu inseto na mo de Will. -O
cavaleiro foi observar o que h mais adiante -disse ela. - Acreditamos
que a paisagem esteja perdendo as cores porque essas pessoas a esto
esquecendo. Quanto mais se afastarem de suas casas, mais escuro ficar.
-Mas por que acha que continuam indo? -perguntou Lyra. -Se eu fosse um
esprito, gostaria de ficar nos lugares que conheo, no sair vagando
por a e me perder. -Eles se sentem infelizes l -arriscou Will,
procurando uma resposta. - o lugar onde acabaram de morrer. Tm medo de
l. -No, eles so impulsionados a seguir em frente por alguma coisa
-disse a dama. -Algum instinto os est atraindo para seguir adiante pela
estrada. E, de fato, os espritos estavam se movendo de maneira mais
determinada, agora que tinham perdido de vista a aldeia. O cu estava
escuro, como se uma violenta tempestade estivesse se armando, mas no
havia nada da atmosfera carregada de eletricidade que costuma vir antes
de uma tempestade. Os espritos continuaram caminhando em passo regular
e confiante, e a estrada seguia reto, em frente, atravessando uma
paisagem que era quase desprovida de qualquer trao caracterstico. De
vez em quando, um deles lanava um olhar para Will ou para Lyra, ou para
as cores intensas da liblula e sua cavaleira, como se estivessem
curiosos. Finalmente o homem mais velho disse: 275 -Vocs a, voc,
menino, e voc, menina. Vocs no esto mortos. No so espritos. Para
que esto vindo por aqui? -Viemos parar aqui acidentalmente -respondeu
Lyra, antes que Will pudesse falar. -No sei como aconteceu. Estvamos
tentando fugir daqueles homens e simplesmente parece que acabamos vindo
parar aqui. -Como sabero que chegaram ao lugar para onde tm que ir?
-perguntou Will. -Acredito que nos diro -disse o esprito em tom
confiante. -Vo separar os pecadores dos justos, creio. Agora no
adianta mais rezar. Agora  tarde demais para isso. Deveriam ter feito
isso quando estavam vivos. Agora no adianta nada. Era bastante fcil
perceber em que grupo ele esperava ser includo e bastante evidente
tambm que no acreditava que o grupo seria grande. Os outros espritos
o ouviram com ansiedade, mas ele era o nico guia conselheiro que
possuam, de modo que o seguiram sem discutir. E continuaram andando,
caminhando penosamente em silncio sob um cu que finalmente tinha
escurecido at chegar a um cinza-chumbo fosco e permaneceu nessa cor sem
escurecer mais. Os vivos viram-se olhando para a esquerda e para a
direita, para cima e para baixo, em busca de alguma coisa que fosse
clara ou animada ou alegre e, sempre, s encontraram desapontamento at
que uma pequenina centelha apareceu adiante e se aproximou deles voando
velozmente. Era o Cavaleiro, e Salmakia instigou sua liblula a disparar
voando ao seu encontro, com um grito de prazer. Os dois conversaram
reservadamente, depois voltaram depressa para junto das crianas. -H
uma cidade mais adiante -relatou Tialys. -Parece com um campo de
refugiados, mas  bastante bvio que aquilo est l h sculos, ou mais.
E creio que mais alm h um mar ou um lago, mas est totalmente coberto
pela neblina. Consegui ouvir os gritos de pssaros. E 276 h centenas de
pessoas chegando a todo minuto, vindas de todas as direes, pessoas
como estas, espritos... Os espritos estavam ouvindo enquanto ele
falava, embora sem muita curiosidade. Pareciam ter se acomodado numa
espcie de transe de desinteresse e Lyra teve vontade de sacudi-los, de
insistir para que se esforassem, para que despertassem, e buscassem uma
sada. -Como vamos ajudar essas pessoas, Will? -perguntou. Ele no tinha
sequer a mais remota idia. Enquanto seguiam adiante, comearam a
avistar movimento no horizonte  esquerda e  direita, e, bem adiante
deles, uma fumaa de cor suja estava subindo lentamente para acrescentar
sua escurido  atmosfera feia e deprimente. O movimento era de gente,
ou espritos: em filas, aos pares, em grupos, ou sozinhos, mas todos de
mos vazias, centenas de milhares de homens, mulheres e crianas estavam
vagando pela plancie em direo  fonte da fumaa. O terreno agora era
de encosta em declive e, cada vez mais, parecendo ser um aterro de
depsito de lixo. O ar estava carregado e cheio de fumaa, e tambm de
outros cheiros: o cheiro acre de substncias qumicas, de matria
vegetal em decomposio, de esgoto. E,  medida que Iam descendo, o
cheiro ficava pior. No havia um retalho de solo limpo que se pudesse
ver e as nicas plantas que cresciam por toda parte eram ervas ftidas e
um mato spero acinzentado. Mais adiante deles, acima da gua, estava a
neblina. Erguia-se como um penhasco fundindo-se com o cu sombrio e de
algum lugar em seu interior vinham aqueles gritos de pssaros de que
Tialys havia falado. Bem no meio, entre os montes de lixo e a neblina,
estava a primeira cidade dos mortos. 277 *19 LYRA E SUA MORTE SENTIA
RAIVA DO MEU AMIGO; DEI A CONHECER MINHA RAIVA, E ASSIM ELA TEVE FIM.
WILLIAM BLACK Aqui e ali, fogueiras tinham sido acesas entre as runas.
A cidade era uma confuso, sem ruas, sem praas e sem espaos abertos,
exceto onde um prdio havia desabado. Umas poucas igrejas ou prdios
pblicos ainda erguiam-se SObre o resto, embora estivessem esburacados
ou com as paredes rachadas e, em um caso, um prtico inteiro havia
desmoronado sobre suas colunas. Entre os esqueletos das runas das
construes de pedra, um amontoado desordenado de barracos e casebres
tinha sido erguido com pedaos de vigas de madeira, lates de gasolina
ou latas de biscoitos destroados, chapas de polietileno, pedaos de
compensado ou de madeira macia. Os espritos que tinham vindo com eles
estavam seguindo apressados para a cidade e, de todas as direes, havia
mais espritos chegando, tantos que pareciam os gros de areia que
escorrem em direo ao buraco de uma ampulheta. Os espritos se
encaminharam direto para a esqulida confuso da cidade, como se
soubessem exatamente para onde 278 estavam indo, e Lyra e Will estavam
prontos para segui-los; mas ento foram detidos. Um vulto saiu do vo de
uma porta remendada e disse: -Esperem, esperem. Uma luz fraca brilhava
atrs dele e no era fcil distinguir suas feies; mas sabiam que no
era um esprito. Como eles, estava vivo. Era um homem magro que poderia
ter qualquer idade, vestido num terno sujo, desbotado e esgarado, e
segurava um lpis e um mao de papis que mantinha presos com um grande
clipe. O prdio de onde havia sado tinha o aspecto de um posto de
alfndega numa fronteira raramente visitada. -O que  este lugar?
-perguntou Will. -E por que no podemos entrar? -Vocs no esto mortos
-respondeu o homem em tom cansado. -Tm que esperar na rea de
transio. Sigam adiante pela rua  esquerda e entreguem estes papis ao
funcionrio que controla o porto. -Mas, perdoe-me, senhor -disse Lyra,
espero que no se aborrea com minha pergunta, mas como podemos ter
chegado at aqui se no estamos mortos? Porque aqui  o mundo dos
mortos, no ? -Isso aqui  um subrbio do mundo dos mortos. Por vezes,
os vivos vm para c, por engano, mas tm de esperar na rea de
transio antes de poderem seguir. -Esperar quanto tempo? -At morrerem.
Will sentiu a cabea ficar zonza. Viu que Lyra estava pronta para
discutir e, antes que ela pudesse falar, disse: -Poderia apenas nos
explicar o que acontece depois? Quero dizer, esses espritos que vm
para c, eles ficam nesta cidade para sempre? -No, no -respondeu o
funcionrio. -Isso aqui  apenas um porto de trnsito. Daqui eles seguem
adiante de barco. 279 -Para onde? -perguntou Will. -Isso  uma coisa que
no posso lhe dizer -respondeu o homem, e um sorriso amargo puxou para
baixo os cantos de sua boca. - Agora tm que ir andando. Vocs tm que
ir para a rea de transio. Will recebeu os papis que o homem estava
estendendo e ento pegou Lyra pelo brao e fez com que se afastasse
dali. As liblulas agora voavam vagarosamente e Tialys explicou que
precisavam descansar; de modo que elas se empoleiraram na mochila de
Will e Lyra deixou que os espies sentassem em seus ombros. Pantalaimon,
em forma de leopardo, olhou para eles enciumado, mas no disse nada.
Eles seguiram adiante pela trilha estreita, contornando os casebres
miserveis e as poas de esgoto e observando o fluxo interminvel de
espritos que chegavam e entravam sem impedimentos na cidade. -Temos que
conseguir chegar at a gua, como todos eles - disse Will. -E talvez as
pessoas nessa rea de trnsito nos digam como. De qualquer maneira, no
parecem estar com raiva, nem ser perigosos.  estranho. E estes
papis... Eram simplesmente pedaos de papel arrancados de um bloco, com
palavras escritas ao acaso, a lpis, e depois riscadas. Era como se
aquelas pessoas estivessem fazendo um jogo e esperando para ver quando
os viajantes contestariam sua autoridade ou desistiriam e cairiam na
gargalhada. E, no entanto, tudo parecia to real. Estava ficando mais
escuro e mais frio, e era difcil ter uma idia distinta da passagem do
tempo. Lyra achava que tinham caminhado durante meia hora; mas talvez
tivesse sido o dobro; o aspecto do lugar no mudava. Finalmente chegaram
a uma pequena cabana de madeira, parecida com a outra, onde tinham
parado antes, onde uma lmpada fraca estava acesa pendurada num fio
descoberto acima da porta. Quando se aproximaram, um homem vestido quase
que exatamente como o outro saiu com um pedao de po com manteiga numa
das mos e, sem dizer uma palavra, examinou os papis e balanou a
cabea em sinal de assentimento. 280 Ele devolveu os papis e estava
prestes a entrar, quando Will perguntou: -Por favor, para onde devemos
ir agora? -Devem ir procurar algum lugar para ficar -respondeu o homem,
com alguma gentileza. -Devem apenas perguntar. Todo mundo est
esperando, exatamente como vocs. Ele lhes deu as costas e fechou a
porta por causa do frio, e os viajantes penetraram no corao do
agrupamento de casebres onde as pessoas vivas tinham que ficar. Era
muito semelhante  parte principal da cidade: pequenos casebres
mal-ajambrados, que haviam sido reparados dzias de vezes, remendados
com pedaos de plstico ou de chapas de ferro corrugado, apoiando-se
estranhamente uns contra os outros ao longo  de becos estreitos e
lamacentos. Em alguns lugares, um cabo de eletricidade descia em laadas
de uma arandela e fornecia energia suficiente para acender uma ou duas
lmpadas nuas, dispostas em fila sobre os casebres prximos. Contudo, a
maior parte da pouca luz que havia vinha das fogueiras. Seu brilho
enfumaado bruxuleava em reflexos vermelhos sobre os pedaos e retalhos
de material de construo, como se fossem as derradeiras chamas
remanescentes de alguma grandiosa conflagrao, permanecendo vivas por
pura malevolncia. Mas,  medida que Will, Lyra e os galivespianos se
aproximaram e conseguiram enxergar mais detalhes, puderam ver que havia
inmeros -muitos mais -realmente muitos vultos, sentados no escuro
sozinhos ou encostados nas paredes ou em pequenos grupos, conversando em
voz baixa. -Por que essas pessoas no esto dentro de casa? -perguntou
Lyra. -Est frio. -No so pessoas -disse Lady Salmakia. -No so nem
espritOS. So alguma outra coisa, mas no sei o qu. Os viajantes
chegaram ao primeiro grupo de casebres, que era iluminado por uma
daquelas grandes lmpadas eltricas, de luz fraca, balanando
ligeiramente num fio sob o vento frio e Will ps a mo sobre a faca em
seu cinto. 281 Havia um grupo daquelas coisas com forma de pessoas do
lado de fora, agachadas sobre os calcanhares e jogando dados e, quando
as crianas se aproximaram, eles se levantaram: eram cinco, todos
homens, os rostos nas sombras e as roupas velhas e sujas. -Como se chama
esta cidade? -perguntou Will. No houve resposta. Alguns deles deram um
passo atrs e todos os cinco chegaram mais perto uns dos outros, como se
eles estivessem com medo. Lyra sentiu a pele se arrepiar e todos os
minsculos plos em seus braos ficarem em p, embora no soubesse dizer
por qu. Enfiado dentro de sua camisa, Pantalaimon tremia e sussurrava:
-No, no, Lyra, no, vamos embora, vamos voltar, por favor... As
"pessoas" no fizeram nenhum movimento e, finalmente, Will deu de ombros
e disse: -Bem, de qualquer maneira, boa noite para vocs -e seguiu
adiante. Receberam uma reao semelhante de todos os outros vultos com
quem falaram e, o tempo todo, a apreenso deles foi crescendo. -Will,
eles so Espectros? -perguntou Lyra baixinho. -Ser que j estamos
bastante crescidos para ver Espectros? -Acho que no. Se fossem, nos
atacariam, mas eles prprios parecem estar com medo. No sei o que so.
Uma porta se abriu e a luz se espalhou sobre o solo enlameado. Um homem
-um homem de verdade, um ser humano -apareceu no vo da porta,
observando-os se aproximarem. O pequeno grupo de vultos em torno da
porta se afastou dando um ou dois passos para trs, como se em sinal de
respeito, e eles viram o rosto do homem: imperturbvel, inofensivo e
gentil. -Quem so vocs? -perguntou. -Viajantes -respondeu Will. -No
sabemos onde estamos. Que cidade  esta? -Aqui  a rea de trnsito
-respondeu o homem. -Vieram de muito longe? 282 -Sim, viemos de muito
longe e estamos cansados -respondeu Will. -Poderamos comprar alguma
comida e pagar por um abrigo? O homem estava olhando para algum ponto
atrs deles na escurido e ento veio para o lado de fora e olhou em
volta para mais alm, como se algum estivesse faltando. Ento virou-se
para os estranhos vultos parados ali por perto e perguntou: -E vocs
viram alguma morte? Eles sacudiram a cabea e as crianas ouviram um
murmrio dizendo: -No, no, nenhuma. O homem voltou para a porta. Atrs
dele, no vo da porta, havia rostos olhando para fora: uma mulher, duas
crianas pequenas, um outro homem. Todos estavam nervosos e apreensivos.
-Morte? -questionou Will. -No estamos trazendo morte. Mas isso parecia
ser exatamente o que os estava preocupando, porque depois que Will
falou, houve um suspiro baixo e temeroso dos vivos e at mesmo os vultos
do lado de fora se encolheram, se afastando um pouco. -Com licena
-disse Lyra, dando um passo adiante, em sua melhor forma, falando muito
educadamente, como se a governanta da Faculdade Jordan estivesse lhe
lanando um olhar furioso. -No pude deixar de reparar, mas esses
cavalheiros aqui, esto mortos? Desculpem-me por perguntar, se estiver
sendo indelicada, mas de onde viemos isso  muito estranho e nunca vimos
ningum como eles antes. Se estiver sendo mal-educada, realmente
gostaria que me perdoassem. Mas sabem, em meu mundo, ns temos daemons,
todo mundo tem um daemon e ficaramos chocados se vssemos algum sem
um, exatamente como vocs esto chocados ao nos ver. E agora que
estivemos viajando, Will e eu-  este  Will e eu sou Lyra, descobri que
existem algumas  pessoas que parecem no ter daemons, como Will, que no
tem, e fiquei assustada at que descobri que, na verdade, so pessoas
comuns como eu. Assim talvez seja por isso que algum de seu mundo
poderia ficar meio nervoso quando nos v, se pensam que somos
diferentes. 283 O Homem disse: -Lyra? E Will? -Sim senhor -disse
humildemente. -E estes so seus daemons? -perguntou ele, apontando para
os espies no ombro dela. -No -respondeu Lyra, e sentiu-se tentada a
dizer: "Eles so nossos criados", mas achava que Will teria considerado
aquilo uma pssima idia; de modo que disse: -Eles so nossos amigos, o
Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia, pessoas muito importantes e
inteligentes, que esto viajando conosco. Ah, e este  meu daemon-
disse, tirando o camundongo-Pantalaimon do bolso. -O senhor compreende,
somos inofensivos e prometemos que no vamos lhes fazer mal. Realmente
precisamos de comida e de um abrigo. Amanh iremos embora. Prometo. Todo
mundo esperou. O nervosismo do homem diminuiu um pouco com o tom humilde
de Lyra e os espies tiveram o bom senso de parecerem modestos e
inofensivos. Depois de uma pausa, o homem disse: -Bem, embora seja
estranho, suponho que os nossos sejam tempos estranhos... Podem entrar,
sejam bem-vindos... Os vultos do lado de fora assentiram, um ou dois
fizeram pequenas mesuras e se afastaram respeitosamente enquanto Will e
Lyra caminhavam em direo ao calor e  luz. O homem fechou a porta
atrs deles e enganchou um arame num prego para mant-la fechada. Era um
nico aposento, iluminado por uma lamparina  nafta e limpo, porm
mal-ajambrado. As paredes de compensado eram decoradas com fotografias
de artistas, recortadas de revistas sobre cinema, e com um desenho feito
com marcas de dedos sujos de fuligem. Havia um fogo de ferro encostado
numa parede, com uma armao para secar roupas bem defronte, onde
algumas camisas pudas soltavam vapor, e, num console, havia um
relicrio de flores de plstico, conchas, frascos de perfume coloridos e
outras bugigangas de mau gosto, todas rodeando um quadro de um elegante
esqueleto de cartola e culos escuros. 284 o casebre estava lotado: alm
do homem, da mulher e das duas crianas pequenas, havia um beb num
bero, um homem mais idoso e, num canto, sob uma pilha de cobertores,
uma senhora muito idosa estava deitada observando tudo com olhos
faiscantes num rosto enrugado como seus cobertores amassados. Enquanto
Lyra olhava para ela, teve um choque: os cobertores se mexeram e um
brao muito magro emergiu, numa manga de camisa preta, e ento apareceu
um outro rosto, de homem, to velho, que era quase um esqueleto. De
fato, ele se parecia mais com o esqueleto no quadro que com um ser
humano e ento Will tambm o viu, e todos os viajantes se deram conta
juntos que ele era um daqueles vultos sombrios e bem-educados, como os
que estavam l fora. E todos se sentiam to perplexos como o homem
ficara quando os viu primeiro. Na verdade, todas as pessoas no pequeno
casebre abarrotado todas, menos o beb, que estava dormindo -ficaram sem
saber o que dizer. Foi Lyra quem conseguiu se recuperar primeiro. -
muito gentil de sua parte -disse ela, muito obrigada, boa noite, estamos
muito contentes de estar aqui. E, como disse, lamentamos ter chegado sem
nenhuma morte, se essa  a maneira normal de fazer as coisas. Mas
procuraremos no incomodar, na medida do possvel. Sabem, estamos
procurando a terra dos mortos e foi assim que acabamos chegando aqui.
Mas no sabemos onde fica, nem se isso aqui faz parte dela, nem como
chegar l nem nada. De modo que se puderem nos dizer alguma coisa a
respeito disso, ficaramos muito gratos. As pessoas no casebre ainda os
estavam olhando fiXamente, mas as palavras de Lyra tranqilizaram um
pouco a atmosfera e a mulher os convidou a sentarem-se  mesa, puxando
um banco. Will e Lyra colocaram as liblulas adormecidas no alto de uma
prateleira num canto escuro, onde Tialys disse que descansariam at o
dia seguinte, e ento os galivespianos se juntaram a eles na mesa. A
mulher estivera preparando um cozido de carne e legumes, e descascou
mais um par de batatas, cortando-as em pedaos para aumentar a
quantidade de comida, insistindo com o marido que oferecesse aos
viajantes alguma coisa para beber, enquanto acabava de cozinhar. 285 Ele
trouxe uma garrafa de aguardente lmpida, de cheiro forte, que pareceu a
Lyra semelhante  genebra dos gpcios, e os dois espies aceitaram um
copo, do qual se serviram com suas pequeninas taas. Lyra teria esperado
que a famlia ficasse olhando mais para os galivespianos, mas a
curiosidade deles estava igualmente concentrada, pensou, nela e em Will.
No demorou muito a perguntar por qu. -Vocs so as primeiras pessoas
que jamais vimos sem o espectro da morte -explicou o homem, cujo nome,
descobriram, era Peter. -Isto , desde que viemos para c, sabe. ramos
como vocs, viemos para c antes de estarmos mortos, por alguma
casualidade ou acidente. Temos que esperar at que nossa morte nos diga
que est na hora. -A sua morte diz a voc? -perguntou Lyra. -Diz. O que
descobrimos quando viemos para c, ah, isso faz muito tempo para a
maioria de ns, mas descobrimos que todos ns trazamos o espectro de
nossa morte conosco. Foi aqui que descobrimos. Tinha estado conosco o
tempo todo, s que no sabamos. Sabe, todo mundo tem sua morte. Ela nos
acompanha a todos os lugares, durante a vida inteira, est sempre por
perto. Os espectros de nossas mortes, eles esto l fora, tomando ar;
eles entram de vez em quando. O da vov est l com ela, ele est bem
perto dela, muito perto. -Isso no assusta o senhor, ter sua morte por
perto o tempo todo? -perguntou Lyra. -Por que me assustaria? Se ela est
por perto, voc pode ficar de olho nela. Eu ficaria muito mais nervoso
se no soubesse onde est. -E todo mundo tem sua prpria morte?
-perguntou Will, com surpresa e admirao. -Mas claro que tem, no
momento em que voc nasce, sua morte vem ao mundo junto com voc e  sua
morte que o leva embora. -Ah -exclamou Lyra,  disso que precisamos
saber, porque estamos tentando encontrar o mundo dos mortos e no
sabemos como chegar l. Ento para onde vamos, quando morremos? 286 -Sua
morte bate em seu ombro, pega sua mo e diz: venha comigo, est na hora.
Pode acontecer quando voc est doente, com uma febre, ou quando se
engasga com um pedao de po seco, ou quando cai de um prdio alto; no
meio de seu sofrimento e de suas dificuldades, ela vem gentilmente
procurar voc e diz: agora vamos com calma, calma, criana, venha
comigo, e voc vai com ela num barco que atravessa o lago coberto de
neblina. O que acontece l, ningum sabe. Ningum nunca voltou para
contar. A mulher disse a uma das crianas para chamar as mortes e dizer
que entrassem, e ela correu at a porta e falou com os vultos. Will e
Lyra observaram maravilhados, e os galivespianos chegaram mais perto um
do outro, enquanto os vultos de mortes -um para cada membro da famlia-
vinham entrando pela porta: vultos plidos, indistintos, com roupas
gastas, simplesmente desbotados, silenciosos e desinteressantes. -Esses
so as mortes de vocs? -perguntou Tialys. -So sim, senhor -respondeu
Peter. -Sabe quando diro que est na hora de ir? -No. Mas agente sabe
que esto por perto e isso  um consolo. Tialys no disse nada, mas era
evidente que no achava que aquilo fosse consolo nenhum. Os vultos de
mortes ficaram parados, educadamente, encostados na parede, e era
estranho ver como ocupavam pouco espao e perceber como atraam pouca
ateno. Lyra e Will logo se viram ignorando-os totalmente, embora Will
pensasse: aqueles homens que matei. ..suas mortes estavam bem perto, ao
lado deles o tempo todo... eles no sabiam e eu no sabia... A mulher,
Manha, serviu o cozido em pratos esmaltados lascados, e ps um pouco
numa tigela para que os vultos de mortes dividissem entre si. Eles no
comeram, mas o cheiro gostoso os deixou satisfeitos. Logo depois a
famlia inteira e seus convidados estavam comendo com grande apetite e
Peter perguntou s crianas de onde vinham e como era o mundo delas. -Eu
vou contar a vocs -disse Lyra. 287 Quando disse isso, quando assumiu o
comando, parte dela sentiu uma pequena corrente de prazer jorrar e subir
em seu peito, como as borbulhas no champanhe. E sabia que Will estava
observando e sentiu-se feliz pelo fato de ele poder v-la fazer o que
ela sabia fazer melhor, fazendo-o por ele e por todos. Comeou falando
sobre seus pais. Eles eram um duque e uma duquesa, muito importantes e
ricos, que tinham sido afastados de suas propriedades por um inimigo
poltico e jogados na priso. Mas tinham conseguido escapar, descendo
por uma corda, com o beb, Lyra, nos braos do pai e tinham recuperado a
fortuna da famlia, mas, pouco depois, tinham sido atacados e
assassinados por criminosos. Lyra teria sido morta tambm, e cozida e
comida, se Will no a tivesse resgatado bem a tempo elevado de volta
para os lobos, na floresta onde ele estava sendo criado pelos lobos.
Will tinha cado no mar, da amurada do navio de seu pai, quando ainda
era beb e fora levado pelas ondas para uma praia deserta, onde uma loba
o amamentara e o mantivera vivo. As pessoas engoliram aqueles absurdos
com plcida credulidade, e mesmo as mortes chegaram mais perto para
ouvir, aboletando-se no banco ou deitando no cho por perto, olhando
para ela com rostos suaves e corteses, enquanto ela ia inventando e
contando a histria de sua vida com Will na floresta. Ele e Lyra tinham
ficado com os lobos durante algum tempo e ento tinham se mudado para
Oxford, para trabalhar na cozinha da Universidade Jordan. L haviam
conhecido Roger e quando a Jordan foi atacada pelos filhos dos
fabricantes de tijolos que moravam perto dos Barreiros, tiveram que
fugir s pressas; de modo que Will e Roger capturaram uma das barcaas
dos gpcios e velejaram nela, descendo pelo Tmisa, quase sendo
capturados na Eclusa de Abingron, e depois tinham sido postos a pique
pelos piratas de Wapping, nas vizinhanas das docas de Londres, tendo
que nadar at estarem em segurana num clper, um veleiro de trs
mastros que estava de partida rumo a Hang Chow, na China, para vender
mercadorias e comprar ch. 288 E no clper tinham conhecido os
galivespianos, que eram estrangeiros vindos da Lua, tendo sido soprados
para a terra por uma violenta tempestade vinda da Via Lctea. Eles
haviam se refugiado no cesto de vigia de um dos mastros e ela, Will e
Roger costumavam se revezar para ir at l em cima visit-los, s que um
dia, Roger escorregou e mergulhou caindo nas mos de Davy Jones, o
esprito maligno do mar.* Eles tentaram convencer o capito a voltar com
o navio e procurar por ele, mas era um homem duro e violento que s
estava interessado no lucro que obteria chegando rapidamente  China e
os pusera a ferros. Mas os galivespianos tinham trazido uma lixa para
eles e... E assim por diante. De vez em quando, ela se virava para Will
ou para os espies para pedir confirmao, e Salmakia acrescentava um ou
dois detalhes ou Will balanava a cabea, concordando, e a histria foi
se desenrolando at acabar no ponto em que as crianas e seus amigos da
Lua tinham que encontrar o caminho para chegar  terra dos mortos de
modo a poderem descobrir, atravs de seus pais, o segredo de onde a
fortuna da famlia havia sido enterrada. -E se, em nossa terra,
conhecssemos nossas mortes -disse ela -como vocs conhecem aqui,
provavelmente seria mais fcil; mas acho que realmente tivemos muita
sorte em conseguir encontrar o caminho at aqui, de modo a podermos
ouvir seus conselhos. E muito obrigada por serem to gentis e ouvirem, e
por nos darem esta refeio, que estava realmente muito gostosa
-concluiu. -Mas, sabem, o que precisamos agora, ou talvez amanh de
manh,  encontrar uma maneira de atravessar o lago at o lugar para
onde os mortos vo e ver se tambm podemos chegar l. Por acaso existem
barcos que possamos, quem sabe, alugar? * Davy Joness Locker:
denominao que os marinheiros do para o esprito do mar e tambm para
o fundo do mar, especialmente no sentido de sepultura dos marinheiros
afogados. [N.T.] 289 A expresso dos outros era de dvida. As crianas,
coradas de cansao, olharam com olhos sonolentos do rosto de um adulto
para outro, mas nenhum deles pde sugerir onde poderiam encontrar um
barco. Ento veio uma voz de algum que no tinha falado antes. Das
profundezas das roupas de cama no canto veio uma voz seca, quebradia e
anasalada -no era uma voz de mulher, no era a voz de um ser vivo: era
a voz do vulto da morte da av. -A nica maneira de atravessarem o lago
e irem at a terra dos mortos -disse ele, e estava apoiado no cotovelo,
apontando com um dedo magro para Lyra - com suas prprias mortes. Devem
chamar suas mortes. Ouvi falar de gente como vocs, que mantm o vulto
da morte  distncia. No gostam deles e por cortesia eles se mantm
escondidos. Mas nunca esto muito longe. Sempre que voc vira a cabea,
o vulto de sua morte se esconde atrs de voc. Para onde quer que olhem,
eles se escondem. Podem se esconder numa xcara de ch. Ou numa gota de
orvalho. Ou num sopro de vento. No  como acontece comigo e com a
Magda, aqui -disse ele, e beliscou-lhe a face enrugada e ela afastou a
mo dele. -Ns vivemos juntos com gentileza e amizade. Esta  a
resposta,  isso, isso  o que vocs tm que fazer, dar as boas-vindas,
fazer amizade, ser gentis, convidar os vultos de suas mortes a se
aproximarem de vocs e ver o que conseguem fazer para que eles concordem
em ajud-los. As palavras dele caram na mente de Lyra como pedras muito
pesadas e Will tambm sentiu o peso mortal delas. -Como deveramos fazer
isso? -perguntou. -Voc tem apenas que desejar isso, fazer esse pedido e
estar feito. -Um momento -disse Tialys. Todos os olhos voltaram-se para
ele e aquelas mortes deitadas no cho se ergueram, apoiadas nos
cotovelos, para virar seus rostos suaves e inexpressivos para aquele
rosto pequenino e apaixonado. Tialys estava de p, ao lado de Salmakia,
com a mo sobre o ombro dela. Lyra sabia o que ele estava pensando: ia
dizer que aquilo tinha ido longe demais, 290 que deveriam voltar, que
estavam levando aquela tolice irresponsavelmente longe demais. De modo
que se adiantou. -Por favor, se me do licena -disse para o homem
chamado Peter, mas eu e nosso amigo, o cavaleiro, precisamos ir at l
fora um minuto, porque ele precisa falar com seus amigos na Lua atravs
de meu instrumento especial. No vamos demorar. E ela o pegou
cuidadosamente, evitando as esporas, e o levou para fora da casa, para o
escuro, onde um pedao de chapa de ferro corrugado no telhado batido
pelo vento frio fazia um som melanclico. -Voc tem que parar -disse
ele, enquanto ela o colocava num barril de gasolina virado, sob a luz
fraca de uma daquelas lmpadas eltricas que balanava em seu fio mais
acima. -J fomos longe demais. Chega. -Mas fizemos um acordo -disse
Lyra. -No, no. No de chegar a esses extremos. -Est bem. Ento nos
deixem. Podem voar de volta. Will pode cortar uma janela para o mundo de
vocs, ou para qualquer mundo que quiserem, e vocs podero seguir
voando e estar em segurana, no faz mal, ns no nos importamos. -Voc
tem conscincia do que est fazendo? -Tenho. -No tem. Voc  uma
criana sem considerao, irresponsvel e mentirosa. Inventar fantasias
 algo que  to fcil para voc que todo o seu carter, a sua natureza
esto tomados pela desonestidade e voc no admite a verdade nem mesmo
quando ela est bem na sua frente, olhando para a sua cara. Bem, se no
consegue v-la, vou lhe dizer francamente: voc no pode, voc no deve
arriscar sua morte. Tem que voltar conosco agora. Vou chamar Lorde
Asriel e poderemos estar a salvo na fortaleza em algumas horas. Lyra
sentiu um grande soluo de raiva crescer como uma onda em seu peito e
bateu o p, no conseguindo se manter parada. 291 -Voc no sabe-
exclamou, voc simplesmente no sabe o que tenho em minha cabea ou em
meu corao, sabe? Eu no sei se seu povo tem filhos, talvez vocs
ponham ovos ou coisa assim, no ficaria surpreendida, porque voc no 
gentil, voc no  generoso, no tem considerao com os outros; nem
mesmo cruel voc : isso seria melhor, se fosse cruel, porque
significaria que nos levou a srio, que no nos seguiu e concordou
conosco apenas quando lhe convinha... Ah,eu realmente no posso confiar
em voc! Voc disse que iria ajudar e que faramos isso juntos, e agora
quer nos impedir, voc  quem  desonesto, Tialys. -Eu no permitiria
que um filho meu falasse comigo dessa maneira insolente e arrogante como
est falando, Lyra; no a castiguei antes porque... -Ento v em frente!
Me d um castigo, j que pode! Pegue as drogas de suas esporas e enfie
bem fundo, v em frente! Tome, aqui est minha mo, faa logo! Voc no
tem idia do que est em meu corao, seu egosta orgulhoso, voc no
tem nenhuma idia de como me sinto triste e m, e de como lamento o que
aconteceu com meu amigo Roger... voc mata pessoas com a maior
facilidade, assim -ela estalou os dedos, elas no tm importncia para
voc, mas para mim,  um tormento e um grande sofrimento o fato de nunca
ter me despedido de meu amigo Roger e quero pedir desculpas, dizer como
me sinto e tentar corrigir o melhor que puder... voc nunca
compreenderia, apesar de todo o seu orgulho, apesar de toda a sua
esperteza de adulto... e se eu tiver que morrer para fazer o que 
correto, ento, vou morrer e vou estar feliz enquanto morro. J vi
coisas piores que isso. De modo que se quiser me matar, seu homem duro,
seu homem forte, seu portador de veneno, seu cavaleiro, faa, v em
frente, pode me matar. Ento eu e Roger poderemos brincar na terra dos
mortos para sempre e rir de voc, criatura infeliz. O que Tialys poderia
ter feito naquele momento no era difcil de ver, pois ele estava
ardendo de raiva dos ps  cabea, uma raiva furiosa e passional, que o
fazia tremer; mas no teve tempo de se mover 292 antes que uma voz
falasse atrs de Lyra, e ambos sentiram o frio descer e envolv-los.
Lyra fez meia-volta, sabendo o que veria e apavorada, a despeito de toda
a sua bravata. O vulto da morte estava muito perto dela, sorrindo
gentilmente, seu rosto exatamente igual ao de todos os outros que tinha
visto; mas esse era o dela, o vulto de sua prpria morte, e Pantalaimon
aninhado em seu peito uivou e tremeu, e sua forma de arminho saltou
agarrando-se no pescoo dela e tentou empurr-la, afastando-a da morte.
Mas, ao fazer isso, ele simplesmente chegava mais perto e, percebendo,
Pan tornou a se enroscar, encolhendo-se contra o corpo dela, em volta do
pescoo quente e o pulso forte de seu corao. Lyra apertou-o contra si
e enfrentou o vulto francamente. No conseguia se lembrar do que ele
havia dito e pelo canto do olho podia ver Tialys montando rapidamente o
magneto ressonante, em plena atividade. -Voc  minha morte, no ?
-perguntou. -Sou, minha querida -respondeu ele. -Mas no vai me levar
ainda, vai? -Voc me quis, me chamou. Estou sempre aqui. -Sim, mas... eu
chamei,  verdade, mas... eu quero ir  terra dos mortos, isso 
verdade. Mas no morrer. No quero morrer. Adoro estar viva e adoro meu
daemon e... Daemons no descem at l, no ? Eu os vi desaparecerem e
simplesmente se apagarem quando as pessoas morrem. Existem daemons na
terra dos mortos? -No -respondeu ele. -Seu daemon desaparece no ar e
voc desaparece debaixo da terra. -Ento quero levar meu daemon comigo
quando for  terra dos mortos -disse ela com firmeza. -E quero voltar de
l. Alguma vez j aconteceu de pessoas fazerem isso? -Isso nunca
aconteceu, em muitas e muitas eras. Um dia, finalmente, voc ir para
aterra dos mortos, sem nenhum esforo, sem nenhum risco, far uma
jornada segura e calma em companhia de sua 293 prpria morte, de seu
amigo especial e devotado, que esteve a seu lado em todos os momentos de
sua vida, que a conhece melhor que voc mesma. -Mas Pantalaimon  meu
amigo especial e devotado! No conheo voc, Senhor Morte, conheo Pan e
amo Pan, e se algum dia ele... se algum dia ns - O vulto da morte
estava assentindo. Ele parecia interessado e gentil, mas Lyra no
conseguia se esquecer nem por um segundo quem ele era: o espectro de sua
prpria morte e ali, to perto. -Eu sei que ser um esforo seguir
adiante agora -disse ela mais controladamente, e perigoso, mas quero ir,
Senhor Morte, eu quero sinceramente. E Will tambm. Ns dois tivemos
pessoas que nos foram tomadas cedo demais e precisamos reparar nossos
erros, eu pelo menos preciso. -Todo mundo deseja poder falar novamente
com aqueles que se foram para a terra dos mortos. Por que deveria haver
uma exceo para voc? -Porque -comeou ela, mentindo, porque tem uma
coisa que preciso fazer l, no apenas ver meu amigo Roger. Uma outra
coisa. Foi uma tarefa de que fui encarregada por um anjo e que mais
ningum pode fazer, s eu.  importante demais para esperar at que eu
morra da maneira natural, tem que ser feita agora. Sabe, o anjo me
ordenou. Foi por isso que viemos aqui, eu e Will. Ns temos que ir.
Atrs dela Tialys guardou seu instrumento e ficou sentado observando a
menina argumentando e implorando  sua prpria morte para ser levada
para onde ningum deveria ir. O vulto da morte coou a cabea e levantou
as mos espalmadas, mas nada seria capaz de deter as palavras de Lyra,
nada poderia desviar ou diminuir seu desejo, nem mesmo o medo: ela tinha
visto coisa pior que a morte, afirmava, e, de fato, tinha. De modo que
afinal sua morte disse: 294 -Se nada  capaz de convenc-la a desistir,
ento tudo o que posso dizer : venha comigo e eu a levarei at l, para
a terra dos mortos. Eu serei seu guia. Posso lhe mostrar o caminho para
entrar, mas para sair de novo, voc ter que se virar  sozinha. -E meus
amigos tambm -disse Lyra. -Meu amigo Will e os outros. -Lyra -disse
Tialys, contrariando todos os instintos, ns iremos com voc. Estava
furioso com voc h um minuto atrs. Mas voc torna difcil... Lyra
sabia que aquele era um momento para buscar conciliao e ficou feliz
por fazer isso, tendo conseguido o que queria. -Eu sei -disse ela, sinto
muitissimo, Tialys, mas se no tivesse ficado com raiva de mim, nunca
teramos encontrado este cavalheiro para nos levar. De modo que estou
feliz por voc estar aqui, voc e a dama, realmente estou muito grata a
vocs por estarem conosco. De maneira que Lyra convenceu sua prpria
morte a gui-la e aos outros at aterra para onde Roger tinha ido, bem
como o pai de Will, Tony Makarios e tantos outros; e sua morte disse-lhe
que descesse ao cais quando o primeiro raio de luz da alvorada surgisse
no cu e que estivesse pronta para partir. Mas Pantalaimon estava
tremendo, sacudido por calafrios, e nada que Lyra fizesse foi capaz de
acalm-lo e faz-lo parar de tremer, ou calar o gemido baixinho que ele
no conseguia conter. De modo que ela dormiu um sono inquieto e
interrompido, no cho do casebre, junto com todos os outros, e o vulto
de sua morte ficou sentado e atento a seu lado. 295 *20 A ESCALADA -E EU
CHEGUEI L -PORQUE SUBI DEVAGAR -PORQUE ME AGARREI AOS GALHOS FINOS QUE
CRESCEM ENTRE MIM -E A FELICIDADE - EMILY DICKINSON Os mulefas faziam
muitos tipos de cordas, cabos e cordes, e Mary Malone passou uma manh
inspecionando e testando os que a famlia de Atal tinha armazenados
antes de escolher o que queria. O princpio de torcer as extremidades em
direes opostas e enrolar no havia se popularizado no mundo deles, de
modo que todos os tipos de cabos, cordes e cordas eram tranados; mas
eram fortes e flexveis, e Mary logo encontrou exatamente o que queria.
O que voc est fazendo?, perguntou Atal. Os mulefas no tinham um termo
para descrever a ao de alar-se, escalar, subir trepando, de modo que
Mary teve que gesticular um bocado e fazer muitos rodeios, dando
explicaes indiretas. Atal ficou horrorizada. - Ir at l e entrar na
parte alta das rvores? - Eu preciso ver o que est acontecendo,
explicou Mary .Agora voc pode me ajudar a preparar as cordas. 296 Certa
ocasio, na Califrnia, Mary havia conhecido um matemtico que passava
todos os fins de semana subindo em rvores, escalando seus galhos. Mary
tinha alguma prtica de alpinismo e ouvira avidamente enquanto ele
falava sobre as tcnicas e o equipamento, e havia decidido experimentar
aquilo assim que tivesse uma oportunidade.  claro, nunca havia
imaginado que iria estar escalando rvores em um outro universo e fazer
a escalada solitria tambm no lhe agradava muito, mas no havia
alternativa quanto a isso. O que podia fazer era tomar todas as
providncias, antecipadamente, para faz-lo da maneira mais segura
possvel. Escolheu um rolo de corda suficientemente longo para passar
sobre um dos galhos de uma rvore alta e chegar de volta ao cho, e
forte o bastante para suportar vrias vezes o seu peso. Ento cortou um
grande nmero de pedaos de corda menores, mas muito resistentes, e fez
laos com eles: laadas curtas unindo dois chicotes em n de pescador,
que podiam servir de pontos de apoio para os ps e para as mos depois
que os amarrasse  corda principal. Depois, havia o problema de como
conseguir lanar a corda por sobre o galho para comear. Uma ou duas
horas de experincias com um cordo fino e resistente e um pedao de
galho flexvel resultaram em um arco; o canivete suo cortou algumas
flechas, com folhas rijas no lugar de penas, para dar-lhes estabilidade
em vo; e, finalmente, depois de um dia de trabalho, Mary estava pronta
para comear. Mas o sol estava se pondo e suas mos estavam cansadas, de
modo que comeu e foi dormir, preocupada, enquanto os mulefas falavam
incessantemente a seu respeito, em seus suaves sussurros musicais. logo
que amanheceu, a primeira coisa que fez foi se preparar para lanar a
flecha por sobre um galho. Alguns dos mulefas se reuniram para observar,
preocupados com a segurana dela. Uma escalada era algo to estranho e
extico para seres com rodas que a simples idia os horrorizava. Em seu
ntimo, Mary sabia exatamente como se sentiam. Tratou de engolir seu
nervosismo e amarrou uma ponta do cordo mais fino e mais leve a uma das
flechas e a lanou voando para o alto com o arco. 297 Mary perdeu a
primeira flecha: ela se enfiou na casca da rvore a meio caminho e no
se desprendia. Ela perdeu a segunda porque, embora tivesse voado por
sobre o galho, no caiu longe o bastante para ser alcanada do solo do
outro lado e, quando a puxou de volta, a flecha se enganchou no galho e
se quebrou. O longo cordo caiu de volta preso ao pedao da flecha
quebrada, e Mary tentou de novo com a terceira e ltima flecha e, desta
vez, funcionou. Puxando o cordo, cuidadosa e firmemente de maneira a
no prend-lo e parti-lo, ela puxou e alou a corda preparada por sobre
o galho at que ambas as pontas estivessem no cho. Ento as amarrou a
um dos arcobotantes macios de uma das razes, to grosso de
circunferncia quanto seus quadris, de modo que deveria ser bastante
slido, pensou. Seria bom que realmente fosse. O que no podia dizer de
onde estava no solo,  claro, era de que tipo de galho a coisa inteira,
inclusive ela, estaria dependendo para se sustentar. Ao contrrio de
escaladas em rochas, em que voc pode prender a corda em pinos cravados
na face da rocha, mais ou menos a cada metro, de modo a nunca estar
sujeito a grandes quedas, aquela operao envolvia uma extenso muito
longa de corda solta e uma queda realmente muito grande, se alguma coisa
sasse errada. Para se proporcionar um pouco mais de segurana, ela
tranou trs pequenas cordas formando um arns e passou-o em volta de
ambas as pontas penduradas da corda principal, com um n corredio cuja
laada podia apertar no momento em que comeasse a escorregar. Mary ps
o p na ala da primeira laada e comeou a escalada. Ela alcanou a
copa da rvore em menos tempo do que havia esperado. A escalada foi
simples, a corda no maltratou suas mos e, embora no tivesse querido
pensar sobre o problema de como subir ao topo do primeiro galho,
descobriu que as fissuras na casca a ajudavam a ter um slido ponto de
apoio e a se sentir segura. De fato, apenas 15 minutos depois de ter
deixado o solo, estava de p no primeiro galho e planejando a rota que
seguiria para chegar ao prximo. 298 Tinha trazido consigo mais dois
rolos de corda, pretendendo fazer uma rede de cabos fixos para
substituir os pinos e esteios, os "amigos" e outras peas de equipamento
com que contava quando estava escalando uma parede de rocha. Amarr-las
fixando-as nos lugares adequados custou-lhe alguns minutos e depois que
estava segura com as laadas atadas a elas, escolheu o que parecIa ser o
galho mais promIssor, enrolou sua corda sobressalente de novo e seguiu
adiante. Depois de dez minutos de escalada cuidadosa, encontrou-se na
parte mais espessa da copa da rvore. Podia tocar nas folhas longas e
correr a mo de ponta a ponta; encontrou uma flor aps outra de um tom
branco-cinzento-amarelado, todas absurdamente pequenas, cada uma
produzindo a coisa pequenina, do tamanho de uma moeda, que mais tarde se
tornaria uma daquelas grandes nozes, duras como ferro. Alcanou um ponto
confortvel onde trs galhos se dividiam fazendo uma forquilha, amarrou
bem a corda, prendeu seu arns e descansou. Atravs dos espaos entre as
folhas podia ver o mar azul, lmpido e cintilante, at o horizonte; e na
outra direo, por sobre o ombro direito, avistava a sucesso de
pequenas elevaes na pradaria castanho-dourada, toda listrada pelas
estradas  negras. Havia uma brisa suave, que levantava um leve perfume
das flores e farfalhava as folhas duras, e Mary imaginou uma imensa e
indistinta benevolncia levantando-a, como um par de mos gigantescas.
Enquanto estava deitada na forquilha, sentiu uma espcie de felicidade
que s uma vez antes havia sentido; e no tinha sido quando fizera seus
votos de freira. Afinal, acabou sendo trazida de volta para seu estado
normal de conscincia por uma cibra no tornozelo direito, que estava
apoiado de mau jeito no canto da forquilha. Ela mudou de posio e
voltou sua ateno para a tarefa, ainda estonteada pela sensao de
contentamento ocenico que a rodeava. Mary havia explicado aos mulefas
como tinha que manter as placas de laca de seiva separadas, a um palmo
de distncia, para 299 poder ver o sraf; e, imediatamente, eles tinham
compreendido o problema e feito um tubo curto de bambu, fIxando as
placas cor de mbar nas extremidades, como se fosse um telescpio. Essa
luneta estava enfiada no bolso de sua blusa e naquele momento ela a
tirou do bolso. Quando olhou atravs dela, viu aquelas cintilaes
douradas flutuando, o sraf, as Sombras, o P de Lyra, como uma vasta
nuvem de minsculos seres flutuando com o vento. A maior parte deles se
deslocava ao acaso, como partculas de poeira num raio de luz do sol, ou
molculas num copo de gua. A maior parte. Mas, quanto mais ela olhava,
mais comeou a ver um outro tipo de movimento. Subjacente ao
deslocamento ao acaso, havia um movimento universal mais profundo, mais
lento, indo da terra para o mar. Bem, aquilo era curioso. Prendendo-se a
um de seus cabos fixos, ela se arrastou em direo  ponta de um galho
horizontal, examinando bem de perto todos os captulos de flor que
conseguiu encontrar. E, finalmente, comeou a entender o que estava
acontecendo. Ficou observando e esperou at estar perfeitamente segura,
e ento deu incio ao processo cuidadoso, demorado e cansativo de
descida. Mary encontrou os mulefas em estado de desespero, tendo sofrido
com milhares de preocupaes pela amiga que estava to distante do solo.
Atal ficou especialmente aliviada e, nervosamente, apalpou o corpo
inteiro de Mary com a tromba, emitindo relinchos suaves de prazer por
encontr-la a salvo, e rapidamente a carregou pelo povoado acompanhada
por mais ou menos uns outros 12. To logo chegaram ao cume da colina, um
chamado circulou entre os que estavam no povoado e, quando finalmente
chegaram ao monte, o pdio onde se falava em pblico, era to grande o
apinhado de gente que Mary calculou que houvesse muitos visitantes de
outros povoados, que tinham vindo para ouvir o que ela iria dizer. Ela
desejou que tivesse melhores notcias para dar a eles. 300 O velho
zalif, Sattamax, subiu  plataforma e a recebeu calorosamente, e Mary
respondeu com toda a cortesia-mulefa de que pde se lembrar. To logo os
cumprimentos se concluram, ela comeou a falar. Hesitante e
expressando-se com muitos rodeios, ela disse: Meus bons amigos, estive
no alto da copa de suas rvores e examinei com cuidado e de perto as
folhas crescendo, as flores novas e as nozes. Verifiquei que h uma
corrente de sraf fluindo, bem alto, acima das copas das rvores,
prosseguiu ela, e se move contra o vento. O ar se move vindo do mar, em
direo  terra, para o interior, mas o sraf est, lentamente, se
movendo na direo oposta. Vocs conseguem ver isso do cho? Porque eu
no consegui. No, respondeu Sattamax. Esta  a primeira vez que ouvimos
falar disso. Bem, prosseguiu ela, as rvores esto filtrando o sraf 
medida que vai passando atravs delas e parte dele  atrado para as
flores. Pude observar isso acontecendo: as flores so viradas para cima
e se o sraf estivesse caindo, em linha reta, para baixo, entraria nas
ptalas e as fertilizaria como o plen das estrelas. Mas o sraf no est
caindo, est se deslocando para fora, em direo ao mar. Quando uma flor
calha de estar virada para a terra, o sraf pode entrar nela.  por isso
que ainda existem nozes crescendo. Mas a maioria delas est virada para
cima e o sraf simplesmente passa flutuando sobre elas, sem entrar. As
flores devem ter evoludo desta maneira porque, no passado, todo o sraf
devia cair descendo em linha reta. Alguma coisa aconteceu com o sraf,
no com as rvores. E s se pode ver essa corrente de muito alto, e 
por este motivo que nunca tiveram conhecimento dela. De modo que, se
querem salvar as rvores e a vida mulefa, devemos descobrir por que o
sraf est fazendo isso. Ainda no consegui pensar numa maneira de
faz-lo, mas tentarei. Ela viu muitos deles esticando o pescoo para
olhar para o alto tentando ver aquela corrente de P. Mas do solo no se
podia v-la: ela prpria tinha olhado atravs da luneta, mas tudo o que
conseguiu ver foi o azul intenso do cu. 301 Eles ficaram conversando
por muito tempo, tentando se recordar de alguma meno ao vento de sraf
entre suas lendas e histrias, mas no havia nenhuma. Tudo o que sempre
souberam era que o sraf vinha das estrelas, como sempre viera.
Finalmente, perguntaram se ela tinha quaisquer outras idias e Mary
respondeu: Eu preciso fazer mais observaes. Preciso descobrir se o
vento sempre sopra nessa direo ou se ele se altera, como as correntes
de ar, durante o dia e a noite. De modo que preciso passar mais tempo
nas copas das rvores e dormir l e observar durante a noite. Precisarei
da ajuda de vocs para construir algum tipo de plataforma de modo que eu
possa dormir em segurana. Mas realmente precisamos de mais observaes.
Os mulefas, prticos e ansiosos para descobrir, imediatamente se
ofereceram para construir qualquer coisa de que ela precisasse. Eles
conheciam a tcnica de utilizao de polias e cordame e pOUCO depois um
deles sugeriu uma forma de alar Mary com facilidade at o dossel das
rvores de maneira a poup-la do esforo e do perigo da escalada.
Felizes por terem algo a fazer, imediatamente comearam a reunir os
materiais, tranando, amarrando vergas de velame e cordas e cabos, sob a
orientao dela, e a organizar tudo de que ela precisaria para a
observao no topo da rvore. Depois de falar com o casal idoso na
plantao de oliveiras, o Padre Gomez perdeu a pista da mulher. Passou
vrios dias procurando e fazendo perguntas em todas as direes nos
arredores, mas a mulher parecia ter desaparecido completamente. Ele
nunca teria desistido, embora aquilo fosse desanimador; o crucifIXo
pendurado no cordo em volta de seu pescoo e o rifle s suas costas
eram smbolos gmeos de sua absoluta determinao de completar a tarefa.
Mas teria levado muito mais tempo, se no tivesse sido pela diferena de
clima. No mundo em que estava, o tempo era quente e seco, 302 e ele
estava sentindo cada vez mais sede; e, vendo um pedao de rocha molhada
no alto de uma base de penhasco, subiu at l para ver se ali havia uma
nascente. No havia, mas no mundo das rvores-das-rodas, acabara de cair
um temporal; e foi assim que ele encontrou a janela e descobriu para
onde Mary tinha ido. 303 *21 AS HARPIAS ODEIO COISAS INVENTADAS, PURA
FANTASIA... TUDO SEMPRE DEVERIA TER COMO BASE A VERDADE DOS FATOS...
BYRON Tanto Will como Lyra acordaram tomados por um forte sentimento de
apreenso: sentiam-se como presos condenados na manh do dia marcado
para a execuo. Tialys e Salmakia estavam cuidando de suas liblulas,
trazendo-lhes mariposas capturadas a lao perto da lamparina ambrica
sobre o barril de gasolina, l fora, moscas tiradas de teias de aranha e
gua num prato de lato. Quando viu a expresso no rosto de Lyra e a
maneira como Pantalaimon, sob a forma de camundongo, estava se apertando
contra seu peito, Lady Salmakia deixou de lado o que estava fazendo e
foi falar com ela. Enquanto isso, Will saiu do casebre para dar uma
volta l fora. -Vocs ainda podem modificar sua deciso -disse Salmakia.
-No, no podemos. Ns j decidimos -retrucou Lyra, ao mesmo tempo
obstinada e temerosa. -E se ns no voltarmos? -Vocs no precisam vir
-recordou Lyra. 304 -No vamos abandonar vocs. -Ento, e se vocs no
voltarem? -Teremos morrido fazendo alguma coisa importante. Lyra ficou
em silncio. Na verdade, no havia olhado direito para a pequenina dama
antes; mas agora podia v-la muito claramente, na luz fumegante da
lamparina de nafta, colocada sobre a mesa a apenas um brao de
distncia. O rosto dela era calmo e gentil, no era bonito, nem
delicadamente atraente, mas era exatamente o tipo de rosto que voc
ficaria contente de ver se estivesse doente, infeliz, ou com medo. A voz
dela era baixa e expressiva, com uma corrente de riso e de felicidade
fluindo sob a superfcie lmpida. Em toda a vida de que pudesse se
recordar, nunca ningum tinha lido para Lyra quando ia para a cama;
ningum tinha lhe contado histrias, nem cantado cantigas de ninar para
ela, antes de dar-lhe um beijo e apagar a luz. Mas naquele momento, de
repente, pensou que se algum dia houvesse uma voz capaz de envolv-la em
segurana e aquec-la com amor, seria uma voz como a de Lady Salmakia, e
sentiu um desejo profundo no corao de ter um filho seu para ninar,
acalmar, para quem cantar, um dia, numa voz como aquela. -Bem -disse
Lyra, e descobriu que estava com um n na garganta, de modo que engoliu
em seco e encolheu os ombros. -Veremos -disse a pequenina dama, e
retomou suas tarefas. Depois de terem comido o po fino e seco e tomado
o ch amargo que era tUdo o que as pessoas tinham para lhes oferecer,
eles agradeceram a seus anfitries, pegaram suas mochilas e partiram,
seguindo pela cidade de casebres em direo  beira do lago. Lyra olhou
ao redor, procurando pelo vulto de sua morte, e, de fato, l estava ele,
caminhando educadamente um pouco mais adiante; mas ele no quis se
aproximar, embora volta e meia olhasse para trs para ver se o estavam
seguindo. O dia estava carregado de uma neblina sombria. Parecia mais o
anoitecer do que dia, e colunas e tiras compridas daquele nevoeiro
subiam desalentadoramente das poas no caminho, ou se enroscavam como
305 amantes abandonados nos cabos ambricos acima. Eles no viram
pessoas, apenas uns poucos vultos de mortes, mas as liblulas voavam
baixo, rapidamente, pelo ar mido como se estivessem costurando aquilo
tudo com fios invisveis e era uma alegria para os olhos observar suas
cores vivas dardejando de um lado para outro. Pouco depois, chegaram aos
limites onde acabava o aglomerado de casebres e seguiram adiante,
acompanhando a margem de um riacho moroso, em meio a moitas de galhos
nus e secos. Ocasionalmente, ouviam o coaxar rouco ou um espirrar de
gua, quando algum anfbio se assustava, mas o nico animal que viram
foi um sapo, grande como o p de Will, que s conseguia sacudir-se num
doloroso arfar lateral como se estivesse terrivelmente ferido. Ele
estava cado no meio da trilha, tentando sair do caminho e olhando para
eles como se soubesse que tinham a inteno de machuc-lo. -Seria um ato
de misericrdia mat-lo -disse Tialys. -Como sabe? -perguntou Lyra. -Ele
pode gostar de ainda estar vivo, apesar de tudo. -Se o matssemos, o
estaramos levando conosco -disse Will. -Ele quer ficar aqui. J matei
coisas vivas demais. Mesmo uma poa de gua estagnada e imunda pode ser
melhor do que estar morto. -Mas e se estiver sentindo dor? -perguntou
Tialys. -Se pudesse nos dizer, saberamos. Mas, como no pode, no vou
mat-lo. Isso seria levar em considerao os nossos sentimentos em vez
de os sentimentos do sapo. Eles seguiram adiante. Pouco depois, o som
diferente que suas passadas faziam indicou que havia um espao aberto
por perto, embora o nevoeiro estivesse ainda mais cerrado. Pantalaimon
transformara-se num lmure, com os maiores olhos que ele pde conseguir,
agarrado ao ombro de Lyra, encostado em seus cabelos cobertos de
gotculas peroladas de neblina, espreitando e examinando tudo ao redor e
no conseguindo ver nada alm dela. E ainda continuava tremendo e
tremendo sem parar. 306 De repente, todos eles ouviram uma pequena onda
quebrar. O rudo foi baixo, mas veio de muito perto. As liblulas
retornaram com seus cavaleiros para junto das crianas, e Pantalaimon
enfiou-se por dentro da camisa colando-se ao peito de Lyra, enquanto ela
e Will chegavam mais perto um do outro, pisando com cuidado no solo
escorregadio. E ento chegaram  praia. A gua oleosa, cheia de espuma,
estava lisa, parada, diante deles, uma ondulao ocasional quebrava
languidamente nos seixos. O caminho fazia uma curva para a esquerda e,
um pouco mais adiante, mais como um espessamento da neblina que como um
objeto slido, um molhe de madeira se projetava estranhamente sobre a
gua. Os pilares estavam apodrecidos e as tbuas verdes de limo, e no
havia mais nada; nada alm dele; o caminho acabava onde o molhe comeava
e onde o molhe acabava, comeava a neblina. O vulto da morte de Lyra, os
tendo guiado at ali, fez uma mesura para ela, e saiu andando para a
neblina, e desapareceu antes que ela pudesse lhe perguntar o que fazer a
seguir. -Escute -disse Will. Havia um som lento, l fora, na gua
invisvel: um ranger de madeira e um suave e regular espadanar de gua.
Will ps a mo sobre a faca enfiada na bainha no cinto e se adiantou
caminhando pelo molhe pisando com cuidado nas tbuas meio apodrecidas.
Lyra o seguiu logo atrs. As liblulas se empoleiraram nos dois pilares
de atracao cobertos de ervas, parecendo guardies herldicos, e as
crianas pararam na ponta do molhe, esforando-se para ver atravs do
nevoeiro e tendo que limpar os clios das gotas que se acomodavam neles.
O nico som era aquele lento ranger e espadanar que, cada vez mais,
estava se aproximando. -Vamos desistir de ir! -implorou Pantalaimon
baixinho. -Temos que ir -cochichou Lyra em resposta. Ela olhou para
Will. A expresso de seu rosto era dura, implacvel e impaciente: ele
no desistiria. E os galivespianos, Tialys no ombro de Will, Salmakia no
de Lyra, pareciam calmos e vigilantes. As asas das 307 liblulas estavam
cobertas de prolas de gotculas de umidade da neblina, como teias de
aranha, e, volta e meia, tinham que bat-las rapidamente para limp-las,
pois as gotas deviam fazer com que ficassem pesadas, pensou Lyra. Ela
esperava que houvesse comida para elas na terra dos mortos. Ento, de
repente, o barco apareceu. Era um barco a remo muito antigo, maltratado,
remendado, carcomido; e a pessoa que estava remando era to velha que
sua idade era inimaginvel, um homem encolhido numa tnica de tecido
grosseiro para fazer sacos, com um cinto de corda, deformado e
encurvado, as mos esquelticas permanentemente retorcidas em volta dos
remos e seus olhos claros e midos muito fundos entre as dobras de rugas
de pele acinzentada. Ele soltou um remo e estendeu a mo retorcida para
cima, para a argola de ferro no pilar de atracao, no canto do molhe, e
com a outra mo manobrou o remo para encostar o barco nas pranchas. No
houve necessidade de falar. Will embarcou primeiro e ento Lyra se
adiantou para embarcar tambm. Mas o barqueiro levantou a mo. -Ele no
-disse, num sussurro rouco. -Quem? -Ele. Estendeu um dedo
cinza-amarelado, apontando diretamente para Pantalaimon, cuja forma
castanho-avermelhada de arminho, com pelagem de vero, imediatamente
adquiriu a cor branca alvssima de inverno. -Mas ele sou eu! -exclamou
Lyra. -Se voc vier, ele ter que ficar. -Mas no podemos! Ns
morreramos! -No  isso o que voc quer? E ento, pela primeira vez,
Lyra realmente se deu conta do que estava fazendo. Aquela era a
verdadeira conseqncia. Ela ficou 308 parada ali, consternada, trmula,
e abraou seu daemon to apertado que ele gemeu de dor. -Eles... -disse
Lyra, em tom desamparado, ento se calou: no era justo argumentar que
os outros trs no teriam que abrir mo de nada. Will olhava para ela
apreensivamente. Ela correu os olhos observando tudo o que havia ao seu
redor, o lago, o molhe, a trilha irregular, as poas de gua estagnada,
os arbustos mortos e ensopados... O seu Pan, sozinho ali: como ele
poderia viver sem ela? Ele tremia dentro da camisa de Lyra, contra sua
pele nua, a pelagem dele precisando do calor dela. Impossvel! Nunca!
-Ele vai ter que ficar se voc vier -repetiu o barqueiro. Lady Salmakia
agitou as rdeas e sua liblula voou rapidamente do ombro de Lyra e foi
pousar na amurada do barco, onde Tialys foi se juntar a ela. Os dois
disseram alguma coisa para o barqueiro. Lyra ficou observando como um
preso condenado vigia o movimento no fundo da sala do tribunal, que
poderia ser um mensageiro trazendo o perdo. O barqueiro inclinou-se
para ouvir e ento sacudiu a cabea. -No -disse ele. -Se ela vier, ele
tem que ficar. -Mas isso no est certo. Ns no temos que deixar para
trs uma parte de ns. Por que Lyra tem? -disse Will. -Ah, mas vocs
deixam -disse o barqueiro. -A infelicidade dela  que pode ver e falar
com aparte que tem de deixar. Vocs no sabero at estarem na gua e
ento, ser tarde demais. Mas todos vocs tm de deixar essa parte de
vocs aqui. No h passagem para a terra dos mortos para seres como ele.
No, pensou Lyra, e Pantalaimon pensou com ela: Ns no passamos por
tudo o que passamos em Bolvangar para isto, no; como jamais poderemos
voltar a nos encontrar? E ela olhou para trs de novo, para acosta
malcheirosa e sombria, to desolada e fria, arruinada por doenas e
veneno, e pensou em seu querido Pan, esperando ali sozinho, o
companheiro de seu corao vendo-a desaparecer na neblina e explodiu
numa tempestade de lgrimas. 309 Seus soluos desesperados no tinham
eco, porque a neblina os abafava, mas ao longo da costa em inmeras
lagoas e brejos, em tristes tocos quebrados de rvores, os animais
feridos que se escondiam ali ouviram seu grito sentido, sado do fundo
do corao, e se encolheram mais junto do solo, com medo de tamanha
paixo. -Se ele pudesse vir -gritou Will, desesperado para acabar com a
imensa tristeza de Lyra, mas o barqueiro sacudiu a cabea. -Ele pode
entrar no barco mas, se entrar, o barco fica aqui -disse ele. -Mas como
ela vai poder tornar a encontr-lo? -Eu no sei. -Quando viermos embora,
vamos voltar por aqui? -Vir embora? -Ns vamos voltar. Vamos at a terra
dos mortos e vamos voltar. -No por aqui. -Ento, de alguma outra
maneira, mas vamos voltar. -Eu j levei milhes e nenhum voltou. -Ento
seremos os primeiros. Encontraremos uma maneira de sair. E, j que vamos
fazer isso, seja gentil, barqueiro, tenha compaixo, deixe que ela leve
seu daemon! - No, -disse ele, e sacudiu a cabea velhssima. -No  uma
regra que se possa violar.  uma lei como esta... -apanhou um punhado de
gua na mo em concha e ento inclinou a mo para que a gua escorresse
de volta. -A lei que faz com que a gua caia de volta no lago,  uma lei
como esta. No posso inclinar a mo e fazer com que a gua flua para o
alto. Da mesma forma, no posso levar o daemon dela para a terra dos
mortos. Quer ela venha ou no, ele tem que ficar. Lyra no podia ver
nada: seu rosto estava enterrado no plo de gato de Pantalaimon. Mas
Will viu Tialys desmontar de sua liblula e se preparar para saltar
sobre o barqueiro e em parte concordou com a inteno 310 do espio; mas
o ancio tinha visto Tialys e virou a cabea antiqssima para dizer:
-H quantos sculos vocs acham que estou transportando pessoas para a
terra dos mortos? Vocs pensam que se alguma coisa pudesse me ferir j
no teria acontecido? Pensam que as pessoas que levo vm comigo de boa
vontade? Elas se debatem e gritam, tentam me subornar, elas me ameaam e
lutam; nada funciona. Voc no pode me ferir, pode ferroar  vontade. 
melhor consolar a criana; ela vir; no percam tempo comigo. Will tinha
dificuldade em olhar. Lyra estava fazendo a coisa mais cruel que j
fizera, odiando a si mesma, odiando o que fazia, sofrendo por Pan, e com
Pan, e por causa de Pan; tentando bot-lo no cho, no solo frio da
trilha, soltando suas unhas de gato de suas roupas, chorando e chorando.
Will tapou as orelhas: era um som triste demais para se suportar ouvir.
Uma vez aps outra ela afastou seu daemon, empurrando-o para longe de
si, e a cada vez ele chorava e tentava se agarrar a ela. Ela podia
voltar atrs. Ela podia dizer no, essa  uma pssima idia, no devemos
fazer isso. Ela podia ser leal ao lao profundo e sincero, de corao e
de vida, que a unia a Pantalaimon, ela podia pr isso em primeiro lugar,
podia tirar todo o resto de sua mente. - Mas no podia. -Pan, ningum
fez isso antes -sussurroU com a voz trmula, mas Will disse que vamos
voltar e eu juro, Pan, eu amo voc, eu juro que vamos voltar... eu vou
voltar... cuide-se, meu querido, voc vai ficar bem... ns vamos
voltar... e se eu tiver que passar todos os minutos de minha vida
procurando para tornar a encontrar voc, eu passo, no vou parar de
procurar at encontrar, no vou descansar, no vou... Ah, Pan, Pan
querido, eu tenho que, eu tenho que... E ela o empurrou para longe de
si, de modo que ele se agachou, infeliz, com frio e assustado, no solo
lamacento. Que animal ele era agora, Will no sabia mais dizer. Parecia
to pequenino, um filhote, um beb, alguma coisa indefesa e derrotada,
311 um ser to mergulhado na infelicidade que era mais infelicidade do
que um ser. Os olhos dele no deixavam o rosto de Lyra e Will pde
observ-la se obrigar a no desviar o olhar, a no fugir da culpa, e
admirou sua honestidade e sua coragem, ao mesmo tempo em que se sentia
dilacerado pelo choque da separao deles. Havia tantas correntes
vvidas de sentimento entre eles que a prpria atmosfera lhe parecia
carregada de eletricidade. E Pantalaimon no disse "Por qu?", porque
ele sabia; e no perguntou a Lyra se amava Roger mais do que ele, porque
conhecia a verdadeira resposta para isso tambm. E sabia que, se
falasse, ela no conseguiria resistir; de modo que o daemon se manteve
em silncio de maneira a no afligir o ser humano que o estava
abandonando, e agora, estavam ambos fingindo que isso no lhes traria
sofrimento, que no demoraria muito para que estivessem novamente
juntos, que era melhor que fosse assim; Mas Will sabia que a garotinha
estava praticamente arrancando o corao do peito. Ela desceu do molhe e
entrou no barco. Era to leve que o barco quase nem balanou. Sentou-se
ao lado de Will e seus olhos continuaram cravados em Pantalaimon, que
continuava parado, tremendo, na ponta do molhe ligada  terra; mas,
quando o barqueiro soltou a argola de ferro e baixou seus remos para
afastar o barco, o cachorrinho daemon veio correndo aflito, desamparado,
at a outra ponta sobre a gua, as unhas das patinhas macias batendo
muito suavemente nas tbuas de madeira macia, e parou, e ficou olhando,
s olhando enquanto o barco se afastava e desaparecia na neblina. Lyra
deu um grito to dolorido e cheio de paixo que, mesmo naquele mundo
amortecido e carregado de neblina, levantou um eco, mas  claro que no
era um eco, era a outra parte dela gritando em resposta da terra dos
vivos, enquanto Lyra se afastava rumo  terra dos mortos. -Meu corao,
Will... -gemeu ela, e se agarrou nele, o rosto molhado, contorcido de
dor. 312 E assim, a profecia que o Reitor da Universidade Jordan fizera
para o Bibliotecrio, de que ela cometeria uma grande traio e que
aquilo seria uma experincia terrvel, se cumpriu. Mas Will tambm
descobriu uma agonia enorme crescendo em seu ntimo e, em meio quela
dor, viu que os dois galivespianos estavam juntos, abraados um ao
outro, exatamente como ele e Lyra estavam fazendo, sofrendo com a mesma
angstia. Parte da sensao era fsica. Parecia que uma mo de ferro
havia agarrado seu corao e que o estava puxando para fora, pelo meio
das costelas, de modo que apertou as mos contra aquele ponto e tentou
em vo segur-lo l dentro. Era uma dor muito mais profunda e muito pior
do que a dor de perder os dedos. Mas tambm era mental: alguma coisa
secreta e pessoal estava sendo arrastada para fora, sendo exposta, num
lugar onde no queria de forma alguma estar, e Will quase foi derrubado
por uma mistura de dor, vergonha, medo e remorso, porque ele mesmo tinha
causado aquilo. Mas era pior que isso. Era como se ele tivesse dito:
"No, no me mate, estou com medo; mate minha me em vez de me matar;
ela no importa, eu no a amo", e ela o tivesse ouvido dizer isso, e
fingido que no tinha ouvido para poup-lo, para impedir que sofresse e,
de qualquer maneira, tivesse se oferecido para ir em seu lugar porque o
amava. Ele se sentia mal a esse ponto. No havia nada que fosse pior
sentir. De modo que Will ficou sabendo que todas aquelas coisas faziam
parte de se ter um daemon e, qualquer que fosse seu daemon, ele tambm
havia sido deixada para trs, com Pantalaimon, naquela costa txica e
desolada. O pensamento ocorreu a Will e Lyra no mesmo instante e eles
trocaram um olhar cheio de lgrimas. E pela segunda vez em suas vidas,
mas no pela ltima, cada um deles viu na face do outro a sua prpria
expresso. Apenas o barqueiro e as liblulas pareciam indiferentes 
viagem que estavam fazendo. Os grandes insetos estavam plenamente vivos
e intensamente coloridos com brilho e beleza, mesmo na neblina 313
pesada, sacudindo as asas transparentes para se livrar da umidade; e o
ancio em sua tnica de pano de saco se inclinava para a frente e para
trs, apoiando os ps nus no fundo do barco coberto de poas de limo. A
viagem durou mais tempo do que Lyra queria calcular. Embora parte dela
estivesse em carne viva de angstia, imaginando Pantalaimon abandonado
na margem do lago, uma outra parte estava se adaptando  dor, medindo
sua prpria fora, curiosa para ver o que aconteceria e onde iriam
desembarcar. O brao de Will a envolvia com fora, segurando-a, mas ele
tambm estava olhando para o que estava adiante, esforando-se para
tentar enxergar alguma coisa em meio  escurido cinzenta e mida e
ouvir qualquer outra coisa alm do espadanar dos remos. E, logo depois,
algo de fato mudou: um penhasco ou uma ilha erguia-se adiante. Eles
ouviram o som sendo abafado antes de verem a neblina escurecer. O
barqueiro levantou um dos remos para virar o barco um pouco para a
esquerda. -Onde estamos? -perguntou a voz do Cavaleiro Tialys,
pequenina, mas forte como sempre, embora nela houvesse uma ponta de
dolorosa estridncia, como se ele tambm estivesse sofrendo e sentindo
dor. -Perto da ilha- respondeu o barqueiro. -Mais cinco minutos e
estaremos desembarcando. -Que ilha? -perguntou Will. Viu que sua voz
tambm soava cansada, to tensa que mal a reconhecia. -O porto para
aterra dos mortos fica nesta ilha -explicou o barqueiro. -Todo mundo vem
para c, reis, rainhas, assassinos, poetas, crianas; todo mundo passa
por aqui e ningum volta. -Ns vamos voltar -sussurrou Lyra em tom
feroz. O homem no disse nada, mas seus olhos velhssimos estavam cheios
de pena.  medida que foram se aproximando, viram galhos de ciprestes e
de teixos que se projetavam baixos sobre a gua, verde-escuros, 314
densos e tristes. A terra se elevava numa encosta ngreme e as rvores
cresciam to juntas umas das outras que nem um furo conseguiria passar
entre elas e, diante deste pensamento, Lyra deixou escapar um pequeno
soluo, pois Pan teria mostrado a ela como poderia t-lo feito muito
bem; mas agora no podia, talvez nunca mais pudesse outra vez. -Estamos
mortos? -perguntou Will para o barqueiro. -No faz diferena -respondeu
ele. -Alguns vieram para c sem jamais acreditarem que estavam mortos.
Insistiram durante todo o caminho em que estavam vivos, que era um erro,
que algum pagaria por isso; no fez diferena. Outros ansiavam por
estarem mortos quando estavam vivos, pobres almas; vidas cheias de dor
ou grande infortnio; mataram-se em busca de uma chance de terem um
abenoado descanso e descobriram que nada havia mudado, exceto para
pior, e que dessa vez no havia sada; voc no pode se fazer voltar 
vida. E houve outros to fracos e doentes, bebs pequenos, s vezes, que
mal tinham nascido entre os vivos antes de descerem aos mortos. J remei
este barco com um beb pequeno, chorando em meu colo, muitas, muitas
vezes, bebs que jamais souberam a diferena entre estar l em cima e
aqui embaixo. E os velhos tambm, os ricos so os piores, rosnando,
xingando e me amaldioando, me insultando e berrando: o que eu pensava
que era? Eles no tinham ganho e juntado todo o ouro que podiam coletar?
Eu no aceitaria um pouco agora, para lev-los de volta para a costa?
Iriam mandar a polcia atrs de mim, tinham amigos poderosos, conheciam
o Papa e o Rei disso e o Duque daquilo, tinham posio para garantir que
eu seria punido, castigado... Mas eles souberam a verdade no fim: a
nica posio em que estavam era no meu barco, indo para a terra dos
mortos, e quanto aos reis e papas, tambm acabariam por aqui, quando
chegasse a vez deles, mais cedo do que desejavam. Eu os deixo gritar e
delirar  vontade; no podem me fazer mal; no fim eles se calam
-concluiu. -De modo que, se no sabem se esto mortos ou no, e a
garotinha jura de ps juntos que vai tornar a sair para o mundo dos
vivos, no vou dizer nada que os contradiga. O que vocs so, logo
sabero. 315 o tempo todo ele estivera remando em ritmo regular ao longo
da costa e naquele momento recolheu os remos, ajeitando-os dentro do
barco e estendendo a mo para a direita para segurar o primeiro pilar de
madeira que se erguia da gua ao lado. Ele puxou o barco paralelamente a
um cais estreito e o manteve parado para que saltassem. Lyra no queria
desembarcar: enquanto estivesse perto do barco, ento Pantalaimon
conseguiria pensar nela com clareza, porque era como ele a vira pela
ltima vez; mas, quando se afastasse do barco, ele no saberia mais como
visualiz-la. De modo que ela hesitou, mas as liblulas levantaram vo e
Will desembarcou, plido e apertando o peito; e, assim, ela teve que ir
tambm. -Obrigada -disse para o barqueiro. -Quando voc voltar, se vir
meu daemon, diga a ele que o amo mais que tudo na terra dos vivos ou dos
mortos e que juro que vou voltar para ele, mesmo que ningum tenha feito
isso antes, juro que vou. -Est bem, eu digo isso a ele -respondeu o
barqueiro. Ele foi embora; o barco se afastou e o som de suas remadas
lentaS foi gradualmente sumindo na neblina. Os galivespianos voltaram
voando, tendo se afastado apenas um pouco, e se empoleiraram nos ombros
das crianas como antes, ela no de Lyra, ele no de Will. E assim
ficaram, os viajantes, na margem da terra dos mortos. Diante deles no
havia nada, exceto neblina, embora pudessem ver por seu escurecimento
que um grande paredo se erguia mais  frente. Lyra tremeu de frio.
Tinha a impresso de que sua pele havia se transformado em renda e que a
umidade e o ar gelado podiam passar atravs dela, entrando e saindo por
suas costelas, queimando com o ardor de frio intenso na ferida aberta
onde estivera Pantalaimon. Apesar disso, pensou ela, Roger devia ter se
sentido assim quando mergulhara pela encosta da montanha abaixo,
tentando se agarrar a seus dedos desesperados. Eles permaneceram em
silncio e ouviram. O nico som era um gotejar incessante de gua das
folhas e quando levantaram a cabea para olhar para cima sentiram uma ou
duas gotas baterem geladas em suas faces. 316 -No podemos ficar aqui
-disse Lyra. Eles se afastaram do cais, mantendo-se juntos, e foram
seguindo para a parede cinzenta. Blocos gigantescos de pedras verdes de
limo antiqssimo erguiam-se mais alto na neblina do que podiam ver. E,
agora que estavam mais perto, podiam ouvir o som de gritos vindos de
trs da parede, embora fosse impossvel dizer se eram vozes humanas
gritando: eram gritos e gemidos altos, estridentes e lamentosos, que
pairavam no ar como filamentos flutuantes de guas-vivas, provocando dor
onde quer que tocassem. -Tem uma porta -disse Will, numa voz rouca,
tensa. Era uma porta dos fundos de madeira maltratada, sob uma laje de
pedra. Antes que Will pudesse levantar a mo para abri-la, um daqueles
gritos estridentes e agudos soou muito prximo, causando um choque
desagradvel aos ouvidos deles e assustando-os horrivelmente.
Imediatamente os galivespianos levantaram vo, dardejando pelo ar, as
liblulas, como pequenos cavalos de guerra, prontas para a batalha. Mas
a coisa que desceu voando as varreu para o lado com um golpe brutal da
sua asa e ento pousou pesadamente sobre uma salincia de rochedo que se
projetava logo acima da cabea das crianas. Tialys e Salmakia se
reagruparam e acalmaram suas montarias assustadas. A coisa era um grande
pssaro do tamanho de um abutre, com o rosto e seios de mulher. Will
tinha visto quadros de seres como ela, e a palavra harpia lhe veio 
mente, to logo a viu com clareza. Seu rosto era liso e sem rugas, mas
envelhecido muito alm da idade das bruxas: aquele rosto havia visto
milhares de anos se passarem, e a crueldade e infelicidade de todos eles
tinham moldado a expresso odiosa de suas feies. Mas,  medida que os
viajantes puderam v-la mais claramente, tornou-se ainda mais repulsiva.
As rbitas de seus olhos estavam coalhadas de um limo imundo e o
vermelho de seus lbios coberto por camadas de crostas ressecadas, como
se tivesse vomitado sangue antiqssimo, incontveis vezes. Os cabelos
negros emaranhados, imundos, desciam at os ombros; as garras
pontiagudas agarravam a pedra ferozmente; 317 as asas escuras poderosas
estavam fechadas ao longo de seu dorso e um bafo de fedor ptrido
flutuava no ar toda vez que se mexia. Will e Lyra, ambos nauseados e
cheios de dor, tentaram ficar de p bem eretos e encar-la. -Mas vocs
esto vivos! -disse a harpia, a voz estridente zombando deles. Will
constatou que a odiava e a temia mais do que a qualquer ser humano que
tivesse conhecido. -Quem  voc? -perguntou Lyra, que sentia tanta
repulsa quanto Will. A guisa de resposta, a harpia gritou. Ela abriu a
boca e lanou um jato de rudo diretamente para o rosto deles, de modo
que a cabea dos dois tiniu e eles quase caram para trs. Will agarrou
Lyra e os dois se abraaram enquanto o grito se transformava em
selvagens gargalhadas zombeteiras e estrepitosas, que foram respondidas
por outras vozes de harpias na neblina ao longo da costa. O som de
zombaria cheio de dio recordava Will da crueldade impiedosa de crianas
num ptio de recreio, mas aqui no havia professores para controlar as
coisas, ningum a quem pedir ajuda, nenhum lugar onde se esconder. Ele
ps a mo sobre a faca em seu cinto e a olhou bem nos olhos, embora sua
cabea estivesse zumbindo e a fora absoluta de seu grito o deixasse
tonto. -Se estiver tentando nos deter -desafiou, ento  melhor estar
pronta para lutar alm de gritar. Porque vamos entrar por aquela porta.
A boca nojenta da harpia se mexeu de novo, mas dessa vez foi para
franzir os lbios num arremedo de beijo. Ento ela disse: -Sua me est
sozinha. Enviaremos pesadelos para ela. Gritaremos com ela quando
estiver dormindo! Will no se mexeu, porque pelo canto do olho podia ver
Lady Salmakia se movendo delicadamente ao longo de um galho onde a
harpia agora estava empoleirada. 318 Sua liblula, com as asas trmulas,
estava sendo mantida no cho por Tialys e ento aconteceram duas coisas:
a dama saltou sobre a harpia e girou para enfiar sua espora bem fundo na
perna escamosa do monstro e Tialys arremessou a liblula para o alto. Em
menos de um segundo Salmakia tinha se afastado rodopiando e saltado do
galho, diretamente para o dorso de sua montaria azul-eltrica, e se
elevava no ar. O efeito na harpia foi imediato. Um outro grito quebrou o
silncio, muito mais alto do que antes, e ela bateu as asas escuras com
tanta fora que Will e Lyra foram empurrados pelo vento e cambalearam.
Mas ela se agarrou na pedra com as garras e seu rosto estava tingido de
vermelho-escuro de raiva, os cabelos tinham se levantado de sua cabea
como uma crista de serpentes. Will puxou a mo de Lyra e os dois
tentaram correr para a porta, mas a harpia lanou-se sobre eles tomada
de fria e s recuou de seu mergulho quando Will se virou, enfiando Lyra
atrs de si e de faca em punho. Os galivespianos partiram para atacar a
harpia imediatamente, dardejando perto de seu rosto e depois se
afastando rapidamente de novo, sem conseguir acertar um golpe, mas
distraindo-a de modo que bateu as asas desajeitadamente e tombou
parcialmente no cho. Lyra gritou: -Tialys! Salmakia! Parem, parem! Os
espies puxaram as rdeas de suas liblulas e voaram raso SObre a cabea
das crianas. Outras formas escuras estavam se agrupando na neblina e os
gritos zombeteiros de mais uma centena de harpias soavam, vindos de mais
alm na costa. A primeira estava sacudindo as asas, sacudindo o cabelo,
esticando uma perna de cada vez eflexionando suas garras. No estava
ferida, Lyra havia reparado. Os galivespianos pairaram no ar por um
instante e depois mergulharam de volta na direo de Lyra, que estava
com as duas mos abertas, estendidas para que pousassem. Salmakia
percebeu o que Lyra tinha querido dizer e falou para Tialys: 319 -Ela
tem razo. Por algum motivo, no podemos feri-la. Lyra perguntou:
-Senhora, qual  o seu nome? A harpia sacudiu as asas bem abertas e os
viajantes quase desmaiaram com os odores ftidos de imundcie e podrido
que saam dela. -Sem-Nome! -gritou. -O que quer conosco? -perguntou
Lyra. -O que voc pode me dar? -Poderamos contar onde estivemos e
talvez ficasse interessada, no sei. Vimos coisas estranhas de todos os
tipos no caminho para c. -Ah, e est se oferecendo para me contar uma
histria? -Se quiser. -Talvez eu queira. Mas e depois? -Poderia nos
deixar passar por aquela porta e encontrar o esprito que viemos aqui
procurar, espero que deixe, de qualquer maneira. Se puder nos fazer a
gentileza. -Ento tente -disse Sem-Nome. E a despeito de sua nusea e
sofrimento, Lyra achou que tinha acabado de receber o s, a carta de
trunfo no baralho. -Ah, tenha cuidado -cochichou Salmakia, mas a mente
de Lyra j estava correndo adiante, repassando a histria que havia
contado na noite anterior, modelando, cortando partes, dando retoques e
acrescentando: pais mortos; tesouro de famlia; naufrgio; fuga... -Bem
-disse, acomodando-se em seu estado de esprito de contar histrias, na
verdade, comeou quando eu era um beb, Meu pai e minha me eram o Duque
e a Duquesa de Abingdon, compreende, e eram riqussimos. Meu pai era um
dos conselheiros do rei, e o rei, pessoalmente, costumava vir se
hospedar conosco, ah, o tempo todo, Costumavam caar na floresta. A
casa, l onde eu nasci, era a maior casa de todo o sul da Inglaterra.
Chamava-se. - Sem dar sequer um grito de advertncia, a harpia lanou-se
sobre Lyra, com as garras estendidas. Lyra teve tempo apenas 320 de se
abaixar, mas mesmo assim uma das garras se enfiou em seu couro cabeludo
e arrancou uma mecha de cabelos. - mentira! Mentira! -gritava a harpia.
-Mentira! Ela voou num crculo se posicionando de novo, pronta para se
lanar diretamente sobre o rosto de Lyra; mas Will puxou a faca e se
atirou no caminho. Sem-Nome deu uma guinada saindo de seu alcance bem a
tempo, e Will rapidamente arrastou Lyra para a porta, porque ela estava
paralisada pelo choque e meio cega por causa do sangue que escorria em
seu rosto. Will no tinha idia de onde estavam os galivespianos, mas a
harpia estava voando para atac-los de novo e berrando, berrando com
raiva e dio: -Mentira! Mentira! Mentira! E parecia que sua voz estava
vindo de todos os lados, e que a palavra ecoava batendo no paredo e
voltando, em meio  neblina, abafada e modificada, de modo que ela
parecia estar gritando o nome de Lyra, de tal maneira que Lyra e Mentira
eram a mesma  coisa. Will estava com a menina apertada contra o peito,
com o ombro curvado para proteg-la, e a sentia tremer e soluar contra
seu corpo; mas ento enfiou a faca na madeira podre da porta e cortou
fora a tranca, dando um golpe rpido com a lmina. Ento ele e Lyra, com
os espies ladeando-os montados em suas liblulas dardejantes, entraram
tropeando no reino dos espritos enquanto o grito da harpia era
duplicado e reduplicado por outros na costa coberta pela neblina atrs
deles. 321 *22 OS SUSSURRANTES BASTOS COMO DO OUTONO AS FOLHAS JUNCAM DE
VALUMBROSA, AS PLCIDAS RIBEIRAS, SOBRE AS QUAIS DENSA ARCADA SEMPRE
ENRAMAM DA BELA ETRRIA OS ALTOS ARVOREDOS... JOHN MILTON, CANTO I,15 A
primeira coisa que Will fez foi botar Lyra sentada e ento pegou o
potinho de ungento de musgo-sangneo e examinou a ferida em sua
cabea. Estava sangrando muito, como  habitual em feridas no couro
cabeludo, mas o corte no era fundo. Ele rasgou uma tira da fralda da
camisa e limpou a ferida, depois passou um pouco do ungento no corte,
tentando no pensar no estado de imundcie da garra que o fizera. Os
olhos de Lyra estavam vidrados e ela estava branca como giz. -Lyra!
Lyra! -chamou e a sacudiu de leve. -Agora vamos, temos que ir embora.
Ela estremeceu dos ps  cabea, respirou fundo, ainda trmula, e seus
olhos se concentraram nele, cheios de um intenso  desespero. -Will... eu
no sei mais fazer direito, no consigo mais! No sei mais contar
mentiras! Achava que era to fcil, mas no funcionou,  a nica coisa
que sei fazer e no funciona! 322 -No  a nica coisa que sabe fazer.
Voc sabe ler o aletmetro, no sabe? Vamos l, vamos ver onde estamos.
Vamos procurar  Roger. Ele a ajudou a se levantar e pela primeira vez
olharam ao redor para a terra onde ficavam os espritos. Encontravam-se
numa grande plancie que se estendia para muito longe na neblina. A luz
que lhes permitia enxergar era uma luminescncia baa, que parecia
existir por toda parte com igual intensidade, de modo que no havia
realmente sombras nem luz de verdade e tudo era de uma mesma cor
encardida. De p no cho daquele espao imenso estavam adultos e
crianas -fantasmas de pessoas, tantos que Lyra no seria capaz nem de
calcular seu nmero. Pelo menos a maioria estava de p, embora alguns
estivessem sentados e outros deitados sem energia, ou adormecidos.
Ningum estava se mexendo, nem correndo, nem brincando, embora muitos
deles se virassem para olhar para aqueles recm-chegados com uma
curiosidade temerosa nos olhos arregalados. -Fantasmas -sussurrou ela.
- aqui que esto todos eles, os espritos de todo mundo que morreu...
Sem dvida era porque ela no tinha mais Pantalaimon, mas o fato  que
se manteve agarrada, colada ao brao de Will, e ele ficou satisfeito com
isso. Os galivespianos tinham sado voando adiante, e Will conseguia ver
suas formas pequeninas e coloridas dardejando e fazendo vos rasantes
sobre as cabeas dos fantasmas, que olhavam para cima e os seguiam
maravilhados; mas o silncio era imenso e opressivo, a luz cinza o
enchia de medo e a presena calorosa de Lyra a seu lado era a nica
coisa que lhe passava a sensao de vida. Atrs deles, do lado de fora
do paredo, os gritos das harpias ainda ecoavam ao longo da costa.
Alguns, dentre aquele povo-fantasma, estavam olhando para o alto
apreensivamente, mas um nmero maior deles olhava fixamente para Will e
Lyra e ento comearam a se aproximar todos juntos. Lyra se encolheu e
recuou; ainda no tinha foras, por enquanto, para encar-los como
gostaria de fazer e foi Will quem falou primeiro. 323 -Vocs falam nossa
lngua? -perguntou. -Podem falar? Mesmo tremendo de frio, assustados e
cheios de dor como estavam, ele e Lyra tinham mais autoridade do que
toda aquela massa de mortos juntos. Aqueles pobres fantasmas tinham
muito pouca fora e ao ouvir a voz de Will, a primeira voz clara que
havia soado ali em toda a memria dos mortos, muitos deles se
adiantaram, prontos para responder. Mas s conseguiam sussurrar. Um som
plido, no mais que um sopro suave, era tudo o que conseguiam emitir.
E, enquanto avanavam, empurrando-se uns aos outros e desesperados, os
galivespianos voaram baixo e comearam a dardejar, ziguezagueando na
frente deles para impedi-los de chegar perto demais. As crianas
fantasmas olharam para cima com uma expresso de anseio apaixonado, e
Lyra imediatamente soube por que: achavam que as liblulas eram daemons;
estavam desejando de todo corao que pudessem novamente ter seus
prprios daemons. -Ah, mas eles no so daemons -Lyra no pde se
conter, cheia de compaixo, e se meu daemon estivesse aqui, vocs
poderiam todos fazer carinho nele, juro. - E estendeu as mos para as
crianas. Os fantasmas adultos se mantiveram mais atrs, indiferentes ou
temerosos, mas as crianas todas se aproximaram em massa. Tinham a mesma
substncia que uma nvoa espessa, pobrezinhas, e as mos de Lyra as
atravessavam completamente, assim como as de Will. Elas continuaram
vindo, se aglomerando, leves e sem vida, para se aquecer no sangue que
flua e nos coraes que batiam forte dos dois viajantes, e tanto Will
quanto Lyra sentiram uma sucesso de delicadas sensaes de ligeiros
toques frios,  medida que os fantasmas passavam atravessando seus
corpos, aquecendo-se no caminho. As duas crianas vivas sentiram que,
pouco a pouco, estavam comeando a morrer tambm, no tinham uma reserva
infinita de vida e de calor para dar e j estavam com tanto frio, mas as
multides fazendo presso e avanando pareciam que nunca iriam parar .
324 Finalmente Lyra teve que implorar a eles que parassem. Ela levantou
as mos e disse: -Por favor, gostaramos de poder tocar todos vocs, mas
viemos aqui para procurar uma pessoa e preciso que me digam onde ele
est e como posso encontr-lo. Ah, Will- disse ela encostando a cabea
na dele, gostaria de saber o que fazer! Os fantasmas estavam fascinados
com o sangue na testa de Lyra. Brilhava vividamente como um fruto de
azevim na semi- obscuridade e vrios deles tinham passado atravs dele,
ansiando pelo contato com algo to vibrantemente vivo. Uma menina
fantasma, que quando estava viva devia ter tido nove ou dez anos,
levantou a mo timidamente para tentar tocar nele, depois recuou
temerosa; mas Lyra disse: -No tenha medo, a gente no veio aqui para
machucar vocs, falem com agente, se puderem! A menina fantasma falou,
mas sua voz frgil, plida, foi apenas um sussurro. -Foram as harpias
que fizeram isso? Elas atacaram e machucaram voc? -Machucaram
-respondeu Lyra, mas se  s isso que podem fazer, no estou nem um
pouco preocupada. -Ah, mas no ... elas fazem coisa pior -O qu? O que
elas fazem? Mas pareciam relutantes em contar a ela. Sacudiram a cabea
e mantiveram-se calados, at que um menino disse: -No  to ruim pra
eles que j esto aqui h centenas de anos, porque voc fica cansado
depois desse tempo todo, elas no conseguem mais te meter tanto medo. -
com os novos que elas gostam mais de falar -disse a primeira menina. -
to... Ah,  to horrvel. Elas... eu no posso contar a voc. As vozes
deles no eram mais altas que o som de folhas secas caindo. E eram
apenas as crianas que falavam; os adultos pareciam 325 todos ter
mergulhado numa letargia to antiga que poderiam nunca mais se mexer ou
falar. -Escutem -pediu Lyra, por favor, escutem. Ns viemos aqui, eu e
meus amigos, porque temos que encontrar um menino chamado Roger. Ele no
est aqui h muito tempo, s h algumas semanas, de modo que no deve
ter conhecido muita gente, mas se souberem onde ele est... Mas, ao
mesmo tempo em que falava, ela sabia que poderiam ficar ali at se
tornarem velhos, procurando por toda parte e olhando cada rosto e, ainda
assim, poderiam nunca ver mais que uma minscula frao dos mortos. Lyra
sentiu o desespero descer sobre seus ombros, to pesado como se a harpia
estivesse empoleirada ali. Contudo, ela cerrou os dentes e tentou manter
o queixo erguido. Ns chegamos aqui, pensou; de qualquer maneira, isso
j  uma parte que est feita. A primeira menina fantasma estava dizendo
alguma coisa naquele pequeno sussurro perdido. -Quer saber por que
queremos encontrar o menino? -perguntou Will. -Bem, Lyra quer falar com
ele. Mas tambm tem uma pessoa que eu quero encontrar. Eu quero
encontrar meu pai, John Parry. Ele tambm est aqui, em algum lugar, e
quero falar com ele antes de voltar para o mundo. Assim, por favor, se
puder, pea a Roger e pea a John Parry para virem falar com Lyra e com
Will. Pea a eles - Mas, de repente, todos os fantasmas lhes deram as
costas e saram correndo, inclusive os adultos, como folhas secas
espalhadas por uma sbita rajada de vento. Num instante o espao em
volta das crianas ficou vazio e ento eles ouviram por que: gritos,
berros, guinchos altos e agudos vinham do ar acima, e ento as harpias
estavam em cima deles, com rajadas de fedor ptrido, asas batendo e
aqueles berros roucos, escarnecendo, zombando, gargalhando, chacoteando.
Lyra encolheu-se no cho imediatamente, cobrindo as orelhas, e Will, de
faca em punho, agachou-se sobre ela. Podia ver Tialys 326 e Salmakia
voando rapidamente na direo deles, mas ainda estavam a alguma
distncia e ele teve apenas um instante para observar as harpias
enquanto giravam em crculos e mergulhavam. Viu suas faces humanas
abocanharem o ar, como se estivessem comendo insetos, e ouviu as
palavras que estavam gritando -palavras de escrnio, palavras imundas,
tudo sobre sua me, palavras que faziam tremer seu corao; mas parte de
sua mente estava absolutamente fria e separada, pensando, calculando,
observando. Nenhuma delas queria chegar sequer perto da faca. Para ver o
que aconteceria, ele se levantou. Uma delas -Podia ter sido a prpria
Sem-Nome -teve que se desviar pesadamente para sair do caminho, porque
ela estivera mergulhando baixo, pretendendo fazer um vo rasante logo
acima de SUa cabea. As asas pesadas bateram desastradamente e foi por
um triz que ela conseguiu mudar de direo. Will poderia ter estendido o
brao e Cortado fora sua cabea com a faca. Mas, a essa altura, os
galivespianos tinham chegado e os dois estavam prontos para atacar, mas
Will chamou: -Tialys! Venha c! Salmakia, venha me ajudar! Os dois
Pousaram em seus ombros e ele disse: -Observem. Vejam o que elas fazem.
Elas s chegam perto e gritam. Acho que foi um erro, quando ela acertou
Lyra. No acho que queiram realmente nos tocar. Podemos ignor-las. Lyra
olhou para cima, os olhos arregalados. Os monstros Voavam fazendo
crculos sobre a cabea de Will, s vezes, a apenas cerca de 30
centmetros de distncia, mas sempre davam uma guinada desviando-se para
o lado ou para o alto no ltimo momento. Ele Podia sentir que os espies
estavam loucos para entrar em combate e as asas das liblulas tremendo
de desejo de sair dardejando velozmente pelo ar com seus cavaleiros
letais, mas eles se contiveram: viram que Will estava certo. E aquilo
teve um efeito sobre os fantasmas tambm: vendo Will de p sem medo e
ileso, eles comearam a se movimentar de volta, na 327 direo dos
viajantes. Observavam as harpias cautelosamente, mas, apesar disso, a
atrao de carne e sangue frescos, daquelas batidas fortes de corao,
era demais para resistirem. Lyra se levantou para se juntar a Will. A
ferida tinha aberto de novo e sangue fresco escorria descendo por sua
face, mas ela o limpou com as costas da mo. -Will- disse, estou to
feliz por termos vindo aqui juntos... Ele ouviu uma inflexo na voz dela
e viu uma expresso em seu rosto que conhecia e de que gostava mais do
que qualquer coisa que jamais conhecera: mostravam que ela estava
pensando em fazer alguma coisa arriscada, mas que ainda no estava
pronta para falar disso. Ele balanou a cabea, para mostrar que tinha
compreendido. A menina fantasma disse: -Por aqui, venham conosco, vamos
encontr-los! E os dois sentiram a mais estranha das sensaes, como se
pequeninas mos fantasmas estivessem se enfiando l dentro e
puxando-lhes as costelas para fazer com que as seguissem. E assim eles
iniciaram a travessia da imensa plancie deserta, e as harpias voaram em
crculos cada vez mais alto, acima deles, gritando incessantemente. Mas
mantiveram-se  distncia e os galivespianos voaram logo acima deles,
vigilantes. Enquanto iam caminhando, os fantasmas conversaram com eles.
-No me leve a mal- disse uma menina fantasma, mas onde esto seus
daemons? Desculpe a pergunta. Mas... Presente na conscincia de Lyra, em
cada um dos segundos que se passavam, estava seu querido Pantalaimon
abandonado. Para ela no era fcil falar, de modo que foi Will quem
respondeu: -Deixamos nossos daemons do lado de fora -explicou, onde 
mais seguro para eles. Vamos busc-los depois. Voc tinha um daemon?
-Tinha -disse a menina fantasma, o nome dele era Sandling... Ah, eu o
amava... 328 -E ele j tinha fixado uma forma definitiva? -perguntou
Lyra. -No, ainda no. Ele achava que ia ser um pssaro e eu esperava
que no, porque gostava dele bem peludo,  noite, em minha cama. Mas
cada vez mais ele era um pssaro. Como se chama o seu daemon? Lyra disse
a ela e os fantasmas se aproximaram em bloco, novamente animados. Todos
eles queriam falar sobre seus daemons, cada um deles. -O meu se chamava
Matapan -Costumvamos brincar de esconde-esconde, ela mudava de forma
como um camaleo e eu no conseguia v-la, era to rpida -Uma vez
machuquei meu olho e no conseguia ver e ele me guiou o caminho inteiro,
at chegar em casa -Ele no queria se fixar numa forma s, mas eu queria
crescer e costumvamos discutir - -Ela gostava de se enroscar em minha
mo e dormir -Eles ainda esto l, em algum outro lugar? Ns os veremos
de novo? -No. Quando voc morre, seu daemon simplesmente se apaga como
a chama de uma vela. Eu vi isso acontecer. Mas no vi o meu Castor, nem
pude me despedir -Eles no esto em lugar nenhum! Tm que estar em algum
lugar! Meu daemon ainda est l em algum lugar, sei que ele est! Os
fantasmas se acotovelando estavam animados e impacientes, os olhos
brilhantes e as faces calorosas, como se estivessem tomando vida
emprestada dos viajantes. -Algum aqui vem do meu mundo, onde no temos
daemons? -perguntou Will. Um menino fantasma magro, mais ou menos de sua
idade, assentiu e Will virou-se para ele. -Pois  -veio a resposta. -No
compreendamos o que eram daemons, mas sabamos como era estar sem eles.
Tem gente aqui de todos os tipos de mundos. 329 -Eu conheci o vulto de
minha morte -disse uma garota; eu o conheci durante todo o tempo em que
estive crescendo. Quando os ouvia falar sobre daemons, pensava que
queriam dizer alguma coisa parecida com nossa morte. Minha tarefa est
terminada, no precisa mais se preocupar com isso foi a ltima coisa que
ele me disse e ento foi embora para sempre. Quando estava comigo, eu
sabia que sempre havia algum em quem podia confiar, algum que sabia
para onde a gente estava indo e o que  fazer. Mas agora no tenho mais
ele. No sei mais o que vai acontecer. -No tem nada que vai acontecer!
-disse uma outra pessoa. -Nada, para sempre! -Voc no sabe -rebateu uma
outra. -Eles vieram, no foi? Ningum nunca soube que isso iria
acontecer. Ela estava se referindo a Will e Lyra. -Esta  a primeira
coisa que j aconteceu aqui -disse um menino fantasma. -Talvez agora
tudo v mudar. -O que vocs fariam, se pudessem? -perguntou Lyra. -Subir
de novo para o mundo! -Mesmo se isso significasse que s iriam poder ver
o mundo uma nica vez, mesmo assim iriam querer fazer isso? -Queremos!
Queremos! Queremos! -Bem, de qualquer maneira, tenho que encontrar Roger
-disse Lyra, entusiasmadssima com sua nova idia; mas o primeiro a
saber deveria ser Will. No solo da plancie infindvel, houve um vasto
movimento lento entre os incontveis fantasmas. As crianas no podiam
ver, mas Tialys e Salmakia, voando acima, observaram as pequenas figuras
plidas todas se movendo com um efeito que se parecia com a migrao de
imensos bandos de pssaros ou rebanhos de renas. No centro do movimento
estavam as duas crianas que no eram fantasmas, seguindo adiante em
ritmo constante; sem liderar e sem seguir, mas de alguma forma
concentrando o movimento numa inteno de todos os mortos. 330 Os
espies, seus pensamentos voando ainda mais ligeiros que suas impetuosas
montarias dardejantes, trocaram um olhar e conduziram as liblulas a
pousar lado a lado num galho seco e murcho. -E ns temos daemons,
Tialys? -perguntou a dama. -Desde que embarcamos naquele barco, me senti
como se meu corao tivesse sido arrancado e arremessado, ainda batendo,
para a margem do lago -disse ele. -Mas no foi; ainda est pulsando aqui
em meu peito. De modo que alguma coisa minha ficou l com o daemon da
garotinha e alguma coisa sua tambm, Salmakia, porque seu rosto e suas
mos esto plidos e tensos. De maneira que, sim, temos daemons, sejam
l o que forem. Talvez as pessoas no mundo de Lyra sejam os nicos seres
vivos que sabem que os tm. Talvez seja por isso que foi um deles quem
iniciou a revolta. Ele desmontou da liblula e a amarrou bem, e ento
pegou o magneto ressonante. Mas mal tinha comeado a tocar quando parou.
-No h resposta -comentou em tom sombrio. -Ento estamos fora do
alcance de tudo? -Fora do alcance de qualquer ajuda, com certeza. Bem,
sabamos que estvamos vindo para a terra dos mortos. -O menino iria com
ela at o fim do mundo. -Voc acha que a faca de Will vai abrir o
caminho de volta? -Tenho certeza que ele acredita que sim. Mas, ah,
Tialys, eu no sei. -Ele  muito jovem. Bem, eles dois so crianas.
Voc sabe, se ela no sobreviver a isto, a questo se ela escolher a
coisa certa quando estiver diante da tentao deixar de existir. No
ter mais importncia. -Voc acha que ela j fez a escolha? Quando
escolheu deixar seu daemon na margem do lago? Ser que aquela foi a
escolha que ela tinha que fazer? O cavaleiro olhou para baixo, para os
milhes que se moviam lentamente no solo da terra dos mortos, todos se
deslocando 331 atrs da centelha viva e brilhante de Lyra da Lngua
Mgica. Podia apenas distinguir seu cabelo, a coisa mais clara na
escurido parcial e ao lado, a cabea do menino, de cabelos pretos,
forte e slida. -No -respondeu Tialys, ainda no. Isso ainda est por
vir, seja l o que for. -Ento devemos cuidar para que ela chegue l a
salvo. -Os dois. Eles agora esto estreitamente ligados, unidos. Lady
Salmakia sacudiu as rdeas leves de teia de aranha e sua liblula
imediatamente levantou vo, arremessando-se do galho rpida como um
dardo e, ganhando velocidade, foi descendo em direo s crianas, com o
cavaleiro vindo logo atrs. Mas no pararam junto delas; depois de fazer
um vo rasante para se assegurarem de que estavam bem, seguiram voando
adiante, em parte porque as liblulas estavam impacientes e em parte
porque queriam descobrir at onde aquele lugar desolador se  estendia.
Lyra os viu passar num lampejo rpido acima e foi tomada por uma forte
sensao de alvio de que ainda houvesse alguma coisa que dardejava e
brilhava com beleza. Ento, no conseguindo mais guardar sua idia em
segredo, virou-se para Will; mas tinha que cochichar. Chegou os lbios
junto da orelha dele e, numa borbulhante torrente de animao, ele a
ouviu dizer: -Will, quero que a gente leve todas essas pobres
crianas-fantasmas mortas para fora daqui, os adultos tambm, podamos
libertar todos! Vamos encontrar o Roger e seu pai e depois, vamos abrir
o caminho para o mundo l fora e libertar todos! Ele se virou e deu a
ela um largo e verdadeiro sorriso, to caloroso e feliz que Lyra sentiu
alguma coisa tropear e quase cambalear em seu ntimo; pelo menos, foi
essa a impresso que teve, mas, sem Pantalaimon, no podia perguntar a
si mesma o que aquilo queria dizer. Podia ter sido uma nova maneira de
seu corao bater. Profundamente surpreendida, disse a si mesma para
tratar de andar em linha reta e parar de se sentir tonta, atordoada. 332
E assim eles seguiram adiante. O sussurro Roger estava se espalhando
mais depressa do que eles conseguiam se mexer; as palavras "Roger -Lyra
veio -Roger -Lyra est aqui -" eram passadas de um fantasma para outro
como a mensagem eltrica que uma clula do corpo transmite para a clula
ao lado. E Tialys e Salmakia, avanando em velocidade de cruzeiro l no
alto, montados em suas incansveis liblulas, e vasculhando com o olhar
tudo o que havia ao redor enquanto voavam, finalmente perceberam um novo
tipo de movimento. A alguma distncia havia uma pequena rotao de
atividade. Chegando mais perto em vo rasante, viram-se, ser ignorados,
pela primeira vez, porque alguma coisa mais interessante estava
dominando a ateno de todos os fantasmas. Estavam falando excitadamente
em seus sussurros quase silenciosos, estavam apontando, estavam
persuadindo algum a avanar. Salmakia desceu voando baixo, mas no pde
pousar: a aglomerao era grande demais e nenhuma das mos ou ombros
deles suportaria seu peso, mesmo se ousassem tentar. Ela viu um menino
fantasma ainda bem criana, com um rosto honesto e infeliz, atordoado e
perplexo com o que estavam lhe dizendo, e gritou para ele: -Roger? Voc
 Roger? Ele levantou a cabea, confuso, nervoso, e assentiu. Salmakia
voou de volta para junto de seu companheiro e juntos seguiram
rapidamente para onde estava Lyra. Era uma longa distncia e de difcil
navegao, mas observando os padres de movimento, finalmente a
encontraram. -L est ela -disse Tialys, e gritou: -Lyra! Lyra! Seu
amigo est l! Lyra levantou a cabea e estendeu a mo para a liblula.
O grande inseto pousou imediatamente, seu colorido vermelho-e-amarelo
reluzindo como esmalte, e as asas  transparentes retesadas e imveis de
cada lado. Tialys equilibrou-se enquanto ela o erguia trazendo-o 
altura de seus olhos. 333 -Onde? -perguntou, arquejando de excitao.
-Est muito longe? -Uma hora de caminhada- respondeu o cavaleiro. -Mas
ele sabe que voc est a caminho. Os outros contaram a ele e j
confirmamos que era ele. Trate de ir andando e logo se encontrar com
ele. Tialys viu Will fazer um esforo para ficar de p ereto e se
obrigar a encontrar mais alguma energia. Lyra j estava carregada de
energia e encheu os galivespianos de perguntas: como parecia estar
Roger? Tinham falado com ele? Parecia satisfeito? As outras crianas
sabiam do que estava acontecendo e estavam ajudando, ou estavam apenas
atrapalhando? E assim por diante. Tialys tentou responder a todas com
sinceridade e pacincia e, passo a passo, a menina viva se aproximou do
menino que havia conduzido para a morte. 334 *23 SEM SADA E CONHECEREIS
A VERDADE, E A VERDADE VOS LIBERTAR. S. JOO, 8,32 -Will, o que voc
acha que as harpias vo fazer quando libertarmos os fantasmas?
-perguntou Lyra. Pois as criaturas estavam gritando cada vez mais alto e
voando mais perto, e a cada instante que se passava havia um nmero cada
vez maior delas, como se a escurido estivesse se reunindo em pequenos
cogulos de maliguinidade e dando-lhes asas. Os fantasmas ficavam
olhando para cima, temerosos. -Estamos chegando perto? -Lyra gritou para
Lady Salmakia. -Agora no estamos longe -respondeu ela, voando em
crculos acima deles. -Voc poderia v-lo, se subisse naquela pedra. Mas
Lyra no queria perder tempo. Estava tentando de todo o corao se
controlar e apresentar uma cara alegre para Roger mas, na sua mente, a
todo momento, estava aquela imagem terrvel de Pan cachorrinho
pequenino, abandonado no molhe, enquanto a neblina se fechava ao seu
redor, e ela mal estava conseguindo impedir-se de chorar bem alto. 335
Mas tinha que conseguir, tinha que se mostrar confiante para Roger, como
sempre havia sido. Quando afinal se encontraram cara a cara, aconteceu
muito de repente. Em meio  presso da multido de todos os fantasmas,
l estava ele, as feies familiares plidas, mas sua expresso to
cheia de contentamento quanto um fantasma podia ter. Ele correu para
abra-la. Mas passou como fumaa fria atravs dos braos de Lyra e
embora ela sentisse a mozinha dele agarrar seu corao, no tinha fora
para se segurar. Eles nunca mais voltariam a se tocar de verdade. Mas
ele podia sussurrar e a voz dele disse: -Lyra, eu nunca imaginei que
voltaria a ver voc, pensei que mesmo se voc descesse at aqui, depois
que tivesse morrido, estaria muito mais velha, seria adulta e no
falaria comigo -Por que eu no haveria de falar? -Porque eu fiz a coisa
errada quando Pan conseguiu soltar meu daemon do daemon pantera de Lorde
Asriel! Deveramos ter fugido, no deveramos ter tentado lutar contra
ela! Deveramos ter corrido para junto de voc! Ento ela no teria
podido capturar meu daemon de novo, e quando o rochedo deslizou, ela
estaria comigo! - Mas isso no foi culpa sua, seu bobo! -retrucou Lyra.
-Fui eu que levei voc para l, para comear, e deveria ter deixado voc
voltar com as outras crianas e os gpcios. A culpa foi minha. Eu
lamento tanto, Roger, de verdade, foi minha culpa, se no fosse por mim
voc no teria estado l... -Bem -disse ele, no sei no. Talvez eu
tivesse sido morto de alguma outra maneira. Mas no foi culpa sua, Lyra,
entenda. Ela se sentiu comeando a acreditar nisso; mas, de qualquer
maneira, era de partir o corao ver o pobre coitadinho gelado, to
perto e, ao mesmo tempo, to fora de seu alcance. Tentou agarrar o pulso
dele, contudo seus dedos se fecharam no ar vazio; mas ele compreendeu e
sentou ao lado dela. Os outros fantasmas recuaram um pouco, deixando-os
sozinhos, e Will tambm se afastou, para sentar e cuidar de sua mo. 336
Estava sangrando de novo e, enquanto Tialys voava ferozmente atacando os
fantasmas para obrig-los a se afastarem, Salmakia ajudou Will a cuidar
do ferimento. Mas Lyra e Roger nem tomaram conhecimento de nada disso.
-E voc no est morta -declarou ele. -Como conseguiu vir at aqui se
ainda est viva? E onde est Pan? -Ah, Roger... eu tive que deixar o Pan
na outra margem... foi a pior coisa que j tive que fazer na vida, doeu
tanto, voc sabe como di, e ele ficou l parado, s olhando. Ah, eu me
senti como uma assassina, Roger, mas eu tive que fazer aquilo, seno no
poderia ter vindo! -Eu estive fazendo de conta que estava conversando
com voc o tempo todo desde que morri -disse ele. -Estive desejando que
pudesse falar com voc e desejando tanto... Apenas desejando que pudesse
sair daqui, eu e todos os outros mortos, porque este  um lugar
terrvel, Lyra,  sem esperana, nada muda depois que voc morre, e
aquelas coisas voadoras... Voc sabe o que elas fazem? Elas esperam at
que voc esteja descansando. ..nunca se pode dormir direito, voc s
meio que d uma cochilada. .. e ento elas chegam bem perto de voc, sem
fazer barulho, e cochicham todas as coisas ruins que voc fez quando
estava vivo, de modo que no possa se esquecer delas. Elas sabem de
todas as piores coisas a seu respeito. Sabem como fazer com que voc se
sinta horrvel, s de pensar em todas as coisas estpidas e ms que fez
algum dia. E todos os pensamentos invejosos e cruis que voc teve, elas
conhecem todos, e fazem com que sinta muita vergonha e deixam voc com
nojo de si mesmo... Mas no se pode escapar delas. -Bem -interrompeu
ela, escute. Baixando a voz e curvando o corpo para chegar mais perto do
pequeno fantasma, exatamente como costumavam fazer quando estavam
planejando suas travessuras na Jordan, ela prosseguiu: -Voc
provavelmente no sabe, mas as bruxas, voc se lembra de Serafina
Pekkala, as bruxas tm uma profecia a respeito de mim. Elas no sabem
que eu sei... ningum sabe. Nunca falei a respeito disso com ningum
antes. Mas quando estava em Trollesund 337 e Farder Coram, o gpcio, me
levou para ver o Cnsul das Bruxas, o Dr. Lanselius, ele me fez passar
por uma espcie de teste. Disse que eu tinha que sair at o quintal da
casa e escolher, dentre vrios galhos de pinheiro-nubgeno, o que
tivesse sido usado por Serafina Pekkala, para mostrar que eu realmente
sabia ler o aletmetro -relatou. -Bem, eu fiz isso e depois voltei
depressa, porque estava frio e s levou um segundo, foi fcil. O cnsul
estava conversando com Farder Coram e eles no sabiam que eu estava
ouvindo o que diziam. Ele disse que as bruxas tinham uma profecia a
respeito de mim, que eu iria fazer alguma coisa incrvel e importante, e
que isso iria acontecer num outro mundo... "S que nunca falei disso e
acho que devo at ter esquecido disso, pois havia tantas outras coisas
acontecendo. De modo que, meio que saiu de minha cabea. Nunca conversei
a respeito disso, nem com Pan, porque acho que ele teria rido na minha
cara" -confessou. -Mas depois, quando a Sra. Coulter me capturou e me
manteve num estado de transe, fiquei sonhando e sonhando com isso, e
sonhei com voc. E me lembrei que Me Costa, da famlia dos prncipes
dos gpcios, do povo das guas, voc se lembra, foi no barco deles que
entramos a bordo, em Jeric, com Simon e Hugh, e eles -Claro! E quase
navegamos com ele at Abingdon! Aquilo foi a melhor de todas as coisas
que fizemos, Lyra! Nunca vou me esquecer daquilo, mesmo se estiver morto
aqui embaixo por mil anos -Certo, mas escute, quando fugi da Sra.
Coulter da primeira vez, sabe, eu encontrei os gpcios de novo e eles
cuidaram de mim e... Ah, Roger, mas tem tanta coisa que eu descobri,
voc ficaria besta de espanto... mas esta  a coisa importante: foi Me
Costa que me contou, ela disse que tenho leo-de-bruxa na alma, ela
disse que sou uma pessoa do fogo -afirmou. -E o que acho que isto
significa  que ela estava, assim, meio que me preparando para a
profecia das bruxas. Eu sei que tenho 338 alguma coisa importante a
fazer e o Dr. Lanselius, o cnsul, disse que era vital que eu nunca
descobrisse qual  o meu destino antes que acontecesse, entende, que
nunca deveria fazer perguntas a respeito dele... De modo que nunca fiz.
Nunca nem pensei no que poderia ser. Nunca perguntei, nem mesmo ao
aletmetro -continuou. -Mas agora, eu acho que sei.  encontrar voc de
novo   apenas uma espcie de prova. O que tenho que fazer, Roger, o
destino que tenho que cumprir  que tenho que ajudar todos os fantasmas
a sarem da terra dos mortos para sempre. Eu e Will, ns temos que
salvar todos vocs. Tenho certeza de que  isso. Deve ser. E por causa
de Lorde Asriel, por causa de uma coisa que meu pai disse... A morte vai
morrer, ele disse. Porm, no sei o que vai acontecer. Voc no deve
contar a eles ainda, prometa. Tenho medo que possa no agUentar at l.
- Mas. Ele estava desesperado para falar, de modo que ela parou. -Isso 
exatamente o que eu queria contar a voc! -exclamou. -Eu disse a eles, a
todos os outros mortos, eu disse a eles que voc viria! Exatamente como
veio e salvou as crianas de Bolvangar! Eu falei: se algum puder, esse
algum  Lyra. Eles desejaram que fosse verdade, queriam acreditar em
mim, mas, na verdade, nunca acreditaram, dava para perceber. - Para
comear -continuou ele, todas as crianas que chegam aqui, todas sem
exceo, comeam dizendo: aposto que meu pai vai vir me buscar, ou
aposto que minha me, assim que souber onde estou, vir me buscar pra me
levar de volta pra casa. Se no  o pai ou a me, so os amigos, ou o
av, mas algum vir para salv-los. S que ningum nunca vem. De modo
que ningum acreditou em mim quando eu disse que voc viria. S que eu
estava certo! -Estava -disse ela, bem, mas eu no poderia ter vindo sem
o Will. Aquele ali  o Will, e aqueles outros so o Cavaleiro Tialys e a
Lady Salmakia. Tenho tanta coisa para contar a voc, Roger... -Quem 
Will? De onde ele veio? 339 Lyra comeou a explicar, sem nem perceber
como sua voz tinha mudado, como se sentava mais ereta e como at seus
olhos ficavam diferentes, quando contava a histria de seu encontro com
Will e da luta pela faca sutil. Como poderia ter sabido? Mas Roger
percebeu, com a inveja triste e silenciosa dos mortos imutveis.
Enquanto isso, Will e os galivespianos estavam um pouco afastados,
conversando em voz baixa. -O que vocs vo fazer, voc e a menina?
-perguntou Tialys. -Abrir este mundo e deixar os fantasmas sarem. 
para isto que tenho a faca. Will nunca tinha visto tamanho espanto no
rosto de duas pessoas, quanto mais aquelas pessoas cuja boa opinio era
importante para ele. Tinha adquirido um grande respeito por aqueles
dois. Eles ficaram sentados em silncio por alguns instantes e ento
Tialys disse: -Isso vai desfazer tUdo.  o maior golpe que se poderia
infligir. A Autoridade vai ficar sem nenhum poder depois disso. -Como
eles poderiam jamais prever isso? -comentou a pequena dama. -Vai
peg-los completamente desprevenidos! -E depois, o qu? -perguntou
Tialys a Will. -E depois? Bem, depois ns teremos que sair e encontrar
nossos daemons, imagino. No pense em depois. Basta pensar em agora. Eu
no falei nada para os fantasmas, caso acontea... caso acontea de no
funcionar. De modo que tambm no digam nada. Agora vou procurar um
mundo que eu possa abrir, e aquelas harpias esto nos vigiando. De
maneira que, se quiserem ajudar, podem ir e tratar de distra-las
enquanto fao isso. Imediatamente os galivespianos incitaram suas
liblulas a subir para a escurido acima, onde as harpias se aglomeravam
como um bando de moscas varejeiras. Will observou os grandes insetos
atacando-as destemidamente, diante de todo mundo, como se as harpias
fossem moscas e eles pudessem abocanh-las com suas mandbulas, por
maiores que fossem. Pensou em como aquelas 340 criaturas cintilantes
adorariam quando o cu estivesse aberto e elas pudessem novamente dar
vos rasantes, a toda a velocidade, sobre guas lmpidas. Ento ele
pegou a faca. E imediatamente as palavras que as harpias haviam lanado
contra ele voltaram -as zombarias sobre sua me -e ele parou. Guardou a
faca e tentou limpar sua mente. Tentou de novo, com o mesmo resultado.
Podia ouvi-las vociferando acima, a despeito da ferocidade dos
galivespianos; elas eram tantas que dois cavaleiros voadores sozinhos
podiam fazer muito pouco para det-las. Bem, era assim que as coisas iam
ser. No iriam ficar nem um pouco mais fceis. De maneira que Will
deixou sua mente relaxar e se distanciar, e apenas ficou sentado ali,
segurando a faca com os dedos frouxos, at que sentiu que estava pronto
novamente. Dessa vez a faca penetrou e cortou o ar -e encontrou uma
rocha. Ele tinha aberto uma janela naquele mundo para o subsolo de um
outro mundo. Fechou a janela e tentou de novo. E a mesma coisa
aconteceu, embora ele soubesse que era um mundo diferente. Tinha aberto
janelas antes e encontrara-se acima do solo de um outro mundo, de modo
que no deveria ter-se surpreendido ao descobrir que estava no subsolo,
para variar, mas era desconcertante. Na vez seguinte, tateou
cuidadosamente, da maneira como tinha aprendido, deixando que a ponta da
faca procurasse a ressonncia que revelava um mundo em que o solo estava
no mesmo lugar. Mas o toque estava errado em todos os lugares onde
procurou com a ponta da faca. No havia nenhum mundo, em lugar nenhum,
onde pudesse cortar e abrir uma sada; em toda parte onde tocava,
encontrava rocha slida. Lyra tinha percebido que alguma coisa estava
errada e levantou-se de um salto, interrompendo sua conversa ntima com
o fantasma de Roger, para correr para o lado de Will. -O que foi?
-perguntou baixinho. 341 Ele contou a ela e acrescentou: -Vamos ter que
ir para algum outro lugar antes que eu consiga encontrar um mundo para
onde possa cortar uma abertura. E aquelas harpias no vo nos deixar.
Voc contou aos fantasmas o que estvamos planejando? -No. S para
Roger, e disse a ele que mantivesse segredo. Ele sempre faz qualquer
coisa que eu pea. Ah, Will, estou com medo, estou com tanto medo.
Podemos nunca sair. Imagine se ficarmos presos aqui para sempre? -A faca
pode cortar atravs da rocha. Se precisarmos, simplesmente abriremos um
tnel. Vai levar muito tempo e espero que a gente no tenha que fazer
isso, mas podemos fazer. No se preocupe. -Claro. Voc tem razo. Claro
que podemos. Mas ela achava que ele parecia estar to doente, com o
rosto contrado de dor, com olheiras escuras em volta dos olhos e a mo
dele estava tremendo, os dedos sangrando de novo; parecia estar to mal
quanto ela se sentia. No poderiam continuar por muito mais tempo sem
seus daemons. Ela sentiu seu prprio esprito tremer em seu corpo e
apertou bem os braos em volta do corpo, sentindo uma falta desesperada
de Pan. Mas, nesse meio tempo, os fantasmas estavam se agrupando e se
aproximando cada vez mais, coitados, e as crianas, especialmente, no
conseguiam deixar Lyra em paz. -Por favor -disse uma menina, no vai se
esquecer de ns quando for embora, no ? -No -respondeu Lyra, nunca.
-Vai falar a eles a respeito de ns? -Prometo. Qual  o seu nome? Mas a
pobre da menina ficou constrangida e envergonhada: tinha se esquecido.
Deu-lhe as costas, escondendo o rosto, e um menino falou: -Acho que 
melhor esquecer. Eu me esqueci do meu. Alguns no esto aqui h muito
tempo e ainda sabem quem so. H algumas 342 crianas que esto aqui h
milhares de anos. No so mais velhas que ns e esqueceram quase tudo.
Exceto a luz do sol. Ningum esquece isso. E o vento. -Isso -disse um
outro, fale para ns a respeito disso! E um nmero cada vez maior deles
comeou a gritar para que Lyra lhes falasse sobre as coisas de que se
lembrava, o sol, o vento e o cu, e das coisas de que tinham se
esquecido, tipo como brincar; e ela se virou para Will e cochichou: -O
que devo fazer, Will? -Fale para eles. -Estou com medo. Depois do que
aconteceu l atrs, as harpias. -Fale a verdade. Ns manteremos as
harpias  distncia. Ela olhou para ele, hesitante. Na verdade, estava
louca de apreenso. Virou-se de volta para os fantasmas que, em massa,
vinham se aproximando cada vez mais. -Por favor! -sussurravam. -Voc
acabou de vir do mundo! Conte para ns, conte! Fale sobre o mundo. Havia
uma rvore, no muito longe -apenas um tronco morto com seus galhos,
brancos como ossos, estendidos no ar frio cinzento, e como Lyra estava
se sentindo fraca e porque no achava que pudesse conseguir andar e
falar ao mesmo tempo, dirigiu-se para l, para ter um lugar onde sentar.
A multido de fantasmas se comprimiu e se empurrou para abrir espao.
Quando estavam quase chegando  rvore, Tialys pousou na mo de Will e
indicou que Will deveria baixar a cabea para ouvir. -Elas esto
voltando -disse baixinho, aquelas harpias. Um nmero cada vez maior
delas. Fique com a faca preparada. A dama e eu as manteremos  distncia
pelo mximo de tempo que pudermos, mas talvez voc precise lutar. Sem
preocupar Lyra, Will afrouxou a faca em sua bainha e manteve a mo bem
perto dela. Tialys decolou de novo e ento Lyra alcanou a rvore e
sentou numa das razes grossas. 343 Tantos vultos de mortos se
aglomeravam  sua volta, insistindo esperanosos, com os olhos
arregalados, que Will teve que faz-los recuar para abrir espao; mas
deixou que Roger ficasse perto, porque ele olhava fixamente para Lyra,
ouvindo cheio de paixo. E Lyra comeou a falar sobre o mundo que
conhecia. Contou-lhes a histria de como ela e Roger tinham subido at o
telhado da Faculdade Jordan e encontrado o corvo com a pata quebrada, e
como tinham cuidado dele at ficar bom e estar pronto para voar e voar;
e como tinham explorado as adegas de vinho nos pores, todas cobertas de
poeira e teias de aranha, e bebido um bocado de Canary, ou podia ter
sido Tokay, no sabia dizer qual dos dois, e como tinham ficado
embriagados. E o fantasma de Roger ficou ouvindo, orgulhoso e
desesperado, balanando a cabea e sussurrando: -Sim, sim! Isso foi
exatamente o que aconteceu, isto  verdade mesmo! Ento contou a eles
sobre a grande batalha entre as crianas da cidade de Oxford e os filhos
dos oleiros. Primeiro descreveu os Barreiros, tomando cuidado para
incluir tudo de que conseguia se lembrar, os largos tanques de tintura
de cor ocre, o cabo do reboque, os fornos que pareciam imensas colmias
de tijolos. Falou a eles sobre os salgueiros-chores nas margens do rio
com as folhas todas prateadas por baixo; e falou de como, quando o sol
brilhava por mais de dois dias, a argila comeava a rachar em belas e
enormes placas, com rachaduras profundas entre elas, e como era a
sensao de enfiar os dedos nas rachaduras apertadas e, lentamente,
levantar uma grande placa de argila seca, tentando conserv-la to
grande quanto podia, sem quebr-la. A parte de baixo, ainda molhada e
pegajosa, era ideal para atirar nas pessoas. E descreveu os odores
naqueles lugares: a fumaa dos fornos, o cheiro de mofo de folhas
apodrecidas do rio, quando o vento soprava de sudoeste, o cheiro gostoso
das batatas assadas que os oleiros costumavam comer; e o som da gua
deslizando escorregadia 344 sobre as calhas que a conduziam aos tanques
de lavagem; e a suco lenta e forte quando voc tentava puxar o p para
fora do cho; e o bater pesado e molhado das ps das rodas nas
comportas, na gua cheia de argila. Enquanto falava, estimulando todos
os sentidos deles, os fantasmas se acotovelaram mais, chegando cada vez
mais perto, se alimentando de suas palavras, recordando a poca em que
tinham carne, pele, nervos e sentidos; e desejando que ela nunca mais
parasse. Ento ela contou como os filhos dos oleiros sempre declaravam
guerra s crianas da cidade, mas como eram lentos e embotados, com
barro no crebro, e como as crianas da cidade, em comparao, eram
espertas e rpidas como pardais; e como, certo dia, todas as crianas da
cidade e todas as crianas de todas as faculdades tinham engolido as
rivalidades, acertando uma trgua, e planejado e feito um ataque vindo
de trs direes contra os Barreiros, encurralando os filhos dos oleiros
na beira do rio, atirando incontveis grandes punhados de argila uns nos
outros, ocupando e derrubando o castelo de barro que eles haviam
construdo, transformando as fortificaes em msseis, at que o ar, o
solo e a gua estivessem total e absolutamente misturados, e todas as
crianas estivessem exatamente iguais: cobertas de barro dos ps 
cabea; nenhum deles se lembrava de um dia melhor em toda a sua vida.
Quando acabou, ela olhou para Will, exausta. Ento teve um choque. Alm
dos fantasmas, silenciosos e por toda parte, e de seus companheiros,
prximos e vivos, tambm havia uma outra platia; porque os galhos da
rvore estavam repletos daquelas formas escuras de pssaros, seus rostos
de mulher olhando fixamente para ela, solenes e fascinados. Lyra se
levantou, assustada, de repente, mas elas no se moveram. -Voc -disse,
desesperada, voc me atacou antes, quando tentei lhe contar uma coisa. O
que est impedindo voc agora? Vamos, venha e me despedace com suas
garras, e faa de mim um fantasma! 345 "Esta  a ltima coisa que
faremos -disse a harpia no centro, que era a prpria Sem-Nome.
-Escute-me. Milhares de anos atrs, quando os primeiros fantasmas vieram
para c, a Autoridade nos concedeu o poder de ver o pior em todo mundo,
e nos alimentamos do pior desde ento, at nosso sangue estar ranoso e
fedido disso e nossos coraes enojados. - Mas, mesmo assim, era s o
que tnhamos para nos alimentar. Era tudo o que tnhamos. E agora
descobrimos que vocs esto planejando abrir um caminho para o mundo da
superfcie e conduzir todos os fantasmas para fora, para o ar" E sua voz
spera foi abafada por um milho de sussurros,  medida que todos os
fantasmas que podiam ouvir gritavam de alegria e esperana; mas todas as
harpias gritaram e bateram as asas at que os fantasmas se calaram de
novo. - Sim, -gritou Sem-Nome, querem lev-los para fora! O que ns
faremos agora? Vou lhe contar o que vamos fazer: de agora em diante, no
vamos mais controlar nenhum de nossos impulsos. Vamos ferir e profanar,
rasgar e despedaar todo fantasma que entrar e os deixaremos loucos de
medo, de remorso e de dio por si prprios. Isto aqui agora  um
deserto; ns o tornaremos um inferno! Todas as harpias sem exceo
berraram e escarneceram e muitas delas levantaram vo da rvore seguindo
direto para cima dos fantasmas, fazendo com que se dispersassem
apavorados. Lyra agarrou-se ao brao de Will e disse: -Eles revelaram
nosso plano e agora no vamos mais poder fazer o que tnhamos planejado,
eles vo nos odiar, vo pensar que os tramos! Tornamos as coisas
piores, no melhores! -Fique calada- disse Tialys. -No se desespere.
Chame-os de volta e faa com que nos ouam. De modo que Will gritou:
-Voltem aqui! Voltem aqui, todos vocs! Voltem e ouam! Uma a uma as
harpias, com os rostos vidos e famintos, tingidos pelo desejo de
sofrimento, se viraram e voaram de volta 346 para a rvore, e os
fantasmas tambm se aproximaram. O cavaleiro deixou sua liblula aos
cuidados de Salmakia e sua silhueta pequenina e tensa, vestida de verde
e de cabelos escuros, saltou sobre um pedregulho onde todos poderiam
v-lo. -Harpias -disse ele, podemos lhes oferecer algo melhor que isso.
Respondam s minhas perguntas com sinceridade e ouam o que vou dizer,
depois tomem a deciso. Quando Lyra falou com vocs do lado de fora do
paredo, vocs a atacaram. Por que fizeram aquilo? -Mentiras! -gritaram
todas as harpias. -Mentiras e fantasias! -Contudo, quando ela falou
ainda h pouco, vocs ouviram, todas vocs, e ficaram quietas e em
silncio. Mais uma vez, por que foi isso? -Porque era verdade -disse
Sem-Nome. -Porque ela falou a verdade. Porque ouvir a verdade nos
nutriu. Porque estava nos alimentando. Porque no pudemos nos impedir de
fazer isso. Porque era verdade. Porque no tnhamos nenhuma idia de que
pudesse haver alguma coisa que no fosse maldade. Porque ouvir nos
trouxe notcias do mundo e do sol, do vento e da chuva. Porque era
verdade. -Ento -props Tialys, vamos fazer um acordo. Em vez de verem
somente a maldade, a crueldade e a cobia dos fantasmas que vm aqui
para baixo, de agora em diante vocs tero o direito de pedir a cada
fantasma que lhes conte a histria de sua vida e eles tero que contar a
verdade sobre o que viram e tocaram, ouviram, amaram e conheceram no
mundo. Cada um desses fantasmas tem uma histria; cada um deles que
descer no futuro ter coisas verdadeiras para contar a vocs sobre o
mundo. E vocs tero o direito de ouvi-los e eles tero que contar. Lyra
ficou maravilhada com a coragem do pequenino espio. Como ousava falar
com aquelas criaturas como se tivesse poderes para dar-lhes direitos?
Qualquer uma delas poderia t-lo abocanhado num segundo, despedaado com
suas garras ou carregado para o alto e depois deixado que despencasse no
cho de maneira que se arrebentasse 347 em pedaos. E no entanto l
estava ele, orgulhoso e destemido, fazendo um acordo com elas! E elas
ouviram e conferenciaram, os rostos se virando uns para os outros, as
vozes baixas. Todos os fantasmas ficaram observando, temerosos e
calados. Ento Sem-Nome virou-se de volta. -Isso no  suficiente -disse
ela. -Queremos mais que isso. Tnhamos uma tarefa de acordo com a antiga
dispensao. Cumpramos diligentemente a vontade e as ordens da
Autoridade e, por causa disso, ramos honradas. Odiadas e temidas, mas
tambm respeitadas e honradas. O que acontecer com nossa honra agora?
Por que os fantasmas haveriam de nos dar ateno, se simplesmente
pudessem sair e voltar para o mundo? Temos nosso orgulho, e no se deve
prescindir disso. Precisamos de um lugar honroso! Precisamos ter um
dever e uma tarefa a cumprir, isso nos trar o respeito que merecemos!
Elas se agitaram nos galhos, resmungando e levantando as asas. Mas um
instante depois Salmakia saltou para ir se juntar ao cavaleiro e gritou
para elas: -Vocs tm toda a razo. Todo mundo deve ter uma tarefa a
fazer que seja importante, uma tarefa que lhes traga honra, que possam
desempenhar com orgulho. De modo que esta  a tarefa, e  uma tarefa que
s vocs podem desempenhar, porque so as guardis e as protetoras deste
lugar. A tarefa de vocs ser guiar os fantasmas do local de
desembarque, na margem do lago, durante todo o caminho pela terra dos
mortos, at a nova abertura para o mundo. Em troca, eles lhes contaro
suas histrias como pagamento justo e certo por essa orientao. Assim
lhes parece correto? Sem-Nome olhou para suas irms e elas assentiram.
Ento disse: -E teremos o direito de recusar gui-los se mentirem ou se
esconderem alguma coisa, ou se no tiverem nada para nos contar. Se
viveram no mundo, eles deveriam ver e tocar, ouvir, amar e aprender
coisas. Faremos uma exceo no caso de crianas muito pequenas que no
tiveram tempo de aprender coisa nenhuma, mas caso contrrio, se descerem
at aqui sem trazer nada, ns no os levaremos at a sada. 348 -Isto 
justo -declarou Salmakia e os outros viajantes concordaram. E assim
fizeram um acordo. E em troca da histria de Lyra, que j tinham ouvido,
as harpias se ofereceram para levar os viajantes e sua faca at uma
parte da terra dos mortos onde o mundo superior estava prximo. Ficava a
uma grande distncia, passando por tneis e cavernas, mas elas os
guiariam fielmente e todos os fantasmas poderiam segui-los. Mas antes
que pudessem comear, uma voz gritou, to alto quanto um sussurro pode
gritar. Era o fantasma de um homem magro com uma voz passional, raivosa,
e ele gritou: -O que vai acontecer? Quando deixarmos o mundo dos mortos,
vamos viver de novo? Ou vamos desaparecer como nossos daemons? Irmos e
irms, no devemos seguir esta criana a lugar nenhum enquanto no
soubermos o que vai acontecer conosco! Os outros repetiram a pergunta:
-Sim, diga-nos para onde vamos. Diga-nos o que esperar! No iremos
enquanto no soubermos o que vai acontecer conosco! Lyra virou-se para
Will em desespero, mas ele disse: -Diga a verdade. Pergunte ao
aletmetro e conte a eles o que o aletmetro responder. -Est bem. Ela
tirou o instrumento dourado da bolsa. A resposta veio imediatamente.
Lyra guardou o aletmetro e se levantou. -Isto  o que vai acontecer
-declarou, e  verdade, absolutamente verdade. Quando sarem daqui,
todas as partculas que os constituem se desprendero e flutuaro se
dispersando, exatamente como aconteceu com seus daemons. Se j viram
pessoas morrerem, sabem como . Mas seus daemons no so simplesmente
nada agora; eles fazem parte de tudo. Todos os tomos que eles eram
fazem parte do ar e do vento, das rvores, da terra e de todas as coisas
vivas. Eles nunca desaparecero. Apenas fazem 349 parte de tudo. E 
exatamente o que vai acontecer com vocs, juro, dou a vocs minha
palavra de honra. Vocs vo se dispersar,  verdade, mas estaro l fora
ao ar livre, novamente fazendo parte de tudo que est vivo. Ningum
falou. Aqueles que tinham visto como os daemons se dissolviam estavam
recordando isso e aqueles que no tinham estavam imaginando, e ningum
falou at que uma jovem mulher se adiantou. Ela havia morrido como
mrtir sculos antes. Olhou para todos em volta e disse: -Quando
estvamos vivos, disseram-nos que quando morrssemos iramos para o cu.
E disseram que o cu era um lugar de alegria e glria, e que passaramos
a eternidade em companhia dos santos e dos anjos louvando o
Todo-poderoso, em estado de xtase. Isso  o que nos diziam. E foi o que
levou alguns de ns a dar nossas vidas, e outros a passar anos orando em
isolamento e solido, enquanto toda a alegria de viver ia se perdendo,
abandonada ao nosso redor, sem que jamais nos dssemos conta. "Porque a
terra dos mortos no  um lugar de recompensa nem um lugar de punio. 
um lugar de nada. Os bons vm para c da mesma forma que os maus, e
todos ns definhamos aqui nessa escurido para sempre, sem nenhuma
esperana de libertao ou de alegria, de sono, de descanso ou de paz. "
"Mas agora esta criana veio nos oferecer uma sada e eu vou segui-la.
Mesmo que isso signifique o apagamento total, amigos, eu o receberei de
braos abertos, porque no ser nada, estaremos vivos de novo em mil
folhas de relva, e em um milho de folhas, estaremos caindo nas gotas de
chuva e soprando na brisa fresca, estaremos brilhando no orvalho sob a
luz das estrelas e da lua, l fora no mundo fsico que  nosso
verdadeiro lar e sempre foi. "De maneira que recomendo e insisto: venham
com a criana para sairmos para o cu!" Mas seu fantasma foi empurrado,
afastado com violncia pelo fantasma de um homem que parecia um monge:
magro e plido,  mesmo 350 depois de morto, com olhos escuros ardentes.
Ele se persignou e murmurou uma prece, depois disse: -Esta  uma
mensagem amarga, uma brincadeira triste e cruel. Ser que no enxergam a
verdade? Esta menina no  uma criana.  uma agente do prprio Satans!
O mundo em que vivamos era um vale de depravao e de lgrimas. Nada
ali podia nos satisfazer. Mas o Todo-poderoso nos concedeu este lugar
abenoado por toda a eternidade, este paraso, que para as almas cadas
parece desolado e rido, mas que os olhos da f vem tal como ,
transbordante de leite e mel e ressoando com os doces hinos dos anjos.
Isto  o cu, verdadeiramente! O que esta menina m promete nada mais 
que mentira. Ela quer conduzi-los para o Inferno! Sigam-na e estaro se
expondo por vontade prpria a um grande perigo. Meus companheiros e eu,
aqueles de f verdadeira, permaneceremos aqui em nosso paraso abenoado
e passaremos a eternidade cantando louvores ao Todo-poderoso, que nos
concedeu juzo para distinguir a mentira da verdade. Mais uma vez se
persignou e ento ele e seus companheiros se afastaram tomados pelo
horror e pela repugnncia. Lyra sentia-se confusa. Ser que estava
enganada? Estaria cometendo algum grande erro? Ela olhou em volta:
escurido e desolao por toda parte. Mas j havia sido enganada antes
pela aparncia das coisas, confiando na Sra. Coulter, por causa de seu
belo sorriso e seu encanto de perfume sedutor. Era to fcil se enganar
com as coisas; e sem seu daemon para orient-la, talvez tambm estivesse
enganada a respeito da presente situao. Mas Will estava sacudindo seu
brao. Depois tomou o rosto dela nas mos e o segurou de modo bruto.
-Voc sabe que isso no  verdade -declarou, exatamente como  capaz de
sentir isso. No d ateno ao que ele disse! Eles todos tambm sabem
que ele est mentindo. E esto contando conosco. Vamos, vamos tratar de
ir embora. Ela assentiu. Tinha que confiar em seu corpo e na verdade do
que seus sentidos lhe diziam; sabia que Pan teria confiado. 351 E assim
eles se puseram em marcha, e os milhes de fantasmas comearam a
segui-los. Atrs deles, muito distante para que as crianas pudessem
ver, outros habitantes do mundo dos mortos tinham ouvido o que estava
acontecendo e estavam vindo se juntar  grande marcha. Tialys e Salmakia
voaram at l atrs para olhar, e ficaram radiantes ao ver fantasmas de
seu prprio povo acompanhando, e de todos os outros tipos de seres
conscientes que algum dia haviam sido punidos pela Autoridade com o
exlio e a morte. Entre eles havia seres que no pareciam absolutamente
humanos, seres como os mulefas, que Mary Malone teria reconhecido, e
tambm fantasmas ainda mais estranhos. Mas Will e Lyra no tinham foras
para olhar para trs; tudo o que conseguiam fazer era seguir adiante
atrs das harpias e ter esperana. -Estamos quase chegando, Will?
-sussurrou Lyra. -Isso est quase acabando? Ele no sabia dizer. Mas
estavam to fracos e doentes que respondeu: -Sim, est quase acabando,
estamos quase chegando. Logo estaremos fora daqui. 352 *24 A SRA.
COULTER EM GENEBRA QUAL A ME, TAL  A SUA FILHA. EZEQUIEL 16,44 A Sra.
Coulter esperou at anoitecer antes de se aproximar da Faculdade St.
Jerome. Depois que escureceu, ela manobrou a nave da inteno descendo
atravs das nuvens e seguiu lentamente pela margem do lago mantendo-se
na altura das copas  das rvores. O prdio da Faculdade era uma
construo que se destacava entre os outros prdios antigos de Genebra,
e logo ela encontrou o pinculo, a escurido vazad dos claustros, a
torre quadrada onde ficavam os alojamentos do Presidente do Tribunal
Consistorial de Disciplina. Tinha visitado a Faculdade trs vezes antes;
sabia que as reentrncias e os espiges das chamins no telhado
ofereciam uma variedade de esconderijos, mesmo para algo to grande
quanto a nave da inteno. Voando lentamente sobre as telhas que
cintilavam, molhadas pela chuva recente, ela entrou devagar com a nave
num pequeno 353 vo entre um telhado de inclinao muito acentuada e o
paredo vertical da torre. O lugar s era visvel do campanrio da
Capela da Santa Penitncia, nas vizinhanas; serviria perfeitamente. Ela
pousou a nave delicadamente, deixando seus seis ps e pernas encontrarem
seus pontos de apoio e se ajustarem de modo a deixar a cabine
horizontal. Estava comeando a amar aquela mquina: respondia a seus
comandos com a mesma rapidez com que ela conseguia pensar e era to
silenciosa; podia pairar sobre a cabea de algum, perto o bastante para
ser tocada, sem que a pessoa jamais soubesse que estava l. Ao longo do
dia depois que a roubara, a Sra. Coulter tinha aprendido tudo sobre os
controles, mas ainda no tinha idia de qual era o combustvel que a
movia, e isso era a nica coisa a respeito de que se preocupava: no
tinha nenhum meio de saber quando o combustvel ou as baterias
acabariam. Depois de se assegurar que a nave estava bem firme e que o
teto era slido o bastante para sustent-la, tirou o capacete e
desembarcou. Seu daemon j estava puxando com fora uma das pesadas
telhas antigas, para solt-la. Ela foi ajud-lo e logo tinham soltado e
tirado meia dzia delas, abrindo um espao, depois ela quebrou e
arrancou as ripas nas quais tinham estado fixadas, fazendo um buraco
grande o suficiente para permitir sua passagem atravs dele. -Entre e
examine o terreno -sussurrou ela, e o daemon saltou pelo buraco para a
escurido. Ela podia ouvir o rudo de suas garras enquanto se movia
cuidadosamente sobre o assoalho do sto e depois a face negra franjada
de dourado apareceu na abertura. Ela compreendeu imediatamente e o
seguiu, entrando e esperando at que seus olhos se habituassem ao
escuro. Na semi-obscuridade, gradualmente viu um sto comprido, onde
sombras escuras de armrios, mesas, estantes e peas de moblia de todo
tipo tinham sido guardadas. A primeira coisa que fez foi empurrar um
armrio alto para cobrir o buraco aberto no lugar onde as telhas haviam
estado. 354 Ento foi andando nas pontas dos ps at a porta na parede
na extremidade oposta do sto e girou a maaneta. Estava trancada, 
claro, mas ela tinha um grampo e a tranca era simples. Trs minutos
depois, ela e seu daemon estavam no fundo de um longo corredor, onde uma
clarabia empoeirada lhes permitia ver uma escada estreita que descia na
outra ponta. E cinco minutos depois disso, tinham aberto uma janela na
despensa, ao lado da cozinha, dois andares abaixo, e saltado para o
beco. Os portes da Faculdade e a guarita ficavam logo adiante, dobrando
a esquina, e, como ela disse ao macaco dourado, era importante chegar da
maneira ortodoxa, qualquer que fosse a maneira como eles pretendessem ir
embora. -Tire as mos de cima de mim -disse ela calmamente ao guarda -e
mostre alguma cortesia, ou mandarei esfolar voc. Diga ao Presidente que
a Sra. Coulter chegou e que deseja v-lo imediatamente. O homem recuou e
seu daemon, uma cadelinha pinscher que estivera arreganhando os dentes
para o bem-comportado macaco dourado, imediatamente se encolheu e enfiou
tanto quanto pde o toco de rabo entre as pernas. O guarda girou a
manivela de um telefone e, menos de um minuto depois, um jovem padre de
rosto simptico entrou correndo na guarita, esfregando as palmas das
mos na batina, caso ela quisesse darlhe um aperto de mo. Ela no quis.
-Quem  voc? -perguntou. -Frade Louis -respondeu o homem, acalmando seu
daemon coelha. -Convocador do Secretariado do Tribunal Consistorial. Por
favor, faria a gentileza de. -No vim aqui para parlamentar com um
secretrio -declarou ela. -Leve-me ao Padre MacPhail. E faa isso j. O
homem inclinou-se numa mesura de submisso e levou-a consigo. Ao v-la
pelas costas, o guarda deixou escapar um suspiro de alvio. 355 Depois
de tentar puxar conversa duas ou trs vezes, Frade Louis desistiu e
conduziu-a em silncio at os aposentos do Presidente, na torre. O Padre
MacPhail estava fazendo suas oraes, e a mo do pobre Frade Louis
tremia violentamente quando bateu  porta. Eles ouviram um suspiro e um
gemido, depois passadas pesadas cruzaram o assoalho. Os olhos do
Presidente se arregalaram quando viu quem era e ele deu um sorriso
feroz. -Sra. Coulter- disse, oferecendo a mo. -Estou muito contente por
v-la. Meu gabinete  frio e nossa hospitalidade humilde, mas entre,
entre. -Boa noite -disse ela, seguindo-o para o interior do aposento,
frio e desolado, de paredes de pedra, permitindo que ele se desmanchasse
em atenes e lhe oferecesse uma cadeira. -Obrigada -disse ela para o
Frade Louis, que permanecia no aposento -; gostaria de um copo de
chocolatl. Nada havia sido oferecido e ela sabia que era um insulto
trat-lo como se fosse um criado, mas a atitude dele era to
subserviente que merecia isso. O Presidente assentiu e Frade Louis teve
que se retirar para atender ao pedido, muito a contragosto. -Sabe, 
claro, que est presa -declarou o Presidente, sentando na outra cadeira
e acendendo uma luminria de mesa. -Ah, mas por que estragar nossa
conversa antes mesmo de termos comeado? -perguntou a Sra. Coulter. -Vim
para c voluntariamente, assim que consegui fugir da fortaleza de Lorde
Asriel. O fato , Presidente, que tenho uma enorme quantidade de
informaes sobre as foras dele e sobre a criana, e vim at aqui para
d-las ao senhor. -A criana, ento. Comece pela criana. -Minha filha
agora est com 12 anos. Muito brevemente ela se aproximar do vrtice da
culVa da adolescncia e ento ser tarde demais para que qualquer um de
ns possa impedir a catstrofe; a natUreza e a oportunidade se uniro
como centelha em madeira seca. Graas  sua interVeno, isso agora 
muito mais provvel. Espero que esteja satisfeito. 356 -Era seu dever
traz-la para c, para ficar sob nossos cuidados. Em vez disso, preferiu
fugir e esconder-se numa caverna na montanha... embora como uma mulher
de sua inteligncia pudesse ter a esperana de se manter escondida seja
um mistrio para  mim. -Provavelmente h muita coisa que seja um
mistrio para o senhor, Senhor Lorde Presidente, a comear pelas
relaes entre uma me e sua filha. Se pensou por um instante que eu
entregaria minha filha aos cuidados... cuidados!... de uma corporao de
homens com uma obsesso fervorosa pela sexualidade, homens de unhas
sujas, fedendo a suor azedo, homens cujas imaginaes furtivas se
arrastariam sobre o corpo dela como baratas, se pensou que eu exporia
minha filha a isso, Lorde Presidente, o senhor  mais estpido do que
pensa que eu sou. Bateram  porta antes que ele pudesse responder, e o
Frade Louis entrou com dois copos de chocolatl numa bandeja de madeira.
Ele colocou a bandeja sobre a mesa com uma reverncia nervosa, sorrindo
para o Presidente, na esperana de ser convidado a ficar; mas o Padre
MacPhail balanou a cabea em direo  porta e o rapaz se retirou
relutantemente. -Ento o que pretendia fazer? -perguntou o Presidente.
-Eu ia mant-la em segurana at que o perigo tivesse passado. -E que
perigo seria esse? -perguntou ele, passando-lhe um copo. -Ah, acho que o
senhor sabe de que estou falando. Em algum lugar h uma tentadora, uma
serpente, por assim dizer, e eu tinha que impedir que elas se
encontrassem. -H um menino com ela. -Sim. E se no tivesse interferido,
ambos estariam sob meu controle. Nas atuais circunstncias, eles
poderiam estar em qualquer lugar. Pelo menos no esto com Lorde Asriel.
-No tenho dvida de que Lorde Asriel esteja procurando por eles. O
garoto tem uma faca de um poder extraordinrio. S por isso valeria a
pena persegui-los. 357 -Tenho conhecimento disso- disse a Sra. Coulter.
-Eu consegui quebrar a faca e ele conseguiu consert-la. Ela estava
sorrindo. Seria possvel que ela aprovasse aquele menino desgraado?
-Ns sabemos -ele retrucou secamente. -Ora, ora -comentou ela. -Frei
Pavel deve estar sendo mais rpido. Quando o conheci, ele teria levado
no mnimo um ms para ler isso. Ela bebericou o chocolatl, que estava
ralo e fraco; como era tpico daqueles padres enfadonhos, pensou, impor
sua abstinncia hipcrita tambm aos visitantes. -Fale-me de Lorde
Asriel- disse o Presidente. -Conte-me tudo. A Sra. Coulter se recostou
confortavelmente na cadeira e comeou a contar a ele -no tudo, mas ele
jamais acreditou, nem por um segundo que contaria tudo. A Sra. Coulter
falou sobre a fortaleza, sobre os aliados, sobre os anjos, sobre as
minas e sobre as fbricas de fundio. O Padre MacPhail permaneceu
sentado sem mover um msculo, seu daemon lagarto absorvendo e recordando
cada palavra. -E como conseguiu chegar aqui? -perguntou. -Roubei um
girptero. Fiquei sem combustvel e tive que abandon-lo no campo, no
muito longe daqui. O resto do caminho fiz a p. -Lorde Asriel est
efetivamente procurando a menina e o menino? - claro. -Presumo que
esteja atrs daquela faca. Sabe se tem um nome? Os
avantesmas-do-penhasco do norte a chamam de destruidora-de-deus
-prosseguiu ele, indo at a janela e olhando para baixo, para os
claustros. - isso que Asriel est pretendendo fazer, no ? Destruir a
Autoridade? H algumas pessoas que afirmam que Deus j est morto.
Presumivelmente Asriel  uma dessas, se tem a ambio de mat-lo. -Bem,
onde est Deus -perguntou a Sra. Coulter, se est vivo? E por que ele
no fala mais? No princpio do mundo, Deus andava no jardim e falava com
Ado e Eva. Ento comeou a se retirar, e somente Moiss ouvia sua voz.
Mais tarde, na poca de Daniel, 358 estava idoso, e era o Deus dos
Antigos. Onde est ele agora? Ainda est vivo, com alguma idade
inconcebvel, decrpito e demente, incapaz de pensar ou de agir, e
incapaz de morrer, uma imensido apodrecida? E se esta for a condio em
que se encontra, no seria a mais misericordiosa das coisas, a mais
verdadeira prova de seu amor por Deus, ir procur-lo e oferecer-lhe a
ddiva da morte? A Sra. Coulter sentia uma alegria libertadora e calma
enquanto falava. Perguntou a si mesma se conseguiria escapar com vida;
mas era inebriante falar daquela maneira com aquele homem. -E o P?
-perguntou ele. -Das profundezas de sua heresia, qual  sua viso do P?
-No tenho nenhuma viso do P -respondeu ela. -No sei o que . Ningum
sabe. -Compreendo. Muito bem, eu comecei recordando-a de que est presa.
Creio que est na hora de encontrarmos um lugar para a senhora dormir.
Vai ficar muito confortvel; ningum vai machuc-la; mas no vai fugir.
E conversaremos mais amanh. Ele tocou uma campainha e Frade Louis
entrou quase que imediatamente. -Leve a Sra. Coulter para o melhor
quarto de hspedes -ordenou o Presidente. -E deixe-a trancada nele. O
melhor quarto de hspedes era velho, maltratado, e a moblia era
ordinria, mas pelo menos estava limpo. Depois que a tranca girou s
suas costas, a Sra. Coulter imediatamente olhou em volta procurando o
microfone e encontrou um na luminria requintada e outro debaixo do
estrado da cama. Desligou os dois e ento teve uma surpresa horrvel.
Observando-a de cima do tampo de uma cmoda atrs da porta estava Lorde
Roke. Ela deu um grito e estendeu a mo para a parede para se
equilibrar. O galivespiano estava sentado de pernas cruzadas,
inteiramente  vontade, e nem ela nem o macaco dourado o tinham visto.
Depois que o bater disparado de seu corao se acalmou e sua respirao
359 voltou ao normal, ela disse: -E quando o senhor teria me feito a
cortesia de me avisar que estava aqui, milorde? Antes que eu me
despisse, ou depois? -Antes -respondeu ele. -Diga a seu daemon para se
acalmar, caso contrrio o imobilizarei. Os dentes do macaco dourado
estavam arreganhados e todo o seu plo estava em p. A maldade ardente
de sua expresso era o bastante para fazer qualquer pessoa se acovardar,
mas Lorde Roke apenas sorria. Suas esporas reluziam sob a luz fraca. O
pequenino espio se levantou e se espreguiou. -Acabei de falar com meu
agente na fortaleza de Lorde Asriel -prosseguiu. -Lorde Asriel apresenta
seus cumprimentos e pede que o avise assim que descobrir quais so as
intenes dessa gente. Ela sentia dificuldade para respirar, como se
Lorde Asriel a tivesse golpeado violentamente numa luta. Seus olhos se
arregalaram e ela sentou lentamente na cama. -Veio para c para me
espionar ou para ajudar? -perguntou. -As duas coisas, e  sorte sua que
eu esteja aqui. Assim que chegou, eles puseram em funcionamento algum
aparelho ambrico nos pores. No sei o que , mas h uma equipe de
cientistas trabalhando nele agora, neste momento. Voc parece t-los
deixado empolgados. -No sei se devo ficar lisonjeada ou preocupada.
Para falar francamente, estou exausta e vou dormir. Se estiver aqui para
ajudar, pode ficar de vigia. Poderia comear olhando para o outro lado.
Ele fez uma mesura e virou-se para a parede at ela acabar de se lavar
na pia de loua lascada afIXada  parede, se enxugar com a toalha fina e
tirar a roupa e se deitar. Seu daemon revistou o quarto, examinando o
armrio, o arame atrs da moldura do quadro, as cortinas, a vista dos
claustros que se via pela janela. Lorde Roke o observou a cada
centmetro que se moveu. Finalmente o macaco dourado juntou-se  Sra.
Coulter e eles adormeceram imediatamente. Lorde Roke no havia contado a
ela tudo o que tinha sabido atravs de Lorde Asriel. Os aliados tinham
estado acompanhando o vo de todos os tipos de seres no ar acima das
fronteiras da repblica e tinham notado uma concentrao do que poderia
ter sido anjos, e poderia ter sido algo inteiramente diferente, a oeste.
Haviam mandado patrulhas para investigar, mas at o momento no tinham
descoberto nada: o que quer que fosse que estivesse concentrado l,
tinha se embrulhado numa neblina impenetrvel. Contudo, o espio achou
melhor no preocupar a Sra. Coulter com aquilo; ela estava exausta.
Melhor deix-la dormir, decidiu, e se movimentou silenciosamente pelo
quarto, ouvindo atravs da porta, olhando pela janela, desperto e
alerta. Uma hora depois de ela ter vindo para o quarto, ele ouviu um
rudo abafado do lado de fora da porta: um leve arranhar e um sussurro.
No mesmo instante, uma luz fraca surgiu no vo da porta. Lorde Roke foi
para o canto mais afastado e se posicionou atrs de uma das pernas da
cadeira em que a Sra. Coulter tinha posto suas roupas. Passou-se um
minuto e ento a chave girou, muito silenciosamente, na fechadura. A
porta se abriu dois centmetros e meio, no mais que isso, e ento a luz
se apagou. Lorde Roke podia enxergar bastante bem na luz esmaecida que
passava atravs das cortinas finas, mas o intruso estava precisando
esperar at que seus olhos se adaptassem. Finalmente a porta se abriu
mais, muito lentamente, e o jovem padre, Frade Louis,  entrou. Ele fez o
sinal-da-cruz e foi andando, p ante p, at a cama. Lorde Roke
preparou-se para saltar para o ataque, mas o padre apenas ficou ouvindo
o som regular da respirao da Sra. Coulter, examinou-a atentamente para
se certificar de que estava dormindo 361 e ento virou-se para a
mesa-de-cabeceira. Ele cobriu a lmpada da lanterna  bateria com a mo
e a acendeu, deixando um pequeno raio de luz passar atravs dos dedos.
Examinou a mesinha to de perto que seu nariz quase tocou a superfcie,
mas o que quer que fosse que estivesse procurando, no encontrou. A Sra.
Coulter tinha posto algumas coisas ali antes de se deitar: um par de
moedas, um anel, o relgio de pulso; mas Frade Louis no estava
interessado naquilo. Ele tornou a se virar para ela e ento viu o que
estava procurando, deixando escapar um leve sibilar por entre os dentes.
Lorde Roke pde constatar seu desapontamento: o objeto da busca era o
medalho pendurado no cordo de ouro no pescoo da Sra. Coulter. Lorde
Roke se moveu silenciosamente pelo rodap em direo  porta. O padre
tornou a se benzer, pois ia ter de tocar nela. Prendendo a respirao,
inclinou-se sobre a cama -e o macaco dourado se mexeu. O rapaz ficou
imvel, com as mos estendidas. Seu daemon coelha tremia a seus ps,
absolutamente intil: ela poderia pelo menos ter ficado de vigia para o
pobre homem, pensou Lorde Roke. O macaco se virou, dormindo, e depois
ficou quieto novamente. Depois de um minuto, parado como uma esttua de
cera, Frade Louis baixou as mos trmulas at o pescoo da Sra. Coulter.
Manuseou desajeitadamente o cordo durante tanto tempo que Lorde Roke
pensou que o dia fosse raiar antes que ele conseguisse abrir o fecho,
mas finalmente conseguiu puxar o medalho delicadamente e se levantou.
Lorde Roke, rpido e silencioso como um camundongo, tinha sado pela
porta antes que o padre se virasse. Esperou no corredor escuro e quando
o rapaz saiu p ante p e trancou a porta, o galivespiano comeou a
segui-lo. Frade Louis seguiu para a torre e, quando o Presidente abriu
sua porta, Lorde Roke passou rapidamente e seguiu para o genuflexrio
362 no canto do aposento. Ali encontrou uma salincia coberta pelas
sombras onde se agachou e ficou ouvindo. O Padre MacPhail no estava
sozinho: o aletometrista, Frei Pavel, estava trabalhando com seus livros
e uma outra pessoa estava parada nervosamente junto  janela. Era o Dr.
Cooper, o telogo experimental de Bolvangar. Ambos levantaram o olhar.
-Bom trabalho, Frade Louis -disse o Presidente. -Traga-o aqui, sente-se,
mostre-me, mostre-me. Excelente trabalho! Frei Pavel afastou alguns de
seus livros e o jovem padre colocou o cordo de ouro sobre a mesa. Os
outros se inclinaram para olhar enquanto o Padre MacPhail
desajeitadamente tentava abrir o fecho. O Dr. Cooper lhe ofereceu um
canivete e ento houve um estalido baixo. -Ah! -suspirou o Presidente.
Lorde Roke subiu para o tampo da mesa de maneira a poder ver. Sob a luz
do lampio de nafta havia um reflexo de brilho dourado-escuro: era uma
mecha de cabelos, e o Presidente a estava torcendo entre os dedos,
enrolando-a de um lado para o outro. -Temos certeza de que  da menina?
-perguntou. -Eu tenho certeza -afirmou a voz cansada de Frei Pavel. -E o
que temos  o bastante, Dr. Cooper? O homem de rosto plido se inclinou
todo sobre a mesa e tomou a mecha de cabelos dos dedos do Padre
MacPhail. Ento levantou-a junto  luz. -Ah,  sim -respondeu. -Um nico
fio de cabelo seria o bastante. Isso aqui  muita coisa. -Fico muito
satisfeito em saber -disse o Padre MacPhail. - Agora, Frade Louis, deve
colocar o medalho de volta no pescoo da boa senhora. O padre se curvou
ligeiramente, abatido: ele tinha esperado que sua tarefa estivesse
concluda. O Presidente colocou o cacho de cabelos de Lyra num envelope
e fechou o medalho, levantando a cabea e olhando em volta enquanto o
fazia, e Lorde Roke teve que se esconder rapidamente. 363 -Senhor
Presidente - disse Frade Louis,  claro que cumprirei suas ordens, mas
posso saber para que precisa do cabelo da menina? -No, Frade Louis,
porque isso o afligiria. Deixe essas questes por nossa conta. Trate de
ir andando. O rapaz pegou o medalho e se foi, reprimindo seu
ressentimento. Lorde Roke pensou em voltar com ele e em acordar a Sra.
Coulter, exatamente quando ele estivesse tentando colocar de volta o
cordo, de modo a ver o que ela faria; mas era mais importante descobrir
o que aquelas pessoas estavam planejando. Quando a porta fechou, o
galivespiano voltou para seu canto nas sombras e ficou ouvindo. -Como
sabia que ela possua isso? -perguntou o cientista. -Toda vez que
mencionava a menina -explicou o Presidente, sua mo tocava o medalho.
Muito bem, dentro de quanto tempo poder estar pronto? - uma questo de
horas -respondeu o Dr. Cooper. -E o cabelo? O que vai fazer com ele?
-Vamos colocar o cabelo na cmara ressonante. O senhor compreende, cada
indivduo  singular, e a organizao de partculas genticas
absolutamente distinta... Bem, assim que a anlise for completada, as
informaes sero codificadas em uma srie de pulsos ambricos e
transferidas para o dispositivo que faz a pontaria. Ele localiza a
origem do material do cabelo, onde quer  que elaesteja.  um processo
que na verdade utiliza a heresia de Barnard-Stokes, o conceito de
mltiplos mundos... -No se preocupe, Doutor. Frei Pavel j me disse que
a menina est em um outro mundo. Por favor, prossiga. A potncia da
bomba  direcionada atravs do cabelo? -. Para cada um dos fios de
cabelo dos quais estes foram cortados.  exatamente isso. -Ento, quando
for detonada, a menina ser destruda, no importa onde esteja? 364 o
cientista respirou fundo, pesadamente, e ento, com relUtncia, disse:
-Sim. -Ele engoliu em seco e prosseguiu: -A potncia de energia
necessria  enorme. A energia ambrica. Exatamente como uma bomba
atmica precisa de uma potncia altamente explosiva para iniciar a
fisso do urnio e fazer com que desenvolva-se a reao em cadeia, este
artefato precisa de uma corrente colossal para liberar a energia muito
maior do processo seccional. Estava me perguntando... -E no importa de
onde seja detonada, certo? -No. A idia  exatamente essa. Qualquer
lugar serve. -E est totalmente pronta? -Agora que temos o cabelo, est.
Mas a quantidade de energia, compreende? -Eu j cuidei disso. A usina
geradora hidroambrica em Saint-Jean-Les-Eaux foi requisitada para nosso
uso exclusivo. L se produz energia suficiente, no acha? -Sim
-respondeu o cientista. -Ento partiremos imediatamente. Por favor, v
preparar o equipamento, Dr. Cooper. Tome as providncias para que esteja
pronto para ser transportado o mais rpido possvel. O tempo muda muito
rapidamente na montanha e h uma tempestade se aproximando. O cientista
pegou o envelope contendo os cabelos de Lyra e nervosamente fez uma
mesura ao se retirar. Lorde Roke saiu com ele, sem fazer rudo, como uma
sombra. To logo estavam fora do alcance dos ouvidos do gabinete do
Presidente, o galivespiano partiu para o ataque. O Dr. Cooper, abaixo
dele, na escada, sentiu uma pontada de dor penetrante no ombro e
estendeu a mo para segurar o corrimo, mas seu brao estava
estranhamente fraco e ele escorregou e desceu rolando todo o lance
seguinte de escada, indo parar semiconsciente na base da  escada. 365
Com alguma dificuldade, Lorde Roke arrancou o envelope da mo do homem
que se crispava em espasmos, pois tinha a metade de seu tamanho, e
seguiu pelas sombras em direo ao quarto onde a Sra. Coulter dormia. A
fenda entre a porta e o cho era larga o bastante para que ele se
arrastasse para dentro do quarto. Frade Louis tinha vindo e ido embora,
mas no havia ousado tentar colocar o cordo em volta do pescoo da Sra.
Coulter: estava a seu lado sobre o travesseiro. Lorde Roke apertou a mo
dela para acord-la. Embora estivesse profundamente exausta, ela
concentrou a ateno nele imediatamente, e sentou na cama, esfregando os
olhos. Ele explicou o que havia acontecido e deu-lhe o envelope. -Deve
destru-lo imediatamente -disse-lhe -; um nico fio seria suficiente,
foi o que o homem disse. Ela olhou para o pequeno cacho de cabelos
louro-escuros e sacudiu a cabea. - tarde demais para isso -declarou.
-Isto  apenas a metade da mecha que cortei do cabelo de Lyra. Ele deve
ter guardado uma parte. Lorde Roke chiou de raiva. -Foi quando ele olhou
em volta! -exclamou. -Droga! Tive que me mexer depressa para sair do
campo de viso dele... deve ter sido quando ele guardou a outra parte...
-E no h maneira de saber onde pode ter guardado -disse a Sra. Coulter.
-Apesar disso, se conseguirmos encontrar a bomba -Psiu! Era o macaco
dourado pedindo silncio. Estava agachado junto  porta, ouvindo, e
ento eles tambm ouviram: passadas pesadas, vindo apressadas em direo
ao quarto. A Sra. Coulter empurrou o envelope e a mecha de cabelo para
Lorde Roke, que os pegou e saltou para o alto do armrio. Ento ela se
deitou ao lado de seu daemon enquanto a chave girava ruidosamente na
fechadura. 366 -Onde est? O que voc fez com o cabelo? Como atacou o
Dr. Cooper? -perguntou a voz spera do Presidente, enquanto a luz
iluminava a cama. A Sra. Coulter levantou um brao para cobrir os olhos
e fez um esforo para sentar na cama. -O senhor realmente gosta de
divertir seus hspedes -comentou ela com a voz sonolenta. -Esse jogo 
uma nova inveno? O que tenho que fazer? E quem  o Dr. Cooper? O
guarda da guarita entrou com o Padre MacPhail e vasculhou os cantos do
quarto e debaixo da cama com uma lanterna. O Presidente ficou
ligeiramente desconcertado: os olhos da Sra. Coulter estavam pesados de
sono e ela mal podia enxergar ofuscada pelo claro da luz do corredor.
Era evidente que no tinha sado da cama. -Voc tem um cmplice -acusou
ele. -Algum atacou um convidado da faculdade. Quem  seu cmplice? Quem
veio para c com voc? Onde est ele? -No tenho a menor idia a
respeito do que o senhor est falando. E o que  isso...? A mo dela,
que tinha apoiado na cama para se levantar, havia encontrado o medalho
no travesseiro. Ela parou, pegou o medalho, olhou para o Presidente com
os olhos sonolentos arregalados e Lorde Roke assistiu a um soberbo
desempenho de atriz, quando disse, com a voz carregada de perplexidade:
-Mas isso  o meu... o que est fazendo aqui? Padre MacPhail, quem
esteve aqui em meu quarto? Algum tirou isso de meu pescoo. E... onde
est o cabelo de Lyra? Havia uma mecha de cabelo de minha filha aqui
dentro. Quem tirou? Por qu? O que est acontecendo? E agora ela estava
ficando de p, os cabelos desalinhados, a voz cheia de paixo
-visivelmente to confusa quanto o prprio Presidente. O Padre MacPhail
deu um passo para trs e ps a mo na cabea. 367 -Alguma outra pessoa
deve ter vindo com voc. Tem que ter um cmplice -insistiu ele, a voz
estridente raspando o ar como uma lixa. -Onde est escondido? -No tenho
nenhum cmplice -retrucou ela furiosa. -Se h algum assassino invisvel
aqui neste lugar, s posso imaginar que seja o Diabo em pessoa. Imagino
que ele deva se sentir muito  vontade. O Padre MacPhail ordenou ao
guarda: -Leve-a para os pores. Trate de acorrent-la. Sei exatamente o
que podemos fazer com esta mulher; deveria ter pensado nisso assim que
ela apareceu. Ela olhou em volta agitadamente e, por uma frao de
segundo, seus olhos encontraram os olhos de Lorde Roke, reluzindo na
escurido perto do teto. Ele compreendeu a expresso dela imediatamente
e entendeu exatamente o que queria que fizesse. 368 *25
SAINT-JEAN-LES-EAUX UM BRACELETE DE CABELOS LUMINOSOS AO REDOR DO
OSSO... JOHN DONNE As cataratas de Saint-Jean-Les-Eaux despencavam entre
os picos de rocha na extremidade leste de um contraforte dos Alpes e a
usina geradora ficava abraada  encosta da montanha bem acima. Era uma
regio selvagem, uma regio desolada, hostil e maltratada, e ningum
teria construdo coisa nenhuma ali, no fosse pela promessa de alimentar
os imensos geradores ambricos com a energia das milhares de toneladas
de gua que rugiam descendo pelo despenhadeiro. Era a noite seguinte 
priso da Sra. Coulter e o tempo estava tempestuoso. Junto ao paredo
vertical de pedra da usina geradora, um zepelim reduziu a velocidade at
fICar semi-estacionrio sob as rajadas violentas de vento. Os holofotes
de busca abaixo do aerstato faziam com que parecesse estar de p sobre
vrias pernas de luz e gradualmente se abaixando, para se deitar. 369
Mas o piloto no estava nada satisfeito; o vento era varrido em
contracorrentes e rajadas cruzadas pelas arestas da montanha. Alm
disso, os cabos, as torres, os transformadores estavam todos prximos
demais: ser lanado para o meio deles, com um zepelim cheio de gs
inflamvel, seria instantaneamente fatal. O granizo martelava
obliquamente a grande carcaa rgida do dirigvel, fazendo um barulho
que quase abafava o estrpito e o rugido do esforo dos motores, e
obscurecia a viso do  solo. -Aqui no -gritou o piloto, acima do rudo.
-Teremos que contornar o contraforte. O Padre MacPhail observou furioso
enquanto o piloto empurrava o acelerador para a frente e corrigia o
ngulo de vo dos motores. O zepelim subiu com um solavanco e passou
sobre a borda da montanha. Aquelas pernas de luz se encompridaram de
repente, e pareceram tentar tatear o caminho descendo pelo cume, as
extremidades inferiores perdidas no redemoinho de granizo e chuva. -No
pode chegar mais perto da usina que isso? -perguntou o Presidente,
inclinando-se para a frente para que sua voz chegasse at o piloto. -No
se o senhor quiser aterrissar -respondeu o piloto. -Sim, queremos
aterrissar. Ento est bem, vamos pousar abaixo do cume. O piloto deu
ordens  tripulao para se preparar para atracar. Como o equipamento
que eles iam descarregar era no s pesado como delicado, era importante
que o aerstato estivesse com as amarras bem firmes. O Presidente tornou
a se recostar, tamborilando os dedos no brao do assento, mordendo o
lbio, mas sem dizer nada e deixando que o piloto trabalhasse sem ser
incomodado. De seu esconderjo nas anteparas transversais no fundo da
cabine, Lorde Roke observava tudo. Vrias vezes durante o vo, seu vulto
pequenino indistinto passou por trs da malha de metal, claramente
visvel para qualquer um, se tivessem virado 370 a cabea; mas de
maneira a ouvir o que estava acontecendo, ele tinha que ir e se
posicionar em um lugar onde poderia ser visto. O risco era inevitvel.
Ele chegou mais perto, ouvindo com dificuldade atravs do rugido dos
motores, do ribombar do granizo misturado com a chuva, do uivar
estridente do vento nos cabos e do bater de ps calando botas nos
passadios de metal. O engenheiro de vo gritou algumas coordenadas para
o piloto, que as confirmou, e Lorde Roke voltou a se esconder nas
sombras, segurando-se firme nas escoras e barras de metal enquanto o
zepelim mergulhava e se inclinava sacudido pela tUrbulncia. Finalmente,
percebendo pelo movimento que o dirigvel estava quase ancorado, foi
caminhando de volta pelo revestimento da cabine at o local onde ficavam
os assentos, a estibordo. Ali havia homens passando em ambas as
direes: tripulantes, tcnicos, padres. Muitos de seus daemons tambm
eram cachorros, cheios de curiosidade. Do outro lado do corredor, a Sra.
Coulter estava sentada, desperta e em silncio, seu daemon dourado
observando tUdo de seu colo e destilando maldade. Lorde Roke esperou uma
oportunidade e ento saltou atravessando o corredor como um dardo para o
assento da Sra. Coulter e um instante depois estava l em cima escondido
pela sombra de seu ombro. -O que eles esto fazendo? -murmurou ela.
-Aterrissando. Estamos perto da usina geradora. -Voc vai ficar comigo
ou trabalhar sozinho? -sussurrou. -Vou ficar com voc. Terei que me
esconder debaixo de seu casaco. Ela estava usando um sobretUdo pesado de
pele de carneiro, desconfortavelmente quente na cabine aquecida, mas com
as mos algemadas, no podia tir-lo. -Vamos, venha agora -disse ela,
olhando ao redor, e ele saltou para dentro do casaco na altUra do peito,
encontrando um bolso forrado de pele onde podia ficar sentado em
segurana. O macaco dourado solicitamente ajeitou o lao de seda da gola
371 da Sra. Coulter, cobrindo-o com o casaco, aos olhos de todo mundo
parecendo um exigente costureiro preparando sua modelo favorita,
enquanto se assegurava de que Lorde Roke estivesse completamente
escondido pelas dobras do sobretudo. Fez isso bem a tempo. Nem um minuto
depois, um soldado armado com um rifle veio ordenar  Sra. Coulter que
desembarcasse do dirigvel. -Tenho que ficar com estas algemas?
-perguntou ela. -No me disseram que as retirasse -respondeu ele. -
Levante-se, por favor. -Mas  to difcil me movimentar se no posso me
segurar nas coisas para me apoiar. Estou dolorida e com os msculos
enrijecidos, passei a maior parte do dia de hoje sentada aqui, sem me
mexer, e o senhor sabe que no tenho nenhuma arma, pois j me revistou.
V perguntar ao Presidente se realmente  necessrio me manter algemada.
Acha que vou tentar fugir para o meio do mato? Lorde Roke era imune ao
charme da Sra. Coulter, mas interessava-se por ver seu efeito sobre os
outros. O guarda era jovem: eles deveriam ter mandado um velho guerreiro
experiente. -Bem -disse o guarda, tenho certeza que no vai, madame, mas
no posso fazer o que no me deram ordens para fazer. A senhora
compreende, tenho certeza. Por favor, levante-se, madame; se tropear,
eu segurarei seu brao. A Sra. Coulter se levantou e Lorde Roke a sentiu
se mover desajeitadamente para a frente. Ela era o ser humano mais
gracioso que o galivespiano j vira na vida: aquela falta de jeito era
fingida. Quando iam chegando  escada no alto do costado, Lorde Roke a
sentiu tropear e gritar assustada, e sentiu o tranco quando o brao do
guarda a segurou. Ele ouviu tambm a mudana nos sons ao redor deles; o
uivar do vento, a rotao dos motores girando em ritmo constante para
gerar energia para as luzes, vozes vindas de algum lugar prximo, dando
ordens. 372 Eles desceram a escada do costado, a Sra. Coulter se
apoiando pesadamente no guarda. Ela estava falando baixinho, e Lorde
Roke s conseguiu ouvir a resposta dele. -O sargento, madame, ali
adiante, ao lado do caixote grande,  ele quem est com as chaves. Mas
no tenho coragem de pedir, madame, sinto muito. -Ah, ento est bem
-disse ela com um suspiro sedutor de desapontamento. -De qualquer
maneira, muito obrigada. Lorde Roke ouviu o som de ps calados com
botas se afastando, caminhando sobre a rocha, e ela sussurrou: -Voc
ouviu o que ele disse das chaves? -Diga-me onde o sargento est. Preciso
saber onde e a que distncia. -A cerca de dez de meus passos de
distncia. A direita. Um homem grande. Posso ver as chaves num molho, no
cinto dele. -No adianta se eu no souber qual  a chave. Voc os viu
fechar as algemas? -Vi.  uma chave curta e grossa, com uma fita adesiva
preta em volta, na parte de cima. Lorde Roke desceu devagar, agarrando
primeiro com uma mo depois com a outra, em meio  l grossa do
sobretudo, at alcanar a bainha, na altura dos joelhos dela. Ali ele se
segurou bem e olhou em torno. Eles tinham montado uma base e fixado um
holofote, que lanava um claro sobre os rochedos molhados. Mas quando
olhou para baixo, para localizar os pontos de sombra, viu o claro
comear a se balanar para o lado sob uma forte rajada de vento. Ouviu
um grito e a luz se apagou de repente. Pulou para o cho imediatamente e
com o impulso saltou para a frente sob o granizo intenso que caa, em
direo ao sargento, que tinha se aproximado num movimento brusco, para
tentar segurar o holofote que caa. 373 Nessa confuso, Lorde Roke
saltou sobre a perna do homenzarro; quando passou girando diante dele,
agarrou-se ao algodo do tecido de camuflagem das calas -j pesado e
encharcado pela chuva e enterrou uma ponta de espora na carne logo acima
da bota. O sargento deu um berro enrouquecido e caiu desajeitadamente,
agarrando a perna, tentando respirar, tentando gritar pedindo ajuda.
Lorde Roke se soltou e saltou para longe do corpo que caa. Ningum
havia percebido: o rudo do vento, dos motores e o martelar incessante
do granizo e da chuva encobriram totalmente o grito do homem, e na
escurido seu corpo no podia ser visto. Mas havia outros homens por
perto e Lorde Roke teve que trabalhar rapidamente. Ele saltou para junto
do quadril do homem cado, onde o molho de chaves estava numa poa de
gua gelada, e foi afastando as enormes setas de ao, com uma espessura
igual a uma vez e meia o seu brao e com a metade de sua altura de
comprimento, at encontrar a chave que tinha a fita preta. E ento teve
que lutar com o fecho do chaveiro, o tempo todo correndo o risco
perptuo do granizo, que para um galivespiano era mortal: blocos de gelo
to grandes quanto seus dois punhos juntos. E ento uma voz acima dele
disse: -O senhor est bem, Sargento? O daemon do soldado estava rosnando
e esfregando o focinho no do sargento, que havia cado em estado
semiletrgico. Lorde Roke no podia esperar: um salto e um chute e o
outro homem caiu ao lado do sargento. Puxando o peso com enorme esforo,
lutando e arquejando, Lorde Roke finalmente conseguiu abrir o chaveiro e
ento teve que levantar seis outras chaves, tirando-as do caminho antes
que a chave com a fita adesiva preta estivesse livre. Agora, a qualquer
segundo, eles conseguiriam acender de novo o holofote, mas, mesmo na
semi-obscuridade, dificilmente deixariam de ver dois homens cados
inconscientes. E, enquanto ele arrastava a chave para fora do chaveiro,
elevou-se um grito. Ele puxou o peso da seta macia com toda a 374 fora
que tinha, empurrando, dando puxes, levantando, movendo-se apoiado nas
mos e nos joelhos, arrastando, e escondeu-se ao lado de um pequeno
pedregulho, justo no momento em que chegavam ps correndo e vozes
gritavam pedindo luz. -Foram baleados? -No ouvi nada! -Esto
respirando? Ento o holofote, novamente montado e firme sobre a base,
tornou a se acender. Lorde Roke foi apanhado sem nenhuma cobertUra, to
visvel quanto uma raposa diante dos faris de um carro. Ele se manteve
absolutamente imvel, os olhos se movendo para a esquerda e para a
direita, e depois que se assegurou que a ateno de todo mundo estava
concentrada nos dois homens que haviam sido derrubados to
misteriosamente, com grande esforo puxou a chave para cima do ombro e
correu, contornando poas e pedregulhos at alcanar a Sra. Coulter. Um
segundo depois, ela havia destrancado as algemas e as largado
silenciosamente no cho. Lorde Roke saltou para a bainha de seu casaco e
subiu correndo at o ombro dela. -Onde est a bomba? -perguntou ele,
junto  sua orelha. -Eles apenas acabaram de comear a descarreg-la. 
aquele caixote grande ali adiante, no cho. No posso fazer nada
enquanto no a tirarem do caixote e mesmo depois disso! -Est bem -disse
ele -; fuja. Esconda-se. Eu fico aqui vigiando. Corra! Ele desceu com um
pulo para a manga do casaco e saltou para longe. Sem fazer nenhum rudo,
ela foi se afastando da luz, lentamente, de incio, de maneira a no
chamar a ateno do guarda, e depois se agachou e correu para a
escurido fustigada pela chuva mais acima na encosta, o macaco dourado
correndo  sua frente para escolher o caminho. s suas costas ouviu o
rugido contnuo dos motores, misturado com gritos, a voz poderosa do
Presidente tentando impor alguma ordem na situao. Ela se lembrou da
dor prolongada, horrorosa, e das alucinaes que havia sofrido depois de
levar uma ferroada 375 da espora do Cavaleiro Tialys e no invejou o
despertar dos dois homens. Mas logo estava em terreno mais alto,
escalando com dificuldade as rochas molhadas, e tudo o que conseguia ver
atrs de si era o claro oscilante do holofote refletido pela enorme
carcaa arredondada do zepelim; e pouco depois o holofote se apagou e
tUdo o que podia ouvir era o rugido do motor, lutando inutilmente contra
a fora do vento e o rugido da catarata mais abaixo. Do outro lado da
borda do desfiladeiro, os engenheiros da usina hidroambrica estavam
lutando para trazer um cabo de alta tenso at a bomba. O problema da
Sra. Coulter no era como escapar daquela situao com vida: isso era
uma questo secundria. O problema era como tirar o cabelo de Lyra de
dentro da bomba antes que eles a detonassem. Lorde Roke tinha queimado o
cabelo do envelope depois que ela fora presa, deixando que o vento
levasse as cinzas para longe no cu noturno; e depois conseguira dar um
jeito de entrar no laboratrio e observar enquanto eles colocavam o
resto do pequenino cacho de cabelos louro-escuros na cmara ressonante
aprontando-a. Ele sabia exatamente onde estava e como abrir a cmara,
mas a luz intensa e as superfcies reluzentes no laboratrio, para no
mencionar as constantes idas e vindas dos tcnicos, tornaram impossvel
que pudesse fazer qualquer coisa com relao a isso enquanto estivesse
l. De modo que teriam que retirar o cacho de cabelo depois que a bomba
estivesse montada. E isso seria ainda mais difcil, por causa do que o
Presidente pretendia fazer com a Sra. Coulter. A energia da bomba
originava-se de cortar o elo ligando o ser humano a seu daemon e isso
significava o abominvel processo de seccionamento, as cabines de tela
de liga de mangans e titnio, e a guilhotina prateada. Ele iria cortar
a ligao de toda uma vida entre ela e o macaco dourado, e usar a
energia liberada pelo corte para destruir sua filha. Ela e Lyra
morreriam atravs do procedimento que ela 376 mesma havia inventado.
Pelo menos era elegante, pensou a Sra. Coulter. Sua nica esperana era
Lorde Roke. Mas, durante as conversas sussurradas no zepelim, ele havia
lhe explicado a potncia dos ferres de suas esporas: no podia
continuar a us-los repetidamente, porque a cada ferroada o veneno
ficava mais fraco. Levava um dia para que a potncia total voltasse a se
acumular. Dentro de muito pouco tempo a principal arma de Lorde Roke
perderia sua fora e ento eles teriam que contar apenas com a
engenhosidade e esperteza que possuam. Ela encontrou um rochedo que se
projetava para fora junto s razes de abeto vermelho que se agarravam 
parede do desfiladeiro e sentou-se ali debaixo para examinar o terreno
dos arredores. Atrs dela e acima, sobre a orla da ravina e recebendo a
plena fora do vento, estava a usina geradora. Os engenheiros estavam
armando uma fileira de luzes para ajud-los a trazer o cabo at a bomba:
ela podia ouvir as vozes deles no muito longe, gritando ordens, e ver
as luzes balanando em meio s rvores. O cabo propriamente dito, grosso
como um brao de homem, estava sendo puxado de um gigantesco carretel
num caminho no alto da encosta e, a julgar pela velocidade com que
estavam progredindo na descida pelas rochas, alcanariam a bomba em
cinco minutos ou menos. No zepelim, o Padre MacPhail havia censurado
severamente os soldados. Vrios homens estavam montando guarda,
observando a escurido cheia de granizo e chuva com os rifles em punho,
enquanto outros abriam o caixote de metal contendo a bomba e a
preparavam para receber o cabo. A Sra. Coulter podia v-la claramente
sob a luz intensa dos holofotes, com a gua da chuva escorrendo, um
volume deselegante de equipamento e fios, ligeiramente inclinado no solo
rochoso. Ela ouviu uma srie de estalos, o crepitar de alta tenso e o
zumbido das luzes, cujos cabos balanavam ao vento, espalhando a chuva,
e lanando sombras para cima e para baixo sobre as rochas, como uma
grotesca corda de pular. 377 A Sra. Coulter tinha uma terrvel
familiaridade com uma parte da estrutura: as cabines de tela metlica, a
lmina prateada no alto. Elas estavam numa das extremidades do
equipamento. O resto era-lhe desconhecido; no conseguia ver nenhuma
lgica do modo de funcionamento ordenando as bobinas, os vasos, as
longas fileiras de isoladores, a armao em trelia da tubulao. Apesar
disso, em algum lugar em toda aquela complexidade estava o pequeno cacho
de cabelos de que tudo dependia. A sua esquerda, a encosta desaparecia
em declive na escurido e bem longe, l embaixo, havia uma luz branca,
fraca e trmula, e o estrondo das guas das cataratas de
Saint-Jean-Les-Eaux. Houve um grito. Um soldado deixou cair seu rifle e
cambaleou para a frente, depois caiu no cho esperneando e se debatendo
de dor. Em resposta, o Presidente olhou para o cu, ps as mos em
concha em volta da boca e soltou um berro penetrante. O que ele estava
fazendo? Um instante depois a Sra. Coulter descobriu. De todas as coisas
improvveis, uma bruxa desceu voando e pousou ao lado do Presidente,
enquanto ele gritava para se fazer ouvir por causa do vento. -Vasculhe
os arredores! H algum tipo de criatura ajudando a mulher. J atacou
vrios de meus homens. Voc pode ver no escuro. Encontre-a e mate-a. -H
alguma coisa se aproximando -disse a bruxa, num tom que chegou muito
claramente at o abrigo da Sra. Coulter. -Posso ver ao norte. -No se
preocupe com isso. Encontre a criatura e destrua-a - ordenou o
Presidente. -No pode estar muito longe. E procure a mulher tambm. V!
A bruxa saltou para o ar. De repente, o macaco dourado agarrou a mo da
Sra. Coulter e apontou. 378 L estava Lorde Roke, deitado em terreno
descoberto, num pequeno retngulo de musgo. Como poderiam no t-lo
visto? Mas alguma coisa havia acontecido, pois ele no estava se
mexendo. -V e traga-o aqui -disse ela, e o macaco, agachando-se rente
ao cho, correu de uma rocha para outra, dirigindo-se para o pequenino
retngulo de musgo. Seu plo dourado logo foi escurecido pela chuva e
ficou encharcado, colado ao corpo, tornando-o menor e mais difcil de
ver, mas ao mesmo tempo terrivelmente visvel. Enquanto isso, o Padre
MacPhail tinha tornado a se virar para a bomba. Os engenheiros da usina
geradora tinham trazido o cabo at junto dela e os tcnicos estavam
ocupados prendendo as braadeiras e preparando os terminais. A Sra.
Coulter perguntou a si mesma o que ele pretendia fazer, agora que sua
vtima tinha escapado. Ento o Presidente virou-se para olhar por sobre
o ombro e ela viu a expresso de seu rosto. Era to dura e intensa que
ele parecia mais uma mscara que um homem. Os lbios se moviam dizendo
uma prece, seus olhos estavam voltados para o alto, muito abertos
enquanto a chuva batia neles, e no todo ele parecia uma ameaadora
pintura espanhola de um santo no xtase do martrio. A Sra. Coulter
sentiu uma terrvel pontada de medo, porque sabia exatamente o que ele
pretendia: ele ia se sacrificar. A bomba funcionaria quer ela fIzesse
parte dela ou no. Movendo-se rapidamente de rocha em rocha, o macaco
dourado alcanou Lorde Roke. -Minha perna esquerda est quebrada -disse
o galivespiano calmamente. -O ltimo homem pisou em mim. Escute com
ateno -Enquanto o macaco o carregava para longe das luzes, Lorde Roke
explicou exatamente onde ficava a cmara ressonante e como abri-la. Eles
estavam praticamente debaixo dos olhos dos soldados, mas, passo a passo,
de sombra em sombra, o daemon foi se esgueirando com seu pequenino
fardo. A Sra. Coulter, seguindo-os com o olhar e mordendo o lbio, ouviu
uma lufada de ar e sentiu uma pancada pesada -no em seu 379 corpo, mas
na rvore. Uma flecha estava cravada no tronco, tremulando, a menos de
um palmo de seu brao esquerdo. Imediatamente ela rolou para longe,
antes que a bruxa pudesse disparar outra, e jogou-se rolando pela
encosta em direo ao macaco. E ento tudo comeou a acontecer ao mesmo
tempo, rpido demais: houve uma rajada de tiros e uma nuvem de fumaa de
cheiro acre espalhou-se em rolos pela encosta, embora ela no visse
chamas. O macaco dourado, vendo a Sra. Coulter sendo atacada, colocou
Lorde Roke no cho e saltou para defend-la, justo no instante em que a
bruxa descia voando, de faca em punho. Lorde Roke arrastou-se para trs,
apoiando-se contra o pedregulho mais prximo, e a Sra. Coulter
atracou-se em combate corpo a corpo com a bruxa. Elas lutaram
furiosamente entre os pedregulhos, enquanto o macaco dourado tratava,
rapidamente, de arrancar todas as agulhas do galho de pinheiro nubgeno
da bruxa. Nesse meio tempo, o Presidente estava enfiando seu daemon
lagarto fmea na menor das cabines de tela. Ela se contorceu, gritou,
esperneou e mordeu, mas ele a derrubou com um golpe violento da mo e
bateu a porta fechando-a rapidamente. Os tcnicos estavam fazendo os
ajustes finais, checando seus medidores e calibradores. Vinda de lugar
nenhum, uma gaivota desceu voando com um grito selvagem e agarrou o
galivespiano com sua garra. Era o daemon da bruxa. Lorde Roke lutou
bravamente, mas o pssaro o segurava com muita fora e ento a bruxa
conseguiu se soltar das mos da Sra. Coulter, agarrou seu galho de
pinheiro nubgeno e saltou no ar para ir se juntar a seu daemon. A Sra.
Coulter lanou-se na direo da bomba, sentindo a fumaa atacar suas
narinas e garganta como se fossem garras: gs lacrimogneo. Os soldados,
a maioria deles, tinham sido derrubados ou saram cambaleando, sufocados
(e de onde tinha vindo o gs, ela se perguntou?); mas agora,  medida
que o vento dispersava o gs, estavam comeando a se reagrupar de novo.
380 A grande barriga reforada do zepelim se avolumava sobre a bomba,
retesando seus cabos sob a fora do vento, os lados da carcaa prateada
escorrendo gua. Mas ento um som vindo de muito alto fez os ouvidos da
Sra. Coulter tinirem: um grito to alto e horrorizado que at mesmo o
macaco dourado agarrou-se nela assustado. E um segundo depois,
despencando num redemoinho de membros brancos, seda negra e galhos
verdes, a bruxa caiu bem aos ps do Padre MacPhail, seus ossos se
esmigalhando audivelmente na pedra. A Sra. Coulter correu, movendo-se
rpida como uma flecha para ver se Lorde Roke havia sobrevivido  queda.
Mas o galivespiano estava morto. Sua espora direita profundamente
enfiada no pescoo da bruxa. A bruxa, contudo, ainda estava viva, se bem
que moribunda, e sua boca se mexeu estremecendo para dizer: -Alguma
coisa vindo... alguma outra coisa... vindo - No fazia nenhum sentido. O
Presidente j estava passando por cima do corpo dela para alcanar a
cabine de tela maior. Seu daemon estava correndo para cima e para baixo
pelas paredes da outra, suas pequenas garras fazendo a tela prateada
tinir, sua voz gritando por piedade. O macaco dourado saltou sobre o
Padre MacPhail, mas no para atac-lo: ele subiu pelas costas do homem e
pelo ombro at alcanar o complexo centro de fios e tubulao, a cmara
ressonante. O Presidente tentou agarr-lo, mas a Sra. Coulter
pendurou-se no brao do homem e tentou pux-lo para trs. Ela no
conseguia mais enxergar: a chuva entrava em seus olhos e ainda havia gs
no ar. E por toda parte ao redor havia rajadas de balas: o que estava
acontecendo? Os holofotes balanavam de tal modo sob o vento que nada
parecia ser firme, nem mesmo as rochas negras das encostas da montanha.
O Presidente e a Sra. Coulter lutaram em combate corpo a corpo, enfiando
as unhas, socando, rasgando, mordendo, e ela estava cansada e ele era
forte; mas ela tambm estava desesperada e poderia ter conseguido
pux-lo dali, mas parte dela estava 381 observando seu daemon enquanto
ele manipulava as manivelas, as patas negras ferozes colocando o
mecanismo rapidamente numa posio, depois noutra, puxando, torcendo,
enfiando a mo para dentro - Ento veio um golpe que a acertou na
tmpora. Ela ficou atordoada e o Presidente conseguiu se soltar e se
atirou sangrando para dentro da cabine, fechando a porta atrs de si. E
o macaco tinha aberto a cmara- uma porta de vidro com pesadas
dobradias, e estava enfiando a mo l dentro -l estava o cacho de
cabelos: seguro entre almofadas de borracha num fecho de metal! Ainda
mais coisas para desfazer; e a Sra. Coulter estava lutando para se
levantar, com as mos trmulas. Ela sacudiu a tela prateada com toda a
sua fora, olhando para cima, para a lmina, os terminais faiscando, o
homem l dentro. O macaco estava desaparafusando o fecho e o Presidente,
seu rosto uma mscara de sinistra exultao, estava juntando e torcendo
fios. Houve um claro de luz intensa, o som de um estampido escoiceante
- Prac! -e o corpo do macaco foi lanado para cima, voando alto no ar.
Com ele foi uma pequena nuvem dourada: seriam os cabelos de Lyra? Seria
seu prprio plo? Fosse l o que fosse, desapareceu voando imediatamente
na escurido. A mo da Sra. Coulter tinha se contrado, apertando com
tanta fora que ficou agarrada  tela, deixando-a meio cada, meio
pendurada, enquanto sua cabea zumbia e seu corao batia disparado. Mas
alguma coisa havia acontecido com sua viso. Uma clareza terrvel tinha
se apoderado de seus olhos, a capacidade de ver at os mais nfimos
detalhes que importavam no universo: preso a uma das almofadas do fecho
na cmara ressonante havia um nico fio de cabelo louro-dourado. Ela deu
um grito lancinante de angstia e sacudiu e sacudiu a cabine, tentando
soltar o fio de cabelo com a pouca fora que lhe restava. O Presidente
passou as mos no rosto, esfregando para afastar a gua da chuva. 382
Sua boca se mexeu como se estivesse falando, mas ela no conseguiu ouvir
nem uma palavra. Ela tentou arrancar a tela com violncia, impotente, e
depois arremessou todo o seu peso contra a mquina, no instante em que
ele juntava dois fios criando uma fagulha. Em silncio absoluto, a
lmina prateada brilhante desceu rapidamente. Alguma coisa explodiu, em
algum lugar, mas a Sra. Coulter no tinha mais condies de sentir.
Surgiram mos que a levantaram: as mos de Lorde Asriel. No havia mais
nada com que se surpreender; a nave da inteno estava atrs dele,
equilibrada na encosta e em posio perfeitamente horizontal. Ele a
tomou nos braos e a carregou at a nave, ignorando as rajadas de balas,
os rolos de fumaa, os gritos de pavor e incompreenso. -Ele est morto?
A bomba explodiu? -ela conseguiu perguntar. Lorde Asriel embarcou na
nave sentando ao lado dela e a pantera branca tambm saltou para dentro,
trazendo o macaco ainda atordoado na boca. Lorde Asriel assumiu os
controles e a nave mais uma vez saltou no ar. Com os olhos atordoados
pela dor, a Sra. Coulter olhou para a encosta da montanha abaixo. Havia
homens correndo aqui e ali, como formigas; alguns jaziam mortos,
enquanto outros se arrastavam com dificuldade pelas rochas; o enorme
cabo da usina geradora que descia serpenteando em meio ao caos era a
nica coisa com uma meta definida  vista, seguindo em direo  bomba
reluzente onde o corpo do Presidente jazia amassado dentro da cabine.
-Lorde Roke? -perguntou Lorde Asriel. -Morto -murmurou ela. Ele apertou
um boto e um lana-chamas jorrou em direo ao zepelim que sacudia e
balanava. Um instante depois o aerstato inteiro floresceu numa rosa de
fogo branco, engolindo a nave da inteno, que se manteve mvel e
intacta dentro dela. Lorde Asriel manobrou a nave afastando-se sem
pressa, e eles observaram enquanto o zepelim em chamas caa devagar, bem
devagar sobre aquele cenrio inteiro, bomba, cabo, 383 soldados e tudo o
mais, e tudo comeou a desmoronar numa confuso de fumaa e chamas,
descendo pela encosta, ganhando velocidade e incinerando as rvores
resinosas  medida que passava, at mergulhar nas guas brancas das
cataratas, que num redemoinho carregaram tudo para a escurido. Lorde
Asriel mexeu nos controles de novo e a nave da inteno comeou a se
afastar rapidamente em direo ao norte. Mas a Sra. Coulter no
conseguia despregar os olhos da cena; ficou olhando para trs durante
muito tempo, contemplando o fogo com os olhos cheios de lgrimas, at
que no passasse de uma linha vertical cor de laranja riscada na
escurido, coroada de fumaa e vapor, e depois mais nada. 384 *26 O
ABISMO O SOL DEIXOU SEU NEGRUME E ENCONTROU UM MAIS FRESCO AMANHESCER E
A ALVA LUA SE ALEGRA NO CU LIMPO DA NOITE CLARA... WILLIAM BLAKE Estava
escuro, de um negrume envolvente, fazendo presso to forte sobre os
olhos de Lyra que ela quase sentia o peso dos milhares de toneladas de
rocha acima deles. A nica luz de que dispunham vinha da cauda luminosa
da liblula de Lady Salmakia, e mesmo essa estava comeando a perder a
fora, pois os pobres insetos no tinham encontrado o que comer no mundo
dos mortos e a liblula do cavaleiro havia morrido pouco antes. Assim,
enquanto Tialys sentava-se no ombro de Will, Lyra segurava a liblula da
pequena dama nas mos, e Salmakia a acalmava e falava baixinho com a
criatura trmula, alimentando-a primeiro com migalhas de biscoito e
depois com seu prprio sangue. Se Lyra a tivesse visto fazer isso, teria
oferecido o seu, uma vez que possua maior quantidade; mas as foras que
tinha estavam todas dedicadas a pr um p com firmeza diante do outro e
evitar as partes mais baixas do rochedo acima. A harpia Sem-Nome os
conduzira pelo interior de um sistema de cavernas que os levaria, dizia
ela, ao ponto mais prximo no mundo dos 385 mortos a partir do qual
poderiam abrir uma janela para um outro mundo. Atrs deles vinha a
coluna interminvel de fantasmas. O tnel estava cheio de sussurros,
pois os que vinham mais  frente encorajavam os que vinham atrs,
enquanto os fortes de corao encorajavam os fracos, e os velhos davam
esperana aos jovens. -Ainda falta muito, Sem-Nome? -perguntou Lyra,
baixinho. -Porque esta pobre liblula est morrendo e ento sua luz se
apagar. A harpia parou e virou-se para dizer: -Apenas siga-me. Se no
puder enxergar, oua. Se no puder ouvir, sinta. Os olhos dela brilhavam
ferozmente na escurido. Lyra assentiu e disse: -Est bem, mas no estou
to forte como costumava ser e no sou corajosa, pelo menos, no muito.
Por favor, no pare. Eu vou seguir voc, todos ns vamos. Por favor,
continue, Sem-Nome. A harpia virou-se de volta para a frente e seguiu
adiante, a luminescncia da liblula estava ficando mais fraca a cada
minuto e Lyra sabia que logo desapareceria completamente. Mas enquanto
cambaleava para seguir adiante, uma voz falou bem a seu lado -uma voz
muito familiar. -Lyra... Lyra, minha menina... E ela se virou radiante.
-Sr. Scoresby! Ah, mas estou to contente de ouvir sua voz! E  mesmo o
senhor, pelo que estou vendo... Ah, mas eu queria tanto poder tocar no
senhor! A luz fraca, ela conseguiu distinguir o vulto esguio e o sorriso
irnico do aerstata texano e sua mo se estendeu para a frente por
vontade prpria, em vo. -Eu tambm, minha querida. Mas preciso que me
oua, eles esto armando alguma confuso l fora e voc  o alvo, no me
pergunte como. Este  o menino com a faca? 386 Will estivera olhando
para ele, ansioso para ver aquele velho companheiro de Lyra; mas,
naquele instante, seus olhos passaram direto por Lee para olhar para o
fantasma ao lado dele. Lyra viu imediatamente quem era e ficou
maravilhada com aquela viso adulta de Will -o mesmo queixo pontudo, o
mesmo jeito de levantar a cabea. Will ficou mudo, mas seu pai disse:
-Escute, no temos tempo para falar a respeito disso, apenas faa
exatamente o que eu disser. Pegue a faca agora e encontre o lugar onde
cortaram um cacho de cabelos de Lyra. O tom de sua voz estava
angustiado, aflito, e Will no perdeu tempo perguntando por qu. Lyra,
os olhos arregalados de pavor, levantou a liblula com uma das mos e
apalpou os cabelos com a outra. -No -disse Will, afaste sua mo, assim
no consigo ver. E sob a luz fraca ele conseguiu ver o ponto: pouco
acima da tmpora, havia uma pequena mecha de cabelos que estava mais
curta do que o resto. -Quem fez isso? -perguntou Lyra. -E -Psiu, calada-
disse Will, e perguntou ao fantasma do pai: -O que devo fazer? -Corte o
cabelo dela todo, bem rente, raspando o couro cabeludo. Junte os fios de
cabelo com muito cuidado, todos os fios. No perca nenhum. Ento abra
outro mundo, qualquer um serve, e ponha o cabelo no outro mundo e feche
a abertura. Faa isso agora, imediatamente. A harpia estava observando,
os fantasmas atrs deles estavam se aglomerando sem parar, chegando cada
vez mais perto. Lyra podia ver as faces plidas na semi-obscuridade.
Assustada e confusa, ela ficou parada, mordendo o lbio, enquanto Will
fazia o que seu pai tinha mandado, seu rosto bem perto da ponta da faca,
sob a luz fraca da liblula. Ele cortou um pequeno espao vazio na pedra
de um outro mundo, colocou ali todos os pequenos fios de cabelos
dourados e recolocou a pedra antes de fechar a janela. 387 E ento o
solo comeou a tremer. De algum lugar muito profundo veio o som de um
rugido, rangente, como se o centro da Terra inteiro estivesse girando
sobre si mesmo, como uma vasta roda de azenha, e pequenos fragmentos de
rocha comearam a cair do teto do tnel. O solo balanou bruscamente
para um lado. Will agarrou o brao de Lyra e eles se seguraram um no
outro enquanto a rocha sob seus ps comeava a se mover e deslizar, e
pedaos soltos de pedra passaram por eles despencando e arranhando suas
pernas e ps. As duas crianas, protegendo os galivespianos, se
agacharam, cobrindo a cabea com os braos; e ento, num horrvel
movimento deslizante, viram-se sendo carregados para baixo e para a
esquerda, e se agarraram um no outro ferozmente, demasiado assustados,
sem flego e abalados at para gritar. Seus ouvidos estavam cheios do
som do rugido de milhares de toneladas de rocha despencando e rolando
para baixo junto com eles. Finalmente o movimento parou, embora por toda
parte ao redor deles pedras menores ainda estivessem despencando e
rolando por uma encosta que um minuto antes no estivera ali. Lyra
estava cada sobre o brao esquerdo de Will. Com a mo direita ele
procurou a faca: ainda estava em seu cinto. -Tialys? Salmakia? -chamou
Will com a voz trmula. -Estamos aqui, estamos vivos, os dois -respondeu
a voz do cavaleiro ao lado da orelha dele. A atmosfera estava carregada
de poeira e do cheiro de cordite de rocha despedaada. Era difcil
respirar e impossvel enxergar: a liblula estava morta. -Sr. Scoresby?
-chamou Lyra. -No conseguimos ver nada... O que aconteceu? -Estou aqui
-respondeu Lee, bem perto. -Acho que a bomba explodiu e acho que errou o
alvo. -Bomba? -exclamou Lyra assustada; mas em seguida chamou: -Roger,
voc est a? 388 -Estou -veio o pequeno sussurro. -O Sr. Parry, ele me
salvou. Eu ia cair e ele me segurou. -Olhem -disse o fantasma de John
Parry. -Mas segurem-se bem na rocha e no se movam. A poeira estava
baixando e de algum lugar vinha luz: uma luz trmula, tnue, estranha e
dourada, como uma chuva luminosa de nvoa caindo por toda parte ao redor
deles. Foi o bastante para incendiar o corao deles de medo, pois
iluminava o que estava  esquerda deles, o lugar para onde ela caa -ou
flua, como um rio sobre a borda de uma cachoeira. Era um vasto vazio
negro, como uma fenda que descia para a escurido mais profunda. A luz
dourada flua para dentro dele e se apagava. Eles podiam ver o outro
lado, mas ficava muito mais distante do que um ponto onde Will poderia
ter atirado uma pedra. A direita, uma encosta de pedras de arestas
irregulares, frouxa e precariamente equilibrada, se erguia alta nas
sombras carregadas de poeira. As crianas e seus companheiros estavam se
agarrando ao que no era sequer uma protuberncia na rocha- apenas uns
afortunados pontos de apoio para as mos e os ps -na beira daquele
abismo e no havia outra sada, exceto seguir adiante, pela encosta, em
meio s rochas despedaadas e os rochedos precariamente equilibrados
que, ao que parecia, o menor toque faria despencar direto para o abismo.
E atrs deles,  medida que a poeira assentou, mais e mais fantasmas
olhavam com horror para o abismo. Estavam agachados na encosta,
demasiado assustados at para se mexer. S as harpias no demonstravam
medo; tinham aberto as asas e voado alto, vasculhando a distncia mais 
frente e mais para trs, voando de volta para tranqilizar os que ainda
estavam dentro do tnel, voando para mais adiante para procurar uma
sada. Lyra verificou: pelo menos o aletmetro estava em segurana.
Controlando o medo, olhou ao redor, encontrou o rostinho de Roger e
disse: 389 -Ento vamos l, todos ns ainda estamos aqui e ningum se
machucou. E agora, pelo menos, podemos enxergar. De modo que vamos
tratar de ir andando, vamos tratar de ir andando. No podemos seguir
adiante por nenhum outro caminho, a no ser contornando toda a borda
desse... -Ela apontou para o abismo. -Portanto, temos apenas que tratar
de seguir em frente. Eu juro que Will e eu continuaremos indo at
conseguirmos chegar ao outro lado. De modo que no tenham medo, no
desistam, no fiquem para trs. Digam aos outros. No posso olhar para
trs o tempo todo porque tenho que olhar com cuidado para onde estou
indo, de modo que tenho que confiar em vocs e ter certeza de que nos
seguiro e estaro bem atrs de ns, est bem? O pequenino fantasma
assentiu. E assim, num silncio pasmo, a coluna de mortos comeou sua
jornada acompanhando a borda do abismo. Quanto tempo levou, nem Lyra nem
Will podiam calcular; como foi assustador e perigoso jamais poderiam se
esquecer. A escurido abaixo era to profunda que parecia puxar o olhar
para dentro dela e uma horrenda tonteira apoderou-se da mente deles.
Sempre que podiam, olhavam fixamente para a frente, para aquela pedra,
aquele ponto de apoio, aquela protuberncia, aquele monte de cascalho
solto e mantinham os olhos afastados da garganta; mas ela sugava,
seduzia e eles no podiam deixar de olhar rapidamente para ela, e ento
sentiam o equilbrio oscilar, o olhar perder a clareza e uma nusea
terrvel apertar-lhes a garganta. De vez em quando, os vivos olhavam
para trs e viam a fila infinita de mortos saindo serpenteando da fenda
por onde tinham passado: mes apertando o rosto de seus bebs contra o
peito, pais mais idosos andando pesada e lentamente, crianas pequenas
agarradas s saias da pessoa na frente, meninos e meninas da idade de
Roger mantendo-se firmes e cuidadosos, eram tantos deles... E todos
seguindo Will e Lyra, como ainda esperavam, em direo ao ar livre. Mas
alguns no confiavam neles. Aglomeravam-se bem perto logo atrs deles e
as duas crianas sentiram suas mos frias em seus coraes e dentro de
suas entranhas, e ouviram seus sussurros malvados: 390 -Onde fica o
mundo superior? Quanto ainda falta? -Estamos com medo aqui! -No
deveramos ter vindo, pelo menos l no mundo dos mortos tnhamos um
pouco de luz e alguma companhia, isto aqui  muito pior! -Vocs fizeram
uma coisa errada ao vir para nosso mundo! Deveriam ter ficado em seu
prprio mundo e esperado para morrer antes de descerem para vir nos
perturbar! -Com que direito esto nos conduzindo? Vocs so apenas
crianas! Quem lhes deu autoridade para isso? Will queria se virar e
censur-los abertamente, mas Lyra o segurou pelo brao; eles estavam
infelizes e assustados, argumentou ela. Ento Lady Salmakia falou, e sua
voz clara e calma foi muito longe no grande vazio. -Amigos, sejam
corajosos! Fiquem juntos e continuem avanando! O caminho  difcil, mas
Lyra o encontrar. Sejam pacientes e tenham nimo, ns os conduziremos
para fora daqui, no tenham medo! Lyra se sentiu fortalecida ao ouvir
aquelas palavras e essa era a verdadeira inteno da pequenina dama. E
assim prosseguiram na rdua caminhada, esforando-se dura e penosamente.
-Will -chamou Lyra, depois de alguns minutos, est ouvindo esse vento?
-Estou -respondeu Will. -Mas no estou sentindo vento nenhum. E vou lhe
dizer uma coisa sobre esse buraco l embaixo.  o mesmo tipo de coisa
que vejo quando corto uma janela. O mesmo tipo de borda. Tem alguma
coisa especial nesse tipo de borda, depois que voc toca nela nunca mais
esquece. E posso v-la ali embaixo, bem no lugar onde a rocha despenca e
some na escurido. Mas aquele espao grande ali, aquilo no  um outro
mundo como todos os outros.  diferente. No gosto dele. Gostaria de
poder fech-lo. -Voc no fechou todas as janelas que abriu. -No, no
fechei algumas delas, porque no pude. Mas sei que deveria ter fechado.
As coisas do errado se elas so deixadas abertas. 391 E uma grande como
essa... -Ele fez um gesto para baixo, no querendo olhar. -Est errado.
Alguma coisa ruim vai acontecer. Enquanto os dois conversavam, uma outra
conversa estivera se desenrolando a pouca distncia de onde estavam: o
Cavaleiro Tialys estava falando em voz baixa com os fantasmas de Lee
Scoresby e John Parry. -Ento o que est dizendo, John? -perguntou Lee.
-Est dizendo que no devemos sair para o ar livre? Amigo, cada uma das
partculas em mim est louca para se unir de novo ao resto do universo
dos vivos! -Sim, e eu tambm -respondeu o pai de Will. -Mas creio que se
aqueles de ns que esto habituados a combater pudessem resistir e
ficar, poderamos conseguir entrar na batalha combatendo ao lado de
Lorde Asriel. E se fizssemos isso no momento certo, faria a maior
diferena. -Fantasmas? -questionou Tialys, tentando esconder o ceticismo
em sua voz, mas sem conseguir. -Como poderiam lutar? -No poderamos
ferir seres vivos, isso  absolutamente verdade. Mas o exrcito de Lorde
Asriel vai combater outros tipos de seres tambm. -Aqueles Espectros
-observou Lee. -Era exatamente nisso que eu estava pensando. Eles atacam
os daemons, no ? E nossos daemons j se foram h muito tempo. Vale a
pena tentar, Lee. -Bem, estarei com voc, meu amigo. -E o senhor,
cavaleiro -disse o fantasma de John Parry para Tialys: -Estive falando
com os fantasmas de seu povo. Vai viver tempo suficiente para ver
novamente o mundo, antes de morrer e voltar como fantasma? -Isso 
verdade, nossa vida  curta, se comparada com a de vocs. Tenho mais
alguns dias de vida pela frente -respondeu Tialys - e Lady Salmakia um
pouco mais de tempo, talvez. Mas, graas ao que 392 essas crianas esto
fazendo, nosso exlio como fantasmas no ser permanente. Tenho me
orgulhado muito por ajud-los. Eles seguiram adiante. E aquela queda
abominvel bocejava o tempo todo e um pequeno escorrego, um passo sobre
uma pedra solta, um descuido ao segurar o ponto de apoio, lanaria voc
l para baixo, para todo o sempre, pensou Lyra, to longe que voc
morreria de fome antes de jamais chegar ao fundo e ento seu pobre
fantasma continuaria caindo e caindo dentro de uma garganta infinita,
sem ningum para ajudar, sem mos que pudessem se estender para tir-lo
de l, consciente para sempre e caindo para sempre... Ah, aquilo seria
muito pior que o mundo cinzento silencioso que estavam deixando para
trs, no seria? Ento uma coisa estranha aconteceu com sua mente. O
pensamento sobre a queda induziu uma espcie de vertigem em Lyra e ela
balanou. Will estava logo na frente dela, mas s que um pouco afastado
demais para que ela pudesse estender a mo e toc-lo, seno poderia ter
segurado a mo dele; mas naquele momento ela estava mais consciente de
Roger e uma pequena centelha de vaidade se acendeu por um instante em
seu corao. Certa vez, no telhado da Faculdade Jordan, tinha havido uma
ocasio em que s para assust-lo ela tinha desafiado sua vertigem e
caminhado sobre a beirada da calha de pedra. Ela olhou para trs para
record-lo daquilo naquele instante. Era a Lyra de Roger, cheia de graa
e de ousadia; no precisava ir se arrastando como um inseto. Mas a voz
sussurrante do garotinho disse: -Lyra, tenha cuidado... lembre-se, voc
no est morta como a gente - E pareceu acontecer to lentamente, mas
no houve nada que ela pudesse fazer: seu peso se deslocou, as pedras se
moveram debaixo de seus ps e, sem conseguir se proteger, ela comeou a
escorregar. No primeiro momento foi irritante e, logo depois, foi
cmico: ela pensou mas que besteira! Mas  medida que ela de fato no
conseguiu se segurar em 393 coisa alguma, enquanto as pedras rolavam e
despencavam abaixo dela,  medida que foi deslizando para baixo em
direo  borda, ganhando velocidade, o horror da situao apoderou-se
dela com violncia. Ela ia cair. No havia nada para impedi-la. J era
tarde demais. Seu corpo foi sacudido por uma convulso de terror. Ela
nem se deu conta dos fantasmas que se atiraram no cho abaixo dela para
tentar segur-la, apenas para v-la passar rapidamente atravs deles
como uma pedra na neblina. Ela no sabia que Will estava gritando seu
nome to alto que o abismo ressoava, fazendo eco. Em vez disso, todo o
seu ser era um vrtice que rugia de medo. Depressa, cada vez mais
depressa: ela foi escorregando e rolando, caindo, caindo, e alguns
fantasmas no puderam suportar ver aquilo: cobriram os olhos e gritaram
alto. Will estava eletrizado pelo medo. Ficou observando, tomado pela
angstia, enquanto Lyra descia, escorregando, escorregando cada vez
mais, sabendo que no podia fazer nada e sabendo que tinha que olhar.
To incapaz de ouvir o gemido desesperado que saa de seus prprios
lbios quanto ela. Mais dois segundos -mais um segundo -e ela estaria na
borda, no conseguiria parar, estaria l, estava caindo - E, saindo da
escurido, num movimento rpido e circular para baixo, surgiu aquela
criatura cujas garras, no fazia muito tempo, tinham aberto lanhos em
seu couro cabeludo, a harpia Sem-Nome, com rosto de mulher, asas de
pssaro; e aquelas mesmas garras se fecharam cerradas em torno do pulso
da menina. Juntas elas continuaram o mergulho para baixo, o peso
adicional quase demais para as asas fortes da harpia, mas elas bateram,
e bateram, e bateram, e as garras seguraram firme e, devagar,
pesadamente, devagar, pesadamente, a harpia veio carregando a criana
para cima e para cima, tirando-a do abismo e a levou frouxa e desmaiada
para os braos estendidos de Will. Ele a abraou com fora, apertando-a
contra o peito, sentindo o bater descontrolado do corao de Lyra contra
suas costelas. Naquele instante, ela no era Lyra e ele no era Will;
ela no era uma menina e ele no era um menino. Eles eram os dois nicos
seres humanos na vasta 394 garganta da morte. Ficaram abraados,
agarrados um no outro, e os fantasmas se agruparam ao redor, sussurrando
palavras de consolo, abenoando a harpia. Os dois mais prximos eram o
pai de Will e Lee Scoresby, e como desejaram poder abra-la tambm; e
Tialys e Salmakia falaram com Sem-Nome, elogiando-a, chamando-a de a
salvadora de todoS, de a grande generosa, abenoando sua gentileza. To
logo Lyra conseguiu se mexer, ainda trmula, estendeu os braos para a
harpia e abraou seu pescoo, beijando e beijando o rostO devastado. Ela
no conseguia falar. Todas as palavras, toda a confiana, toda a vaidade
tinham-lhe sido arrancadas. Ficaram parados ali por alguns minutos.
Depois que o terror comeou a diminuir, puseram-se em marcha novamente,
Will segurando firme a mo de Lyra em sua mo boa, e seguiram
cautelosamente, verificando a firmeza do solo a cada passo, antes de
porem qualquer peso nele, um processo to lento e cansativo que pensaram
que iriam morrer de fadiga, mas no podiam descansar, no podiam parar.
Como poderia algum descansar com aquela pavorosa garganta ali, logo
abaixo? E depois de mais uma hora de rdua caminhada, ele disse a ela:
-Olhe ali adiante. Acho que h uma sada... Era verdade: a encosta
estava se tornando menos ngreme e era possvel at subir um pouco,
subir e se afastar da beira. E adiante: aquilo no era uma concavidade
na parede do penhasco? Poderia realmente ser uma sada? Lyra olhou bem
nos olhos fortes e brilhantes de Will e sorriu. Continuaram a escalada
difcil, usando os ps e as mos, indo para cima, mais para cima, a cada
passo se afastando mais do abismo. E  medida que iam subindo,
descobriram que o solo ia ficando mais firme, os apoios para as mos
mais seguros, os pontos de apoio para os ps com menos probabilidade de
rolar e torcer seus tornozelos. -J devemos ter escalado um bom pedao
agora- disse Will. -Eu poderia fazer uma tentativa com a faca e ver o
que encontro. 395 -Ainda no -disse a harpia. -Ainda falta um pedao do
caminho. Este  um lugar ruim para abrir. Tem um lugar melhor mais
acIma. Eles prosseguiram em silncio, mo, p, peso para testar,
impulso, mo, p... Estavam com os dedos esfolados, os joelhos e quadris
tremendo por causa do esforo, a cabea doa e zumbia de exausto.
Escalaram os ltimos metros at a base do penhasco, onde uma passagem
estreita seguia um pouco mais adiante para a sombra. Lyra observou com
os olhos doloridos enquanto Will tirava a faca e comeava a procurar no
ar vazio, tateando, puxando de volta, procurando, tateando de novo. -Ah
-disse ele. -Voc achou uma fenda? -Acho que sim... -Will - chamou o
fantasma do pai dele, pare um instante. Oua o que vou dizer. Will
baixou a faca e se virou. Com todo aquele esforo, no tinha podido nem
pensar em seu pai, mas era bom saber que ele estava ali. De repente ele
se deu conta de que iam se separar pela ltima vez. -O que vai acontecer
quando o senhor sair? -perguntou Will. -Vai simplesmente desaparecer?
-Ainda no. O Sr. Scoresby e eu temos uma idia. Alguns de ns vo
permanecer aqui por mais um tempo e precisaremos que nos deixe entrar no
mundo de Lorde Asriel, porque ele poderia precisar de nossa ajuda. Alm
disso -prosseguiu em tom sombrio, olhando para Lyra, tero que seguir
para l tambm, se quiserem tornar a encontrar seus daemons. Porque foi
para l que eles foram. -Mas, Sr. Parry -disse Lyra, como sabe que
nossos daemons foram para o mundo de meu pai? -Eu era um xam quando
estava vivo. Aprendi a ver coisas. Pergunte a seu aletmetro, ele vai
confirmar o que digo. Mas lembre-se disso a respeito de daemons -disse
ele, e sua voz tinha um tom intenso 396 e enftico. -O homem que
conheceu como Sr. Charles Latrom tinha que voltar periodicamente a seu
prprio mundo; ele no podia viver permanentemente no meu. Os filsofos
da Guilda da Torre degli Angeli, que viajaram entre os mundos durante
300 anos ou mais, descobriram que a mesma coisa era verdade e,
gradualmente, em resultado disso, o mundo deles foi se enfraquecendo e
se degradando. "Depois houve o que aconteceu comigo. Eu era um soldado;
era um oficial do Corpo de Fuzileiros da Marinha Real e deixei a
carreira militar para ganhar a vida tornando-me um explorador e guiando
expedies; estava em excelente forma fsica e era to saudvel quanto 
possvel que um ser humano seja. Ento sa de meu mundo totalmente por
acaso e no consegui mais encontrar o caminho de volta. Eu fiz muitas
coisas e aprendi realmente muito no mundo onde me encontrava, mas dez
anos depois de ter chegado l, estava mortalmente doente. "E este  o
motivo de todas essas coisas: seu daemon s poder viver plenamente sua
vida no mundo em que nasceu. Em outro mundo ele acabar adoecendo e
morrendo. Ns podemos viajar, se houver aberturas, para outros mundos,
mas s podemos viver em nosso prprio mundo. O grande empreendimento de
Lorde Asriel fracassar no final pelo mesmo motivo: temos que construir
a repblica do cu no lugar onde estamos porque para ns no h outro
lugar. "Will, meu filho, voc e Lyra podem sair agora, para descansar um
pouco; esto precisando e merecem isso; mas depois devem voltar aqui
para a escurido comigo e com o Sr. Scoresby para uma ltima jornada."
Will e Lyra trocaram um olhar. Ento ele cortou uma janela e foi a coisa
mais bonita que eles jamais tinham visto. O ar noturno encheu seus
pulmes, fresco, limpo e leve; os olhos deles se banquetearam com o
dossel de estrelas brilhantes e com o brilho da gua em algum lugar mais
abaixo, e havia bosques de rvores imensas, altas como castelos,
salpicando a vastido da savana. Will aumentou a janela alargando-a
tanto quanto pde, andando na relva para a esquerda e para a direita,
tornando-a grande o bastante 397 para que seis, sete, oito pudessem
passar atravs dela andando lado a lado, saindo da terra dos mortos. Os
primeiros fantasmas tremeram de esperana e o entusiasmo foi se
propagando, como uma ondulao sobre a gua, percorrendo a longa fileira
atrs deles, tanto crianas pequenas como pais idosos olhando para o
alto e para a frente radiantes e maravilhados, enquanto as primeiras
estrelas que viam em sculos brilhavam com esplendor, atravs da janela,
para seus pobres olhos famintos. O primeiro fantasma a deIXar o mundo
dos mortos foi Roger. Ele deu um passo  frente, virou-se para trs para
olhar para Lyra, ento deu uma risada de surpresa quando se viu
virando-se de volta para a noite, para a luz das estrelas, para o ar...
e ento desapareceu, deixando atrs de si uma pequenina exploso de
felicidade to vvida que Will se lembrou das borbulhas numa taa de
champanhe. Os outros fantasmas o seguiram, e Will e Lyra caram exaustos
na relva carregada de orvalho, cada nervo em seus corpos abenoando o
cheiro agradvel e aromtico da terra frtil, o ar noturno, as estrelas.
398 *27 A PLATAFORMA SIM, EM MEIO  RAMAGEM, MINH'ALMA PLANA; L, COMO
UM PSSARO DESCANSA, E CANTA, DEPOIS AFIA E PENTEIA SUAS ASAS DE
PRATA... ANDREW MARVELL To logo os mulefas comearam a construir a
plataforma para Mary, trabalharam rapido e bem. Ela gostava de ficar
observando-os, porque podiam discutir sem brigar e cooperar sem
atrapalhar uns aos outros, e porque as tcnicas que usavam para rachar,
cortar e encaixar a madeira eram to elegantes e eficientes. Em dois
dias, a plataforma de observao foi projetada, construda e alada para
a posio  determinada. Era firme, espaosa e confortavel, e depois que
ela subiu para la sentiu-se feliz de uma maneira singular, como jamais
havia se sentido. Aquela maneira to singular era fsica. Em meio ao
denso verde do dossel das rvores, com o azul intenso do cu entre as
folhas; com uma brisa mantendo sua pele fresca, e o perfume suave das
flores deliciando-a sempre que o sentia; com o farfalhar das folhas, o
canto das centenas de passaros e o murmrio distante das ondas na beira
do mar, todos os seus sentidos estavam acalentados, nutridos e
satisfeitos, e se ela tivesse podido parar de pensar, teria sido
totalmente envolvida pelo xtase. 399 Mas,  claro, era para pensar que
estava ali. E quando olhou pela luneta e viu a flutuao incessante do
sraf, das partculas de Sombra, para longe da terra, pareceu-lhe que a
felicidade, a vida e a esperana tambem estavam flutuando para longe
junto com elas. Mary no conseguia encontrar nenhuma explicao.
Trezentos anos, os mulefas tinham dito: era ha esse tempo todo que as
rvores vinham ficando debilitadas. Dado o fato de que as partculas de
Sombra passavam igualmente atravs de todos os mundos, presumivelmente a
mesma coisa tambem estava acontecendo no universo de Mary e em todos os
outros. Trezentos anos atrs a Real Sociedade havia sido criada: a
primeira verdadeira sociedade cientfica em seu mundo. Quando Newton
estivera fazendo suas descobertas sobre a ptica e a gravitao.
Trezentos anos antes, no mundo de Lyra, alguem havia inventado o
aletmetro. Na mesma poca, naquele estranho mundo por onde havia
passado para chegar at ali, a faca sutil havia sido inventada. Ela se
deitou nas tabuas de madeira, sentindo a plataforma se mover num ritmo
muito su ave, muito lento, a medida que a rvore imensa balanava sob a
brisa do mar. Levando a luneta ao olho, ela observou a mirade de
minUsculas centelhas flutuar em meio as folhas, passando pelas bocas
abertas das florescencias, em meio as ramagens macias, movendo-se
contra o vento, numa correnteza lenta e deliberada que parecia quase
consciente. O que havia acontecido 300 anos atrs? Seria isso a causa da
correnteza de P, ou seria exatamente o contrario? Ou ser que ambas as
coisas eram resultado de uma causa totalmente diferente? Ou ser que
simplesmente nao estavam absolutamente ligadas? A flutUao era
hipntica. Como seria fcil cair num transe e deixar sua mente vagar
para longe junto com as partculas que fluiam flutuando... Antes que ela
se desse conta do que estava fazendo e porque seu corpo estava calmo,
aquietado, isso foi exatamente o que aconteceu. Ela 400 de repente
despertou de estalo e descobriu que estava fora de seu corpo e entrou em
pnico. Estava um pouco acima da plataforma e alguns centimetros fora
dela, em meio aos galhos. E alguma coisa tinha acontecido com o vento de
P: em vez daquela flutuao lenta, ele estava correndo como as aguas de
um rio numa enchente. Teria ganhado velocidade ou ser que o tempo
estava se movendo de maneira diferente para ela, agora que estava fora
de seu corpo? Qualquer dos dois que fosse, ela teve consciencia do mais
terrivel dos perigos, pois a enchente estava ameaando arrast-la e
carreg-la completamente para longe dali, e era imensa. Ela abriu os
braos para se agarrar a qualquer coisa slida -mas no tinha braos.
No conseguiu contato com nada. Agora estava quase em cima daquela queda
abominavel e seu corpo estava cada vez mais distante e fora de alcance,
adormecido de forma to egosta abaixo dela. Tentou gritar e despertar:
nem um som. O corpo continuou dormindo, e o eu que observava estava
sendo levado embora para muito longe do dossel das folhas e para o cu
aberto. E, por mais que ela lutasse, no conseguia oferecer nenhuma
resistncia. A fora que a carregava era serena e poderosa como agua
jorrando sobre uma comporta: as particulas de P estavam fluindo junto,
como se elas tambem estivessem jorrando sobre alguma beira invisivel. E
levando-a para longe de seu corpo. Ela lanou uma corda de salvao
mental para aquele eu fisico e tentou se lembrar da sensao de estar
dentro dele: todas as sensaes que consistiam em estar viva. Exatamente
como era o toque da tromba, de ponta macia, de sua amiga Atal
acariciando seu pescoo. O sabor de bacon com ovos. O esforo triunfante
em seus mUsculos quando ela se impulsionava, subindo uma parede de
rocha. A dana delicada de seus dedos no teclado de um computador. O
cheiro de caf sendo torrado. O calor de sua cama numa noite de inverno.
E, gradualmente, ela parou de se mover; a corda de salvao se manteve
firme e ela sentiu o peso e a fora da correnteza empurrando na direo
oposta, enquanto se mantinha parada ali no cu. 401 E ento aconteceu
uma coisa estranha. Pouco a pouco ( medida que ela reforava aquelas
memrias de sentidos, acrescentando outras: o sabor de uma Margarita com
gelo picado, que havia tomado na Califrnia, estar sentada debaixo dos
limoeiros no ptio de um restaurante em Lisboa, limpar o gelo do
para-brisa de seu carro), ela sentiu o vento de P amainar. A presso
estava diminuindo. Mas s sobre ela. por toda parte ao redor, acima e
abaixo, a grande enchente corria forte como nunca. De alguma forma havia
um pequenino retalho de quietude em torno dela, onde as partculas
estavam resistindo ao fluxo. Elas eram conscientes! Tinham sentido sua
ansiedade e respondido a ela. Entao comearam a carreg-la de volta para
seu corpo abandonado e quando estava perto o suficiente para v-lo de
novo, to pesado, to seguro, um soluo silencioso sacudiu seu corao.
E ento ela mergulhou de volta em seu corpo e despertou. Respirou fundo
sentindo-se tremer. Pressionou as mos e as pernas contra as pranchas
speras de madeira da plataforma e, um minuto antes quase tendo
enlouquecido de medo, naquele instante sentiu-se de novo tomada por uma
profunda e lenta sensao de xtase por estar de novo unida a seu corpo,
a terra e a tudo o que importava. Finalmente sentou-se e tentou avaliar
a situao. Seus dedos encontraram a luneta e ela a levou ao olho,
apoiando a mo trmula com a outra. Nao havia dvida de que o fluxo
lento de flutuao em toda a amplido do cu tinha se intensificado
tornando-se uma enchente. No havia nada para ouvir e nada para sentir,
e, sem a luneta, nada para ver, mas mesmo depois que tirou a luneta do
olho aquela sensao de inundao rapida permaneceu vvida, junto com
uma outra coisa em que no havia reparado devido ao terror de estar fora
de seu corpo: o profundo e impotente pesar que se espalhava pelo ar. As
partculas de Sombra sabiam o que estava acontecendo e estavam
pesarosas. 402 E ela prpria era parcialmente matria de Sombra. Parte
dela estava sujeita aquela mar que estava se movendo atravs do cosmos.
Como tambem estavam os mulefas e os seres humanos em todos os mundos e
todos os tipos de seres conscientes, onde quer que estivessem. E, a
menos que descobrisse o que estava acontecendo, eles poderiam todos
acabar por se ver derivando rumo ao total apagamento, todos eles. De
repente, ela desejou ardentemente estar em terra de novo. Guardou a
luneta no bolso e comeou a longa escalada para descer at o solo. o
Padre Gomez atravessou a janela quando a luz do entardecer se tornava
mais obliqua e mais su ave. Viu os grandes grupos de rvores-das-rodas e
as estradas serpenteando atravs da pradaria, exatamente como Mary tinha
visto, do mesmo ponto, algum tempo antes. Mas o ar estava limpo, sem
nvoa, pois havia chovido um pouco antes e ele podia ver mais longe do
que ela tinha visto; em particular, ele podia ver o cintilar de um mar
distante e algumas formas brancas em movimento que poderiam ser velas.
Levantou a mochila mais alto nos ombros e seguiu na direo delas para
ver o que poderia descobrir. Era agradvel caminhar na calma do longo
entardecer naquela estrada lisa, com o som de alguns animais semelhantes
a cigarras cantando na relva alta e com o sol suave em seu rosto. O ar
estava fresco e agradavelmente perfumado, completamente limpo dos
vapores imundos de nafta, querosene, ou l o que fosse, que tinham
pairado to pesadamente na atmosfera de um dos mundos por onde ele havia
passado: o mundo ao qual seu alvo, a tentadora em pessoa, pertencia. Ao
por-do-sol, ele chegou a um pequeno promontrio a beira de uma baa de
aguas rasas; a mar estava alta, porque havia uma faixa estreita de
areia macia e branca acima da linha da agua. E, flutuando nas guas
calmas da baa, havia uma dzia ou mais... o Padre Gomez teve que parar
e pensar com cuidado. Uma dzia ou 403 mais de enormes pssaros brancos
como neve, cada um do tamanho de um barco a remo, com longas asas retas
que se arrastavam na gua deixando uma esteira atrs deles: asas muito
longas, com 1,80m ou mais de comprimento. Seriam realmente passaros?
Tinham penas e as cabeas e bicos no eram muito diferentes das de
cisnes, mas aquelas asas ficavam situadas uma na frente da outra,
certamente... De repente, eles o avistaram. Cabeas se viraram
bruscamente e, instantaneamente, todas aquelas asas se levantaram bem
alto, exatamente como as velas de um iate, e todas elas se inclinaram
para receber o impulso da brisa, rumando para terra. O Padre Gomez ficou
impressionado com a beleza daquelas asas-velas, com a maneira como se
flexionavam e ajustavam to perfeitamente e com a velocidade dos
passaros. Ento ele viu que tambem estavam remando: tinham pernas
debaixo d'gua, situadas no na frente e atrs como as asas, mas lado a
lado, e, com as asas e as pernas se movendo juntas, tinham uma
extraordinria velocidade e graa de movimento na gua. Quando o
primeiro chegou a costa, veio andando pesadamente pela areia seca,
diretamente para o padre. Estava sibilando cheio de maldade, estocando
com a cabea para a frente, como um punhal, enquanto vinha bamboleando,
subindo pela praia, e o bico abocanhava e estalava. E o bico tambem
tinha dentes, como uma srie de ganchos afiados encurvados. O Padre
Gomez estava a cerca de 90 metros da beira da agua, num longo
promontrio coberto de relva, e teve tempo de sobra para botar a mochila
no cho, tirar o rifle, carreg-lo e atirar. A cabea do pssaro
explodiu numa neblina de vermelho-e-branco e a criatura morta continuou
andando desajeitadamente, dando vrios passos, antes de tombar sobre o
peito. Ainda levou um minuto ou mais para morrer; as pernas chutavam, as
asas subiam e desciam e o grande passaro se debateu, dando volta aps
volta, num circulo sangrento, chutando para o alto a relva aspera, at
que uma longa expirao 404 borbulhante de seus pulmes acabou com um
gorgolejante jorro vermelho, e ele tombou imvel. Os outros passaros
tinham parado assim que o primeiro caiu e ficaram imveis, observando-o
e observando o homem tambm. Havia uma inteligencia rpida, feroz nos
olhos deles. Olhavam do homem para o passaro morto e dali para o rifle,
e do rifle para o rosto dele. Ele levantou o rifle levando-o ao ombro de
novo e os viu reagir, movendo-se para tras desajeitadamente, juntando-se
num grupo. Eles tinham compreendido. Eram seres belos e fortes, grandes
e de costas largas; na verdade, eram como barcos vivos. Se sabiam o que
era a morte, pensou o Padre Gomez, e se podiam compreender a ligao
entre a morte e ele, ento havia a base para um acordo til entre eles.
Depois que tivessem realmente aprendido a tem-lo, fariam exatamente o
que ele mandasse. 405 *28 MEIA-NOITE INMERAS VEZES ME SENTI
SEMI-APAIXONADO PELA INDULGNCIA DA MORTE...  JOHN KEATS -  Marisa,
acorde. Estamos quase pousando - disse Lorde Asriel. Um dia tempestuoso
estava raiando sobre a fortaleza de basalto quando a nave da inteno
chegou voando, vinda do sul. Dolorida e desgostosa, a Sra. Coulter abriu
os olhos; no estivera dormindo. Viu  o anjo Xaphania planando acima do
campo de pouso e depois se  elevando e seguindo para a torre enquanto a
nave da inteno seguia para a plataforma atrs das trincheiras. Assim
que a nave pousou, Lorde Asriel saltou rapidamente e correu para se
juntar ao Rei Ogunwe na torre de observao a oeste, ignorando por
completo a Sra. Coulter. Os tcnicos que vieram imediatamente cuidar da
aeronave tambm no lhe deram nenhuma ateno; ningum lhe fez perguntas
sobre a perda da aeronave que ela havia roubado; era como se ela tivesse
se tornado invisvel. Dominada pela tristeza, ela seguiu para os
aposentos na torre adamantina, onde um ordenana ofereceu-se para lhe
trazer algo que comer e caf. - Qualquer coisa serve - disse ela. - E
obrigada. Ah, a propsito - prosseguiu, quando o homem se virava para ir
embora - o aletometrista de Lorde Asriel, o Sr. . . - Sr. Basilides? -
Sim. Ele estaria livre para vir at aqui um instante? - Est trabalhando
com seus livros, no momento, madame. Pedirei a ele que venha at aqui
quando puder. Ela se lavou e se trocou, vestindo a nica camisa limpa
que lhe restava. O vento frio que sacudia as janelas e a luz da manh
406 cinzenta a fizeram tiritar. Colocou mais carvo no braseiro, na
esperana de que aquilo a fizesse parar de tremer, mas o frio estava em
seus ossos, no s na carne Dez minutos depois, houve uma batida 
porta. O aletometrista, plido, de olhos escuros, com seu daemon
rouxinol pousado no ombro, entrou e fez uma pequena mesura. Um momento
depois o ordenana voltou trazendo uma bandeja com po, queijo e caf, e
a Sra. Coulter disse: - Muito obrigada por ter vindo, Sr. Basilides.
Posso lhe oferecer alguma coisa? -  Aceito um caf, obrigado. - Por
favor, diga-me - pediu ela, depois de servir a bebida - pois tenho
certeza que tem estado acompanhando o que aconteceu: minha filha est
viva? Ele hesitou. O macaco dourado agarrou o brao da Sra. Coulter. -
Ela est viva - disse Basilides cautelosamente, mas tambm. . . -  Est?
Ah, por favor, o que est querendo dizer? - Ela est no mundo dos
mortos. Durante algum tempo no consegui interpretar o que o instrumento
estava me dizendo: parecia impossvel. Mas no h dvida. Ela e o menino
foram para o mundo dos mortos e abriram uma passagem para os fantasmas
sarem. To logo os mortos chegam ao ar livre, eles se dissolvem como
fizeram seus daemons  e parece que este  o fim mais agradvel e
desejvel para eles. E o aletmetro me diz que a menina fez isso porque
ela ouviu uma profecia de que a morte chegaria ao fim, e achou que esta
era uma tarefa que deveria realizar. Em resultado disso, agora existe
uma sada do mundo dos mortos. 407 A Sra. Coulter no conseguia falar.
Teve que se virar e ir at a janela para esconder a emoo em seu rosto.
Finalmente  disse: - E ela sair de l viva? Mas no, eu sei que o
senhor no pode prever. Ela est. . . como est ela?. . . Ela. . . - Ela
est sofrendo, sentindo dor, est com medo. Mas  tem a companhia do
menino e dos dois espies galivespianos, e todos ainda esto juntos. -
E a bomba? -  A bomba no a feriu. A Sra. Coulter se sentiu exausta, de
repente. No queria mais nada alm de se deitar e dormir durante meses,
durante anos. L fora, a corda da bandeira no mastro estalou e se
sacudiu com estrpito sob o vento, e as gralhas grasnaram enquanto
voavam em  crculos ao redor das fortificaes. - Muito obrigada, senhor
- disse ela, virando-se de volta para o leitor. - Estou muito
agradecida. Por favor, poderia me avisar se descobrir mais alguma coisa
a respeito dela, ou de onde ela est, ou o que est fazendo? O homem fez
uma mesura e se retirou. A Sra. Coulter foi se deitar na cama de
campanha, mas, por mais que tentasse, no conseguiu manter os olhos
fechados. - O que acha daquilo, Rei? - perguntou Lorde Asriel. Ele
estava olhando pelo telescpio da torre de observao para alguma coisa
no cu a oeste. Tinha a aparncia de uma montanha  pendurada no cu, um
palmo acima do horizonte e coberta por nuvens. Estava a uma grande
distncia, to distante, na verdade, que no era maior que uma unha de
polegar afastada  distncia de um brao estendido. Mas no estava ali
h muito tempo, 408 e se mantinha parada l, absolutamente imvel. O
telescpio trouxe-a para mais perto, mas no havia maiores detalhes: uma
nuvem ainda tem a aparncia de uma nuvem, por mas ampliada que seja. - A
Montanha Nublada - respondeu Ogunwe. - Ou, como  que chamam? A
Carruagem? - Com o Regente controlando as rdeas. Ele se escondeu  bem,
esse Metatron. Falam a respeito dele nas escrituras apcrifas: que um
dia foi homem, um homem chamado Enoque, o filho de Jared, seis geraes
depois de Ado. E agora ele governa o reino. E est pretendendo fazer
mais do que isso, se aquele anjo encontrado na beira do lago de enxofre
estava certo, o que entrou na Montanha Nublada para espionar. Se ele
vencer esta batalha, pretende intervir diretamente na vida humana.
Imagine isso, Ogunwe, uma Inquisio permanente, pior que qualquer coisa
com que o Tribunal Consistorial de Disciplina pudesse sonhar, composta
de espies e traidores em todos os mundos, e dirigida, pessoalmente,
pela inteligncia que est mantendo aquela montanha nas alturas. . . A
velha Autoridade pelo menos teve a graa de se retirar; o trabalho sujo
de queimar hereges e enforcar bruxas foi deixado para os padres. Esta
nova ser, de longe, muito pior.  - Bem, ele comeou com a invaso da
repblica - comentou Ogunwe. - Olhe, aquilo  fumaa? Um fluxo flutuante
cinzento estava saindo da Montanha Nublada, uma mancha que se espalhava
lentamente contra o cu azul. Mas no poderia ter sido fumaa: estava
fluindo na direo oposta  do vento que soprava as nuvens com
violncia. O rei levou o binculo at os olhos e viu o que era. - Anjos
- disse. Lorde Asriel afastou-se do telescpio e se levantou, a mo
protegendo os olhos do sol. As centenas e depois aos milhares, e dezenas
de milhares, at que metade daquela parte do cu estivesse escurecida,
as silhuetas minsculas voavam e voavam, e continuavam vindo. Lorde
Asriel tinha visto a fora de bandos de bilhes de estorninhos azuis,
que voavam em crculos, ao pr-do-sol, ao redor do palcio do Imperador
K'ang-Po, mas nunca tinha visto uma multido to vasta em toda a sua
vida. Os seres voadores se reuniram e ento se dividiram movendo-se
lentamente, bem lentamente, para o norte e para o sul. - Ah! E o que 
aquilo? - perguntou Lorde Asriel, apontando. - Aquilo no  o vento. A
nuvem estava rodopiando para o flanco sul da montanha e longos
estandartes esgarados de vapor jorravam para fora sob os ventos fortes.
Mas Lorde Asriel estava certo: o movimento estava vindo de dentro, no
do ar do lado de fora. A nuvem se turvou e se retorceu, estremeceu, e
ento se abriu por um segundo. Havia mais que uma montanha ali, mas eles
s viram por um instante; ento a nuvem rodopiou de volta, como se
puxada sobre a montanha por uma mo invisvel, para escond-la
novamente. O Rei Ogunwe abaixou o binculo. 409 - Aquilo no  uma
montanha - declarou. - Vi plataformas para canhes. . . - Eu tambm.
Toda uma complexidade de coisas. Ser que  ele pode ver o que est do
lado de fora atravs da nuvem? Eu gostaria de saber. Em certos mundos
eles tm mquinas para fazer isso. Mas, quanto a seu exrcito, se esses
anjos so tudo o que eles tm! O rei soltou uma breve exclamao, em
parte de espanto, em parte de desespero. Lorde Asriel se virou e agarrou
o brao dele, apertando os dedos com uma fora que quase fez doer at o
osso. - Eles no tm isso - afirmou ele, e sacudiu violentamente o brao
de Ogunwe. - Eles no tm carne. Ele colocou a mo sobre a face spera
do amigo. - Por mais que sejamos poucos - prosseguiu - e por mais  curta
que seja nossa vida, por mais fraca que seja nossa vista, por mais
frgil que seja nossa pele, em comparao com eles, ainda somos mais
fortes. Eles nos invejam, Ogunwe!  isso que alimenta o dio deles,
tenho certeza. Eles anseiam ter nossos corpos preciosos, to slidos e
poderosos, to bem adaptados  boa terra! E se os golpearmos com fora e
determinao, podemos varrer para longe, rpida e completamente, essas
foras infinitas com a mesma facilidade que voc pode enfiar a mo na
nvoa. A fora deles se limita a isso! - Asriel, eles tm aliados de um
milhar de mundos, seres vivos como ns. - Ns venceremos. - E suponhamos
que ele tenha mandado esses anjos para procurar sua filha? - Minha
filha! - exclamou Lorde Asriel, exultante. - No  extraordinrio trazer
ao mundo uma criana como ela? Voc imaginaria que teria sido o
suficiente ir sozinha procurar o rei dos ursos de armadura e pass-lo
para trs, tomando-lhe seu reino, mas descer ao mundo dos mortos e
calmamente conduzir todos eles para fora! E aquele menino; eu quero
conhecer aquele menino; quero apertar a mo dele. Por acaso sabamos o
que estvamos enfrentando quando comeamos esta rebelio? No. Mas ser
que eles  sabiam, a Autoridade e seu Regente, esse Metatron, ser que
sabiam o que estariam enfrentando quando minha filha foi envolvida? -
Lorde Asriel - disse o rei, - o senhor compreende a importncia que ela
tem para o futuro? - Francamente, no.  por isso que quero ver
Basilides. Para onde ele foi? - Foi ver Lady Coulter. Mas o homem est
exausto; no pode fazer mais nada enquanto no descansar. - Deveria ter
descansado antes. Mande cham-lo, por favor. Ah, mais uma coisa: por
favor, pea  Madame Oxentiel para vir at a torre assim que for
conveniente. Preciso apresentar minhas condolncias a ela. Madame
Oxentiel tinha sido a comandante substituta dos galivespianos. Agora ela
teria que assumir as responsabilidades de 410 Lorde Roke. O Rei Ogunwe
fez uma mesura e deixou seu comandante vasculhando o horizonte cinzento.
Durante aquele dia inteiro o exrcito se reuniu e se preparou. Anjos da
fora militar de Lorde Asriel voaram alto sobre a Montanha Nublada,
procurando uma brecha, mas sem sucesso. Nada mudou; no apareceram mais
anjos voando para dentro ou para fora; os ventos fortssimos rasgavam as
nuvens e as nuvens incessantemente se renovavam, sem se abrir nem por um
segundo. O sol atravessou o cu azul frio e ento comeou a descer a
sudoeste, dourando as nuvens e tingindo o vapor ao redor da montanha de
todos os matizes de creme e escarlate, de damasco e tangerina. Quando o
sol se ps, as nuvens reluziram suavemente iluminadas por dentro. Os
combatentes de todos os mundos onde a rebelio de Lorde Asriel tinha
aliados agora estavam em posio; mecnicos e artfices estavam pondo
combustvel nas aeronaves, carregando armas e calibrando visores de mira
e medidas. Quando chegou a escurido, alguns reforos bem-vindos tambm
chegaram: as patas ligeiras se movendo silenciosamente sobre o solo
gelado do norte, foram chegando separadamente, um por um, diversos ursos
de armadura - foi um grande nmero, muitos ursos vieram e, entre eles,
estava seu rei. No muito depois, chegou o primeiro de vrios cls de
bruxas, o som de ar passando atravs dos galhos de seus pinheiros
nubgenos sussurrando no cu escuro durante muito tempo. Ao longo da
plancie ao sul da fortaleza, milhares de luzes brilhavam, marcando os
acampamentos daqueles que tinham chegado vindos de muito longe. Mais
alm, em todos os quatro cantos da bssola, esquadrilhas de anjos
espies voavam incansavelmente montando guarda.  meia-noite, na torre
adamantina, Lorde Asriel estava sentado discutindo planos com o Rei
Ogunwe, o anjo Xaphania, Madame Oxentiel, a galivespiana, e Teukros
Basilides. O  aletometrista tinha acabado de falar e Lorde Asriel se
levantou, atravessou o aposento indo at a janela e olhou para fora para
o brilho distante da Montanha Nublada pairando no cu a oeste. Os outros
estavam em silncio; tinham acabado de ouvir algo que fizera Lorde
Asriel empalidecer e tremer, e nenhum deles sabia exatamente como
reagir. Afinal, Lorde Asriel se pronunciou. - Sr. Basilides - disse, -
deve estar muito cansado. Estou muito grato por todos os seus esforos.
Por favor, beba um  pouco de vinho conosco. -  Muito obrigado, senhor.
As mos dele estavam tremendo. O Rei Ogunwe serviu o  Tokay dourado e
passou-lhe o copo. - O que isto significar, Lorde Asriel? - perguntou a
voz clara de Madame Oxentiel. Lorde Asriel voltou para a mesa. - Bem -
disse ele, - significar que quando entrarmos em combate teremos um novo
objetivo. Minha filha e esse menino de alguma forma se separaram de seus
daemons e conseguiram sobreviver; e seus daemons esto em algum lugar
aqui neste mundo, corrija-me se estiver resumindo erradamente, Sr.
Basilides - seus daemons 411 esto aqui neste mundo e Metatron est
decidido a captur-los. Se ele capturar os daemons, as crianas tero
que segui-lo; e se ele puder controlar essas duas crianas, o futuro
ser dele, para sempre. - Nossa misso  muito clara: temos que
encontrar os daemons antes que ele o faa e mant-los em segurana at
que a menina e o menino voltem a se juntar a eles. A lder galivespiana
perguntou: -  Que forma eles tm, esses dois daemons perdidos? - Ainda
no tm forma fixa, madame - respondeu  Teukros Basilides. - Poderiam
ter qualquer forma. - Portanto - prosseguiu Lorde Asriel, - para
resumir: todos ns, nossa repblica, o futuro de todos os seres
conscientes, todos ns dependemos de minha filha continuar viva e de
impedir  que seu daemon e o do menino caiam nas mos de Metatron? -
Exatamente. Lorde Asriel suspirou, quase que com satisfao; era como se
ele tivesse chegado ao fim de um longo e complexo clculo, e tivesse
encontrado uma resposta que fazia um sentido bastante inesperado. -
Muito bem - declarou, pondo as mos espalmadas sobre a mesa. - Ento
isto  o que vamos fazer quando a batalha comear. Rei Ogunwe, o senhor
assumir o comando de todos os exrcitos defendendo a fortaleza. Madame
Oxentiel, a senhora dever mandar seu povo sair imediatamente e conduzir
buscas em todas as direes para encontrar a menina e o menino, e os
dois daemons. Quando os encontrarem, devem defend-los com suas vidas
at que tornem a se reunir. Nesse momento, pelo que compreendi, o menino
poder escapar para um outro mundo e ficar em segurana.  A dama
assentiu. Seus cabelos duros, prateados, refletiram a luz da lamparina
brilhando como ao inoxidvel e o falco azul que ela tinha herdado de
Lorde Roke abriu as asas rapidamente na arandela junto  porta. - Agora,
Xaphania - disse Lorde Asriel. - O que sabe a respeito desse Metatron?
Ele outrora foi um homem: ainda tem a fora fsica de um ser humano? -
Ele alcanou a proeminncia muito depois que fui exilada - respondeu o
anjo. - Nunca o vi de perto. Mas no teria sido capaz de dominar o reino
a menos que fosse, realmente, muito, muito forte, forte em todos os
sentidos. A maioria dos anjos evitaria o combate corpo a corpo. Metatron
apreciaria o combate e venceria. Ogunwe percebeu que Lorde Asriel
acabara de ter uma idia. Sua ateno de repente se retraiu, seus olhos
perderam o foco por  um instante e ento rapidamente voltaram a se
concentrar no momento em curso com uma carga adicional de intensidade. -
Compreendo - disse ele. - Finalmente, Xaphania, o Sr. Basilides nos
disse que a bomba deles no somente abriu um abismo abaixo dos mundos,
como tambm fraturou a estrutura das coisas to profundamente que h
fissuras e rachaduras por toda parte. Em algum lugar aqui nas
vizinhanas deve haver um caminho de descida at a borda desse abismo.
Quero que o encontre. - O que pretende fazer? - perguntou o Rei Ogunwe
asperamente. 412 - Vou destruir Metatron. Mas meu papel est quase
encerrado.  minha filha que tem que viver e  nossa misso manter todas
as foras do reino longe dela para que tenha uma chance de encontrar o
caminho para um mundo mais seguro, ela e aquele menino e seus daemons. -
E a Sra. Coulter? - perguntou o rei. Lorde Asriel passou a mo na testa.
- Prefiro que no seja incomodada - declarou. - Deixe-a em paz e
proteja-a se puder. Embora. . . Talvez eu esteja cometendo uma injustia
contra ela. No importa o que tenha feito, ela nunca deixou de me
surpreender. Mas todos ns sabemos  o que ns  devemos fazer e por que
temos que faz-lo: temos que proteger Lyra at ela encontrar seu daemon
e fugir. Nossa repblica poderia ter sido criada com o nico objetivo de
ajud-la a fazer isso. Bem, vamos tratar de fazer isso o melhor que
pudermos. A Sra. Coulter estava deitada na cama de Lorde Asriel no
quarto ao lado. Ao ouvir vozes no aposento vizinho, ela despertou, pois
no estava profundamente adormecida. Acordou de seu sono agitado
sentindo-se aflita e carregada de anseio. Seu  daemon  sentou a seu
lado, mas ela no queria se aproximar da porta; era simplesmente o som
da voz de Lorde Asriel que queria ouvir, mais do que quaisquer palavras
em particular. Acreditava que estavam ambos condenados. Acreditava que
todos eles estivessem condenados. Finalmente ela ouviu a porta se fechar
no outro aposento e se esforou para se pr de p. - Asriel - chamou,
passando pela porta e entrando no gabinete iluminado pela luz clda de
nafta. O daemon  dele rosnou baixinho: o macaco dourado baixou a  cabea
l embaixo em sinal de que buscava conciliao com ela. Lorde Asriel
estava enrolando um grande mapa e no se virou. - Asriel, o que vai
acontecer com todos ns? - perguntou ela, sentando-se numa cadeira. Ele
apertou a base das mos nos olhos. Seu rosto estava muito abatido pelo
cansao. Sentou-se e descansou um cotovelo sobre a mesa. Seus daemons
estavam muito quietos: o macaco agachado no encosto da cadeira, a
pantera branca sentada bem ereta e alerta ao lado de Lorde Asriel,
observando a Sra. Coulter sem piscar. -  Voc no ouviu? - perguntou
ele. - Ouvi um pouco. No consegui dormir, mas no estava prestando
ateno. Onde est Lyra, algum sabe? - No. Ele ainda no tinha
respondido  primeira pergunta e no ia responder, ela sabia disso. -
Ns deveramos ter-nos casado - disse ela - e t-la criado juntos. Foi
um comentrio to inesperado que ele levantou a cabea e olhou
rapidamente para ela. Seu daemon soltou o rosnado mais suave possvel l
no fundo da garganta e se acomodou com as patas estendidas para a frente
na posio da Esfinge. Ele no disse nada. 413 - No consigo suportar a
idia do apagamento total, Asriel - prosseguiu ela. - Prefiro qualquer
coisa a isso. Costumava pensar que a dor seria pior, ser torturada para
sempre, achava que isso devia ser pior... Mas, enquanto voc estivesse
consciente, seria melhor, no seria? Melhor que no sentir nada, apenas
sumir na escurido, tudo se apagando para todo o sempre? O papel dele
era apenas ouvir. Seus olhos estavam cravados nos dela e ele estava
prestando profunda ateno; no havia necessidade de responder. Ela
disse: - No outro dia, quando voc falou a respeito dela com tanta
amargura, e de mim. . . Pensei que a odiasse. Podia compreender que me
odiasse. Eu nunca odiei voc, mas podia compreender. . . eu sabia por
que poderia me odiar. Mas no conseguia compreender por que voc odiava
Lyra. Ele virou o rosto para o lado, lentamente, depois olhou de volta
para ela. - Eu me lembro que voc disse alguma coisa estranha, em
Svalbard, no topo da montanha, pouco antes de partir de nosso mundo -
prosseguiu ela. - Voc disse: venha comigo e destruiremos a fonte do P
para sempre. Voc se lembra de ter dito isso? Mas no era o que estava
querendo dizer. Estava querendo dizer exatamente o oposto, no era?
Agora compreendo. Por que no me disse o que realmente estava fazendo?
Por que no me disse que na verdade estava tentando preservar o P?
Poderia ter-me dito a verdade. - Eu queria que voc viesse comigo e se
unisse a mim - respondeu ele, com a voz rouca e baixa, - e achei que
voc preferiria uma mentira. -  Sim - sussurrou ela, - foi o que pensei.
Ela no conseguia ficar parada na cadeira, mas na verdade no  tinha
foras para se levantar. Por um instante sentiu-se tonta, a cabea
girou, os sons foram sumindo, o aposento escureceu, mas quase que
imediatamente recuperou os sentidos, ainda mais impiedosamente do que
antes, e nada na situao tinha mudado. - Asriel. . . - murmurou. O
macaco dourado estendeu a mo hesitante para tocar na pata da pantera
branca. O homem observou sem dizer uma palavra e Stelmaria no se moveu;
seus olhos estavam cravados na Sra. Coulter. - Ah, Asriel, o que vai
acontecer conosco? - perguntou a Sra. Coulter de novo. - Ser isso o fim
de tudo? Ele no disse nada. Movendo-se como algum em um sonho, ela se
levantou, apanhou a mochila que estava no canto do gabinete e enfiou a
mo para pegar a pistola; e o que ela teria feito a seguir, ningum
saberia, porque naquele momento houve o som de passos subindo as escadas
correndo. Tanto o homem quanto a mulher, e ambos os daemons,  se
viraram para olhar para o ordenana que entrou e disse ofegante: - Com
licena, senhor, os dois daemons,  eles foram avistados, no muito longe
do porto leste, sob a forma de gatos; 414 a sentinela tentou falar com
eles, faz-los entrar, mas no quiseram se aproximar. Isso foi h apenas
um minuto. . . Lorde Asriel endireitou-se na cadeira, transfigurado.
Toda a fadiga havia sido apagada de seu rosto em um instante. Ele se
levantou de um salto e agarrou o sobretudo. Ignorando a Sra. Coulter,
jogou o casaco sobre os ombros e disse para o ordenana: - Avise Madame
Oxentiel imediatamente. Faa circular esta  ordem: os daemons no devem
ser ameaados, nem assustados, ou coagidos de nenhuma forma. Qualquer um
que os veja deve  primeiro. . . A Sra. Coulter no ouviu mais nada do
que ele estava dizendo, porque Lorde Asriel j tinha sado e estava a
meio caminho, descendo a escada. Quando o som de seus passos correndo
tambm desapareceu, os nicos sons eram o sibilar suave da lamparina de
nafta e o gemido do vento selvagem l fora. Os olhos dela encontraram os
olhos de seu daemon. A  expresso do macaco dourado era sutil e
complexa, como sempre tinha sido, ao longo de todos os seus 35 anos de
vida. - Muito bem - disse ela. - No vejo nenhuma outra alternativa.
Acho. . . Acho que ns vamos. . . Ele soube instantaneamente o que ela
queria dizer. Saltou para o colo dela e eles se abraaram. Depois ela
pegou seu casaco forrado de pele e muito silenciosamente os dois
deixaram o gabinete e desceram pelas escadas escuras. 415 *29 A BATALHA
NA PLANCIE TODO HOMEM EST SOB O DOMNIO DE SEU ESPECTRO AT QUE 
CHEGADA A HORA EM QUE SUA HUMANIDADE DESPERTA...  WILLIAM B LAKE Foi
terrivelmente difcil para Lyra e Will deixar aquele mundo agradvel
onde tinham dormido na noite anterior, mas, se quisessem reencontrar
seus daemons, tinham que entrar de novo na  escurido. E agora, depois
de horas se arrastando exaustivamente pelo tnel quase escuro, Lyra
inclinou-se pela vigsima vez para consultar o aletmetro ,
inconscientement e emitindo pequenos sons de angstia - gemidos e
suspiros que teriam sido soluos se tivessem mais fora. Will tambm
sentia uma dor onde seu daemon estivera, um lugar escaldante, queimado,
de profunda sensibilidade que era rasgado por ganchos gelados cada vez
que respirava. Com que cansao ela fez girar os ponteiros; como seus
pensamentos se moviam lentos, como se fossem ps calados de chumbo. Os
degraus de significado que a conduziam a cada um dos 36 smbolos do
aletmetro, pelos quais ela costumava descer to rapidamente e to
confiante, pareciam soltos e trmulos. E estabelecer as conexes entre
eles em sua mente. . . Antigamente tinha sido como correr, ou cantar, ou
contar uma histria: uma coisa natural. Agora tinha que  faz-lo com um
enorme esforo, e sua compreenso estava falhando, e no podia falhar,
caso contrrio tudo o mais fracassaria... - No est longe - disse ela
finalmente. - E temos pela frente todo tipo de perigos, est havendo uma
batalha, est havendo... Mas estamos quase no lugar certo agora. Bem no
final deste tnel existe um grande pedregulho liso, com uma nascente de
onde sai uma corrente de gua.  l que voc pode cortar a abertura. Os
fantasmas que iriam lutar seguiram adiante, cheios de entusiasmo, e ela
sentiu Lee Scoresby chegar bem perto, a seu lado. Ele disse: - Lyra,
minha menina, agora no falta muito. Quando voc encontrar aquele velho
urso, diga a ele que Lee se foi lutando. E depois que a batalha tiver
terminado, terei todo o tempo do mundo para flutuar ao sabor do vento e
encontrar os tomos que costumavam ser Hester, e minha me, na terra das
artemsias, e minhas namoradas, todas as minhas namoradas. . . Lyra,
minha querida, trate de  descansar quando tudo isso tiver acabado, est
me ouvindo? A vida  boa e a morte morreu. . . A voz dele foi se
calando. Ela queria abra-lo, mas  claro que isso era impossvel. De
maneira que, em vez disso, apenas olhou para seu vulto plido e o
fantasma viu a paixo e o brilho em seus olhos e recebeu a fora que
transmitiam. 416 E  no ombro de Lyra e no de Will vinham os dois
galivespianos. O tempo curto de vida que tinham estava quase esgotado,
cada um dos dois sentia o enrijecimento nos msculos,  um frio ao redor
do corao. Ambos estariam de volta ao mundo dos mortos brevemente,
dessa vez como fantasmas, mas eles trocaram um olhar e juraram que
ficariam com Will e Lyra por tanto tempo quanto pudessem e que no
diriam nem uma palavra a respeito de estarem perto da morte. As crianas
foram escalando com dificuldade, para o alto, cada vez mais para o alto.
No falaram. Ouviam a respirao  ofegante um do outro, ouviam os sons
de seu passos, ouviam o rudo das pedrinhas que seus passos deslocavam.
 frente deles, o tempo todo, a harpia subia pesadamente, com
dificuldade, suas asas se arrastando, as garras arranhando, calada e
carrancuda. E ento surgiu um novo som: um gotejar constante, ecoando no
tnel. E depois um gotejar mais rpido, um escorrer devagar, um som de
gua corrente. - Aqui! - exclamou Lyra, estendendo a mo para a frente
para tocar uma parede de pedra que bloqueava o caminho, lisa e fria. - 
aqui. Ela se virou para a harpia. - Estive pensando - disse ela - sobre
como me salvou, e como prometeu guiar todos os fantasmas que passarem
pela terra dos mortos para aquele mundo onde dormimos ontem  noite. E
pensei que se voc no tem nome, isso no pode estar certo, no para o
futuro. Assim pensei que eu podia dar um nome a voc, como o Rei Iorek
Byrnison me deu o meu nome, Lyra da Lngua Mgica. Vou chamar voc de
Asas da Bondade. De maneira que, de agora em diante, este  o seu nome e
 isso que voc vai ser para sempre: Asas da Bondade. - Um dia - disse a
harpia - eu verei voc de novo, Lyra  da Lngua Mgica. - E se eu souber
que voc est aqui, no vou ter medo - declarou Lyra. - Adeus, Asas da
Bondade, at o dia em que eu morrer. Ela abraou a harpia bem apertado e
beijou-lhe as duas faces. Ento o Cavaleiro Tialys perguntou: - Este  o
mundo da repblica de Lorde Asriel? -  - confirmou Lyra, - foi o que o
aletmetro disse. Estamos perto da fortaleza dele. - Ento deixe-me
falar com os fantasmas. Ela o levantou bem alto e ele gritou: - Ouam,
porque Lady Salmakia e eu somos os nicos  dentre ns que j vimos este
mundo antes. H uma fortaleza no cume de uma  montanha:  isso que Lorde
Asriel est defendendo. Quem  o inimigo no sei dizer. Lyra e Will
agora tm apenas uma misso, que  procurar seus daemons. A nossa misso
 ajud-los. Vamos ser corajosos e combater bem. Lyra virou-se para
Will. - Tudo bem - disse, - estou pronta. Ele pegou a faca e olhou bem
nos olhos do fantasma de seu pai, que se mantinha bem perto. Eles no se
conheceriam por muito mais tempo e Will pensou em como teria ficado
satisfeito de ver sua  me ao lado deles tambm, os trs juntos - Will -
chamou Lyra, assustada. Ele se deteve. A faca estava presa, enfiada no
ar. Afastou a mo e ela ficou pendurada ali, presa na substncia de um
mundo invisvel. Will deixou escapar um profundo suspiro. -  Eu quase. .
. - Eu vi - disse ela. - Olhe para mim, Will. Na luz plida ele viu seus
cabelos claros, brilhantes, a boca firme, os olhos francos: sentiu o
calor de seu hlito, reconheceu o  perfume familiar de sua pele. A faca
se soltou. - Vou tentar de novo - declarou. Dando as costas para todos,
ele se virou para a parede de  pedra. Concentrando-se com toda a
intensidade, deixou sua mente fluir descendo at a ponta da faca,
tateando, recuando, procurando, e ento encontrou a fenda. A ponta
entrou, cortou para o lado, para baixo e de volta para o lado: os
fantasmas estavam agrupados em massa, to junto deles que o corpo de
Will e o de Lyra sentiam pequenos choques de frio em cada nervo. E ento
ele fez o corte final. A primeira coisa que assaltou seus sentidos foi o
barulho. A luz que penetrou de um golpe era ofuscante e tiveram que
cobrir os olhos, fantasmas e vivos igualmente, de modo que no puderam
enxergar nada durante vrios segundos; mas as pancadas incessantes, as
exploses, o matraquear de rajadas de artilharia, os  berros e gritos,
instantaneamente, ficaram todos muito ntidos e terrivelmente
assustadores. O fantasma de John Parry e o fantasma de Lee Scoresby
foram os primeiros a recuperar a presena de esprito. Como ambos tinham
sido soldados, com experincia de combate, no ficaram to desorientados
pelo barulho. Will e Lyra simplesmente ficaram olhando, tomados pelo
medo e pelo espanto. Foguetes explosivos estavam eclodindo no ar acima,
despejando uma chuva de fragmentos de rocha e metal sobre as encostas da
montanha, que viram um pouco mais adiante; e nos cus, anjos lutavam com
anjos, e bruxas tambm, arremetendo, voando baixo e depois subindo s
alturas, berrando os gritos de guerra de seus cls enquanto disparavam
flechas contra seus inimigos. Viram um galivespiano, montado numa
liblula, mergulhando para atacar uma mquina voadora cujo piloto
tentou lutar contra ele em combate corpo a corpo. Enquanto a liblula
dardejava e dava vos rasantes sobre a mquina, seu cavaleiro saltou
dela para enfiar suas esporas bem fundo no pescoo do piloto; e ento o
inseto voltou, voando baixo para deixar que seu cavaleiro saltasse sobre
seu dorso verde-brilhante enquanto a mquina voadora se chocava
diretamente contra as rochas nos contrafortes da fortaleza. - Aumente a
abertura - disse Lee Scoresby. - Deixe-nos sair! 417 - Espere, Lee -
disse John Parry. - Alguma coisa est acontecendo. . . olhe ali. Will
cortou uma outra pequena janela na direo que ele indicou e, quando
olharam para fora, puderam ver uma mudana na evoluo do combate. As
foras atacantes comearam a ceder  terreno e a recuar: um grupo de
veculos armados parou de avanar  e, sob o fogo de cobertura, virou
pesadamente e bateu em retirada. Uma esquadrilha de mquinas voadoras,
que estivera levando a  melhor numa  dura batalha contra os girpteros
de Lorde Asriel, fez um crculo no cu e se afastou rumo ao oeste. As
foras do reino em terra - colunas de fuzileiros, tropas equipadas com
lana- chamas, com canhes que disparavam uma chuva venenosa, com armas
que nenhum dos observadores jamais havia visto - comearam a se
dispersar e a recuar. - O que est acontecendo? - perguntou Lee. - Eles
esto  batendo em retirada, mas por qu? Parecia no haver nenhuma razo
para isso: os aliados de Lorde Asriel estavam superados em nmero, suas
armas eram menos potentes e havia muitos mais deles cados feridos.
Ento Will sentiu um movimento repentino entre os  fantasmas. Estavam
apontando para alguma coisa flutuando no ar. - Espectros! - exclamou
John Parry. - Este  o motivo. E, pela primeira vez, Will e Lyra acharam
que podiam ver aquelas coisas, como vus de gaze tremeluzente, caindo do
cu como lanugem de cardo. Mas eram muito transparentes, e quando
chegavam ao cho eram muito mais difceis de ver. -  O que eles esto
fazendo? - perguntou Lyra. -  Eles esto se dirigindo para aquele
peloto de fuzileiros -E Will e Lyra sabiam o que iria acontecer e os
dois gritaram apavorados: - Corram! Fujam da! Alguns dos soldados,
ouvindo vozes de crianas gritando de perto, olharam em torno,
espantados. Outros, vendo um Espectro se aproximando na direo deles,
to estranho, vazio e vido, levantaram as armas e atiraram, mas, 
claro, sem nenhum efeito. E  ento o Espectro atacou o primeiro homem
que alcanou. Era um soldado do mundo de Lyra, um africano. Seu daemon
era uma gata de pernas longas, castanho-amarelada com pintas pretas, e
ela arreganhou os dentes e preparou-se para saltar. Eles viram o homem
fazer pontaria com a metralhadora, destemido, sem ceder um centmetro -
e ento viram o daemon lutando contra uma rede invisvel, rosnando,
uivando impotente e o homem tentando alcan-la, largando sua arma,
gritando o nome dela e caindo, ele prprio desmaiando de dor e nusea
brutal. - Muito bem, Will - disse John Pariy. - Deixe-nos sair agora;
ns podemos lutar contra essas coisas. De modo que Will abriu mais a
janela, alargando-a, e saiu  correndo, encabeando o exrcito de
fantasmas; e ento teve incio a batalha mais estranha que ele podia
imaginar. Os fantasmas escalavam a janela, saindo de dentro da terra,
vultos plidos, ainda mais plidos sob a luz do meio-dia. Agora no 418
tinham mais nada que temer e se lanavam contra os Espectros invisveis,
atracando-se, lutando e dilacerando coisas que Will e Lyra absolutamente
no conseguiam ver. Os fuzileiros e os outros aliados vivos estavam
perplexos: no conseguiam ver nem entender nada daquele combate
fantasmagrico, espectral. Will foi abrindo caminho at o meio  deles,
brandindo a faca, lembrando-se de como os Espectros tinham fugido dela
antes. Aonde quer que ele fosse, Lyra ia atrs, desejando ter alguma
coisa com que pudesse lutar como Will estava fazendo, mas olhando ao
redor, observando mais atentamente. Achou que de vez em quando podia ver
os Espectros, num brilho oleoso no ar; e foi Lyra quem sentiu o primeiro
arrepio de medo. Com Salmakia em seu ombro, ela se encontrava numa
pequena elevao, apenas um monte de terra coberto por arbustos de
espinheiro, de onde podia ver a enorme amplitude do terreno que os
invasores estavam destruindo. O sol estava bem acima de Lyra. Adiante,
no horizonte a oeste, as nuvens se aglomeravam empilhadas e brilhantes,
fendidas por abismos de escurido, seus topos abertos sob os ventos
fortes que sopravam a grande altitude. Naquela direo tambm, na
plancie, as foras terrestres do inimigo esperavam: mquinas reluziam
muito claras, bandeiras em movimentos de cor, regimentos em formao,
esperando. Atrs, e  sua esquerda, havia a cadeia de colinas
pontiagudas que conduziam  fortaleza. Elas brilhavam em um tom
cinza-claro, refletindo a luz sinistra que precede a tempestade, e nas
fortificaes distantes das muralhas de basalto negro, conseguia ver at
pequeninos vultos se movimentando de um lado para outro, fazendo reparos
nas muralhas danificadas, trazendo mais armas para disparar ou
simplesmente observando. E foi mais ou menos nesse instante que Lyra
sentiu o primeiro  solavanco distante de nusea, dor e medo que era o
toque inconfundvel dos Espectros. Ela soube o que era imediatamente,
embora nunca o tivesse sentido antes. E aquilo disse-lhe duas coisas: a
primeira, que devia ter crescido o suficiente para se tornar vulnervel
aos Espectros; e a segunda, que Pan devia estar em algum lugar bem
perto. - Will. . . Will - gritou. Ele a ouviu e se virou, de faca em
punho e olhos faiscantes. Mas, antes que ele pudesse falar, arquejou,
sacudido por um solavanco sufocante, e agarrou o peito, e ela soube que
a mesma coisa devia estar acontecendo com ele. - Pan! Pan! - gritou,
ficando nas pontas dos ps para olhar  ao redor. Will estava dobrado
para a frente, tentando no vomitar. Depois de alguns instantes a
sensao passou, como se seus  daemons  tivessem escapado; mas no
estavam mais perto de encontr-los e por toda parte o ar estava cheio de
tiros, gritos, vozes berrando de dor ou de pnico, o ioque-ioque-ioque
distante dos avantesmas-dos-penhascos voando em crculos acima, volta e
meia o zunido tzim e a pancada tuque de flechas e ento um som 419 novo:
o vento se tornando mais intenso. Lyra o sentiu primeiro nas faces e
depois viu a relva se  dobrando sob sua fora, e ento o ouviu nos
espinheiros. O cu mais adiante estava tomado por uma tempestade
colossal: toda a brancura havia desaparecido das massas arredondadas de
nuvens carregadas e elas vinham avanando e rodopiavam em tons
amarelo-enxofre, verde-mar, cinza-enfumaado, negro-petrleo, um
violento  encrespamento com quilmetros de altura e largo como o
horizonte. Atrs dela o sol ainda estava brilhando, de modo que todos os
pequenos arbustos e cada uma das rvores entre ela e a tempestade
fulguravam fervorosos e vividos, coisas pequeninas e frgeis desafiando
a escurido com folha e galho e flor. E atravs de tudo aquilo seguiram
as duas no-mais-exatamente-crianas, vendo os Espectros agora quase que
claramente. O vento estava fustigando os olhos de Will e chicoteando os
cabelos de Lyra contra sua face, e deveria ter conseguido soprar os
Espectros para longe, mas as coisas desciam flutuando em linha reta para
o solo diretamente atravs dele. O menino e a menina, de mos dadas,
foram caminhando cautelosamente em meio aos mortos e feridos, Lyra
chamando seu daemon, Will, com todos os seus sentidos alerta, buscando o
seu. E agora o cu estava rendado de relmpagos, ento o primeiro
estrondo poderosssimo de um trovo acertou seus tmpanos como um
machado. Lyra ps as mos na cabea e Will quase tropeou, como se
empurrado para baixo pelo som. Eles se agarraram um no outro, olharam
para o alto e se depararam com uma viso que ningum jamais tinha visto
antes em nenhum dos milhes de mundos. Bruxas, do cl de Ruta Skadi e do
cl de Reina Miti, e de mais uma meia dzia de outros, cada uma delas
carregando uma tocha de pinheiro do pez encharcada de betume, vinham
voando numa torrente sobre a fortaleza vindas do leste, do ltimo canto
de cu claro, seguindo diretamente para a tempestade. Aqueles que
estavam no solo podiam ouvir o rugido e o crepitar dos volteis
hidrocarbonetos ardendo l no alto. Uns poucos Espectros ainda
permaneciam nas alturas e algumas bruxas voaram de encontro a eles, sem
v-los, e gritando despencaram em chamas no cho; mas, quela altura, a
maioria das coisas plidas tinha chegado ao solo e a grande esquadrilha
de bruxas passou correndo como um rio de fogo penetrando no meio da
tempestade. Uma esquadrilha de anjos, armados de lanas e espadas, tinha
sado da Montanha Nublada para vir ao encontro das bruxas. Eles tinham o
vento soprando s suas costas e vieram avanando mais rpidos que
flechas; mas as bruxas estavam  altura deles, e as primeiras subiram
voando muito alto e depois mergulharam nas fileiras de anjos, golpeando
 esquerda e  direita com suas tochas ardentes. Um anjo aps outro,
delineado em fogo, com as asas em chamas, despencou gritando do ar. 420
E ento as primeiras grandes gotas de chuva caram. Se o comandante das
nuvens de tempestade queria apagar as tochas das bruxas, ficou
desapontado; o pinheiro do pez e o betume continuaram ardendo
desafiadoramente contra as gotas, crepitando e sibilando mais alto,
quanto mais chuva caa sobre eles. As gotas de chuva bateram no solo
como se tivessem sido lanadas com maldade, explodindo e respingando
para cima no ar. Em menos de um minuto Lyra e Will estavam ensopados at
os ossos e tremendo de frio, e a chuva golpeava-lhe a cabea e os braos
como minsculas pedrinhas. Em meio quilo tudo os dois seguiram adiante,
cambaleando e se esforando, limpando a gua dos olhos, gritando: - Pan!
Pan! - em meio ao tumulto. Os troves acima agora eram quase contnuos,
rasgando, moendo e explodindo como se os prprios tomos estivessem
sendo rompidos. Entre as exploses de raios e troves e as pontadas de
medo, Will e Lyra corriam, urrando juntos: - Pan! Meu Pantalaimon! Pan -
e um grito sem palavra de Will, que sabia o que havia perdido, mas no
como ela se chamava. Com eles, por toda parte onde passavam, iam os
galivespianos advertindo-os para olhar nessa direo, para seguir por
aquela, de olho nos Espectros que as crianas ainda no podiam ver
claramente. Lyra tinha que segurar Salmakia nas mos porque a pequenina
dama no tinha mais foras para se segurar no ombro de Lyra. Tialys
estava vasculhando os cus ao redor, em busca de seus companheiros e
gritando sempre que via uma fasca de cor brilhante passar dardejando no
ar acima. Mas a voz dele tinha perdido muito de sua fora e de qualquer
maneira os outros galivespianos estavam procurando as cores dos cls de
suas duas liblulas, a azul-eltrica e a vermelho-e-amarela; e essas
cores h muito haviam se apagado, e os corpos que tinham brilhado com
elas jaziam no mundo dos mortos. E  ento houve um  movimento no cu que
foi diferente do resto. Enquanto as crianas olhavam para cima,
protegendo os olhos da chuva violenta, viram uma aeronave diferente de
todas as que tinham visto antes: deselegante, com seis pernas, escura e
totalmente silenciosa. Estava voando baixo, muito baixo, vinda da
fortaleza. Ela fez um vo rasante bem acima, passando sobre a cabea
deles na altura de um telhado, e ento se afastou seguindo para o
corao da tempestade. Mas eles no tiveram tempo para se perguntar
sobre o que seria, pois um outro latejar estonteante de nusea disse a
Lyra que Pan estava em perigo novamente, e ento Will tambm o sentiu, e
os dois seguiram cambaleando cegamente em meio s poas de gua, lama e
o caos de homens feridos e fantasmas lutando, desprotegidos, apavorados
e se sentindo enjoados. 421 *30 A MONTANHA NUBLADA E AO LONGE V COM
ATENO PAUSADA O EMPRIO CU, QUE NOS SENTIDOS TODOS VAI A PERDER DE
VISTA E EXCELSO ENCOBRE A SUA FORMA NA GRANDEZA SUA: OBSERVA-LHE COM
HRRIDA SAUDADE DE OPALA AS TORRES, DE SAFIRA OS MUROS...  JOHN MILTOM -
CANTO II, 69 A nave da inteno estava sendo pilotada pela Sra. Coulter.
Ela e seu daemon  estavam sozinhos na cabine de comando.         O alt
metro baromtrico era de muito pouca utilidade por causa da tempestade,
mas podia calcular aproximadamente sua altitude observando as fogueiras
que ardiam no cho onde os anjos caam; apesar da chuva torrencial, as
chamas ainda estavam altas. No que dizia respeito ao curso, tambm no
era difcil: os relmpagos e raios que caam sobre a montanha serviam
como faris intensos. Mas ela tinha que evitar os vrios seres voadores
e se manter longe das elevaes no solo abaixo. No utilizou as luzes,
porque queria se aproximar e encontrar um lugar para pousar antes que a
vissem.  medida que voou para mais perto, as correntes de ar verticais
tornaram-se mais violentas, as rajadas mais repentinas e brutais. Um
girptero no teria tido nenhuma chance: as selvagens rajadas de vento o
teriam lanado ao solo como uma mosca. Na nave da inteno ela podia se
mover suavemente com o vento, ajustando seu equilbrio como algum numa
prancha deslizando sobre uma onda no Oceano Pacfico. Cautelosamente,
ela comeou a subir, examinando o que estava  sua frente, ignorando os
instrumentos, navegando por alcance visual e por instinto. Seu daemon
saltava de um lado para outro na pequena cabine de vidro, olhando para o
que estava  frente, acima,  esquerda e  direita, e passando-lhe
informaes constantemente. Os relmpagos e raios, grandes clares e
lanas de luminosidade fulgurante, refulgiam e ribombavam, acima e ao
redor da aeronave. Em meio a tudo isso ela voava na pequena aeronave,
pouco a pouco ganhando altura e sempre seguindo adiante em direo ao
palcio coberto de nuvens. 422 E  medida que a Sra. Coulter se
aproximava, viu sua ateno deslumbrada e desconcertada com a natureza
da montanha propriamente dita. Fazia com que se lembrasse de uma certa
heresia abominvel, cujo autor agora merecidamente definhava nas
masmorras do Tribunal Consistorial. Ele havia sugerido que havia mais
dimenses espaciais que as trs conhecidas; que, em uma escala muito
pequena, havia at sete ou oito outras dimenses, mas que elas eram
impossveis de ser examinadas diretamente. O homem tinha at construdo
um modelo para mostrar como poderiam funcionar e a Sra. Coulter tinha
visto o objeto antes de ser exorcizado e queimado. Dobras dentro de
dobras, cantos e bordas ao mesmo tempo contendo e sendo contidos: seu
interior estava em toda parte e seu exterior em todas as outras partes.
A Montanha Nublada a afetava de uma maneira similar: no era bem como um
rochedo, era mais como um campo de fora, manipulando o prprio espao
para se envolver, se esticar e se dispor em camadas, formando galerias e
terraos, cmaras, colunatas e torres de observao, de ar, de luz e de
vapor. Ela sentiu uma estranha exultao comear a crescer em seu peito
e viu ao mesmo tempo como pousar a aeronave em segurana l em cima no
terrao no flanco sul. A pequena nave deu um solavanco e lutou no ar
turbulento, mas ela manteve o curso firme e seu daemon a guiou na
descida para pousar no terrao. A luz que havia usado para enxergar at
aquele momento tinha vindo dos relmpagos, dos ocasionais cortes
profundos na nuvem por onde o sol passava, das fogueiras dos anjos
queimando, dos focos de luz dos holofotes ambricos; mas ali a luz era
diferente. Vinha da substncia da prpria montanha, que fulgurava e se
apagava num ritmo lento, semelhante ao da respirao, com uma radincia
de madreprola. A mulher e o daemon  saltaram da nave e olharam em torno
para ver em que direo deveriam seguir. Ela possua a sensao de que
outros seres estavam se movimentando rapidamente acima e abaixo,
correndo atravs da prpria substncia da montanha com mensagens,
ordens, informaes. No conseguia v-los; tudo o que conseguia ver eram
confusas perspectivas envolventes de colunata, escada, terrao e
fachada. Antes que pudesse se decidir sobre que direo tomar, ouviu
vozes e se escondeu atrs de uma coluna. As vozes estavam cantando um
salmo e se aproximando, e ento viu uma procisso de anjos carregando
uma liteira. Quando se aproximaram do lugar onde estava escondida, viram
a nave da inteno e se detiveram. O cntico se calou, alguns dos
carregadores olharam em torno tomados pela dvida e pelo medo. A Sra.
Coulter estava perto o bastante para ver o ser na liteira: um anjo,
pensou ela, e indescritivelmente idoso. Ele no era fcil de ver porque
a liteira era toda fechada com cristal que cintilava e refletia de volta
a luz envolvente da montanha, 423 mas ela teve a impresso de uma
decrepitude aterradora, de uma face encovada, mergulhada em rugas, de
mos trmulas, de uma  boca balbuciante e olhos remelentos. O ser idoso
fez um gesto trmulo para a nave da inteno, deu uma risada estridente,
desagradvel, e balbuciou para consigo mesmo, incessantemente puxando a
barba, e ento lanou a cabea para trs e emitiu um uivo de tamanha
angstia que a Sra. Coulter teve que cobrir os ouvidos. Mas,
evidentemente, os carregadores tinham uma misso a cumprir, pois se
recuperaram e seguiram adiante pelo terrao, ignorando os gritos e
resmungos do interior da liteira. Quando alcanaram um espao aberto,
abriram bem as asas e depois de uma palavra do lder comearam a voar,
carregando a liteira juntos, at sarem do campo de viso da Sra.
Coulter nos vapores rodopiantes. Mas no havia tempo para pensar
naquilo. Ela e o macaco dourado moveram-se rapidamente, subindo as
grandes escadarias, atravessando pontes, sempre seguindo para cima.
Quanto mais alto iam, mais tinham aquela sensao de atividade invisvel
por toda parte ao redor deles, at que finalmente dobraram uma esquina,
num espao amplo como uma praa coberta de neblina, e viram-se
confrontados por um anjo com uma lana. - Quem  voc? O que quer aqui?
- perguntou ele. A Sra. Coulter olhou para ele curiosamente. Aqueles
eram os seres que haviam se apaixonado por mulheres humanas, pelas
filhas de homens, tanto tempo atrs. - No, no - disse ela suavemente,
- por favor, no perca tempo. Leve-me ao Regente imediatamente. Ele est
me esperando. Deixe-os desconcertados, pensou ela, mantenha-os
desestabilizados; e o anjo no sabia o que devia fazer, de modo que fez
o que ela mandou. A Sra. Coulter o seguiu durante alguns minutos atravs
daquelas perspectivas desnorteantes de luz, at que chegaram a uma
ante-cmara. Como tinham entrado ali, ela no sabia, mas l estavam eles
e, depois de uma breve pausa, algo diante dela se abriu como uma porta.
As unhas pontudas de seu daemon estavam cravadas na carne da parte
superior de seus braos e ela agarrou seu plo para se acalmar.
Encarando-os havia um ser feito de luz. Tinha forma de homem, tamanho de
homem, pensou ela, mas estava demasiado ofuscada para ver. O macaco
dourado escondeu a face no ombro dela e a Sra. Coulter levantou o brao
para cobrir os olhos. Metatron disse: -  Onde est ela? Onde est sua
filha? -  Eu vim para dizer ao senhor, Regente. -  Se estivesse sob seu
controle, voc a teria trazido. -  Ela no est, mas seu daemon est. -
Como  possvel isso? - Eu juro, Metatron, seu daemon est sob meu
controle. Por favor, grande Regente, esconda-se um pouco. . . meus olhos
esto ofuscados. 424 Ele puxou um vu de nuvem diante de si. Agora era
como olhar para o sol atravs de vidro fum, e os olhos dela podiam
v-lo mais claramente, embora ainda fingisse estar ofuscada pelo rosto
dele. Era exatamente como um homem no incio da idade madura, alto,
forte e imponente. Estaria vestido? Tinha asas? Ela no sabia dizer por
causa da fora de seus olhos. No conseguia olhar para mais nada. - Por
favor, Metatron, oua o que tenho a dizer. Acabei de fugir de Lorde
Asriel. Ele est com o daemon da criana e sabe que a criana logo vir
procur-lo. -  O que ele quer com a criana? - Mant-la protegida, fora
de seu alcance, at atingir a maturidade. Ele no sabe para onde vim e
devo voltar logo para junto dele. Estou lhe dizendo a verdade. Olhe para
mim, grande Regente, uma vez que no posso olhar para o senhor com
facilidade. Olhe bem francamente para mim e diga-me o que v. O prncipe
dos anjos olhou para ela. Foi o exame mais penetrante a que Marisa
Coulter jamais fora submetida. Cada retalho de proteo e de engano
foi-lhe arrancado e ela ficou parada ali despida, de corpo, esprito e
daemon, sob a ferocidade do olhar de Metatron. E sabia que sua natureza
teria que responder por ela, e estava apavorada de que o que ele visse
nela fosse insuficiente. Lyra tinha mentido para Iofur Raknison com
palavras; sua me estava mentindo com toda a sua vida. - Sim, estou
vendo. - O que v? - Corrupo, inveja e ambio pelo poder. Crueldade e
frieza. Uma curiosidade perversa incessante. Maldade pura, venenosa,
txica. Voc nunca, desde os primeiros anos de vida, demonstrou um fiapo
de compaixo, solidariedade ou gentileza sem antes calcular como us-lo
em seu prprio benefcio. Voc torturou e matou sem arrependimento ou
hesitao; voc traiu, tramou, conspirou e se rejubilou, glorificando
sua perfdia. Voc  um poo de imundcie moral. Aquela voz, fazendo
aquele julgamento, abalou profundamente a Sra. Coulter. Sabia o que
estava a caminho e o temeu apavorada, mas ao mesmo tempo tambm esperava
por aquilo e, agora que tinha sido dito, sentiu um pequeno arrebatamento
de triunfo. Ela se aproximou mais dele. - Ento compreende - declarou, -
eu posso tra-lo facilmente. Posso lev-lo para onde ele est levando o
daemon de minha filha e voc poder destruir Asriel, e a criana vir
direto para suas mos inocentemente. Ela sentiu o movimento de vapor ao
seu redor e seus sentidos ficaram confusos: as palavras seguintes dele
perfuraram sua carne como dardos de gelo perfumado. - Quando eu era
homem - disse ele, - tive uma quantidade de esposas, mas nenhuma era to
bela quanto voc. - Quando era homem? 425 - Quando eu era homem, era
conhecido como Enoque, o filho de Jared, filho de Mahalalel, filho de
Kenan, filho de Enosh, filho de Seth, filho de Ado. Vivi na terra
durante 65 anos e ento a Autoridade me levou para seu reino. - E teve
muitas esposas? - Adorava-lhes a carne. E compreendia quando os filhos
do cu se apaixonavam pelas filhas da terra, defendi a causa deles
diante da Autoridade. Mas seu corao estava decidido contra eles e ele
me fez profetizar a perdio deles. - E no conheceu mais uma esposa
durante milhares de anos... - Tenho sido o Regente do reino. - E no
est na hora de ter uma consorte? Aquele foi o momento em que ela se
sentiu mais exposta e correndo mais perigo. Mas confiava em sua carne e
na estranha verdade que havia descoberto a respeito de anjos que outrora
tinham sido humanos: carecendo de carne, eles a cobiavam e ansiavam por
ter contato com ela. E Metatron agora estava perto, perto o bastante
para sentir o perfume de seus cabelos e contemplar a textura de sua
pele, perto o bastante para toc-la com mos escaldantes. Houve um som
estranho, como o murmrio e o crepitar que voc ouve antes de se dar
conta de que o que est ouvindo  sua casa pegando fogo. - Diga-me o que
Lorde Asriel est fazendo e onde ele est, ordenou ele. - Posso lev-lo
at ele agora - respondeu ela. Os anjos carregando a liteira deixaram a
Montanha Nublada e voaram rumo ao sul. As ordens de Metatron tinham sido
levar a Autoridade para um lugar seguro, distante do campo de batalha,
porque queria que ainda fosse mantido vivo por algum tempo; mas, em vez
de dar-lhe um corpo de guarda de muitos regimentos, que s atrairiam a
ateno do inimigo, tinha confiado na obscuridade da tempestade,
calculando que naquelas circunstncias um grupo pequeno seria mais
seguro que um grande. E poderia ter sido assim, se um certo
avantesma-dos-penhascos, ocupado em se banquetear com um guerreiro
semi-morto, no tivesse olhado para cima exatamente no momento em que um
holofote de busca, por acaso, iluminou o lado da liteira de cristal.
Alguma coisa despertou na memria do avantesma-dos-penhascos. Ele fez
uma pausa, com uma das mos no fgado ainda quente, e, enquanto seu
irmo o empurrava para o lado com um safano, a lembrana de uma raposa
do rtico tagarela surgiu em sua mente. Imediatamente ele abriu as asas
e saltou para o alto; um momento depois o resto da tropa o seguiu.
Xaphania e seus anjos tinham procurado diligentemente a noite inteira e
parte da manh e, finalmente, tinham encontrado uma rachadura minscula
na encosta da montanha ao sul da fortaleza, que no estivera l no dia
anterior. Eles a haviam 426 explorado e aumentado, e agora Lorde Asriel
estava descendo por uma srie de cavernas e tneis que se estendiam por
uma longa distncia abaixo da fortaleza. No estava totalmente escuro,
como havia esperado. Havia uma fraca fonte de luz, como uma corrente de
bilhes de partculas minsculas, cintilando suavemente. Elas fluam sem
parar descendo pelo tnel, como um rio de luz. - P - disse ele para seu
daemon. Ele nunca o tinha visto a olho nu, mas tambm nunca tinha visto
tanto P junto. Seguiu adiante at que, de maneira muito repentina, o
tnel se abriu, bem largo, e viu-se no alto de uma vasta caverna: uma
abbada imensa o bastante para conter uma dzia de catedrais. No havia
solo; as paredes se inclinavam vertiginosamente para baixo em direo 
borda de um enorme abismo; centenas de metros mais abaixo e para dentro
do abismo corria a catarata infinita de P, jorrando incessantemente
para o fundo. Seus bilhes de partculas eram como as estrelas de todas
as galxias no cu e cada uma delas era um pequeno fragmento de
pensamento consciente. Era uma luz melanclica a que lhe permitia ver.
Ele fez a escalada com seu daemon, descendo em direo ao abismo, e, 
medida que desciam, gradualmente comearam a ver o que estava
acontecendo ao longo da extremidade oposta da garganta, a centenas de
quilmetros de distncia na semi- obscuridade. Teve a impresso de que
havia um movimento l, e quanto mais descia, mais claramente se definia:
uma procisso de vultos plidos, apagados, caminhando cautelosamente
pela encosta perigosa, homens, mulheres, crianas, seres de todos os
tipos que ele j tinha visto e muitos que nunca vira. Concentrados em
manter o equilbrio, eles o ignoraram totalmente e Lorde Asriel sentiu
os cabelos se arrepiarem na nuca quando se deu conta de que eram
fantasmas. - Lyra esteve aqui - disse baixinho para a pantera branca. -
Pise com cuidado - foi tudo o que ela disse em resposta. -- A esta
altura, Will e Lyra estavam completamente encharcados, tremendo de frio,
atormentados pela dor e tropeando cegamente em meio  lama, sobre
pedregulhos e em pequenos barrancos onde riachos alimentados pela
tempestade corriam vermelhos de sangue. Lyra temia que Lady Salmakia
estivesse morrendo: ela no dizia nenhuma palavra h vrios minutos e
estava deitada, o corpo mole, desmaiado na mo de Lyra. Quando se
abrigaram no leito de um riacho onde a gua estava clara, pelo menos, e
encheram as mos em concha vrias vezes levando-as  boca para beber e
matar a sede, Will sentiu Tialys despertar e dizer: - Will, estou
ouvindo cavalos se aproximando; Lorde Asriel no tem cavalaria. Deve ser
o inimigo. Atravessem o riacho e se escondam... vi alguns arbustos
naquela direo! - Vamos - disse Will para Lyra, e eles chapinharam pela
gua gelada de fazer doer os ossos e subiram correndo o barranco do
outro lado bem a tempo. Os cavaleiros que surgiram no alto da encosta e
desceram para beber no pareciam ser uma cavalaria: 427 pareciam ter o
mesmo tipo de pele de plo curto que seus cavalos e no tinham roupas
nem arreios. Contudo, empunhavam armas: tridentes, redes e cimitarras.
Will e Lyra no pararam para olhar; seguiram aos tropees pelo terreno
irregular agachados, concentrados apenas em sair dali sem serem vistos.
Mas tinham que manter a cabea abaixada, para ver onde estavam pisando e
evitar torcer um tornozelo ou coisa pior; e troves explodiam acima,
enquanto corriam, de modo que no puderam ouvir os gritos estridentes e
os rosnados dos avantesmas-dos-penhascos at que deram de cara com eles.
As criaturas estavam cercando alguma coisa que estava cada brilhando na
lama: algo ligeiramente mais alto que eles, que estava cado sobre um
dos lados, uma grande jaula, talvez, com paredes de cristal. E estavam
martelando-a, com punhos e pedras, guinchando e dando gritos
estridentes. E antes que Will e Lyra pudessem parar e correr em outra
direo, tinham tropeado bem para o meio do grupo. 428 *31 O FIM DA
AUTORIDADE POIS IMPRIO NO MAIS EXISTE, E AGORA O LEO & LOBO HO DE
CESSAR.  WILLIAM BLAKE A Sra. Coulter sussurrou para a sombra a seu
lado: - Veja como ele se esconde, Metatron! Anda se esgueirando pela
escurido como uma ratazana. . . Estavam numa salincia bem no alto da
grande caverna, observando Lorde Asriel e a pantera branca que seguiam
descendo, andando muito cautelosamente, a uma grande distncia mais
abaixo. - Eu poderia atac-lo agora - sussurrou a sombra. - Sim,  claro
que poderia - respondeu ela sussurrando, se inclinando para bem perto
dele, - mas eu quero ver o rosto dele, caro Metatron; quero que ele
saiba que o tra. Venha, vamos segui-lo. . . A catarata de P brilhava
como um grande pilar de luz tnue, precipitando-se suave e
incessantemente para dentro da garganta. A Sra. Coulter no tinha
nenhuma ateno disponvel para dedicar a ela, porque a sombra a seu
lado estava tremendo de desejo e tinha que mant-lo a seu lado, sob o
pouco controle que conseguia impor. Os dois comearam a descer, em
silncio, seguindo Lorde Asriel. Quanto mais para baixo iam avanando,
mais ela sentia um enorme cansao se apoderar dela. - O que foi? O que
foi? - sussurrou a sombra, sentindo suas emoes e, imediatamente,
desconfiado. - Estava pensando - disse ela com uma doce malevolncia, -
em como estou satisfeita com o fato de que a criana nunca crescer para
amar e ser amada. Pensei que a amasse quando era beb; mas agora! -
Houve pesar  - disse a sombra - em seu corao, houve pesar porque no a
ver crescer. - Ah, Metatron, quanto tempo faz que voc foi um homem!
Ser que no sabe realmente distinguir o que estou lamentando? Por que
estou pesarosa? No  a maturidade dela, mas a minha. Como lamento que
no soubesse de sua existncia em 429 minha prpria infncia; com que
paixo teria me devotado a voc... Ela se inclinou para a sombra, como
se no conseguisse controlar os impulsos de seu prprio corpo, e a
sombra inalou com avidez faminta, e pareceu engolir o perfume de sua
carne. Estavam se movendo com dificuldade sobre as rochas despencadas e
espatifadas em direo  base da encosta. Quanto mais desciam, mais a
luz do P dava a tudo um halo de nvoa dourada. A Sra. Coulter
constantemente estendia a mo como se procurasse segurar onde a mo dele
poderia estar, como se a sombra fosse um companheiro humano, e ento
parecia se recordar e sussurrava: - Fique atrs de mim, Metatron, espere
aqui, Asriel  desconfiado, deixe-me acalm-lo primeiro. Quando ele
estiver desprevendo, eu chamarei voc. Mas venha como sombra, nessa
forma pequena, de modo que ele no possa v-lo, caso contrrio ele
simplesmente deixar o daemon da menina fugir voando. O Regente era um
ser cujo profundo intelecto tivera milhares de anos para se desenvolver
e se fortalecer, e cuja sabedoria e conhecimento se estendiam a um
milho de universos. A despeito disso, naquele momento estava cego por
suas duas obsesses: destruir Lyra e possuir sua me. Ele assentiu e
ficou onde estava, enquanto a mulher e o macaco seguiam adiante to
silenciosamente quanto podiam. Lorde Asriel estava esperando atrs de um
enorme bloco de granito, fora do raio de viso do Regente. A pantera
branca os ouvira se aproximando e Lorde Asriel se levantou quando a Sra.
Coulter surgiu dando a volta no bloco. Tudo, todas as superfcies, todos
os centmetros cbicos de ar estavam permeados pelo P que caa, que
dava uma claridade suave a cada minsculo detalhe; e, sob a luz do P,
Lorde Asriel viu que o rosto dela estava molhado de lgrimas e que
estava rangendo os dentes para no soluar. Ele a tomou nos braos, e o
macaco dourado abraou o pescoo da pantera branca e enterrou a carinha
negra em seu plo. - Lyra est em segurana? Encontrou seu daemon?
murmurou ela. - O fantasma do pai do menino est protegendo os dois. -
O P  lindo. . . nunca imaginei. -  O que disse a ele? - Eu menti e
menti, Asriel. . . No esperemos muito mais, eu no agento. . . Ns no
viveremos, no ? No sobreviveremos como os fantasmas? - No, se
cairmos no abismo. Viemos para c para dar tempo a Lyra para encontrar
seu daemon e, depois, tempo para viver e crescer. Se levarmos Metatron 
extino, Marisa, ela ter  esse tempo e se formos com ele, isso no
ter importncia. - E Lyra estar segura? -  Sim, estar, sim -
respondeu com ternura. Ele a beijou. Ela se sentiu suave e leve em seus
braos, como havia se sentido quando Lyra tinha sido concebida 13 anos
antes. 430 Ela estava soluando baixinho. Quando conseguiu falar,
sussurrou: - Eu disse a ele que ia trair voc e trair Lyra, e ele
acreditou em mim porque eu era corrompida e cheia de maldade; e olhou
to fundo dentro de mim que tive certeza que ele veria a verdade. Mas
menti bem. Estava mentindo com cada fibra, cada nervo e tudo o que algum
dia eu tinha feito. . . queria que ele no encontrasse nada de bom em
mim e ele no encontrou. No h nada de bom. Mas eu amo Lyra. De onde
veio este amor? Eu no sei; aproximou-se de mim, sorrateiro como um
ladro na noite, e agora eu a amo tanto que meu corao est explodindo
de amor. Tudo o que eu podia esperar era que meus crimes fossem to
monstruosos que o amor no fosse maior que uma semente de mostarda 
sombra deles, e desejei ter cometido crimes ainda maiores para
escond-lo ainda mais profundamente. . . Mas a semente de mostarda criou
raiz e estava crescendo e o pequeno rebento estava partindo meu corao,
e tive tanto medo que ele visse. . . Ela teve que parar para se
controlar. Ele acariciou seus cabelos brilhantes cobertos de P dourado
e esperou. - A qualquer momento ele vai perder a pacincia, sussurrou
ela. - Disse a ele que se mostrasse pequeno. Mas, afinal, ele  apenas
um anjo, mesmo se um dia foi homem. E podemos lutar com ele e traz-lo
at a borda da garganta, e ns dois cairemos com ele. . . Ele a beijou e
disse: - Sim. Lyra vai estar em segurana e o reino ficar impotente,
no poder fazer nada contra ela. Chame-o agora, Marisa, meu amor. Ela
respirou fundo e deixou o ar escapar num longo e trmulo suspiro. Ento
alisou a saia sobre as coxas e enfiou os cabelos atrs das orelhas. -
Metatron - chamou baixinho. - Est na hora. A forma de Metatron coberta
por uma sombra apareceu no ar dourado e no mesmo instante percebeu o que
estava acontecendo: os dois daemons,  agachados e alertas, a mulher com
o nimbo de P e Lorde Asriel  Que saltou em cima dele, imediatamente,
agarrando-o pela cintura, e tentou atir-lo no cho. Contudo, os braos
do anjo estavam livres e, com punhos, palmas, cotovelos, ns dos dedos,
antebraos, ele surrou a cabea e o corpo de Lorde Asriel: grandes
golpes que batiam com enorme violncia forando o ar a sair de seus
pulmes e repercutiam em suas costelas, que esmurravam sua cabea e
abalavam seus sentidos. Contudo, os braos de Lorde Asriel envolviam as
asas do anjo, prendendo-as a seus flancos. E um momento depois a Sra.
Coulter tinha saltado no espao entre aquelas asas imobilizadas, e
agarrado o cabelo de Metatron. A fora do anjo era enorme: era como
segurar a crina de um cavalo empinando, em disparada. Enquanto ele
sacudia a cabea furiosamente, ela era lanada para l e para c, e
sentiu a fora nas asas grandiosas fechadas  medida que se esforavam
para se abrir, se levantar e lutavam contra 431 os braos do homem,
cerrados to firmemente em torno delas. Os  daemons  tambm o tinham
agarrado. Stelmaria havia cravado os dentes em sua perna e o macaco
dourado estava atacando com unhas e dentes uma das pontas da asa mais
prxima, mordendo e partindo penas, rasgando-lhe as brbulas, e aquilo
s tornava a fria do anjo ainda maior. Com um esforo macio repentino,
ele se lanou para o lado libertando uma das asas e esmagando a Sra.
Coulter contra um rochedo. A Sra. Coulter ficou atordoada por um segundo
e suas mos se soltaram. Imediatamente o anjo empinou-se para o alto
novamente, batendo a asa livre, para lanar longe o macaco dourado; mas
os braos de Lorde Asriel ainda o envolviam com firmeza e, na verdade, o
homem agora conseguia segur-lo melhor uma vez que a circunferncia a
abraar era menor. Lorde Asriel esforou-se para esmagar seu peito, de
maneira a impedir que Metatron respirasse, triturando suas costelas e
tentando ignorar os golpes tremendos que o acertavam no crnio e no
pescoo. Mas aqueles golpes estavam comeando a se fazer sentir. E,
enquanto Lorde Asriel tentava manter seu ponto de apoio na superfcie de
rochas quebradas, algo de destruidor aconteceu com a parte de trs de
sua cabea. Quando havia se jogado para o lado, Metatron tinha agarrado
uma pedra do tamanho de um punho e naquele instante bateu com ela, com
uma fora brutal, na ponta do crnio de Lorde Asriel. O homem sentiu os
ossos de sua cabea se moverem uns contra os outros, e soube que mais um
golpe como aquele o mataria imediatamente. Atordoado de dor - uma dor
que se intensificava por causa da presso de sua cabea contra o flanco
do anjo, - ele continuou agarrado nele, apertando-o, os dedos da mo
direita quase esmagando os da esquerda, e tropeou buscando apoio entre
as rochas fraturadas. E, quando Metatron levantava bem alto a pedra
ensangentada, uma forma de plo dourado saltou em cima dele, como uma
chama saltando sobre uma copa de rvore, e o macaco cravou fundo os
dentes na mo do anjo. A pedra se soltou e despencou ruidosamente em
direo  borda e Metatron sacudiu violentamente o brao em crculo,
movimentando-o para a esquerda e para a direita, tentando desalojar o
daemon;  mas o macaco dourado agarrou-se com unhas, dentes e rabo, e
ento a Sra. Coulter abraou a grandiosa asa branca que batia,
trazendo-a para junto de seu corpo, e fez cessar seu movimento. Metatron
estava imobilizado, mas ainda no estava ferido. Nem estava perto da
borda do abismo. E quela altura Lorde Asriel estava enfraquecendo. Ele
estava fazendo um enorme esforo para manter consciente e lcido o
crebro encharcado de sangue, mas a cada movimento um pouquinho mais se
perdia. Podia sentir as pontas fraturadas dos ossos roando umas contra
as outras em seu crnio; podia at ouvi-las. Seus sentidos estavam
confusos: tudo o que ele sabia era que tinha que segurar firme e
arrastar para baixo. Ento a Sra. Coulter sentiu a face do anjo sob sua
mo e cravou os dedos bem fundo nos olhos dele. 432 Metatron soltou um
urro de dor. De muito longe, do outro lado da imensa caverna, ecos
responderam, e a voz dele saltou de rochedo em rochedo, se duplicando e
perdendo a intensidade, e fazendo com que aqueles fantasmas distantes
fizessem uma pausa em sua procisso infindvel e olhassem para cima. E
Stelmaria, o daemon  pantera branca, sentindo sua prpria conscincia ir
se apagando junto com a de Lorde Asriel, fez um ltimo esforo e saltou
sobre a garganta do anjo. Metatron caiu de joelhos. A Sra. Coulter,
caindo com ele, viu os olhos ensangentados de Lorde Asriel se fixarem
nela. E se levantou rapidamente, empurrando com uma das mos posta sobre
a outra, obrigando a asa que batia a se afastar para o lado, e agarrou o
cabelo do anjo para puxar violentamente sua cabea para trs e deixar a
garganta desprotegida, livre para os dentes da pantera. E ento Lorde
Asriel comeou a arrast-lo, e arrast-lo para trs, os ps tropeando e
as rochas caindo, enquanto o macaco dourado saltava para baixo junto com
eles, mordendo, arranhando e rasgando lanhos, e eles quase tinham
chegado, estavam quase na borda; mas, fazendo fora, Metatron conseguiu
se levantar e, com um derradeiro esforo, abriu bem as duas asas - um
grandioso dossel branco que batia para baixo e para baixo com fora, uma
vez aps outra e, de novo, uma vez aps outra, e ento conseguiu fazer a
Sra. Coulter cair de suas costas e Metatron estava de p, ereto, e as
asas bateram cada vez mais forte, mais forte, e ele levantou vo -
estava deixando o solo, com Lorde Asriel ainda segurando-o com fora,
mas enfraquecendo rapidamente. Os dedos do macaco dourado estavam
enterrados, torcendo o cabelo do anjo, e ele jamais o largaria. Mas eles
tinham ultrapassado a beira do abismo. Estavam comeando a se elevar. E
se voassem mais alto, Lorde Asriel cairia e Metatron escaparia. -
Marisa! Marisa! O grito foi arrancado de Lorde Asriel e, com a pantera
branca a seu lado, com um rugido em seus ouvidos, a me de Lyra se
levantou, encontrou um ponto de apoio, e saltou com todas as foras de
seu corao, para se arremessar contra o anjo, com seu daemon,  com seu
amado que morria e agarrar aquelas asas que batiam, e puxar todos eles
juntos para baixo, para dentro do abismo. Os avantesmas-dos-penhascos
ouviram a exclamao de consternao de Lyra e suas cabeas achatadas se
viraram todas juntas, imediatamente. Will saltou para a frente e golpeou
com a faca atingindo os que estavam mais prximos. Ele sentiu uma
pequena pancada no ombro, quando Tialys tomou impulso e saltou, caindo
na face do maior, agarrando-lhe os plos e chutando violentamente abaixo
da mandbu-la antes que pudesse arremess-lo longe. A criatura uivou e
se debateu enquanto caa na lama e uma outra ficou olhando estupidamente
para o coto de seu brao e depois, horrorizada, para seu prprio
tornozelo, que a mo que havia sido cortada fora tinha agarrado ao cair.
Um segundo depois, a faca estava enterrada em seu peito: Will sentiu o
cabo saltar trs ou quatro 433 vezes com os batimentos moribundos do
corao e a puxou fora, antes que o avantesma-dos-penhascos pudesse
torc-la e lev-la ao cair.  Ouviu os outros gritarem e guincharem de
dio enquanto fugiam, e soube que Lyra estava ilesa a seu lado; mas ele
se jogou na lama com apenas uma coisa na mente. - Tialys! Tialys! -
gritou, e evitando os dentes que abocanhavam, empurrou para o lado a
cabea do maior dos avantesmas-dos-penhascos. Tialys estava morto, suas
esporas enfiadas profundamente em seu pescoo. A criatura ainda estava
esperneando e mordendo, de modo que cortou fora sua cabea e a empurrou
fazendo-a rolar para longe, antes de retirar o galivespiano morto do
pescoo de pele grossa e peluda como couro. - Will - chamou Lyra, -
Will, olhe s para isso. . . Ela estava olhando fixamente para a liteira
de cristal. Estava intacta, embora o cristal estivesse manchado e
lambuzado de lama e sangue do que os avantesmas-dos-penhascos tinham
comido antes de a encontrar. Estava cada num ngulo estranho entre os
pedregulhos e dentro dela.. . - Ah, Will, ele ainda est vivo! Mas,
pobre-coitado. . . Will viu as mos de Lyra fazendo presso contra o
cristal, tentando alcanar o anjo e confort-lo; pois era to idoso e
estava apavorado, chorando e gritando como um nenm, todo encolhido no
canto mais baixo. - Ele deve ser to velho. .. nunca vi ningum sofrendo
assim... Ah, Will, no podemos deix-lo sair? Will cortou o cristal com
um nico movimento e enfiou a mo para ajudar o anjo a sair.
Enlouquecido e impotente, o ser idoso s conseguia chorar e balbuciar
incoerentemente de medo, de dor e de infelicidade, e se encolheu para
longe do que parecia mais uma ameaa. - No tenha medo - disse Will, -
pelo menos podemos ajudar o senhor a se esconder. Venha, no vamos
machuc-lo. A mo trmula pegou a mo dele e a segurou sem foras. O
velho estava emitindo um lamento sem palavras, um gemido desconsolado,
que se repetia sem parar, rangendo os dentes e, compulsivamente,
arrancando as prprias penas com a mo livre; mas quando Lyra tambm
enfiou a mo para ajud-lo a sair, ele tentou sorrir e fazer uma mesura,
e seus olhos antiqssimos muito fundos em meio s rugas piscaram para
ela com inocente encantamento. E os dois, juntos, ajudaram o ser mais
antigo de todos os tempos a sair da cela de cristal; no foi difcil,
pois ele era leve como papel, e os teria seguido para qualquer lugar,
uma vez que no tinha vontade prpria e respondia  simples gentileza
como uma flor ao sol. Mas, ao ar livre, no havia nada que impedisse o
vento de lhe fazer mal e, para a consternao dos dois, sua forma
comeou a perder consistncia e a se dissolver. Apenas alguns minutos
depois ele havia desaparecido completamente e a ltima imagem que Lyra e
Will tiveram foi daqueles olhos, piscando de encantamento, e o som de um
suspiro do mais prximo e ento ele havia sumido: 434 um mistrio se
dissolvendo misteriosamente. Tudo havia levado menos de um minuto e, no
mesmo instante, Will virou-se de volta para o cavaleiro morto. Levantou
o corpo pequenino, segurando-o delicadamente nas palmas das mos, e
quando se deu conta as lgrimas escorriam rpidas por suas faces. Mas
Lyra estava dizendo alguma coisa em tom aflito. - Will, temos que sair
daqui. . . ns temos que ir. . . a dama ouviu cavalos se aproximando. Do
cu azul-ndigo, um falco azul-ndigo desceu, de repente, num movimento
suave e circular; Lyra deu um grito de susto e se abaixou; mas Salmakia
gritou com toda a fora que tinha: - No, Lyra! No! Levante-se o mais
alto que puder e estenda o punho para cima! De modo que Lyra se manteve
de p, imvel, sustentando um brao com o outro, e o falco azul fez uma
outra volta, virou-se e tornou a descer num movimento suave e circular,
pousando e agarrando os ns de seus dedos nas garras afiadas. No dorso
do falco estava montada uma senhora de cabelos grisalhos, cujo rosto de
olhos claros virou-se primeiro para Lyra, depois para Salmakia que se
segurava em seu colarinho. - Madame. . . - disse Salmakia, com a voz
fraca, ns  fizemos. . . - Vocs fizeram tudo o que foi necessrio.
Agora ns estamos aqui - declarou Madame Oxentiel e puxou as rdeas.
Imediatamente o falco gritou trs vezes, to alto que a cabea de Lyra
zumbiu. Em resposta, dardejando do cu, saram primeiro uma, depois duas
e mais trs, ento centenas de liblulas de cores brilhantes carregando
guerreiros, todas voando baixo, to velozmente que parecia que
inevitavelmente iriam colidir umas contra as outras; mas os reflexos dos
insetos e a destreza de seus cavaleiros eram to aguados que, em vez
disso, pareceram tecer uma tapearia bordada de cores fortes e claras,
rpida e silenciosa acima e ao redor das crianas. - Lyra - disse a dama
no falco - e Will: agora sigam-nos e os levaremos a seus daemons.
Enquanto o falco abria as asas e levantava vo saindo de uma de suas
mos, Lyra sentiu o peso de Salmakia cair sobre a outra e soube no mesmo
instante que somente a fora de vontade da pequenina dama a mantivera
viva at aquele momento. Ela segurou cuidadosamente o corpo trazendo-o
para junto do seu e correu com Will debaixo da nuvem de liblulas,
tropeando e caindo mais de uma vez, mas, o tempo todo, mantendo a dama
delicadamente encostada em seu corao. - Esquerda! Esquerda! - gritou a
voz do falco azul e, na escurido rasgada pelos clares de relmpagos,
eles viraram naquela direo;  direita deles, Will viu um peloto de
homens vestindo armaduras cinza-claro, elmos, mscaras, seus daemons
lobo caminhando ao lado deles na mesma cadncia. Uma corrente de
liblulas partiu para cima deles imediatamente e os homens vacilaram:
suas armas eram inteis e num instante os galivespianos estavam entre
eles, cada guerreiro saltando das costas de seu inseto, 435 encontrando
uma mo, um brao, um pescoo nu e enfiando sua espora antes de saltar
de volta para o inseto enquanto este fazia meia-volta e passava de novo
em vo rasante. Eles eram to rpidos que era quase impossvel seguir os
movimentos. Os soldados se viraram e saram correndo em pnico, sua
disciplina totalmente destruda. Mas ento veio o rudo de cascos, num
estrondo repentino partindo de trs, e as crianas se viraram
desalentadas: aquele povo montado a cavalo estava caindo sobre eles a
galope e um ou dois j tinham redes nas mos, girando-as acima da cabea
e capturando as liblulas, ento batendo com as redes como se fossem
chicotes e atirando no cho os corpos partidos dos insetos. - Por aqui -
chamou a voz da dama e ento ela disse: - Agora abaixem-se, para baixo,
colados no cho! Eles obedeceram e sentiram a terra tremer sob seus
corpos. Poderia aquilo ser o rudo de cascos? Lyra levantou a cabea e
afastou o cabelo molhado dos olhos, e viu algo bem diferente de cavalos.
- Iorek! - exclamou, a alegria se acendendo como uma chama saltando em
seu peito. - Ah, Iorek! Will puxou-a para baixo de novo imediatamente,
pois no somente Iorek Byrnison mas um regimento de ursos de armadura
estavam vindo diretamente para eles. Foi por um triz: Lyra abaixou a
cabea bem a tempo e ento Iorek saltou, passando acima deles, rugindo
ordens para seus ursos para irem para a esquerda, para irem para a
direita e acabar com os inimigos que os cercavam. Com imensa leveza,
como se sua armadura no pesasse mais que seu plo, o urso rei girou
para encarar Will e Lyra, que estavam lutando para se levantar. - Iorek,
atrs de voc, eles tm redes! - gritou Will, porque os cavaleiros
estavam quase em cima deles. Antes que o urso pudesse se mover, a rede
do cavaleiro sibilou voando no ar e no mesmo instante Iorek foi
envolvido por uma teia de aranha de fios fortes como ao. Ele rugiu,
levantando-se bem alto nas patas traseiras, golpeando o cavaleiro com as
patas imensas. Mas a rede era forte e embora o cavalo relinchasse e
empinasse, assustado, Iorek no conseguiu se libertar dos anis da rede.
- Iorek! - gritou Will. - Fique parado! No se mexa! E saiu correndo
para a frente, chapinhando em meio s poas e saltando sobre as moitas
de capim, enquanto o cavaleiro tentava controlar o cavalo, e alcanou
Iorek justo no momento em que um segundo cavaleiro chegava e uma segunda
rede era lanada sibilando no ar. Mas Will manteve a cabea fria: em vez
de golpear com a faca a torto e a direito e se enredar ainda mais,
observou o fluxo da trama da rede e cortou-a em questo de instantes. A
segunda rede caiu inutilizada no cho e ento Will saltou para Iorek,
tateando com a mo esquerda e cortando com a direita. O grande urso
manteve-se imvel enquanto o menino corria de um lado para outro sobre
seu corpo vasto, cortando, libertando, abrindo passagem. 436 - Agora v!
- berrou Will afastando-se com um salto, e Iorek pareceu explodir para
cima bem no peito do cavalo mais prximo. O cavaleiro tinha levantado a
cimitarra para golpear o pescoo do urso, mas Iorek Bymison em sua
armadura pesava quase duas toneladas e nada, quela distncia, seria
capaz de resistir a ele. Cavalo e cavaleiro, ambos espatifados e
esmagados, tombaram para o lado inofensivamente. Iorek recuperou o
equilbrio, olhou em volta para ver como estava o terreno e rugiu para
as crianas. - Subam nas minhas costas! Agora! Lyra montou com um salto
e Will a seguiu. Apertando o ferro frio entre as pernas, eles sentiram o
vagalho de fora macia quando Iorek comeou a se mover. Atrs deles,
os demais ursos estavam lutando contra a estranha cavalaria, ajudados
pelos galivespianos, cujas ferroadas enfureciam os cavalos. A dama
montada no falco azul aproximou-se num vo rasante e gritou: - Agora
siga reto, bem em frente! Entre as rvores no vale! Iorek alcanou o
topo de uma pequena elevao no terreno e se deteve.  frente deles o
terreno irregular descia numa encosta em direo a um arvoredo a cerca
de 400 metros de distncia. Em algum lugar depois disso, uma bateria de
armas pesadas estava disparando uma bomba atrs da outra que subiam
voando alto, e algum tambm estava disparando foguetes luminosos, que
explodiam pouco abaixo das nuvens e desciam flutuando em direo s
rvores. E, lutando para ganhar o controle do arvoredo propriamente
dito, havia um grupo de 20 Espectros ou mais, sendo impedidos por um
bando desalinhado de fantasmas. To logo viram o grupo de rvores, tanto
Lyra quanto Will tiveram a certeza que seus daemons estavam ali dentro e
que se no os alcanassem logo, eles morreriam. Mais Espectros estavam
chegando l a cada minuto, fluindo sobre a elevao estreita e comprida,
vindos da direita. Agora Will e Lyra podiam v-los muito claramente. Uma
exploso bem acima da elevao sacudiu o solo e lanou pedras e nuvens
de terra bem alto no ar. Lyra deu um grito e Will teve que apertar o
peito. - Segurem-se bem - rosnou Iorek, e partiu para o ataque. Um
foguete luminoso explodiu l em cima, muito alto, depois outro e mais
outro, descendo flutuando lentamente com um claro intenso de magnsio.
Uma outra bomba explodiu, dessa vez mais perto, e eles sentiram o
impacto do deslocamento de ar e, um ou dois segundos depois, as
agulhadas de terra e pedras sobre seus rostos. Iorek no vacilou, mas
eles acharam difcil se segurar: no podiam enfiar os dedos e agarrar
seu plo, - tinham que apertar a armadura entre os joelhos, e as costas
dele eram to largas que ambos ficavam escorregando. - Olhe! - exclamou
Lyra, apontando para o alto enquanto  uma outra bomba explodia nos
arredores. Uma dzia de bruxas estavam se dirigindo para os foguetes,
empunhando galhos bastos, densamente carregados de folhas, e com 437
eles elas afastaram as luzes intensas, varrendo-as para longe no cu
mais alm. A escurido caiu novamente sobre o arvoredo, escondendo-o da
artilharia. E agora as rvores estavam a apenas alguns metros de
distncia. Tanto Will quanto Lyra sentiram a parte deles que faltava ali
por perto - uma animao, uma esperana descontrolada, gelada de medo:
pois havia um grande nmero de Espectros em meio s rvores e eles
teriam que entrar e passar abertamente entre eles, e o simples fato de
v-los evocava aquela fraqueza nauseante no corao. -  Eles tm medo da
faca - disse uma voz ao lado deles, e o urso rei parou to de repente
que Will e Lyra despencaram de suas costas. -  Lee! - exclamou Iorek. -
Lee, meu camarada, nunca vi isso antes. Voc est morto; com o que estou
falando? - Iorek, meu velho, voc no sabe de metade da histria. Ns
assumiremos o comando agora, os Espectros no tm medo de ursos. Lyra,
Will, venham por aqui e levantem essa faca. O falco azul veio voando
mais uma vez num movimento lento circular para pousar no punho de Lyra,
e a senhora de cabelos grisalhos disse: - No percam nem um segundo;
entrem e encontrem seus daemons e fujam! H mais perigo se aproximando.
- Obrigada, senhora! Muito obrigada a todos vocs! - exclamou Lyra e o
falco azul levantou vo. Com dificuldade, Will conseguia enxergar o
fantasma de Lee Scoresby ao lado deles, insistindo para que seguissem
para o arvoredo, mas eles tinham que se despedir de Iorek Byrnison. -
Iorek, meu querido, no tenho palavras, v em paz, abenoa do seja voc!
- Obrigado, Rei Iorek - disse Will. - No temos tempo. Andem! Andem
logo! Ele os empurrou, afastando-os com a cabea coberta pela armadura.
Will mergulhou atrs do fantasma de Lee Scoresby em meio aos arbustos e
plantas rasteiras no bosque, golpeando e cortando  esquerda e  direita
com a faca. Ali a luz era irregular e amortecida, e as sombras densas,
emaranhadas, desnorteantes. - Fique bem perto - gritou para Lyra, e
ento deu um grito dedor quando um galho de espinheiro cortou-lhe o
rosto. Por toda parte ao redor havia movimento, barulho e luta. As
sombras se moviam para a frente e para trs como galhos sob um vento
forte. Poderiam ter sido fantasmas; as duas crianas sentiam os pequenos
choques de frio que conheciam to bem, e ento ouviram vozes por toda
parte. - Por aqui! - Venham por aqui! - Sigam adiante, estamos
conseguindo impedir que eles passem. - Agora esto quase chegando! E
ento veio um grito numa voz que Lyra conhecia e amava mais que qualquer
outra. 438 - Ah, venha depressa! Depressa, Lyra! - Pan, querido. . .
estou aqui. - Ela se arremessou na escurido, soluando e tremendo, e
Will arrancou galhos  e hera, cortou galhos de espinheiros e urtigas,
enquanto por toda parte ao redor deles as vozes de fantasmas se elevavam
num clamor de encorajamento e de advertncia. Mas os Espectros tambm
tinham encontrado o alvo deles e avanaram penetrando atravs do
emaranhado traioeiro de plantas rasteiras, trepadeiras e arbustos
espinhosos, s encontrando fumaa como resistncia. Uma dzia, um grande
nmero das plidas malignidades pareceu afluir rapidamente em direo ao
centro do pequeno bosque, onde o fantasma de John Parry punha-se em
posio de combate e comandava seus companheiros para lutar contra eles.
Will e Lyra estavam tremendo e enfraquecidos de medo, exausto, nusea e
dor, mas desistir era inconcebvel. Lyra arrancava os galhos cheios de
espinhos com as mos nuas, Will golpeava e cortava  esquerda e 
direita, enquanto em torno deles o combate de seres fantasmagricos se
tornava cada vez mais selvagem. - Ali! - exclamou Lee. - Esto vendo?
Junto daquela pedra grande. Um gato selvagem, dois gatos selvagens,
cuspindo, sibilando e dando golpes cortantes. Os dois eram daemons e
Will sentiu que se houvesse tempo ele teria facilmente conseguido dizer
qual era Pantalaimon; mas no havia tempo, porque com uma facilidade
horripilante um Espectro se moveu lentamente para fora do trecho de
sombra mais prximo e foi planando silenciosamente em direo a eles.
Will saltou por cima do ltimo obstculo, um tronco de rvore cado, e
enfiou a faca na luz trmula no ar sem encontrar resistncia. Ele sentiu
seu brao ficar dormente, mas cerrou os dentes como estava cerrando os
dedos em volta do cabo da faca e a forma plida pareceu se afastar
borbulhando e se fundir de volta na escurido. Estavam quase l; e os
daemons  estavam loucos de medo, porque mais e mais Espectros vinham
avanando atravs das rvores, e somente os valentes fantasmas os
estavam impedindo de passar. - Voc pode cortar uma abertura? -
perguntou o fantasma de John Parry. Will levantou a faca e teve que
parar quando uma onda violenta de nusea o sacudiu da cabea aos ps.
No havia mais nada em seu estmago e o espasmo doeu terrivelmente. Ao
lado dele, Lyra estava no mesmo estado. O fantasma de Lee, vendo o
porqu daquilo, saltou para junto dos daemons e lutou contra a coisa
plida que estava surgindo, saindo atravs da rocha atrs deles. - Will,
por favor - disse Lyra, arquejando. E a faca entrou, cortou para o lado,
para baixo e para cima. O fantasma de Lee Scoresby olhou atravs da
janela e viu uma ampla pradaria silenciosa sob uma lua brilhante, to
parecida com sua terra natal que pensou que tivesse recebido uma graa.
439 Com um salto, Will atravessou a clareira e agarrou o daemon mais
prximo, enquanto Lyra apanhava o outro. E mesmo naquela pressa
terrvel, mesmo naquele momento de extremo perigo, cada um deles sentiu
o mesmo pequeno choque de agitao: pois Lyra estava segurando o daemon
de Will, a gata selvagem sem nome, e Will estava carregando Pantalaimon.
Com dificuldade, eles afastaram os olhos um do outro. - Adeus, Sr.
Scoresby! - gritou Lyra, olhando em volta, procurando por ele. - Eu
gostaria.. . Ah, muito obrigada, muito obrigada. . . adeus! - Adeus,
minha menina. . . Adeus, Will. . . vo em paz! Lyra atravessou a janela
rapidamente, mas Will se manteve imvel e olhou nos olhos do fantasma de
seu pai, brilhantes em meio s sombras. Antes de deix-lo, havia uma
coisa que tinha que dizer. - O senhor disse que eu era um guerreiro -
falou para o fantasma de seu pai. - Disse que eu era um guerreiro, disse
que essa era a minha natureza e que eu no devia contest-la. Pai, o
senhor estava errado. Eu lutei porque tive que lutar. No posso escolher
minha natureza, mas posso escolher o que fao. E vou escolher, porque
agora estou livre. O sorriso de seu pai se abriu cheio de orgulho e
ternura. - Muito bem, meu filho. Faz realmente muito bem, disse. Will
no conseguia mais v-lo. Ento virou-se e atravessou a janela atrs de
Lyra. E agora que o objetivo deles havia sido atingido, agora que as
crianas tinham encontrado seus daemons  e fugido, os guerreiros mortos
permitiram que seus tomos relaxassem e finalmente se separassem
flutuando. Para fora do pequeno bosque, para longe dos Espectros
perplexos, para fora do vale, passando pelo vulto poderoso de seu velho
companheiro, o urso de armadura, at que o ltimo minsculo fragmento de
conscincia do que fora o aeronauta Lee Scoresby flutuou para o alto,
exatamente como seu grande balo havia feito tantas vezes. Sem se
incomodar com os foguetes luminosos e bombas eclodin-do e voando pelos
ares, surdo s exploses, gritos e urros de raiva, de advertncia e de
dor, consciente apenas de seu movimento para cima, o que restava de Lee
Scoresby passou atravs das nuvens pesadas e saiu sob a abbada de
estrelas brilhantes, onde os tomos de seu daemon to amado, Hester,
estavam esperando por ele. 440 *32 MANH NASCE A MANH, A NOITE SE
DESFAZ, OS GUARDAS DEIXAM PARA TRS OS POSTOS DE VIGIA...  WILLIAM BLAKE
A vasta pradaria dourada que o fantasma de Lee Scores by tinha avistado,
por um breve momento pela janela, estendia-se tranqila sob os primeiros
raios de sol da manh. Dourada, mas tambm amarela, marrom, verde e com
cada um de todos os milhares de matizes de cor entre eles; e negra, em
certos pontos, com linhas e faixas de piche reluzente; e prateada
tambm, onde o sol refletia as pontas de um tipo particular de relva,
comeando a florir; e azul, onde um amplo lago a alguma distncia e um
laguinho bem menor, mais prximo, refletiam a amplitude do azul do cu.
E tranqila, mas no silenciosa, pois uma brisa suave fazia farfalhar os
bilhes de pequenas hastes, e um bilho de insetos e outras pequenas
criaturas arranhavam, zumbiam e cricrilavam na relva, e um passarinho
voando em crculos, alto demais no azul para ser visto, cantava pequenas
notas musicais como a cadncia de sinos repicando, ora bem prximo, ora
l longe e nunca igual. Em toda aquela vasta paisagem, as nicas coisas
vivas que estavam silenciosas e imveis eram o menino e a menina
deitados dormindo, de costas um para o outro,  sombra de uma
protuberncia de rocha no alto de uma pequena escarpa. Estavam to
quietos, to plidos, que poderiam estar mortos. A fome havia esticado a
pele sobre os ossos de suas faces, o sofrimento deixado marcas em torno
de seus olhos e eles estavam cobertos de poeira, lama e de uma boa
quantidade de sangue. E, pela absoluta passividade dos membros de seus
corpos, pareciam estar nos ltimos estgios de exausto. Lyra foi a
primeira a acordar. A medida que o sol foi subindo no cu, ultrapassou a
rocha acima e tocou seus cabelos, ela comeou a se mexer ligeiramente e,
quando a luz do sol alcanou suas plpebras, ela sentiu ser puxada das
profundezas do sono como um peixe: devagar, pesada, resistindo. Mas no
havia como discutir com o sol e, pouco depois, ela virou a cabea, jogou
o brao sobre os olhos e murmurou: - Pan. . . Pan. . . Sob a sombra do
brao, ela abriu os olhos e, de fato, despertou. Durante algum tempo no
se mexeu, porque seus braos e pernas estavam to doloridos e sentia
todas as partes de seu corpo pesadas e sem foras por causa da exausto;
mas, ainda assim, estava 441 acordada e sentiu a brisa suave, e o calor
do sol, ouviu os rudos dos pequenos insetos e o canto como um repicar
de sino daquele passarinho voando bem alto. Tudo aquilo era delicioso.
Tinha se esquecido de como o mundo era bom. Pouco depois, virou-se para
o lado e viu Will, ainda profundamente adormecido. A mo dele tinha
sangrado muito; sua camisa estava rasgada e imunda, o cabelo duro de
poeira e suor. Ficou olhando para ele durante muito tempo, para a
pequena pulsao em sua garganta, para o peito que subia e descia
lentamente, para as sombras delicadas que seus clios criaram quando o
sol finalmente os alcanou. Ele murmurou alguma coisa e se mexeu de
leve. No querendo ser apanhada olhando para ele, ela olhou para o outro
lado, para a pequena cova que tinham aberto na noite anterior, com
apenas uns dois palmos de largura, onde os corpos do Cavaleiro Tialys e
de Lady Salmakia agora repousavam. Havia uma pedra achatada ali perto:
ela se levantou sobre o cotovelo, desprendeu-a do solo e a enfiou
verticalmente na parte de cima da cova, ento se sentou ereta e protegeu
os olhos do sol com a mo para contemplar a plancie. Parecia sem fim,
se estendendo interminavelmente. Em nenhum ponto era inteiramente plana;
ondulaes suaves e pequenas elevaes e vales tornavam a superfcie
diferente para onde quer que olhasse e, aqui e ali, via grupos de
rvores, to altas que pareciam mais ser construes do que rvores que
haviam crescido: seus troncos retos e copas verde-escuras pareciam
desafiar a distncia, estando to claramente visveis no que deveria ser
uma extenso de muitos quilmetros. Mais perto, no entanto - na verdade,
na base da escarpa, a no mais de 90 metros, - havia um laguinho
alimentado por uma corrente de gua que vinha de uma nascente na rocha e
Lyra se deu conta de como estava com sede. Ela se levantou com as pernas
trmulas e foi andando devagar naquela direo. A nascente brotava
gorgolejando e corria em meio s rochas cobertas de musgo e ela enfiou
as mos na corrente d'gua uma poro de vezes, lavando-as e limpando a
lama e fuligem antes de lev-las em concha  boca para beber. A gua
estava gelada de doer os dentes e Lyra bebeu deliciando-se. As margens
do laguinho eram orladas de juncos, onde um sapo coaxava. Suas guas
eram rasas e mais quentes que as da nascente, como descobriu quando
tirou os sapatos e foi entrando nele. Ficou parada ali por um longo
tempo, com o sol na cabea e seu corpo deliciando-se com a lama fresca
sob seus ps e o fluxo das guas frias da nascente correndo em volta de
suas pernas. Ela se abaixou para mergulhar o rosto na gua e molhar o
cabelo todo, deixando-o boiar e depois mergulhando de novo, esfregando-o
com os dedos para limpar a poeira e fuligem. Quando se sentiu um pouco
mais limpa e a sede estava saciada, olhou para o alto da escarpa de
novo, para ver se Will havia acordado. Ele estava sentado com os joelhos
encolhidos e os braos apoiados neles, observando a amplido da plancie
como ela havia 442 feito e maravilhando-se com sua extenso. E com a
luz, o calor e a tranqilidade. Ela subiu de volta devagar para se
juntar a ele e o encontrou gravando os nomes dos galivespianos na
pequena lpide, depois enfiando-a mais firmemente no solo. - Eles
esto...? - perguntou ele, e Lyra soube que se referia aos daemons. -
No sei. Ainda no vi Pan. Tenho a sensao de que ele no est longe,
mas no sei. Voc se lembra do que aconteceu? Ele esfregou os olhos e
deu um bocejo to grande que ela ouviu suas mandbulas estalarem. Depois
piscou os olhos e sacudiu a cabea. - No muito bem - respondeu. - Eu
peguei Pan e voc pegou... a outra, atravessamos a janela e estava tudo
iluminado pelo luar e eu o botei no cho perto da janela. - E a sua... o
outro daemon  simplesmente saiu pulando dos meus braos - disse ela. - E
eu estava tentando ver o Sr. Scoresby pela janela, e Iorek, e para onde
Pan tinha ido, e quando olhei em volta eles no estavam mais l. - Mas
no tenho mais aquela sensao que tive quando entramos no mundo dos
mortos. Quando ficamos realmente separados. - No - concordou ela. -
Eles com certeza esto em algum lugar por perto. Eu me lembro de quando
ramos pequenos e costumvamos brincar de esconder, s que nun ca
realmente funcionava, porque eu era grande demais para me esconder dele
e sempre  sabia exatamente onde ele estava, mesmo que se camuflasse de
mariposa ou coisa assim. Mas isto  esquisito, - observou, passando a
mo sobre a cabea involuntariamente, como se estivesse tentando
desfazer algum encantamento, - ele no est aqui, mas no me sinto como
se estivesse faltando um pedao, me sinto segura e no sei onde ele
est. - Acho que eles esto juntos - disse Will. - , devem estar. Ele
se levantou de repente. -  Olhe - mostrou, - ali adiante. . . Will
estava sombreando os olhos e apontando. Ela seguiu a direo de seu
olhar e viu um tremor distante de movimento, bem diferente do tremeluzir
da nvoa de calor. - Animais? - perguntou ela em tom de dvida. - E oua
- disse ele, pondo a mo em concha atrs da orelha. Agora que Will tinha
chamado sua ateno, Lyra ouviu o som de um ribombar baixo, contnuo,
quase como uma trovoada, vindo de muito longe. - Eles desapareceram -
disse Will, apontando. A pequena mancha de sombras em movimento havia
desaparecido, mas o som de trovoada se prolongou por alguns instantes.
Ento tudo ficou repentinamente mais tranqilo, embora j tivesse estado
muito tranqilo antes. Os dois ainda estavam olhando para a mesma
direo e, pouco depois, viram o movimento comear de novo. E alguns
momentos depois veio o som. 443 - Eles entraram atrs de uma elevao ou
coisa assim, - comentou Will. - Acha que esto mais perto? -
Sinceramente no consigo ver. Sim, esto se virando, olhe, eles esto
vindo para c. - Bem, se tivermos que lutar com eles, quero beber gua
antes - disse Will e levou a mochila at a nascente, onde bebeu bastante
gua e se lavou, limpando a maior parte da sujeira. Seu ferimento tinha
sangrado muito. Ele estava imundo; louco por um banho de chuveiro quente
com muito sabo e roupas limpas para vestir depois. Lyra estava
observando os. . . l o que fossem; eram realmente muito estranhos. -
Will - chamou ela, - eles esto montados em rodas. . . Mas ela disse
isso em tom incerto. Ele subiu um pouco mais acima na encosta e sombreou
os olhos para olhar. Agora era possvel ver indivduos. O grupo ou
rebanho ou bando era de cerca de uma dzia e eles estavam se movendo,
como Lyra dissera, sobre rodas. Pareciam um cruzamento de antlopes com
motocicletas, mas eram ainda mais estranhos que isso: tinham trombas
como pequenos elefantes. E estavam vindo na direo de Will e Lyra, com
um ar de determinao. Will puxou a faca, mas Lyra, sentada na relva a
seu lado, j estava girando os ponteiros do aletmetro. O instrumento
respondeu depressa, enquanto as criaturas ainda estavam a uns 90 metros
de distncia. O ponteiro girou rapidamente para a esquerda e para a
direita, e Lyra o observou ansiosamente, pois suas ltimas leituras
tinham sido to difceis e sua mente se sentia desajeitada e hesitante
enquanto ia descendo pelas ramificaes de compreenso. Em vez de voar
rapidamente como um pssaro, ela seguiu se segurando com as mos em
busca de apoio; mas o significado estava l, slido como sempre, e logo
compreendeu o que estava dizendo. - Eles so amigos - declarou, - est
tudo bem, Will, esto procurando por ns, sabem onde estvamos. . . E, 
muito estranho, no consigo entender muito bem. . . a Dra. Malone? Ela
disse o nome meio que para si mesma, porque no conseguia acreditar que
a Dra. Malone estivesse naquele mundo. No entanto, o aletmetro a havia
indicado claramente, embora,  claro, no pudesse dizer seu nome. Lyra
guardou o instrumento e se levantou lentamente ao lado de Will. - Acho
que deveramos descer para encontr-los - disse. - No vo nos fazer
mal. Alguns deles tinham parado, esperando. O lder se adiantou um
pouco, com a tromba erguida, e eles puderam ver como se impulsionava,
com fortes empurres para trs com os membros laterais. Alguns dos seres
tinham ido at o laguinho para beber gua; outros esperavam, mas no com
a curiosidade passiva de vacas reunidas junto de uma porteira. Aqueles
seres eram indivduos, animados por inteligncia e propsito. Eles eram
gente. Will e Lyra desceram pela encosta at estarem perto o bastante
para falar com eles. A despeito do que Lyra tinha dito, Will 444 manteve
a mo na faca. - No sei se vocs me compreendem - disse Lyra
cautelosamente, - mas sei que so amigos. Acho que deveramos! - O lder
moveu a tromba e disse: - Venha ver Mary. Vocs montam. Ns levamos.
Venha ver Mary. - Ah! - exclamou ela e virou-se para Will, sorrindo
cheia de satisfao. Dois dos seres estavam equipados com rdeas e
estribos de corda tranada. Sem selas; mas seus dorsos em forma de
losango se revelaram bastante confortveis sem elas. Lyra havia montado
num urso e Will andava de bicicleta, mas nenhum deles havia montado a
cavalo, que era a comparao mas prxima. Contudo, os cavaleiros que
montam cavalos geralmente esto no comando, e as crianas logo
descobriram que no estavam: as rdeas e estribos estavam l
simplesmente para dar-lhes alguma coisa em que se segurar e se
equilibrar. Os seres  que tomavam todas as decises. - Onde esto -
Will comeou a falar, mas teve que parar e recuperar o equilbrio quando
o ser se moveu. O grupo fez meia-volta e desceu a encosta suave,
seguindo devagar pela relva. O movimento era sacolejante, mas no
desconfortvel, porque os seres no tinham coluna dorsal: Will e Lyra
tinham a impresso de estarem sentados em cadeiras com assentos macios
de mola. Logo chegaram ao que no tinham visto claramente da escarpa: um
daqueles trechos de solo negros ou marrom-escuros. A estrada se  parecia
mais com um curso d'gua que com uma via expressa, porque em certos
lugares se alargava em reas amplas como pequenos lagos e em outros se
dividia em canais estreitos s para se unir mais adiante
imprevisivelmente. Era completamente diferente da maneira racional e
brutal com que as estradas cortavam as encostas de colinas e se
estendiam em pontes de concreto. Aqui aquilo era parte integrante da
paisagem, no algo imposto a ela. Estavam seguindo em velocidade cada
vez maior. Will e Lyra levaram algum tempo para se habituar ao impulso
vivo dos msculos e ao rugido trepidante das rodas duras sobre a pedra
dura. Lyra inicialmente teve mais dificuldade que Will, pois nunca tinha
andado de bicicleta e no conhecia o truque de se inclinar para o lado;
mas observou como ele fazia e logo estava achando a velocidade
deliciosa. As rodas faziam barulho demais para que pudessem conversar.
Em vez disso, tinham que apontar para as rvores, com espanto diante de
seu tamanho e esplendor; para um bando de passarinhos, os mais estranhos
que j tinham visto, as asas  frente e atrs dando-lhes um movimento em
espiral no ar; para um gordo lagarto azul do comprimento de um cavalo,
tomando banho de sol bem no meio da estrada (os seres de rodas se
dividiram para passar pelos lados dele e o lagarto no deu a menor
bola). O sol estava alto no cu quando comearam a reduzir a velocidade.
E no ar pairava o cheiro salgado inconfundvel do mar. A estrada estava
subindo para uma encosta e pouco depois estavam 445 se movendo na mesma
velocidade de algum andando a p. Dolorida e com os msculos
enrijecidos, Lyra disse: - Pode parar? Quero desmontar e andar. O ser
que a transportava sentiu o puxo nas rdeas e quer tenha compreendido
ou no suas palavras, ele se deteve. O de Will tambm parou e as duas
crianas desmontaram, sentindo-se doloridas e com os msculos
enrijecidos depois da trepidao e tenso constantes. Os seres
viraram-se para falar uns com os outros, suas trombas se movendo
elegantemente no mesmo compasso dos sons que faziam. Depois de um minuto
seguiram adiante, e Will e Lyra ficaram satisfeitos de caminhar em meio
aos seres com cheiro de feno e relva clida que iam rolando sobre suas
rodas ao lado deles. Um ou dois tinham seguido  frente para o topo da
elevao e as crianas, agora que no precisavam mais se concentrar em
se segurar, puderam observar como eles se moviam, e admirar a graa e a
fora com que se propeliam para a frente e se inclinavam para fazer
curvas. Quando chegaram ao alto da encosta, pararam e Will e Lyra
ouviram o lder dizer: - Mary perto. Mary l. Olharam para baixo. No
horizonte havia o reflexo azul do mar. Um rio largo de curso lento
serpenteava em meio ao pasto a meia distncia e na base da longa
encosta, entre capoeiras de pequenas rvores e fileiras de plantaes de
verduras, havia um povoado de casas com teto de colmo. Mais seres iguais
queles se movimentavam entre as casas ou cuidavam das plantaes ou
trabalhavam entre as rvores. - Agora, montem de novo - disse o lder.
No faltava muito para chegarem. Will e Lyra montaram novamente e os
outros seres examinaram meticulosamente se estavam bem equilibrados e
verificaram os estribos com suas trombas, como se estivessem
assegurando-se de que estavam em segurana. Ento eles partiram, batendo
na estrada com os membros laterais, e se impulsionando para a frente
para descer a encosta at estarem se movendo numa velocidade assombrosa.
Will e Lyra seguraram-se firme com mos e joelhos e sentiram o ar passar
chicoteando por seus rostos, lanando seus cabelos para trs e fazendo
presso em seus olhos. O trovejar das rodas, o passar rpido do pasto
dos dois lados, a inclinao certeira e poderosa na curva ampla adiante,
o deleite lcido da velocidade - aqueles seres adoravam aquilo e Will e
Lyra sentiram o contentamento deles e riram felizes em resposta. Eles
pararam no centro do povoado e os outros que os tinham visto a caminho
se reuniram levantando as trombas e dizendo palavras de boas-vindas. E
ento Lyra exclamou: - Dra. Malone! Mary tinha sado de uma das
choupanas, a camisa azul desbotada, seu corpo forte, as faces coradas e
calorosas, ao mesmo tempo estranhas e familiares. Lyra correu e a
abraou e a mulher lhe deu um abrao apertado e Will ficou para trs,
cauteloso e hesitante. 446 Mary beijou Lyra carinhosamente e depois se
adiantou para dar as boas-vindas a Will. E ento houve uma curiosa dana
mental de simpatia e acanhamento, que ocorreu em um segundo ou menos.
Movida pela compaixo pelo estado em que eles estavam, Mary inicialmente
quis abra-lo como a Lyra. Mas Mary era uma adulta e Will era quase
adulto e ela percebeu que aquele tipo de reao teria feito dele uma
criana, porque ela poderia ter abraado e beijado um menino, mas nunca
teria feito isso com um homem que no conhecesse; de modo que recuou
mentalmente, querendo sobretudo demonstrar respeito por aquele amigo de
Lyra e no fazer com que ele se sentisse diminudo. De modo que, em vez
disso, estendeu a mo, ele a apertou e uma corrente to poderosa de
compreenso e de respeito fluiu entre os dois que imediatamente
tornou-se uma afeio, e cada um dos dois sentiu que tinha feito um
amigo para o resto da vida; como de fato fizeram. - Este  Will - disse
Lyra -; ele vem de seu mundo, lembra-se, eu falei dele. - Sou Mary
Malone - apresentou-se, - e vocs esto com fome, todos os dois, parecem
estar morrendo de fome. Ela se virou para o ser a seu lado e pronunciou
alguns daqueles sons cantados, apitados, movendo o brao enquanto o
fazia. Imediatamente os seres se afastaram e alguns deles trouxeram
almofadas e tapetes da casa mais prxima e os colocaram na terra firme
debaixo de uma rvore prxima, cujas folhas densas e galhos baixos
ofereciam uma sombra fresca e perfumada. To logo eles estavam
confortavelmente acomodados, os anfitries trouxeram tigelas cheias at
a borda de leite que tinha uma leve adstringncia de limo e era
maravilhosamente refrescante; e pequenas nozes semelhantes a avels, mas
com um sabor mais forte, amanteiga-do; e salada feita com verduras
frescas acabadas de ser colhidas, folhas crocantes de sabor forte,
apimentado, misturadas com outras macias e grossas que escorriam uma
seiva cremosa, e pequenas razes do tamanho de cerejas, com sabor de
cenouras doces. Mas eles no conseguiram comer muito. Era tudo forte e
suculento demais. Will queria fazer justia  generosidade deles, mas a
nica coisa que conseguiu engolir com facilidade, alm da bebida, foi um
po achatado, de farinha ligeiramente tostada, parecendo chapatis ou
tortilhas. Era simples e nutritivo e foi tudo o que Will conseguiu
comer. Lyra provou um pouco de tudo, mas como Will, logo descobriu que
um pouquinho era mais que o suficiente. Mary conseguiu evitar fazer
perguntas. Aqueles dois tinham passado por uma experincia que os havia
marcado profundamente: ainda no queriam falar a respeito dela. De modo
que respondeu s perguntas deles sobre os mulefas e relatou brevemente
como havia chegado quele mundo; ento ela os deixou  sombra da rvore,
porque podia ver que estavam com as plpebras pesadas e cabeceando de
sono. 447 - Agora vocs no precisam fazer nada, s dormir, - declarou.
A tarde estava agradvel e calma, e a sombra da rvore era modorrenta e
murmurante com o som de grilos. Menos de cinco minutos depois de terem
tomado o ltimo gole da bebida, tanto Will como Lyra dormiam
profundamente. Eles so de dois sexos diferentes?, perguntou Atai,
surpreendida. Mas como pode distinguir?  fcil, disse Mary. Seus corpos
tm formas diferentes. Eles se mexem de maneiras diferentes. Eles no
so muito menores que voc. Mas tm menos sraf. Quando isso chegar para
eles? No sei, respondeu Mary. Imagino que dentro de muito pouco tempo.
No sei quando acontece conosco. No tm rodas, comentou Atai em tom de
simpatia. Elas estavam limpando a horta. Mary tinha feito uma enxada
para evitar ter que se agachar; Atai usava sua tromba, de modo que a
conversa era intermitente. Mas voc sabia que eles estavam vindo, disse
Atai. Sabia. Foram os palitos que disseram? No,  respondeu Mary,
corando. Ela era uma cientista; j era bastante mau ter que admitir que
consultava o I Ching, mas isso era ainda mais constrangedor. Foi uma
imagem-noite, confessou. Os mulefas no tinham uma palavra determinada,
especfica para sonho. Contudo, eles sonhavam vividamente e levavam
muito a srio seus sonhos. Voc no gosta de imagens-noite, disse Atai.
Sim, eu gosto. Mas no acreditava nelas at agora. Vi o menino e a
menina to claramente, e uma voz me disse que eu me preparasse para a
vinda deles. Que tipo de voz? Como falou com voc se no podia ver? Era
difcil para Atai imaginar a fala sem os movimentos da tromba que a
esclareciam e a definiam. Ela havia parado no meio de uma fileira de ps
de feijo e se virado para encarar Mary com uma curiosidade fascinada.
Bem, mas eu vi, respondeu Mary. Era uma mulher, ou uma voz feminina,
como a nossa, como a de meu povo. Mas muito idosa e ao mesmo tempo nada
idosa. Pessoa de saber, era assim que os mulefas chamavam seus lderes.
Ela viu que Atai a estava olhando intensamente interessada. Como ela
podia ser velha e tambm no velha?, perguntou Atai.  um faz-parece,
respondeu Mary. Atai balanou a tromba, tranqilizada. Mary prosseguiu
tentando explicar o melhor que podia. Ela me disse que eu deveria
esperar as crianas, quando eles apareceriam e onde. Mas no por qu.
Devo cuidar deles, proteg-los. Esto feridos e cansados, disse Atai.
Eles vo fazer o sraf parar de ir embora? Mary olhou para cima inquieta.
Sabia, sem precisar confirmar olhando pela luneta, que as partculas de
Sombra estavam 448 fluindo para longe mais rapidamente que nunca. Espero
que sim, respondeu. Mas no sei como. Ao cair da tarde, quando as
fogueiras para cozinhar foram acesas e as primeiras estrelas estavam
surgindo, chegou um grupo de estranhos. Mary estava se lavando; ouviu o
trovoar de suas rodas e o murmrio agitado da conversa, e se apressou em
sair de sua casa, se enxugando. Will e Lyra tinham dormido a tarde
inteira e s agora estavam comeando a se mexer, ao ouvir o barulho.
Lyra se levantou, ainda meio tonta, para ver Mary falando com cinco ou
seis mulefas que a rodeavam, claramente excitados; mas se estavam
aborrecidos ou contentes, no sabia dizer. Mary a viu e se afastou do
grupo. - Lyra - disse, - aconteceu alguma coisa... eles descobriram uma
coisa que no sabem explicar e . . . eu no sei o que . . . tenho que
ir at l e olhar. Fica a mais ou menos uma hora daqui. Volto assim que
puder. Pode pegar e usar tudo o que precisar em minha casa... no posso
demorar, eles esto muito nervosos - Tudo bem - respondeu Lyra, ainda
atordoada pelo longo tempo de sono. Mary olhou para a sombra da rvore.
Will estava esfregando os olhos. - Realmente no vou demorar muito -
prometeu ela. - Atai vai ficar com vocs. O lder estava impaciente.
Rapidamente, Mary colocou as rdeas e os estribos no dorso dele,
desculpando-se pela falta de jeito, e montou imediatamente. Eles
circularam, tomando impulso, depois se viraram e se afastaram sob a luz
do anoitecer. Seguiram numa nova direo, acompanhando a cadeia de
colinas que se elevava acima da costa em direo ao norte. Mary nunca
tinha viajado no escuro antes e achou a velocidade ainda mais
assustadora do que de dia. A medida que iam subindo, Mary podia ver o
brilho do luar refletindo no mar a alguma distncia  esquerda e sua luz
spia-prateada parecia envolv-la num encantamento fresco e ctico. O
encantamento estava dentro dela e o ceticismo estava no mundo que a
cercava, o frescor estava presente nos dois. Olhava para o alto de vez
em quando e tocava na luneta em seu bolso, mas no podia us-la enquanto
no tivessem parado. E aqueles mulefas estavam se movendo com grande
velocidade, com o ar de que no quereriam parar para nada. Depois de uma
hora de percurso veloz, eles viraram em direo ao interior, deixando a
estrada de pedra e seguindo lentamente por uma trilha de terra batida
que se estendia entre o pasto de relva alta, passando por um grupo de
rvores-das-rodas, e subia para uma cadeia de colinas. A paisagem
reluzia sob a luz do luar: amplas colinas nuas com pequenos vales
ocasionais onde correntes d'gua desciam, borbulhando, entre as rvores
que se aglomeravam s suas margens. 449 Foi em direo a um desses vales
que eles a conduziram. Mary tinha desmontado quando eles deixaram a
estrada e caminhou em ritmo constante, acompanhando o ritmo deles at o
alto da colina, e desceu para o vale. Ouviu o borbulhar da nascente e o
vento noturno soprando na relva. Ouviu o som suave das rodas girando
sobre a terra bem batida e ouviu os mulefas mais adiante dela murmurando
uns com os outros, e ento eles pararam. Na encosta da colina, a apenas
uns poucos metros de distncia, havia uma daquelas aberturas feitas pela
faca sutil. Era como a boca de uma caverna, pois o luar iluminava um
pequeno trecho de sua parte interna, como se o interior da abertura
fosse o interior da colina: mas no era. E da abertura estava saindo uma
procisso de fantasmas. Mary teve a sensao de que o cho tinha se
aberto sob sua mente. Ela se controlou sobressaltada, agarrou-se ao
galho mais prximo, para se assegurar de que ainda havia um mundo fsico
e que fazia parte dele. Ela se aproximou. Homens e mulheres idosos,
crianas, bebs de colo, seres humanos e tambm outros seres, cada vez
em grupos mais compactos, saam da escurido para o mundo do luar slido
- e desapareciam. Era a mais estranha das coisas. Eles davam alguns
passos no mundo de relva, ar e luz prateada, olhavam ao redor, seus
rostos transfigurados de felicidade - Mary nunca tinha visto tamanha
felicidade, - e estendiam os braos abertos para o alto como se
estivessem abraando o universo inteiro; e ento, como se fossem feitos
de neblina ou de fumaa, simplesmente saam flutuando, se desfazendo,
tornando-se parte da terra, do orvalho e da brisa noturna. Alguns deles
se aproximaram de Mary, como se quisessem dizer alguma coisa a ela, e
estenderam as mos, e ela sentiu o toque deles como pequenos choques de
frio. Um dos fantasmas - de uma mulher idosa - acenou, insistindo para
que ela se aproximasse. Ento ela falou e Mary a ouviu dizer: - Temos
que contar histrias a elas. Era disso que no sabamos. Todo esse tempo
e nunca soubemos! Mas elas precisam da verdade.  isso que as alimenta.
Voc tem que contar histrias verdadeiras e tudo fica bem, tudo.  s
contar-lhes as histrias. E isso foi tudo. Foi um daqueles momentos como
quando nos recordamos, de repente, de um sonho que, inexplicavelmente,
havamos esquecido, e numa torrente toda a emoo que havamos sentido
durante o sono volta. Era o sonho que ela tinha tentado explicar a Atai,
a imagem-noite; mas quando Mary tentou encontr-la de novo, ela se
dissolveu e se afastou, exatamente como aquelas presenas estavam
fazendo ao chegar ao ar livre. O sonho havia desaparecido. Tudo o que
restou foi a doura do sentimento e a recomendao insistente de
contar-lhes histrias. Ela olhou para a escurido. At onde podia
enxergar naquele silncio infinito, mais daqueles fantasmas estavam se
aproximando, milhares e mais milhares, como refugiados voltando para sua
terra natal. - Contar-lhes histrias - disse para consigo mesma. 450 *33
MARZIP DOCE PRIMAVERA CHEIA DE DOCES DIAS E ROSAS, NA CAIXA SE ESCONDEM
OS DOCES LADO A LADO  GEORGE HERBERT Na manh seguinte, Lyra despertou
de  um sonho  em que Pantalaimon tinha voltado para ela e revelado sua
forma definitiva; e ela a havia adorado, mas agora no tinha mais
nenhuma idia de qual fosse. No fazia muito tempo que o sol havia
raiado e a atmosfera estava carregada de uma fresca florescncia. Podia
ver a luz do sol atravs da porta aberta da pequena choupana de teto de
colmo onde havia dormido, a casa de Mary. Ficou deitada por algum tempo,
escutando. Havia passarinhos l fora e alguma espcie de grilo cantando,
e Mary respirava suave e compassadamente dormindo ali perto. Lyra se
sentou e descobriu que estava nua. Ficou indignada por um instante e
depois viu uma pilha de roupas limpas dobradas a seu lado no cho: uma
camisa de Mary, um pedao de tecido macio, estampado com cores claras,
que poderia amarrar na cintura e usar como saia. Ela os vestiu,
sentindo-se engolida pela camisa, mas pelo menos estava decente. Saiu da
choupana. Pantalaimon estava por perto: tinha certeza disso. Quase podia
ouvi-lo falar e rir. Isso devia significar que estava bem, em segurana,
e que eles de alguma forma ainda estavam ligados. E quando ele a
perdoasse e voltasse - as horas que passariam juntos conversando, apenas
contando tudo o que havia acontecido um para o outro. . . Will ainda
estava dormindo debaixo da rvore, o preguioso. Lyra pensou em
acord-lo, mas se estivesse sozinha poderia nadar nua no rio. Costumava
nadar nua, feliz da vida, no rio Cherwell, com todas as outras crianas
de Oxford, mas seria bastante diferente com Will e ela corou s de
pensar naquilo. De modo que desceu at a beira da gua, sozinha, na
manh cor de prola. Entre os juncos na margem havia um pssaro, grande
como uma gara, de p, perfeitamente imvel sobre uma perna. Ela foi
andando silenciosa e lentamente para no assust-lo, mas o pssaro no
lhe deu nenhuma ateno, como se no fosse nada mais que um galho na
gua. - Bem - disse ela. Deixou as roupas na margem e deslizou para as
guas do rio. Nadou vigorosamente para aquecer o corpo, depois saiu e
sentou-se encolhida na margem, tremendo. Normalmente, Pan a ajudaria  a
se 451 secar: ser que estava sob a forma de um peixe, rindo s suas
custas debaixo d'gua? Ou de um besouro, se enfiando no meio das roupas
para lhe fazer ccegas, ou de um pssaro? Ou ser que estava em algum
outro lugar totalmente diferente, com o outro daemon  e sem nem sequer
pensar em Lyra? O sol agora estava mais quente e em pouco tempo ela se
secou. Vestiu a camisa larga de Mary novamente e, vendo algumas pedras
achatadas na margem, foi buscar suas prprias roupas para lav-las. Mas
descobriu que algum j tinha feito isso: as roupas dela e tambm as de
Will estavam estendidas nos galhos recurvados de um arbusto perfumado,
quase secas. Will estava comeando a se mexer. Ela sentou perto dele e
chamou baixinho. - Will! Acorde! - Onde estamos? - perguntou ele de
imediato e se levantou apoiado no cotovelo, e pegou a faca. - Estamos em
segurana - respondeu ela, desviando o olhar. - E eles tambm lavaram
nossas roupas, ou talvez tenha sido a Dra. Malone. Vou buscar as suas.
Esto quase secas. . . Ela passou-lhe as roupas e sentou de costas para
ele at estar vestido. - Eu nadei no rio - contou. - Fui procurar Pan,
mas acho que ele est se escondendo. - Isso  uma boa idia. Dar uma
nadada. Tenho a sensao de ter anos e anos de sujeira grudada em mim. .
. Vou descer e me lavar. Enquanto ele se afastava, Lyra comeou a
passear pelo povoado, sem examinar muito detalhadamente coisa nenhuma,
caso aquilo violasse algum cdigo de boas maneiras, mas curiosa com
relao a tudo que via. Algumas das casas eram muito velhas e outras
bastante novas, mas eram todas construdas mais ou menos da mesma
maneira, de madeira, barro e colmo. No havia nada de tosco na
construo das casas; cada porta, esquadria de janela e verga de porta
era decorada com desenhos sutis, mas os padres no eram entalhados na
madeira: era como se eles tivessem persuadido a madeira a crescer
naturalmente naquela forma. Quanto mais ela olhava, mais via ordem e
cuidados de todos os tipos na aldeia, como as camadas de significado no
aletmetro. Parte de sua mente estava vida para decifrar tudo aquilo,
para saltar ligeira de similaridade em similaridade, de um significado
para outro, como ela fazia com o instrumento; mas uma outra parte estava
se perguntando quanto tempo eles poderiam ficar ali antes de ter que
seguir adiante. Bem, no vou a lugar nenhum enquanto Pan no voltar,
disse para consigo mesma. Pouco depois Will voltou do rio e ento Mary
saiu de sua casa e lhes ofereceu um caf da manh; e logo em seguida
Atai tambm apareceu e o povoado comeou a despertar em torno deles. As
duas crianas mulefas, sem rodas, ficavam espiando escondidas atrs dos
cantos das casas para observ-los e Lyra de repente se virava e os
encarava abertamente para faz-los pular e rir assustados. - Ora, muito
bem - disse Mary, depois de terem comido po, frutas e bebido uma
infuso escaldante de algo parecido com menta. 452 Ontem vocs estavam
cansados demais e precisavam descansar. Mas hoje esto me parecendo
muito mais animados, todos os dois, e acho que precisamos contar uns aos
outros tudo o que descobrimos. E isso vai levar um bom tempo, de modo
que poderamos aproveitar e manter nossas mos ocupadas enquanto fazemos
isso, de modo que vamos tratar de nos tornar teis e consertar algumas
redes. Eles carregaram a pilha de redes enrijecidas, alcatroadas, at a
margem do rio e as estenderam na relva, e Mary mostrou a eles como dar o
n em um novo pedao de linha onde havia uma esgarada. Ela estava
vigilante, porque Atai lhe tinha dito que as famlias que viviam mais
abaixo na costa tinham visto um grande nmero de tualapi, os pssaros
brancos, se reunindo no mar e todo mundo estava preparado para um alarme
para partir imediatamente; mas enquanto isso o trabalho tinha que
continuar. De modo que eles ficaram sentados ao sol, trabalhando, na
margem das guas plcidas do rio, e Lyra contou sua histria, a partir
do momento, tanto tempo atrs, em que ela e Pan haviam decidido dar uma
espiada na Sala Privativa da Faculdade Jordan. A mar encheu, subiu pelo
rio e comeou a baixar, e mesmo depois disso no houve sinal dos
tualapi. No final da tarde, Mary conduziu Will e Lyra pela margem do
rio, passando pelos pilares de pesca onde as redes ficavam amarradas e
atravessando o amplo terreno que era inundado pelas guas salgadas, na
mar cheia, usado para salinao, em direo ao mar. Era seguro ir at
l quando a mar estava vazante, porque os pssaros brancos s vinham
para a terra quando a mar estava alta. Mary foi seguindo na frente, por
um caminho compacto acima da lama; como tantas coisas que os mulefas
haviam feito, era antigo, mas perfeitamente bem conservado, mais como
algo que fosse parte da natureza que algo imposto a ela. - Eles tambm
construram as estradas de pedra? - perguntou Will. - No. Acho que, de
certa forma, foram as estradas que os fizeram - comentou Mary. - O que
estou querendo dizer  que eles nunca teriam desenvolvido o uso de rodas
se no existisse essa profuso de superfcies duras e lisas para
us-las. Acho que so derramamentos de lavas de vulces antiqssimos.
"De modo que as estradas tornaram possvel que eles usassem as rodas. E
outras coisas contriburam para isso tambm. Como as prprias
rvores-das-rodas e a maneira como seus corpos so formados: eles no
so vertebrados, no tm espinha dorsal. Alguma casualidade feliz em
nosso mundo, muito tempo atrs, deve ter feito com que seres com espinha
dorsal tivessem mais facilidade de sobreviver e assim uma enorme
variedade de outras formas se desenvolveram, todas baseadas na espinha
dorsal. Neste mundo, a sorte seguiu um caminho diferente, e a estrutura
losangular foi bem-sucedida. Existem animais vertebrados,  claro, mas
no muitos. Existem serpentes, por exemplo. As serpentes aqui so
importantes. As pessoas cuidam delas e tentam no lhes fazer mal. "De
qualquer maneira, a combinao da estrutura deles, das estradas e das
rvores-das-rodas reunidas tornou tudo possvel. Uma poro de felizes
casualidades todas se juntando e se encaixando. Quando comeou sua parte
na histria, Will?" 453 -  Uma poro de pequenas casualidades para mim
tambm, - comeou ele, pensando na gata debaixo dos galhos das btulas.
Se ele tivesse chegado l 30 segundos antes ou depois, nunca teria visto
a gata, nunca teria encontrado a janela, nunca teria descoberto
Cittgazze e Lyra; nada de tudo aquilo teria acontecido. Ele comeou bem
do princpio, e elas ouviram enquanto ele falava. Quando alcanaram os
baixios de argila, Will j tinha chegado ao ponto em que ele e seu pai
estavam lutando no cume da montanha. -  E ento a bruxa o matou. . .
Will nunca tinha realmente conseguido compreender aquilo. Ele explicou o
que ela lhe dissera antes de se matar: que amava John Parry e que ele a
tinha rejeitado. -  Mas as bruxas so ferozes - comentou Lyra. -  Mas se
ela o amava. . . -  Bem - argumentou Mary, - o amor tambm  feroz. -
Mas ele amava minha me - disse Will. - E posso dizer a ela que ele
nunca lhe foi infiel. Lyra, olhando para Will, pensou que se ele se
apaixonasse seria assim. Por toda parte ao redor deles os rudos serenos
da tarde pairavam no ar quente: o escorrer e sugar incessante do
pntano, o cricrilar dos insetos, os gritos das gaivotas. A mar j
havia baixado totalmente, de modo que toda a extenso da praia estava
descoberta e reluzindo sob o sol forte. Um bilho de minsculos seres da
lama viviam, se alimentavam e morriam na camada superior da areia, e os
pequeninos moldes e buracos para respirar e movimentos invisveis
mostravam que a paisagem inteira estava tremulante de vida. Sem dizer
aos outros por que, Mary examinou minuciosamente o mar distante,
vasculhando o horizonte em busca de velas brancas. Mas havia apenas um
brilho enevoado onde o azul do cu empalidecia na borda do mar, e o mar
refletia a claridade e fazia cora que faiscasse no ar cintilante. Ela
mostrou a Will e Lyra como apanhar um tipo especial de molusco,
encontrando seus tubos de respirao pouco acima da areia. Os mulefas
adoravam com-los, mas para eles era difcil se movimentar na areia e
apanh-los. Sempre que Mary vinha at a beira do mar, colhia tantos
quantos podia e agora, com trs pares de mos e de olhos para trabalhar,
haveria um banquete. Ela deu a cada um uma bolsa de pano e eles
trabalharam enquanto ouviam a parte seguinte da histria. Pouco a pouco
foram enchendo as sacolas e Mary os levou discretamente de volta para a
margem do pntano porque a mar estava novamente virando. A histria
estava levando um longo tempo; eles no chegariam ao mundo dos mortos
naquele dia. A medida que se aproximavam do povoado, Will estava
contando a Mary a concluso a que ele e Lyra haviam chegado com relao
 constituio em trs partes da natureza dos seres humanos. - Vocs
sabem - comentou Mary, - a igreja, a Igreja Catlica  qual eu
pertencia, no usaria a palavra daemon, mas So Paulo fala a respeito de
esprito e alma e corpo. De maneira que a idia da natureza humana ser
constituda de trs partes no  to estranha. 454 - Mas a melhor parte
 o corpo - disse Will. - Foi isso que Baruch e Balthamos me disseram.
Os anjos desejariam ter corpos. Eles me disseram que no conseguiam
compreender por que ns  no aproveitamos melhor o mundo. Para eles,
seria uma espcie de xtase ter nossa carne e nossos sentidos. No mundo
dos mortos. - Conte isso quando chegar a essa parte da histria -
interveio Lyra e deu-lhe um sorriso, um sorriso de to doce compreenso
e alegria que os sentidos dele ficaram confusos. Ele retribuiu o
sorriso, e Mary constatou que a expresso no rosto dele revelava a mais
perfeita confiana que jamais tinha visto num rosto humano. A essa
altura tinham chegado ao povoado e estava na hora de preparar a refeio
da noite. De modo que Mary deixou os dois junto da margem do rio, onde
sentaram para ver a mar cheia subir, e foi se juntar a Atai ao lado da
fogueira. Sua amiga ficou radiante com a farta coleta de moluscos. Mas
Mary, disse ela, os tualapi destruram um povoado mais acima na costa e
depois outro e mais outro. Eles nunca fizeram isso antes. Geralmente
atacam um e depois voltam para o mar. E mais trs foram destrudos hoje.
. . No! Onde? Atai mencionou um bosque no muito longe de uma fonte de
guas termais. Mary tinha estado l apenas trs dias antes e nada
parecera errado. Ela pegou a luneta e olhou para o cu; e, exatamente
como havia esperado, a grande corrente de partculas de Sombra estava
fluindo com mais intensidade ainda, com velocidade e volume
incomparavelmente maiores que a mar montante que subia entre as margens
do rio. O que voc pode fazer?, perguntou Atai. Mary sentiu o peso da
responsabilidade como uma pesada mo descendo entre suas omoplatas, mas
obrigou-se a sentar ereta sem demonstrar abatimento. Contar-lhes
histrias, respondeu. Depois que o jantar acabou, os trs humanos e Atai
sentaram em mantas do lado de fora da casa de Mary, debaixo do cu
clido e estrelado. Eles se deitaram, se sentindo bem alimentados e
confortveis na noite perfumada pela fragrncia de flores, e ouviram
Mary contar sua histria. Ela comeou pouco antes de ter conhecido Lyra,
falando sobre o trabalho que estivera fazendo na Unidade de Pesquisa de
Matria Escura, e sobre a crise por causa da recusa de renovao de
fundos para a bolsa de pesquisa. Quanto tempo ela tinha tido que passar
pedindo dinheiro e como isso lhe deixara pouco tempo para trabalhar na
pesquisa! Mas a visita de Lyra tinha mudado tudo e to rapidamente: numa
questo de dias ela havia, de fato, abandonado seu mundo. - Fiz o que
voc me disse para fazer - prosseguiu. - Fiz um programa, isto , um
conjunto de instrues, para deixar as Sombras falarem comigo atravs do
computador. Elas me disseram o que eu deveria fazer. Disseram que havia
anjos e. . . bem. . . 455 - Se era uma cientista - observou Will, - no
imagino que fosse uma coisa boa elas dizerem isso. Voc poderia no ter
acreditado em anjos. -  Ah, mas eu sabia da existncia de anjos. Sabe,
eu tinha sido freira. Eu achava que se poderia trabalhar no campo da
fsica para a glria de Deus, at que me dei conta de que no existia
Deus nenhum e que, de qualquer maneira, todo aquele campo de estudos de
fsica era muito mais interessante. A religio crist  um erro muito
poderoso e convincente,  s isso. -  Quando deixou de ser freira? -
quis saber Lyra. - Eu me lembro exatamente - respondeu Mary - at mesmo
da hora do dia. Como era boa em fsica, eles me deram permisso para
continuar minha carreira universitria, sabe, de modo que conclu meu
doutorado e estava pronta para ensinar. No era uma daquelas ordens em
que voc  totalmente afastado do mundo. Na verdade, ns nem sequer
usvamos hbito; apenas tnhamos que nos vestir com simplicidade,
discretamente, e usar um crucifixo. De modo que eu freqentava uma
universidade para ensinar e fazer  pesquisa na rea de partculas
elementares. "E ento houve uma conferncia tratando de meu tema de
pesquisa e fui convidada para ir e apresentar um estudo. A conferncia
era em Lisboa e eu nunca tinha estado l antes; na verdade, nunca tinha
sado da Inglaterra. A coisa toda. . . a viagem de avio, o hotel, o sol
forte, as lnguas estrangeiras por toda parte ao meu redor as pessoas
famosas que iriam apresentar trabalhos e a idia de apresentar minha
prpria tese, a dvida se algum iria aparecer para ouvir minha
exposio e se eu estaria nervosa demais para conseguir falar... Ah,
estava to tensa e cheia de animao, que no consigo descrever. "E eu
era to inocente - vocs tm que se lembrar disso. Sempre tinha sido to
boa menina, sempre indo regularmente  missa, eu acreditava que tinha
uma vocao para a vida espiritual. Queria de todo o corao servir a
Deus. Queria pegar minha vida inteira e oferec-la, assim - disse ela,
levantando as mos juntas em concha, - e coloc-la diante de Jesus para
que ele fizesse o que quisesse com ela. E suponho que estivesse
satisfeita comigo mesma. Satisfeita demais. Eu me sentia pura, correta e
dedicada  religio e era inteligente. Ah! Isso durou at, ah, nove e
meia da noite do dia dez de agosto, sete anos atrs." Lyra se sentou e
abraou os joelhos, ouvindo com muita ateno. - Foi na noite depois que
apresentei minha tese - continuou Mary - e tudo tinha corrido bem,
algumas pessoas famosas e respeitadas ouviram minha apresentao e me
sa bem depois, durante as perguntas, sem me confundir, sem dizer
nenhuma besteira e, de maneira geral, me sentia cheia de alvio e de
prazer. . . E de orgulho tambm, sem dvida. "De qualquer maneira,
alguns de meus colegas tinham combinado de ir a um restaurante, um pouco
mais abaixo na costa, e me perguntaram se eu no gostaria de ir.
Normalmente, eu teria inventado alguma desculpa, mas daquela vez pensei:
ora, sou uma mulher adulta, apresentei uma tese sobre um tema importante
e ela foi bem recebida, e estou entre bons amigos. 456 E foi to
agradvel, a conversa era a respeito de todas as coisas que mais me
interessavam, e todos ns estvamos to felizes e confiantes, achei que
devia relaxar um pouco. Eu estava descobrindo uma nova faceta de mim
mesma, entendem, uma faceta que gostava do sabor do vinho e das
sardinhas grelhadas, da sensao do ar quente na minha pele e do ritmo
da msica ao fundo. Eu estava me deliciando com aquilo. "De modo que nos
sentamos para comer no jardim. Eu estava na cabeceira de uma mesa
comprida debaixo de um limoeiro e havia uma espcie de caramancho ao
meu lado com flores-da-paixo e meu vizinho estava falando com a pessoa
do outro lado, e. . . Bem, sentado defronte a mim havia um homem que eu
tinha visto uma ou duas vezes durante a conferncia. No o conhecia nem
de cumprimentar; ele era italiano e tinha feito pesquisas a respeito das
quais as pessoas estavam falando, e achei que seria interessante
conversar sobre o assunto. "Resumindo. Ele era apenas um pouco mais
velho do que eu e tinha cabelos pretos lisos, macios, e uma pele morena
bonita, olhos escuros. O cabelo dele ficava caindo sobre a testa e ele o
tempo todo o empurrava para trs assim, lentamente. . ." Mary mostrou a
eles. Will achou que ela parecia se lembrar muito bem. - No era um
homem bonito - prosseguiu. - Ele no era um mulherengo, nem um sedutor.
Se tivesse sido, eu teria ficado acanhada, no teria sabido como
conversar com ele. Mas era uma pessoa simptica, inteligente e
divertida, e foi a coisa mais fcil do mundo ficar sentada ali, sob a
luz do lampio, debaixo do limoeiro, com o perfume das flores, o cheiro
da comida na grelha e do vinho, e conversar, rir e me sentir tendo a
esperana de que ele me achasse atraente. A Irm Mary Malone, flertando!
E os votos que eu tinha feito? E o que dizer de minha deciso de dedicar
a vida a Jesus e todo o resto? "Bem, no sei se foi o vinho ou minha
prpria tolice, o ar quente gostoso ou o limoeiro, ou sei l o qu...
Mas, gradualmente, me pareceu que eu havia me convencido de uma coisa
que no era verdade. Tinha me levado a acreditar que estava bem, feliz e
realizada, sozinha, sem o amor de nenhuma outra pessoa. Para mim, estar
apaixonada era como a China: sabia que existia, que sem dvida devia ser
muito interessante e que algumas pessoas iam at l, mas eu nunca iria.
Eu passaria toda a minha vida sem nunca ir  China, mas isso no teria
importncia porque havia o resto do mundo para visitar. "E ento algum
me passou um pedao de alguma coisa doce e, de repente, me dei conta de
que eu tinha ido  China. Por assim dizer. E que tinha me esquecido
disso. Foi o gosto do doce que trouxe tudo de volta. . . acho que era
marzip. . . uma pasta doce de amndoas" explicou a Lyra, que olhava
para ela sem entender. - Ah! Marchpane! - exclamou Lyra e se acomodou de
volta mais confortavelmente para ouvir o que aconteceu depois. - De
qualquer maneira - prosseguiu Mary, - eu me lembrei do gosto e,
imediatamente, voltei ao passado,  ocasio em que provei aquele doce
pela primeira vez, quando era garota. "Eu tinha 12 anos. Foi numa festa
na casa de uma de minhas amigas, uma festa de aniversrio, e havia uma
discoteca, isso  457 quando tocam msica numa espcie de mquina de
gravao e as pessoas danam - ela explicou, percebendo a expresso de
incompreenso de Lyra. - Geralmente as garotas danam juntas porque os
garotos so tmidos demais para convid-las para danar. Mas esse
garoto, eu no o conhecia, mas ele me convidou para danar e assim
danamos a primeira msica, depois a seguinte e naquela altura estvamos
conversando. . . E sabem como , quando a gente gosta de algum, voc
sabe imediatamente; bem, eu gostei tanto, gostei muito dele. E
continuamos danando e ento veio a hora do bolo de aniversrio. E ele
pegou um pedao de marzip e, delicadamente, o colocou em minha boca. .
. eu me lembro de tentar sorrir e de corar, depois de me sentir to
tola; e me apaixonei por ele s por causa disso, por causa da maneira
delicada com que tocou meus lbios com o marzip." Enquanto Mary dizia
isso, Lyra sentiu uma coisa estranha acontecer com seu corpo. Ela sentiu
uma agitao nas razes de seus cabelos: descobriu que sua respirao
estava acelerada. Lyra nunca tinha andado de montanha-russa, nem nada
parecido, mas se tivesse, teria reconhecido as sensaes em seu peito:
eram de excitao e medo ao mesmo tempo, e ela no tinha a menor idia
do porqu. A sensao continuou e se tornou mais intensa, depois mudou,
 medida que mais partes de seu corpo tambm foram sendo afetadas por
ela. Sentia como se tivessem lhe dado a chave de uma casa enorme que no
sabia que existia, uma casa que de alguma maneira estava dentro dela e,
 medida que girava a chave, l nas profundezas da escurido do prdio,
sentisse outras portas se abrindo tambm, e luzes se acendendo. Ficou
sentada tremendo, abraando os joelhos, mal ousando respirar, enquanto
Mary continuava: -  E acho que foi naquela festa, ou pode ter sido numa
outra, que ns nos beijamos pela primeira vez. Foi no jardim e havia o
som de msica vindo de dentro da casa e o silncio e o ar fresco entre
as rvores, e eu o queria muito, meu corpo inteiro o queria tanto que
doa e percebia claramente que ele estava sentindo a mesma coisa... e
que ns dois estvamos quase acanhados demais para conseguir nos mexer.
Quase. Mas um de ns se mexeu e ento, sem nenhum intervalo, foi como um
salto quntico, de repente estvamos nos beijando e, ah, era mais que a
China, era o paraso. "Ns nos vimos cerca de meia dzia de vezes, no
mais que isso. Ento os pais dele se mudaram para longe e nunca mais o
vi de novo. Foi uma poca to boa, to gostosa, passou to depressa,
durou to pouco. . . Mas existiu, a recordao estava l. Eu tinha
conhecido. Eu tinha ido  China." Foi a mais estranha das coisas: Lyra
sabia exatamente do que Mary estava falando e, meia hora antes, no
teria tido absolutamente nenhuma idia. E em seu ntimo, aquela casa
rica com todas as suas portas abertas e todos os seus aposentos
iluminados estava esperando, silenciosa, esperanosa. -  E s nove e
meia da noite, naquela mesa de restaurante em Portugal - prosseguiu
Mary, sem perceber absolutamente o drama silencioso que se desenrolava
no ntimo de Lyra, - algum me deu um pedao de marzip e eu me lembrei
de tudo. E pensei: ser que 458 realmente vou passar o resto de minha
vida sem nunca mais sentir aquilo de novo? E pensei: eu quero ir 
China.  cheia de tesouros e de coisas estranhas, desconhecidas, de
mistrio e de felicidade. E pensei: ser que vai ser melhor para algum
se eu voltar direto para o meu hotel, disser minhas oraes, me
confessar ao padre e prometer nunca mais voltar a cair em tentao? Ser
que algum vai se tornar uma pessoa melhor se eu tornar minha vida
miservel e infeliz? "E a resposta veio: no. Ningum vai ficar melhor.
No h ningum para se atormentar, ningum para condenar, ningum para
me abenoar por ser uma boa moa, ningum vai me punir por ser m. O cu
estava vazio. Eu no sabia se Deus tinha morrido, ou se Deus nunca tinha
absolutamente existido. De qualquer maneira, me senti livre e solitria,
e no sabia se estava feliz ou infeliz, mas algo de muito estranho havia
acontecido. E toda aquela enorme mudana tinha ocorrido no momento em
que o marzip tocou em minha boca, antes mesmo que eu o tivesse
engolido. Um gosto, uma lembrana, um desmoronamento sob meus ps...
"Quando afinal o engoli e olhei para o homem do outro lado da mesa,
percebi que ele sabia que alguma coisa tinha acontecido. No pude contar
a ele naquela hora, naquele lugar; ainda era estranho demais e quase
pessoal demais para mim. Mas depois, samos para dar uma caminhada pela
praia no escuro e a brisa tpida da noite agitava meus cabelos, e o
Atlntico estava muito bem-comportado, ondas pequeninas e suaves
acariciavam nossos ps. . . "E tirei o crucifixo de meu pescoo e o
atirei no mar. Isso foi tudo. Estava tudo acabado. Tinha sumido. "De
maneira que foi assim que deixei de ser freira" - concluiu ela. - Esse
homem foi o mesmo que descobriu sobre os crnios? - Perguntou Lyra,
muito atenta. - Ah. . . no. O homem dos crnios era o Dr. Payne, Oliver
Payne. Ele apareceu muito depois disso. No, o homem na conferncia se
chamava Alfredo Montale. Era um homem muito diferente. - Voc o beijou?
- Bem - disse Mary, sorrindo, - beijei, mas no naquela noite. - Foi
difcil deixar a igreja? - perguntou Will. - De certa maneira foi,
porque todo mundo ficou decepcionado. Todo mundo, da Madre Superiora aos
padres e a meus pais. Ficaram to aborrecidos e me censuraram tanto. . .
Eu sentia que algo em que eles todos acreditavam fervorosamente dependia
de que eu continuasse a fazer algo em que eu no acreditava. "Mas de
certa maneira foi fcil, porque fazia sentido. Pela primeira vez na
minha vida senti que estava fazendo alguma coisa com todos os elementos
que constituam minha natureza e no com apenas uma parte dela. De modo
que foi solitrio durante algum  tempo, mas depois me habituei." - Voc
se casou com ele? - perguntou Lyra. - No. No me casei com ningum.
Vivi com uma pessoa. . . no o Alfredo, uma outra pessoa, Vivi com ele
durante quase quatro anos. Minha famlia ficou escandalizada. Mas depois
decidimos que seramos mais felizes no vivendo juntos. De modo que
estou sozinha. O homem com quem eu vivia gostava de escalar montanhas e
me ensinou a praticar alpinismo, e costumo fazer caminhadas nas
montanhas e... 459 E tenho meu trabalho. Bem, eu tinha o meu trabalho.
De maneira que sou solitria, mas sou feliz, se  que me entendem. -
Como se chamava o garoto? - perguntou Lyra. - O da festa? - Tim. - E
como era ele? - Ah. . . era gentil, atraente. Isso  tudo de que me
lembro. - Quando vi voc pela primeira vez, em Oxford - recordou Lyra, -
voc disse que um dos motivos pelos quais tinha se tornado cientista era
que no teria que pensar a respeito do bem e do mal. Pensava a respeito
disso quando era freira? - Humm. No. Mas eu sabia que deveria pensar:
era s nisso que a igreja tinha me ensinado a pensar. E quando
trabalhava em cincia, tinha que pensar a respeito de outras coisas
completamente diferentes. De maneira que nunca tive que pensar a
respeito do bem e do mal por mim mesma. - Mas agora pensa? - quis saber
Will. - Eu acho que tenho que pensar - respondeu Mary, tentando ser
precisa. - Quando deixou de acreditar em Deus - prosseguiu ele,- voc
deixou de acreditar no bem e no mal? - No. Mas deixei de acreditar que
havia uma fora do bem e uma fora do mal que existissem fora de ns. E
passei a acreditar que bem e mal so nomes que se d ao que as pessoas
fazem, no para o que elas so. Tudo o que podemos dizer  que uma ao
 boa porque ajuda algum, ou que  m porque prejudica. As pessoas so
complicadas demais para terem rtulos simples. -  verdade - concordou
Lyra com firmeza. - Sentiu falta de Deus? - perguntou Will. - Senti -
admitiu Mary, - uma falta terrvel. E ainda sinto. A coisa de que sinto
mais falta  a sensao de estar conectada com o universo inteiro. Eu
costumava me sentir ligada a Deus desse modo, e como ele estava l, eu
estava ligada e em contato com toda a sua criao. Mas se ele no est
l. . . L longe no pntano, um pssaro gritou com uma srie de sons
melanclicos que foram decrescendo. As brasas se assentaram na fogueira;
a relva estava se agitando ligeiramente sob a brisa noturna. Atai
parecia estar cochilando como um gato, as rodas deitadas na relva a seu
lado, as pernas dobradas sob seu corpo, os olhos semicerrados, a ateno
metade aqui e metade em outro lugar. Will estava deitado de costas, os
olhos abertos para as estrelas. Quanto a Lyra, ela no havia movido um
nico msculo desde que aquela coisa estranha tinha acontecido e
guardava a lembrana daquelas sensaes em seu ntimo como um vaso
frgil, cheio at a borda de novos conhecimentos, que ela mal ousava
tocar por temor de derram-los. No sabia o que eram, nem o que
significavam, nem de onde tinham vindo: de modo que ficou sentada
imvel, abraando os joelhos, e tentou se obrigar a parar de tremer de
excitao. Dentro de pouco tempo, pensou, daqui a pouco tempo eu
saberei. Eu saberei dentro de muito pouco tempo. Mary estava cansada:
no tinha mais histrias para contar. Certamente se lembraria de outras
amanh. 460 *34 AGORA EXISTE MOSTRO A TODOS VS O MUNDO PLENO DE VIDA,
ONDE TODA PARTCULA DE P EXALA O ALENTO DE SUA ALEGRIA  WILLIAM BLAKE
Mary  no  conseguia  dormir. Cada  vez  que  fechava  os olhos, alguma
coisa a fazia oscilar e parar com um tranco, como se estivesse  beira
de um precipcio, e despertava sobressaltada, tensa de medo. Isso
aconteceu trs, quatro, cinco vezes, at que ela se deu conta de que o
sono no viria; de modo que se levantou e se vestiu silenciosamente,
saiu da casa e se afastou da rvore com seus galhos em forma de tenda,
debaixo dos quais Will e Lyra dormiam. A lua estava alta e clara no cu.
Havia um vento vigoroso e a paisagem grandiosa estava sarapintada de
sombras de nuvens se movendo, Mary pensou, como se fosse a migrao de
algum rebanho de bichos inimaginveis. Mas os animais migravam por um
motivo; quando se viam os rebanhos de renas em movimento, atravessando a
tundra, ou animais selvagens cruzando a savana, se sabia que estavam
indo para onde estava a comida, ou para lugares onde era bom se acasalar
e ter as crias. O movimento deles tinha um significado. Aquelas nuvens
estavam se movendo em resultado de simples casualidade, em virtude do
efeito de eventos inteiramente aleatrios no nvel dos tomos e das
molculas; suas sombras passando rpidas sobre a pradaria no tinham
absolutamente nenhum significado. A despeito disso, pareciam ter. Elas
pareciam tensas e movidas pelo impulso de um propsito. A noite inteira
parecia ter. Mary tambm o sentia, s que no sabia qual era aquele
propsito. Mas, ao contrrio dela, as nuvens pareciam saber  o que
estavam fazendo e por que, e o vento sabia, e a relva sabia. O mundo
inteiro estava vivo e consciente. Mary subiu a encosta e olhou para
trs, para a extenso do pntano, onde a mar montante tecia uma renda
prateada cintilante sobre os baixos escuros, reluzentes de lama, e os
juncos no leito do rio. As sombras das nuvens ficavam muito ntidas ali:
pareciam estar fugindo de alguma coisa terrvel que vinha atrs delas,
ou correndo para abraar alguma coisa maravilhosa que havia adiante. Mas
o que era, Mary nunca saberia. Ela se virou em direo ao bosque onde
ficava a rvore que escalava para suas observaes. Ficava a 20 minutos
de caminhada; podia v-la claramente, enorme l no alto, sacudindo a
cabea num dilogo urgente com o vento. Eles tinham coisas a dizer e ela
461 no conseguia ouvir. Seguiu rapidamente em direo  rvore, movida
pela agitao da noite e desesperada para fazer parte dela. Aquilo era
exatamente a sensao de que falara a Will, quando ele havia perguntado
se ela sentia falta de Deus: era a sensao de que o universo inteiro
estava vivo e que tudo estava ligado e conectado a tudo o mais por fios
de significado. Enquanto fora crist, tambm tinha se sentido conectada;
mas, depois que havia deixado a Igreja, tinha se sentido livre, leve e
solta, num universo sem propsito definido. E ento viera a descoberta
das Sombras e sua jornada para um outro mundo e, agora, havia aquela
noite cheia de vida, em que era evidente que tudo estava pulsando cheio
de propsito e de significado, mas que Mary estava excluda desse
contato. E era impossvel encontrar um meio de se conectar, pois no
existia Deus. Em parte movida pela exultao e em parte pelo desespero,
resolveu subir em sua rvore e tentar mais uma vez se deixar levar pelo
P. Mas, no havia percorrido nem a metade do caminho at o arvoredo,
quando ouviu um som diferente em meio ao chicotear das folhas e ao vento
fluindo atravs da relva. Alguma coisa gemendo, uma nota grave, sombria
como um rgo. E acima disso o som de estalidos de coisas estalando e
quebrando, e o guinchado e o grito estridente de madeira sobre madeira.
Certamente no podia ser a sua rvore? Ela parou onde estava, na
pradaria aberta e, com o vento aoitando seu rosto e as sombras de
nuvens passando rpidas acima, as folhas altas de relva chicoteando suas
coxas, observou o dossel do arvoredo. Os ramos gemiam, galhos se
quebravam, grandes traves de madeira verde se partiam como se fossem
gravetos secos e despencavam a longa distncia l do alto at o solo, e
ento a parte superior da copa daquela rvore que ela conhecia to bem
se inclinou, se inclinou e, lentamente, comeou a desabar. Cada fibra no
tronco, a casca, as razes pareciam estar gritando separadamente contra
aquele assassinato. Mas ela foi caindo e caindo, todo o seu grandioso
comprimento despencando e abrindo caminho para fora do arvoredo e
pareceu se inclinar na direo de Mary, antes de tombar com estrpito no
cho, como uma onda contra um quebra-mar e o tronco colossal quicou um
pouco e finalmente pareceu se acomodar com um gemido de madeira partida.
Ela correu at l para tocar as folhas que se sacudiam. L estava sua
corda, l estavam os destroos de sua plataforma. Com o corao batendo
descontrolado, dolorosamente, ela subiu na rvore, em meio aos galhos
cados, se alando e se segurando nos ramos to conhecidos e familiares,
em seus novos ngulos desconhecidos, e se equilibrou no ponto mais alto
que conseguiu alcanar. Mary apoiou-se contra um galho e pegou a luneta.
Atravs dela viu dois movimentos bastante diferentes no cu. Um era o
das nuvens passando ligeiras sobre a lua numa determinada direo e o
outro era o do fluxo da corrente de P parecendo cruz-las, numa direo
muito diferente. 462 E, dentre os dois movimentos, o do P estava
fluindo mais rapidamente e em volume muito maior. De fato, o cu inteiro
parecia estar fluindo, impregnado de P. Uma grandiosa e inexorvel
torrente jorrando para fora do mundo, para fora de todos os mundos, para
algum vazio definitivo. Lentamente, como se estivessem se movendo em sua
mente, as coisas se juntaram. Will e Lyra tinham dito que a faca sutil
tinha pelo menos 300 anos de idade. Fora isso que o velho na torre
dissera a eles. Os mulefas tinham contado a ela que o sraf, que havia
nutrido suas vidas e seu mundo durante 33 milhares de anos, tinha
comeado a diminuir exatamente h 300 anos. De acordo com Will, a Guilda
da Torre degli Angeli, os donos da faca sutil, tinha sido descuidada;
nem sempre eles haviam fechado as janelas que abriam. Tanto que, afinal,
Mary tinha encontrado uma, e deveria haver muitas outras. Suponha-se que
durante todo esse tempo, pouco a pouco, o P estivesse vazando,
escorrendo pelos cortes que a faca sutil tinha feito na natureza. . .
Ela se sentiu atordoada e no era apenas o balanar e o subir e descer
dos galhos entre os quais estava apoiada. Guardou a luneta
cuidadosamente no bolso e enganchou os braos sobre o galho da frente,
contemplando o cu, a lua, as nuvens ligeiras. A faca sutil era
responsvel pelo vazamento em pequena escala, de baixa intensidade. Era
nocivo e o universo estava sofrendo por causa disso; ela precisava
conversar com Will e Lyra e descobrir uma maneira de faz-lo parar. Mas
a vasta enchente no cu era uma questo inteiramente diferente. Aquilo
era novo e era catastrfico. E, se no fosse detida, toda a vida
consciente chegaria ao fim. Como os mulefas tinham mostrado a ela, o P
comeava a existir quando as prprias coisas vivas se tornavam
conscientes de si mesmas; mas ele precisava de algum sistema de
alimentao para  refor-lo e torn-lo seguro, como os mulefas tinham
suas rodas e o leo das rvores. Sem alguma coisa desse tipo, tudo
desapareceria. Pensamento, imaginao, sentimento, tudo murcharia e
seria dispersado pela corrente, sem deixar nada para trs, exceto um
automatismo animalesco; e aquele breve perodo em que a vida fora
consciente de si mesma se apagaria como uma vela em todos os bilhes de
mundos onde havia ardido to claramente. Mary sentiu intensamente o peso
de tudo aquilo. Parecia o peso da idade. Sentia-se como se estivesse com
80 anos, velha, gasta, exausta e ansiando pela morte. Ela desceu
pesadamente dos galhos da grande rvore cada e, com o vento ainda
soprando forte nas folhas, na relva e em seus cabelos, tomou o caminho
de volta para o povoado. No alto da encosta, olhou pela ltima vez para
a correnteza de P, com as nuvens correndo e o vento que soprava na
direo oposta e a lua parada, firme, bem no meio. E ento, finalmente,
ela viu o que estavam fazendo: viu qual era aquele grande e urgente
propsito. 463 Eles estavam tentando conter a torrente de P. Estavam
lutando para levantar algumas barreiras contra a terrvel correnteza:
vento, lua, nuvens, folhas, relva, todas aquelas coisas adorveis
estavam gritando por ajuda e se lanando na luta para manter as
partculas de Sombra naquele universo, que elas enriqueciam tanto. A
matria amava o P. No queria v-lo ir embora. Este era o significado
daquela noite e era o significado de Mary tambm. No tinha ela pensado
que no havia significado na vida, nenhum propsito, quando Deus se
fora? Sim, tinha pensado isso. - Bem, agora existe - disse em voz alta,
depois, de novo, ainda mais alto: - Agora existe! Quando tornou a olhar
para as nuvens e a lua no fluxo de P, pareceram-lhe frgeis e
condenadas ao fracasso, como uma represa de pequenos galhos e minsculos
seixos tentando represar o Mississpi. Mas, mesmo assim, estavam
tentando. Continuariam tentando at o fim de tudo. Mary no tinha idia
de quanto tempo havia estado fora. Quando a intensidade de seus
sentimentos comeou a amainar e a exausto a substituiu, foi se
encaminhando devagar para o povoado, descendo a colina. E, quando estava
a meio caminho da descida, perto de uma moita de ps de trigo sarraceno,
viu uma coisa estranha nos baixios de lama. Havia um brilho branco, um
movimento constante: alguma coisa estava subindo com a mar. Ela ficou
imvel, observando atentamente. No podiam ser os tualapi, porque eles
sempre andavam em bandos e aquele estava sozinho; mas tudo em sua forma
era igual - as asas que pareciam velas, o pescoo longo -; era um dos
pssaros, no havia dvida quanto a isso. Nunca tinha ouvido falar deles
aparecendo sozinhos e hesitou, antes de correr para alertar o povoado,
porque, de qualquer maneira, a coisa tinha parado. Estava flutuando na
gua perto da trilha. E estava se dividindo... No, alguma coisa estava
saltando de seu dorso. A coisa era um homem. Ela podia v-lo bastante
claramente, mesmo quela distncia; a luz do luar estava forte, clara, e
seus olhos tinham se habituado a ela. Olhou atravs da luneta e excluiu
qualquer dvida que ainda restasse: era o vulto de um ser humano,
irradiando P. Ele estava carregando alguma coisa: algum tipo de vara
comprida. Veio andando pela trilha com rapidez e facilidade, sem correr,
mas movendo-se com a agilidade de um atleta ou de um caador. Vestia
roupas escuras, simples, que normalmente o teriam escondido bem; mas,
atravs da luneta, ele aparecia como se estivesse sob um foco de luz. E
 medida que se aproximava do povoado, ela se deu conta do que era a
vara. Ele estava carregando um rifle. Mary sentiu como se algum tivesse
derramado um balde de gua gelada sobre seu corao. Todos os plos em
sua pele ficaram em p. 464 Estava longe demais para fazer alguma coisa:
mesmo se gritasse, ele no ouviria. Teve que observar enquanto ele
entrava no povoado, olhando para a esquerda e para a direita, parando de
vez em quando para ouvir, indo de casa em casa. A mente de Mary parecia
a lua e as nuvens tentando conter o P, enquanto gritava
silenciosamente: No olhe debaixo da rvore - afaste-se da rvore! Mas
ele foi chegando mais perto, cada vez mais perto da rvore, finalmente,
parando do lado de fora da casa de Mary. Ela no conseguiu mais suportar
aquilo; enfiou a luneta no bolso e comeou a correr, descendo a encosta.
Estava prestes a gritar, qualquer coisa, um grito descontrolado, mas,
bem a tempo, deu-se conta de que poderia acordar Will ou Lyra e fazer
com que se mostrassem. Ento, como no podia suportar no saber o que o
homem estava fazendo, parou e tornou a pegar a luneta, e teve que se
manter imvel, enquanto olhava atravs dela. Ele estava abrindo a porta
de sua casa. Ia entrar na casa. Ele desapareceu de vista, embora
houvesse um movimento na esteira de P que deixou para trs, como fumaa
quando se passa a mo atravs dela. Mary esperou por um minuto
interminvel e ento ele tornou a aparecer. Ficou parado no vo da
porta, olhando em volta lentamente, da esquerda para a direita, e seu
olhar passou pela rvore e seguiu adiante. Ento ele saiu do vo da
porta e ficou parado, imvel, quase como se no soubesse o que fazer. De
repente, Mary teve conscincia de como estava exposta na encosta nua da
colina, um alvo fcil para um tiro de rifle, mas ele s estava
interessado no povoado; e depois que se passou mais um minuto, fez
meia-volta e foi se afastando, andando silenciosamente. Ela observou
cada passo que ele deu descendo pela trilha ao longo da margem do rio e
viu, muito claramente, como ele montou nas costas do pssaro e se sentou
de pernas cruzadas, enquanto o pssaro se virava para sair deslizando
sobre a gua. Cinco minutos depois tinham desaparecido de vista. 465 *35
ALM DAS COLINAS E MUITO LONGE O DIA CHEGOU EM QUE NASCEU MINHA VIDA,
MEU AMOR CHEGOU PARA MIM.  CHRISTINA R OSSETI         -  Dra Malone -
disse Lyra logo de manh, - Will e eu temos que procurar nossos daemons.
Quando os encontrarmos, saberemos o que temos de fazer. Mas  no
podemos  continuar  muito  tempo mais sem eles. De modo que queremos
sair para procurar. - Para onde iro? - perguntou Mary, com os olhos
pesados e dor de cabea, depois de sua noite perturbadora. Ela e Lyra
estavam na margem do rio, Lyra para se lavar e Mary para procurar,
disfaradamente, as marcas das pegadas do homem. At o momento no tinha
encontrado nenhuma. - No sei - respondeu Lyra. - Mas eles esto por a,
em algum lugar. Assim que atravessamos a janela, saindo da batalha, eles
fugiram, como se no confiassem mais em ns. Tambm no posso nem dizer
que os culpe por isso. Mas sabemos que esto neste mundo e tivemos a
impresso de que os vimos umas duas vezes, de modo que talvez possamos
encontr-los. - Oua - disse Mary, com relutncia, e contou a Lyra o que
tinha visto na noite anterior. Enquanto falava, Will veio se juntar a
elas e tanto ele quanto Lyra ouviram, com os olhos arregalados e o rosto
srio. -  Provavelmente  um viajante que encontrou uma janela e a
atravessou, vindo de algum outro lugar - disse Lyra, quando Mary
concluiu. Intimamente, ela possua coisas bastante diferentes em que
pensar e esse homem no era interessante como elas eram. - Como fez o
pai de Will - prosseguiu. - Deve haver todo tipo de aberturas agora. De
qualquer maneira, se ele simplesmente deu as costas e foi embora, no
deve ter querido fazer nada de mau, no acha? - No sei. No gostei
daquilo. E estou preocupada com vocs saindo por a sozinhos, ou
ficaria, se no soubesse que j fizeram coisas muito mais perigosas que
isso. Ah, eu no sei. Mas, por favor, tenham cuidado. Por favor,
examinem bem os lugares por onde vo andar. Pelo menos na pradaria
pode-se ver de muito longe quando algum se aproxima. . . - Se os
encontrarmos, poderemos fugir direto para um outro mundo, de modo que
ele no vai poder nos fazer mal, disse Will. 466 Estavam decididos a ir
e Mary sentia-se relutante em discutir com eles. - Pelo menos - pediu
ela - prometam que no entraro nos bosques, no meio das rvores. Se
esse homem ainda estiver por perto, pode estar se escondendo num bosque
ou numa moita e vocs no o veriam a tempo de escapar. -  Ns prometemos
- disse Lyra. -  Bem, vou preparar um farnel para vocs, caso fiquem
fora o dia inteiro. Mary juntou alguns dos pes achatados e queijo,
algumas frutas vermelhas, doces e suculentas para matar a sede,
embrulhou-os num pano e amarrou com um barbante, fazendo uma ala para
que um deles levasse o embrulho pendurado no ombro. - Boa caada - disse
ela, quando iam saindo. - Por favor, tomem cuidado. Ainda estava
preocupada. Ficou parada vendo os dois se afastarem at chegarem ao sop
da encosta. - Gostaria de saber por que ela est to triste - comentou
Will, enquanto ele e Lyra subiam pela estrada que levava  cadeia  de
colinas. - Provavelmente est se perguntando se algum dia tornar a
voltar para casa - respondeu Lyra. - E se o laboratrio ainda ser seu,
quando voltar. E talvez esteja triste por causa do homem por quem foi
apaixonada. - Humm - retrucou Will. - Voc acha que ns voltaremos para
casa algum dia? - No sei. De qualquer maneira, no creio que eu tenha
uma casa. Eles provavelmente no podem me aceitar de volta na Faculdade
Jordan, e no posso viver com os ursos nem com as bruxas. Talvez pudesse
viver com os gpcios. Bem que gostaria disso, se me aceitassem. -  E o
mundo de Lorde Asriel? No gostaria de viver l? -  No vai dar certo,
lembre-se - disse ela. - Por qu? -  Por causa do que o fantasma de seu
pai disse, pouco antes de sairmos. Sobre os daemons e como s podem
viver muito tempo se ficarem em seu prprio mundo. Mas provavelmente
Lorde Asriel, quero dizer, meu pai no poderia ter pensado nisso, porque
ningum tinha muitos conhecimentos a respeito de outros mundos quando
ele comeou... Aquilo tudo - comentou em tom de admirao e tristeza, -
toda aquela bravura e talento. . . Tudo aquilo, tudo desperdiado! Tudo
para nada! Continuaram subindo, achando o caminho fcil na estrada de
rocha, e quando alcanaram o alto da cadeia de colinas pararam e olharam
para trs. -  Will, e se no os encontrarmos? - perguntou ela. - Tenho
certeza que encontraremos. O que ando querendo saber  como ser o meu
daemon. - Voc a viu. E eu a peguei no colo - disse Lyra, enrubescendo,
porque,  claro, era uma tremenda violao das regras de boas maneiras
tocar em algo to pessoal como o daemon de outra pessoa. Era proibido
no s por educao, mas tambm 467 por algo mais profundo que isso,
algo como vergonha. Um rpido olhar de relance para as faces vermelhas
de Will mostrou que ele sabia disso to bem quanto ela. No sabia dizer
se ele tambm sentia aquela sensao estranha, que era metade medo,
metade excitao, que ela sentia, aquela sensao que tinha comeado a
se apoderar dela na noite anterior: ali estava novamente. Continuaram
caminhando lado a lado, de repente tmidos  um com o outro. Mas Will,
que no se deixava vencer pela timidez, perguntou: - Quando o daemon da
gente pra de mudar de forma? - Mais ou menos. . . acho que com a sua
idade, ou um  pouco depois. Costumvamos falar sobre Pan fixar forma,
ele e eu. A gente se perguntava que forma ele teria. - As pessoas no
tm nenhuma idia? - No quando ainda so crianas.  medida que voc
vai  crescendo, bem, poderia ser isso ou poderia ser aquilo. . . E,
geralmente, eles acabam fixando forma em alguma coisa que se encaixa.
Quero dizer, alguma coisa que combina com sua verdadeira natureza. Como
por exemplo, se seu daemon  um cachorro, isso significa que voc gosta
de ser obediente, de saber quem manda e de cumprir ordens, de agradar as
pessoas que esto no comando. Muitos criados so pessoas cujos daemons
so cachorros. De modo que ajuda saber que tipo de pessoa voc  e
descobrir as coisas que saber fazer bem. Como as pessoas em seu mundo
sabem quem e como elas so? - No sei. No conheo muita coisa a
respeito de meu mundo. Tudo o que sei  guardar segredos, no me
mostrar, ficar bem quieto e escondido, de modo que no sei muita coisa
sobre... adultos e amigos. Ou amantes. Acho que seria difcil ter um
daemon porque todo mundo saberia tanta coisa a respeito de voc s de
olhar. Gosto de no me mostrar, guardar meus segredos e de ficar fora do
alcance de olhares. - Ento talvez seu daemon  seja um animal que sabe
se esconder bem. Um desses animais que parecem com um outro. . . uma
borboleta que se parea com uma vespa, para se disfarar. Deve haver
animais assim em seu mundo, porque ns temos e somos to parecidos.
Continuaram caminhando juntos em silncio amigvel. Por toda parte, em
torno deles, a manh vasta e clara estava lmpida nas ravinas e
azul-perolada na atmosfera quente acima. At onde o olhar podia
alcanar, a grandiosa savana se estendia, marrom, dourada, verde-fosca,
cintilando na direo do horizonte e vazia. Eles poderiam ter sido as
nicas pessoas no mundo. - Mas na verdade no  vazio - observou Lyra. -
Est falando do tal homem? -  No. Voc sabe o que estou querendo dizer.
- , sei. Posso ver sombras na relva. . . talvez sejam passarinhos -
disse Will. Ele estava acompanhando pequenos movimentos dardejantes aqui
e ali. Descobriu que era mais fcil ver as sombras se no 468 olhasse
diretamente para elas. Pareciam mais dispostas a se mostrar para os
cantos de seu olho e, quando falou disso para Lyra, ela comentou: -  a
capacidade negativa. -  O que  isso? - Foi o poeta Keats quem falou
disso pela primeira vez. A Dra. Malone sabe.  assim que leio o
aletmetro. E  assim que voc usa a faca, no ? - , imagino que seja.
Mas estava pensando agora mesmo que poderiam ser os daemons. - Eu
tambm, mas. . . - Olhe - disse ele, - l est uma daquelas rvores
cadas. Era a rvore da plataforma de Mary. Eles se aproximaram dela
cuidadosamente, mantendo um olho vigilante no arvoredo, para o caso de
uma outra cair tambm. Na calma da manh, com apenas uma ligeira brisa
agitando as folhas, parecia impossvel que uma coisa imensa e imponente
assim pudesse algum dia desabar, mas l estava ela. O vasto tronco,
apoiado no solo do bosque por suas razes arrancadas e na relva pela
massa de galhos, estava l no alto, muito acima da cabea dos dois.
Alguns de seus galhos esmigalhados e partidos eram, s eles, de uma
circunferncia to grande quanto a das maiores rvores que Will j tinha
visto; a copa da rvore, compacta, com ramagens que ainda pareciam
robustas, folhas que ainda estavam verdes, erguia-se nas alturas como um
palcio em runas na atmosfera agradvel. De repente, Lyra agarrou o
brao de Will. - Psiu - cochichou. - No olhe. Tenho certeza que eles
esto l em cima. Vi alguma coisa se mexer, eu juro que era Pan. A mo
de Lyra estava quente. Ele tinha mais conscincia disso do que da grande
massa de folhas e galhos acima deles. Fingindo contemplar distraidamente
o horizonte, ele deixou sua ateno vagar relaxada para cima, para a
massa confusa de verde, marrom e azul, e l, - ela estava com a razo! -
havia alguma coisa que no era a rvore. E, ao lado, uma outra. -
Afaste-se - cochichou Will. - Vamos para algum outro lugar e ver se eles
nos seguem. - E se no seguirem. . . Mas, sim, est bem - cochichou Lyra
em resposta. Eles fingiram olhar ao redor; puseram as mos num dos
galhos descansando no cho, como se estivessem pretendendo subir nele;
fingiram mudar de idia, sacudindo a cabea um para o outro e se
afastando. - Gostaria de poder olhar para trs - disse Lyra quando
estavam a alguns metros de distncia. -  Apenas continue andando. Eles
esto nos vendo e no vo se perder. Viro nos procurar quando quiserem
vir. Saram da estrada preta e entraram na relva alta, que chegava 
altura dos joelhos, as pernas se movendo com um som sibilante ao roar
nos talos altos, observando os insetos esvoaando, dardejando,
borboleteando, dando vos rasantes, ouvindo o coro de milhes de vozes
chilrear e cricrilar. 469 - O que voc vai fazer, Will? - perguntou Lyra
baixinho, depois de terem andado um bom pedao em silncio. -  Bem,
tenho que voltar para casa - respondeu ele. No entanto, ela achou que
sua voz soava insegura. Esperava que soasse insegura. -  Mas eles ainda
podem estar atrs de voc - argumentou. - Aqueles homens. -  Mas j
enfrentamos coisa pior que eles. - , acho que sim. . . Mas eu queria
lhe mostrar a Faculdade Jordan e os Pntanos. Queria que ns. . . - Eu
sei - concordou ele, - e eu queria. . . Seria bom voltar at mesmo a
Cittgazze. Era um lugar bonito, e se os Espectros tiverem todos ido
embora. . . Mas tenho minha me. Tenho que voltar e cuidar dela. Eu
simplesmente a deixei com a Sra. Cooper e no  justo com nenhuma das
duas. -  Mas no  justo que voc tenha que fazer isso. - No -
concordou ele, - mas  um tipo de no ser justo diferente.  exatamente
como um terremoto ou uma tempestade. Pode no ser justo, mas no  culpa
de ningum. Mas se eu simplesmente deixar minha me com uma senhora
idosa que tambm no est muito bem, isso, ento,  um outro tipo de no
ser justo. Isso seria  errado. Eu tenho que ir para casa, e pronto. Mas
provavelmente vai ser difcil voltar a ser como era antes. Agora,
provavelmente, o segredo no  mais segredo. No imagino que a Sra.
Cooper tenha conseguido cuidar dela, no se minha me tiver passado por
um daqueles seus perodos em que fica com medo das coisas. De modo que
ela provavelmente teve que procurar ajuda, e quando eu voltar vo me
obrigar a ir para algum tipo de instituio. - No! Como um orfanato? -
Acho que  o que eles fazem. Na verdade, no sei. Vou detestar. - Voc
poderia escapar com a faca, Will! Poderia vir para meu mundo! - Mas de
qualquer maneira o meu lugar  um lugar onde possa estar com ela. Quando
for adulto, vou poder cuidar dela direito, na minha casa. Ento ningum
vai poder interferir. - Voc acha que vai se casar? Ele ficou calado
durante muito tempo. Contudo, ela sabia que estava pensando. - No
consigo pensar numa coisa to distante no futuro, respondeu. - Teria que
ser com algum que pudesse compreender... - no acho que exista ningum
assim em meu mundo. E voc, se casaria? - Eu tambm no - respondeu ela,
e sua voz no estava muito firme. - No com ningum em meu mundo, no
acredito. Continuaram andando devagar, sem rumo certo, seguindo em
direo ao horizonte. Eles tinham todo o tempo do mundo: todo o tempo
que o mundo tinha. Depois de alguns instantes, Lyra perguntou: 470 -
Voc vai  guardar a faca, no vai? De modo que possa visitar meu mundo?
-  claro. Eu certamente no a daria a nenhuma outra pessoa, nunca. -
No olhe - disse ela, sem alterar o passo. - L esto eles denovo. 
esquerda. - Eles esto nos seguindo - comentou Will, radiante. - Psiu! -
Bem que achei que nos seguiriam. OK, agora vamos fingir, vamos andar por
a fazendo de conta que estamos procurando por eles e vamos olhar em
todos os lugares mais idiotas. E tornou-se uma brincadeira. Eles
encontraram um laguinho e procuraram entre os juncos e na lama, dizendo
em voz alta que os daemons deveriam estar com forma de sapos, de
besouros d'gua ou lesmas; eles arrancaram a casca de uma rvore, h
muito cada, na beira de um bosque de eucaliptos, fingindo ter visto os
dois daemons se escondendo debaixo dela, sob a forma de lacrainhas; Lyra
fez uma cena, dando uma enorme ateno a uma formiga em que ela afirmava
ter pisado, lamentando os machucados que havia causado, dizendo que a
carinha da formiga era igual  de Pan, perguntando com tristeza fingida
por que a formiga se recusava a falar com ela. Mas quando achou que
realmente estavam fora do alcance dos ouvidos dos daemons, disse
seriamente para Will, chegando bem perto dele para falar rapidamente: -
Ns tivemos  que deix-los, no tivemos? Realmente no tnhamos escolha,
no ? - Sim, tivemos. Foi pior para voc do que para mim, mas ns no
tnhamos nenhuma outra escolha. Porque voc fez uma promessa a Roger e
tinha que cumpri-la. -  E voc precisava falar novamente com seu pai. .
. -  E tnhamos que tirar todos eles de l. - , tnhamos. Estou to
feliz por termos feito isso. Um dia, Pan tambm vai ficar feliz, quando
eu  morrer. No vamos ser separados. Aquilo foi uma coisa boa que
fizemos.  medida que o sol subia mais alto no cu e o ar se tornava
mais quente, eles comearam a procurar uma sombra. Por volta do
meio-dia, estavam na encosta que se elevava em direo ao topo de uma
cadeia de colinas e quando chegaram l, Lyra deixou-se cair na relva e
declarou: - Bem! Se no encontrarmos logo um lugar que esteja na
sombra... Havia um vale que descia at o outro lado, e era coberto de
arbustos, de modo que imaginaram que ali tambm poderia haver uma
nascente. Atravessaram a cadeia de colinas at o outro lado da encosta,
onde comeava a descer para a parte mais alta do vale, e ali, como
haviam imaginado, entre samambaias e juncos, uma nascente borbulhava
saindo da rocha. Molharam os rostos acalorados na gua e beberam
satisfeitos, depois foram descendo, seguindo a corrente d'gua,
observando-a se acumular, formando redemoinhos em miniatura e jorrando
sobre minsculas salincias de pedra, e o tempo todo ia tornando-se mais
471 larga e mais forte, virando um pequeno crrego. - Como ela faz isso?
- perguntou Lyra maravilhada. - No tem mais gua entrando nela, vinda
de nenhum outro lugar, mas tem uma quantidade de gua to maior aqui do
que l em cima. Will, vigiando as sombras pelo canto do olho, as viu se
esgueirarem adiante deles, saltando sobre as samambaias para desaparecer
nos arbustos mais abaixo. Ele apontou silenciosamente. -  que vai mais
devagar - respondeu. - No jorra to depressa como na nascente, de modo
que vai se juntando nesses baixios... Eles foram para l - sussurrou,
apontando para um pequeno grupo de rvores na base da encosta. O corao
de Lyra estava batendo to depressa que o sentia pulsar na garganta. Ela
e Will trocaram um olhar, um olhar curiosamente formal e srio, antes de
continuarem a seguir o curso d'gua. A vegetao rasteira tornou-se mais
espessa  medida que entraram no vale; o curso d'gua entrava em tneis
de verde e emergia em clareiras com reas de luz e sombra, apenas para
despencar sobre um beio de pedra e se enterrar no verde de novo, e eles
tinham que segui-lo tanto com o olhar como com o ouvido. Na base da
colina, o curso d'gua corria para o interior de um pequeno bosque de
rvores de troncos prateados. O Padre Gomez observava do alto da cadeia
de colinas. No tinha sido difcil segui-los; a despeito da confiana de
Mary na savana aberta, havia uma variedade de esconderijos na relva e as
moitas ocasionais de eucaliptos e arbustos de seiva de laca. Os dois
jovens tinham passado um bocado de tempo olhando ao redor por toda
parte, como se pensassem que estivessem sendo seguidos, e ele tinha tido
que se manter a uma certa distncia, mas  medida que a manh tinha
passado, haviam se tornado cada vez mais interessados um no outro,
prestando menos ateno na paisagem. A nica coisa que ele no queria
fazer era ferir o menino. Ele tinha verdadeiro horror a fazer mal a uma
pessoa inocente. A nica maneira de se assegurar de acertar seu alvo era
chegar perto o suficiente para v-la claramente, o que significava
segui-los e entrar no bosque. Silenciosa e cautelosamente, ele foi
descendo seguindo o curso da corrente d'gua. Seu daemon,  o besouro
fmea de dorso verde, voava logo acima farejando o ar; sua viso era
menos aguada que a dele, mas seu olfato era acuradssimo e ela sentiu o
cheiro da carne das crianas muito claramente. Podia seguir um pouco
mais  frente, pousar num caule de relva e esperar por ele, depois
seguir adiante de novo; e  medida que ela farejava o rasto que os
corpos deles deixavam no ar, o Padre Gomez viu-se louvando a Deus por
sua misso, porque estava mais claro que nunca que o menino e a menina
estavam se encaminhando para o pecado mortal. E l estava: o movimento
louro-escuro que eram os cabelos da menina. Ele se aproximou mais um
pouco e empunhou o rifle. Tinha mira telescpica: a lente no era de
grande alcance, mas era to magnificamente feita que olhar atravs dela
era sentir sua viso ficar ntida, bem como ser ampliada. Sim, l estava
ela, e a menina 472 parou e olhou para trs, de modo que ele viu a
expresso em seu rosto e no conseguiu entender como algum to
impregnado pelo mal pudesse ter uma expresso to radiante de esperana
e felicidade. Seu espanto fez com que ele hesitasse e ento o momento
passou, as duas crianas tinham entrado no meio das rvores e estavam
fora de vista. Bem, no iriam muito longe. Ele as seguiu descendo pela
beira do leito do pequeno crrego, movendo-se agachado, segurando o
rifle em uma das mos e se equilibrando com a outra. Agora, estava to
prximo do sucesso que pela primeira vez se viu tecendo especulaes
sobre o que faria depois e se daria mais satisfao ao reino do cu
voltando para Genebra ou ficando ali para evangelizar aquele mundo. A
primeira coisa a fazer ali seria convencer os seres de quatro pernas,
que pareciam ter os rudimentos de uma inteligncia, de que seu hbito de
circular sobre rodas era abominvel e satnico, e contrrio  vontade de
Deus. Se os afastasse daquilo, a salvao se seguiria. Ele alcanou o
sop da encosta, onde as rvores comeavam, e colocou o rifle no cho
silenciosamente. Olhou fixamente para as sombras
dourado-esverdeado-prateadas e ficou escutando atentamente, com as duas
mos em concha atrs das orelhas, para captar e localizar quaisquer
vozes baixas em meio ao chilrear dos insetos e o borbulhar da gua do
pequeno crrego. Sim, l estavam eles. Tinham parado. Ele se abaixou
para pegar o rifle - E viu-se emitindo um grito rouco sufocado, enquanto
alguma coisa agarrava seu daemon e a levava para longe dele. Mas no
havia nada ali! Onde estava ela? A dor era atroz. Ele a ouviu gritando e
olhou em volta desesperado, para a esquerda e para a direita,
procurando-a. - No se mova - disse uma voz sada do ar - e fique
calado. Estou com seu daemon em minha mo. -  Mas. . . onde est voc?
Quem  voc? -  Meu nome  Balthamos - disse a voz.   Will e Lyra
seguiram o pequeno crrego e entraram no bosque, andando cautelosamente,
falando pouco, at estarem bem no centro. Havia uma pequena clareira no
meio do arvoredo, que era atapetada de grama macia e pedras cobertas de
musgo. Os galhos se entrelaavam acima, quase escondendo o cu e
deixando passar pequenas palhetas e lantejoulas danantes de luz, de
modo que tudo estava salpicado de ouro e prata. E era silencioso. S o
borbulhar do pequeno riacho e o farfalhar ocasional das folhas l no
alto, numa pequena ondulao de brisa, quebravam o silncio. Will ps no
cho o embrulho de comida; Lyra deixou junto sua pequena sacola. No
havia sinal dos daemons sombras em lugar nenhum. Estavam completamente
sozinhos. Tiraram os sapatos e as meias e sentaram nas rochas cobertas
de musgo na beira do riacho, mergulhando os ps na gua fria e 473
sentindo o choque da temperatura revigorar-lhes o sangue. -  Estou com
fome - declarou Will. - Eu tambm - disse Lyra, embora estivesse
sentindo mais que isso, alguma coisa evidente, silenciosa e urgente,
meio feliz, meio dolorosa, de modo que no tinha muita certeza do que
era. Eles desfizeram o embrulho, abriram o pano e comeram po com
queijo. Por algum motivo as mos deles estavam lentas e desajeitadas, e
mal sentiram o gosto da comida, embora o po estivesse saboroso e
crocante por ter sido assado nas pedras bem aquecidas e o queijo fosse
macio, salgado e muito fresco. Ento Lyra pegou uma daquelas frutinhas
vermelhas. Com o corao batendo acelerado, virou-se para ele e disse: -
Will ... E levou a fruta delicadamente at a boca de Will. Ela pde ver
pelo olhar de Will que, imediatamente, havia compreendido o que ela
queria fazer, e que estava feliz demais para falar. Os dedos de Lyra
ainda estavam nos lbios dele e Will os sentiu tremer, e levantou a mo
para segurar os dedos dela ali, e nenhum dos dois conseguia olhar para o
outro; estavam confusos; estavam transbordando de felicidade. Como duas
mariposas desajeitadamente se esbarrando, sem mais peso que isso, seus
lbios se tocaram. Ento, antes que soubessem como havia acontecido,
estavam abraados, cada um cegamente apertando o rosto colado no do
outro. - Como Mary disse. . . - sussurrou ele, - voc sabe imediatamente
quando gosta de algum. . . quando voc estava dormindo, na montanha,
antes que ela levasse voc embora, eu disse a Pan. - Eu ouvi - sussurrou
ela, - estava acordada e queria dizer a mesma coisa para voc, e agora
sei o que eu estava sentindo o tempo todo: eu amo voc, Will, eu amo
voc! A palavra amor incendiou os nervos de Will. Seu corpo inteiro se
encheu de prazer ao ouvi-la e ele respondeu com as mesmas palavras,
beijando a face quente de Lyra uma poro de vezes, todos os sentidos
absorvendo com adorao o aroma de seu corpo, dos cabelos mornos
perfumados de mel e a boca mida de Lyra que tinha o sabor da frutinha
vermelha. Ao redor deles no havia nada seno um grande silncio, era
como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respirao. Balthamos
estava aterrorizado. Ele foi subindo o curso do leito do rio e se
afastou do bosque, segurando o daemon  inseto que picava, mordia e
arranhava, e tentando se esconder, tanto quanto podia, do homem que
vinha cambaleando atrs deles. No podia deixar que ele o alcanasse.
Sabia que o Padre Gomez o mataria num instante. Um anjo de sua
hierarquia no era adversrio para um homem, mesmo se o anjo fosse forte
e saudvel, e Balthamos no era nenhuma dessas duas coisas; alm disso,
estava enfraquecido pela tristeza por ter perdido Baruch e pela vergonha
de ter abandonado Will antes. No tinha mais foras nem para voar. -
Pare, pare - implorou o Padre Gomez. - Por favor, fique parado. Eu no
consigo ver voc... vamos conversar, por favor, 474 no machuque meu
daemon, eu suplico. - Na verdade, o daemon estava machucando Balthamos.
O anjo podia ver vagamente a coisinha verde atravs das costas de suas
mos cerradas e ela estava cravando suas mandbulas poderosas
repetidamente nas palmas de suas mos. Se abrisse as mos apenas por um
instante, ela escaparia. Balthamos as manteve fechadas, bem apertadas. -
Por aqui - disse ele, - siga-me. Afaste-se desse bosque. Quero falar com
voc e este no  o lugar certo. - Mas, quem  voc? No consigo ver
voc. Chegue mais perto. . . Como posso saber o que voc  se no vejo
voc? Pare, no ande to depressa! Mas andar depressa era a nica defesa
que Balthamos tinha. Tentando ignorar as picadas do daemon,  foi
seguindo adiante, evitando obstculos, subindo pelo pequeno vale
estreito por onde corria o riacho, saltando de pedra em pedra. Ento ele
cometeu um erro: tentando olhar para trs, escorregou e ps um p na
gua. - Ah - veio um suspiro de satisfao quando o Padre Gmez ouviu a
gua se agitar e respingar. Balthamos imediatamente tirou o p da gua e
prosseguiu rapidamente - mas, agora, uma pegada molhada aparecia nas
pedras secas, cada vez que ele pisava nelas. O padre viu isso, saltou
para a frente e sentiu penas roarem em sua mo. Ele estacou,
espantadssimo: a palavra anjo reverberou em sua mente. Balthamos
aproveitou o momento para sair cambaleando de novo e o padre sentiu-se
arrastado atrs dele, enquanto uma outra pontada brutal lhe torcia o
corao. Balthamos disse por sobre o ombro: - Um pouco mais adiante, s
at o topo da cadeia de colinas, e ento conversaremos, prometo. -  Fale
aqui! Pare onde est e juro que no tocarei em voc! O anjo no
respondeu: estava muito difcil se concentrar. Ele tinha que dividir sua
ateno em trs direes: ver o que vinha atrs dele, para evitar o
homem, ver o que estava  frente, para ver para onde estava indo, e se
concentrar no daemon,  a coisa furiosa que estava torturando suas mos.
J o padre estava com a mente funcionando a pleno vapor. Um adversrio
realmente perigoso teria matado seu daemon imediatamente e encerrado a
questo ali, na mesma hora: este antagonista estava com medo de atacar.
Com isso em mente, deixou-se tropear e emitiu pequenos gemidos de dor,
e suplicou uma ou duas vezes que o outro parasse - o tempo todo vigiando
atentamente, chegando cada vez mais perto , calculando que tamanho o
outro teria, com que velocidade poderia se deslocar, para que lado
estava olhando. - Por favor - implorou, como se estivesse sucumbindo,,
voc sabe como isso di... eu no posso lhe fazer nenhum mal. .. por
favor, vamos parar e conversar? Ele no queria perder de vista o bosque.
Agora estavam no ponto onde a nascente comeava e podia ver a forma dos
ps de 475 Balthamos comprimindo muito levemente a relva. O padre
observou cada centmetro do caminho e agora tinha certeza que o anjo
estava de p. Balthamos se virou. O padre levantou os olhos para o lugar
onde achava que o rosto do anjo estaria e o viu pela primeira vez:
apenas uma cintilao no ar, mas no havia dvida de que estava ali.
Contudo, ainda no estava bastante prximo para alcan-lo num s
movimento e, na verdade, o afastamento de seu daemon tinha sido doloroso
e debilitante. Talvez devesse dar mais um ou dois passos. . . - Sente-se
- ordenou Balthamos. - Sente a, onde est. No d mais nem um passo. -
O que voc quer? - perguntou o Padre Gomez, sem se mover. - O que eu
quero? Quero matar voc, mas no tenho fora para isso. -  Mas voc  um
anjo? -  Que importncia tem isso? - Voc pode ter cometido um erro.
Poderamos estar do mesmo lado. - No, no estamos. Eu venho seguindo
voc. Sei de que lado voc est. . . no, no, no se mova. Fique a. -
No  tarde demais para se arrepender. Mesmo anjos podem fazer isso.
Deixe-me ouvir sua confisso. - Ah, Baruch, ajude-me! - gritou Balthamos
desesperado, dando as costas para o padre. E no instante em que ele
gritou, o Padre Gomez saltou em cima dele. Seu ombro acertou o ombro do
anjo e desequilibrou Balthamos; e, ao estender a mo para se salvar, o
anjo soltou o daemon  inseto. O besouro imediatamente saiu voando e o
Padre Gomez sentiu uma onda de alvio e de fora. Na verdade, foi isso
que o matou, para sua grande surpresa. Ele se atirou com tanta fora
contra a frgil silhueta do anjo e esperava encontrar uma resistncia
to maior que a que encontrou, que no conseguiu manter o equilbrio.
Seu p escorregou; o impulso o levou para baixo em direo ao riacho; e
Balthamos, pensando no que Baruch teria feito, chutou a mo do padre
para o lado, quando ele a estendeu para se segurar. O Padre Gomez caiu
com violncia. Sua cabea bateu numa pedra e ele ficou cado, atordoado,
com o rosto na gua. O choque da gua fria o reanimou imediatamente, mas
enquanto engasgava e, enfraquecido, tentava se levantar, Balthamos,
desesperado, ignorou o  daemon  picando-lhe o rosto, os olhos e a boca,
e usou todo o pouco peso que tinha para manter a cabea do homem enfiada
na gua, e a manteve l, e a manteve l, e a manteve l. Quando o daemon
desapareceu de repente, Balthamos o largou. O homem estava morto. To
logo teve certeza disso, Balthamos tirou o corpo do riacho e deitou-o
cuidadosamente sobre a relva, cruzando as mos do homem sobre o peito e
fechando-lhe os olhos. 476 Ento Balthamos se levantou, nauseado,
exausto e cheio de dor. - Baruch - disse. - Ah, Baruch, meu querido, no
h mais nada que eu possa fazer. Will e a menina esto salvos e tudo vai
correr bem, mas isto  o fim para mim, embora eu tenha realmente morrido
quando voc morreu, Baruch, meu amado. Um instante depois, ele havia
desaparecido. Na plantao de feijo, sonolenta, no final da tarde, Mary
ouviu a voz de Atai e no soube distinguir entre entusiasmo e
preocupao: ser que outra rvore tinha cado? Ser que o homem do
rifle tinha aparecido? Olhe! Olhe!, dizia Atai, puxando o bolso de Mary
com a tromba, de maneira que Mary pegou a luneta e fez o que sua amiga
mandava, apontando a luneta para o cu. Diga-me o que ele est fazendo!,
pediu Atai. Estou sentindo que est diferente, mas no consigo ver. A
terrvel torrente de P jorrando no cu havia parado de fluir. No
estava parada, de forma alguma; Mary vasculhou o cu inteiro  com as
lentes mbar, vendo uma corrente aqui, um redemoinho ali, um vrtice
mais adiante; estava em perptuo movimento, mas no estava mais fluindo
para longe. Na verdade, muito pelo contrrio, estava caindo como flocos
de neve. Ela pensou nas rvores-das-rodas: as flores que se abriam para
cima estariam absorvendo aquela chuva dourada. Mary quase podia
senti-las recebendo-a satisfeitas em suas pobres gargantas sedentas, que
eram to perfeitamente moldadas para isso e que tinham sido privadas
dela por tanto tempo. As crianas, disse Atai. Mary virou-se, de luneta
em punho e viu Will e Lyra voltando. Eles ainda estavam a alguma
distncia; no vinham andando depressa. Estavam de mos dadas,
conversando, as cabeas bem juntas, sem dar ateno a nada do que os
cercava; mesmo de longe ela podia ver isso. Ela quase ps a luneta no
olho, mas se conteve e a colocou de volta no bolso. No havia
necessidade de usar a luneta; ela sabia o que veria; eles pareceriam
feitos de ouro vivo. Eles pareceriam a imagem verdadeira do que seres
humanos sempre poderiam ser, depois que tivessem descoberto sua herana.
O P descendo como uma chuva vinda das estrelas havia encontrado
novamente um lar para viver, e aquelas crianas-que-no-eram-mais-crian
as, embebidas e transbordando de amor, eram a causa de tudo aquilo. 477
*36 A FLECHA QUEBRADA O DIA CHEGOU EM QUE NASCEU MINHA VIDA, MEU AMOR
CHEGOU PARA MIM.  CHRISTINA ROSSETI Os dois daemons foram andando  pelo
povoado silencioso, entrando e saindo das sombras, com patas macias, sob
a forma de gatos, atravessando o plat iluminado pelo luar que era o
pdio de reunies, parando diante da porta aberta da casa de Mary.
Cautelosamente, espiaram o interior da casa e viram apenas a mulher
dormindo;  de modo que recuaram e seguiram novamente pelo luar, em
direo  rvore-abrigo. Seus galhos longos e baixos estendiam as folhas
espiraladas, perfumadas, quase at o cho. Muito lentamente, muito
cuidadosamente para no farfalhar uma folha, nem quebrar um graveto
cado, as duas formas se esgueiraram pela cortina de folhas e viram o
que estavam procurando: o menino e a menina, profundamente adormecidos,
nos braos um do outro. Eles se aproximaram andando sobre a grama e
muito levemente tocaram as crianas dormindo com o focinho, a pata, os
bigodes, banhando-se no calor vivificante que eles irradiavam, mas tendo
um cuidado infinito para no acord-los. Enquanto estavam examinando
suas pessoas (delicadamente limpando a ferida quase cicatrizada de Will,
levantando uma mecha de cabelo do rosto de Lyra), houve um som suave
atrs deles. Imediatamente, em silncio total, os dois daemons se
viraram rapidamente, transformando-se em lobos: olhos claros ferozes,
dentes brancos arreganhados, ameaa em cada linha de seus corpos. Havia
uma mulher parada ali, sua silhueta iluminada pela lua. No era Mary e
quando falou eles a ouviram nitidamente, embora sua voz no tivesse
nenhum som. - Venham comigo - disse ela. O corao de daemon  de
Pantalaimon deu um salto em seu peito, mas no disse nada at poder
cumpriment-la longe das crianas que dormiam. - Serafina Pekkala! -
exclamou com alegria. - Por onde voc tem andado? Sabe do que aconteceu?
- Psiu. Vamos voar para algum lugar onde possamos conversar - respondeu
ela, 478 preocupada com os habitantes do povoado que dormiam. Seu galho
de pinheiro-nubgeno estava encostado ao lado da porta da casa de Mary
e, enquanto ela o pegava, os dois daemons se transformaram em pssaros
- um rouxinol e uma coruja - e voaram com ela sobre os telhados de
colmo, sobre as pradarias, sobre a cadeia de colinas e em direo ao
grupo de rvores-das-rodas mais prximo, imenso como um castelo, a copa
parecendo coalhada de prata sob a luz do luar. Ali Serafina Pekkala se
acomodou no galho mais alto e confortvel, entre as flores abertas que
absorviam o P, e os dois pssaros se em-poleiraram perto dela. - Vocs
no sero pssaros por muito tempo - comentou. - Dentro de muito pouco
tempo suas formas definitivas se fixaro. Olhem bem ao redor e guardem
esta imagem na memria. -  Que vamos ser? - perguntou Pantalaimon. -
Voc vai descobrir mais cedo do que pensa. Escute, -disse Serafina
Pekkala, - vou lhe contar algo que faz parte do saber das bruxas de que
ningum tem conhecimento, s as bruxas. O motivo porque posso fazer isso
 o fato de que vocs esto aqui comigo e seus humanos esto l embaixo,
dormindo. Quem so as nicas pessoas para quem isso  possvel? -
Bruxas - respondeu Pantalaimon - e xams. Ento. . . - Ao deixar vocs
dois nas margens do mundo dos mortos, Lyra e Will fizeram, sem saber,
uma coisa que bruxas sempre fizeram desde a primeira vez em que bruxas
surgiram no mundo. Existe uma regio em nossa terra do norte, um lugar
desolado, abominvel, onde uma grande catstrofe aconteceu na infncia
do mundo e onde nada jamais viveu desde ento. Nenhum daemon pode entrar
l. Para se tornar bruxa, uma menina tem que atravessar essa regio
sozinha e deixar para trs o seu daemon. Vocs sabem o sofrimento que
tm que suportar. Mas, tendo feito isso, elas descobrem que seus daemons
no foram seccionados, como em Bolvangar; ainda so um nico ser
inteiro, mas podem se deslocar livremente e ir a lugares distantes, ver
coisas estranhas e trazer os conhecimentos de volta. "E vocs no foram
seccionados, certo?" - No - respondeu Pantalaimon. - Ainda somos um
nico ser. Mas foi to doloroso e ficamos com tanto medo. . . - Bem -
disse Serafina, - eles dois no vo voar como bruxas e no vivero tanto
tempo quanto ns vivemos; mas, graas ao que fizeram, vocs e eles so
bruxas em todos os aspectos, menos esses. Os dois daemons  refletiram
sobre a estranheza daquela informao. - Isso significa que vamos ser
pssaros como os daemons de bruxas? - perguntou Pantalaimon. - Seja
paciente. - E como Will pode ser uma bruxa? Pensei que todas as bruxas
fossem mulheres. 479 - Aqueles dois mudaram muitas coisas. Todos ns
estamos aprendendo novos costumes, at as bruxas. Mas uma coisa no
mudou: vocs tm que ajudar seus humanos, no criar dificuldades para
eles. Tm que ajud-los, orient-los e encoraj-los a adquirir
sabedoria.  para isso que daemons servem. Eles ficaram em silncio.
Serafina virou-se para o rouxinol e perguntou: -  Como se chama? - No
tenho nome. Eu no sabia que tinha nascido at o instante em que fui
arrancada do corao dele. -  Ento vou cham-la de Kirjava. - Kirjava -
repetiu Pantalaimon, para ver como soava. - Que quer dizer isso? - Logo
voc vai saber o que significa. Mas agora, prosseguiu Serafina, -
precisam me ouvir com muita ateno, porque vou dizer o que devem fazer.
-  No - disse Kirjava com veemncia. - Estou vendo pelo seu tom de voz
que voc j sabe o que vou dizer - observou Serafina com imensa
delicadeza. -  No queremos ouvir! - exclamou Pantalaimon. -  cedo
demais - argumentou o rouxinol. -  realmente cedo demais. Serafina
ficou em silncio, porque concordava com eles e sentia-se muito triste.
Mas, apesar disso, era a pessoa de maior saber ali e tinha que
orient-los para que seguissem a conduta certa; porm, deixou que a
agitao deles se acalmasse, antes de prosseguir. -  Onde estiveram,
durante suas viagens? - perguntou. - Passamos por muitos mundos -
respondeu Pantalaimon. - Em toda parte onde encontramos uma janela,
atravessamos. Existem mais janelas do que havamos pensado. -  E viram.
- Vimos - respondeu Kirjava -; assistimos de perto e vimos o que estava
acontecendo. - Vimos uma poro de outras coisas - acrescentou
Pantalaimon rapidamente. - Vimos anjos e falamos com eles. Vimos o mundo
de onde vem o povo pequenino, os galivespianos. Tambm tem gente grande
l que tenta mat-los. Eles falaram  bruxa sobre as outras coisas que
tinham visto e estavam tentando distra-la, ela sabia; mas deixou-os
falar, por causa do amor que sentiam pela voz um do outro. Mas,
finalmente, esgotaram as coisas que tinham para contar e eles se
calaram. O nico som era o sussurro incessante das folhas, at que
Serafina Pekkala disse: - Vocs tm se mantido longe de Will e Lyra para
castig-los. Sei por que esto fazendo isso; meu daemon,  Kaisa, fez
exatamente a mesma coisa depois que atravessei a terra estril desolada.
Mas depois acabou voltando para mim porque ainda nos amvamos. E,
brevemente, eles vo precisar de vocs para ajud-los a fazer o que tem
que ser feito a seguir. Porque vocs tm que contar a eles o que sabem.
480 Pantalaimon gritou alto, um grito gelado de coruja, um som que nunca
tinha sido ouvido antes naquele mundo. Em ninhos e tocas a uma grande
distncia ao redor, e onde quer que houvesse quaisquer pequeninos
animais noturnos caando, pastando, ou comendo carnia, um novo e
inesquecvel terror nasceu. Serafina ficou observando de perto e no
sentiu nada, exceto uma enorme compaixo, at que olhou para o daemon
de Will, Kirjava, o rouxinol. Lembrou-se da conversa que tivera com a
bruxa Ruta Skadi, que havia perguntado, depois de ter visto Will apenas
uma vez, se Serafina j o olhara bem nos olhos; e Serafina tinha
respondido que no tivera coragem. Aquele pequenino pssaro marrom
estava irradiando uma ferocidade implacvel, to palpvel quanto o
calor, e Serafina teve medo dele. Finalmente os gritos desesperados de
Pantalaimon se calaram e Kirjava disse: - E temos que contar a eles. -
Sim, tm que contar - respondeu a bruxa com grande gentileza.
Gradualmente a ferocidade foi desaparecendo do olhar do passarinho
marrom e Serafina conseguiu olhar para ela de novo. Em seu lugar viu uma
tristeza desolada. - H um navio a caminho - disse Serafina. - Eu o
deixei para voar at aqui e encontrar vocs. Vim com os gpcios, l de
nosso mundo. Eles estaro aqui dentro de um ou dois dias. Os dois
pssaros ficaram empoleirados juntos e um instante depois tinham mudado
de forma, tornando-se dois pombos. Serafina prosseguiu: - Esta pode ser
a ltima vez que vocs voam. Posso ver um pouco o futuro; vejo que vocs
dois podero subir a esta altura, desde que haja rvores deste tamanho;
mas creio que no sero pssaros quando suas formas se fixarem.
Aproveitem tudo o que puderem e depois lembrem-se bem. Eu sei que vocs,
Lyra e Will vo pensar seriamente e que vai ser doloroso, e sei que
faro a melhor escolha. Mas cabe a vocs fazer essa escolha e a mais
ningum. Eles no responderam. Ela pegou seu galho de pinheiro-nubgeno,
montou e saiu voando, afastando-se das copas gigantescas das rvores,
voando em crculos bem alto, sentindo na pele o frescor da brisa e o
formigar da luz das estrelas e o peneirar benevolente do P que nunca
havia visto. Serafina voou mais uma vez at o povoado e entrou
silenciosamente na casa da mulher. No sabia nada a respeito de Mary,
exceto que ela vinha do mesmo mundo que Will e que seu papel nos
acontecimentos era crucial. Serafina no tinha como saber se era
agressiva ou amistosa; mas tinha que acordar Mary sem assust-la, e
havia um feitio para isso. Ela sentou no cho junto da cabea da mulher
e olhou-a fixamente, com os olhos semicerrados, inspirando e exalando,
respirando no mesmo compasso que ela. Pouco depois, atravs dos olhos
entreabertos, a viso comeou a lhe mostrar as formas claras que Mary
estava vendo em seus sonhos e ajustou sua mente para ressoar com elas,
como se estivesse afinando uma corda de 481 instrumento. Depois, com um
esforo um pouco maior, a prpria Serafina entrou no meio delas. Depois
que estivesse l, poderia falar com Mary, e fez isso com a afeio
instantnea e natural que por vezes sentimos por pessoas que conhecemos
em sonhos. Um momento depois elas estavam conversando animadamente em
murmrios de que Mary mais tarde no lembraria nada e andando por uma
paisagem tola de leitos de juncos e transformadores eltricos. Estava na
hora de Serafina assumir o controle. - Dentro de poucos instantes -
explicou, - voc vai acordar. No se assuste. Vai me encontrar a seu
lado. Estou acordando voc assim para que saiba que est em segurana,
que no h nada que v lhe fazer mal. E ento poderemos conversar
direito. Ela se retirou, trazendo consigo a Mary do sonho, at se
encontrar de volta na casa, sentada de pernas cruzadas no cho de terra
batida, com os olhos de Mary brilhando enquanto olhavam para ela. -
Voc deve ser a bruxa - sussurrou Mary. -  Eu sou. Meu nome  Serafina
Pekkala. Como se chama? - Mary Malone. Nunca fui acordada de maneira to
tranqila. Estou mesmo acordada? - Est. Precisamos ter uma conversa e
uma conversa de sonho  difcil de controlar e ainda mais difcil de
lembrar.  melhor conversar acordada. Voc prefere ficar aqui dentro ou
me acompanharia numa caminhada ao luar? - Vou com voc - respondeu Mary,
sentando-se e espreguiando-se. - Onde esto Lyra e Will? -  Dormindo
debaixo da rvore. As duas saram da casa, passaram pela rvore com sua
cortina de galhos que escondia tudo e foram caminhando at a margem do
rio.  Mary observou Serafina Pekkala com uma mistura de desconfiana e
admirao: nunca tinha visto um ser humano to esguio e gracioso.
Parecia ser mais jovem que a prpria Mary, embora Lyra tivesse dito que
ela estava com centenas de anos; a nica insinuao de idade vinha de
sua expresso, cheia de uma complexa tristeza. Elas sentaram na margem
do rio, acima da gua preto-prateada, e Serafina contou a Mary o que
havia conversado com os daemons das crianas. - Os dois foram
procur-los hoje - disse Mary, - mas alguma outra coisa aconteceu. Will
nunca viu seu daemon  direito, exceto na ocasio em que eles fugiram da
batalha e apenas por um segundo. Ele no sabia com certeza que de fato
tinha um. - Bem, ele tem. E voc tambm. Mary arregalou os olhos para
ela. - Se pudesse v-lo - prosseguiu Serafina, - veria um pssaro preto
com pernas vermelhas e um bico amarelo-vivo, ligeiramente recurvado. Um
pssaro das montanhas. - Uma gralha dos Alpes. . . Como voc pode v-lo?
482 - Com meus olhos semicerrados, posso v-lo. Se tivssemos tempo, eu
poderia lhe ensinar a v-lo tambm, e a ver os daemons de outras pessoas
em seu mundo.  estranho para ns pensar que vocs no conseguem v-los.
Ento ela contou a Mary o que tinha dito aos daemons e o que
significava. - E os daemons tero que contar a eles? - perguntou Mary. -
Pensei em acord-los e eu mesma falar com eles. Pensei em dizer a voc e
deixar que ficasse com essa responsabilidade. Mas estive com os daemons
e vi que assim seria melhor. - Eles esto apaixonados. - Eu sei. - Eles
acabaram de descobrir isso. . . Mary tentou avaliar todas as implicaes
do que Serafina acabara de lhe contar, mas era duro e difcil demais.
Depois de mais ou menos um minuto, Mary perguntou: - Voc pode ver o P?
- No, nunca vi. At as guerras comearem, nunca tnhamos ouvido falar
de P. Mary tirou a luneta do bolso e ofereceu-a  bruxa. Serafina
levou-a ao olho e soltou uma exclamao de espanto. - Aquilo  P. . . 
lindo! - Vire-se para olhar para a rvore-abrigo. Serafina obedeceu e
exclamou de novo. - Eles fizeram isso? - perguntou. - Alguma coisa
aconteceu hoje, ou ontem, se j for mais de meia-noite - disse Mary,
procurando encontrar as palavras para explicar e lembrando-se de sua
viso do fluxo de P como um grande rio, como o Mississpi. - Alguma
coisa minscula, mas crucial. . . Se voc quisesse desviar um rio enorme
para um curso diferente e tudo o que tivesse fosse um nico seixo,
poderia faz-lo, desde que o pusesse no lugar certo, para enviar o
primeiro gotejar de gua naquela direo em vez dessa. Alguma coisa
assim aconteceu ontem. No sei o que foi. Eles se viram de uma maneira
diferente, ou algo assim... At ento, no tinham sentido aquilo, mas,
de repente, sentiram. E ento o P foi atrado para eles, de maneira
muito poderosa, e parou de fluir na outra direo. - Ento era assim que
deveria acontecer! - exclamou Serafina, maravilhada. - E agora est tudo
salvo, ou estar, quando os anjos encherem o grande abismo no mundo dos
mortos. Ela contou a Mary sobre o abismo e sobre como tinha ficado
sabendo de sua existncia. - Eu estava voando alto - explicou, -
procurando terra, um ponto para descer, e encontrei um anjo: um anjo
mulher. Ela era muito estranha, era velha e jovem ao mesmo tempo -
prosseguiu, esquecendo que era assim que ela prpria parecia para Mary.
- O nome dela era Xaphania. E me contou tantas coisas. . . Disse que
toda a histria da vida humana tem sido uma luta entre o conhecimento e
a ignorncia. Ela e os anjos rebeldes, os seguidores do conhecimento,
sempre tentaram abrir as mentes; a Autoridade e suas igrejas sempre
tentaram mant-las fechadas, ignorantes. Ela me deu muitos exemplos de
meu mundo. 483 - Posso pensar em muitos do meu. - E, durante a maior
parte do tempo, o saber teve que trabalhar em segredo, sussurrando suas
palavras, movendo-se como um espio pelos lugares mais humildes do
mundo, enquanto as cortes e os palcios eram ocupados por seus inimigos.
- Sim - disse Mary, - tambm reconheo isso. - E agora o combate ainda
no acabou, embora as foras do reino tenham tido um srio revs. Elas
vo se reorganizar sob um novo comandante e voltar com plena fora, e
devemos estar prontos para resistir. - Mas o que aconteceu com Lorde
Asriel? - perguntou Mary. - Ele lutou com o Regente do cu, o anjo
Metatron, e, em combate corpo a corpo, conseguiu arrast-lo para dentro
do abismo. Metatron foi-se para sempre. E Lorde Asriel tambm. Mary
prendeu a respirao. - E a Sra. Coulter? - perguntou. A ttulo de
resposta, a bruxa tirou uma flecha de sua aljava. Ela demorou algum
tempo para escolh-la: a melhor, a mais reta, a mais perfeitamente
equilibrada. E partiu-a em dois pedaos. - Numa ocasio, em meu mundo -
explicou, - vi aquela mulher torturando uma bruxa e jurei a mim mesma
que lanaria essa flecha em sua garganta. Agora nunca farei isso. Ela se
sacrificou com Lorde Asriel para lutar contra o anjo e tornar o mundo
seguro para Lyra. Nenhum deles poderia ter feito isso sozinho, mas
juntos fizeram. Angustiada, Mary perguntou: - Como vou contar isso a
Lyra? - Espere at que ela pergunte - disse Serafina. - E pode ser que
no pergunte. De qualquer maneira, ela tem seu instrumento leitor de
smbolos, ele dir qualquer coisa que ela queira saber. As duas ficaram
em silncio por algum tempo, amigavelmente, enquanto as estrelas
lentamente giravam no cu. - Voc pode ver o futuro e adivinhar o que
eles vo escolher fazer? - perguntou Mary. - No, mas se Lyra voltar
para o seu mundo, eu serei sua irm enquanto ela viver. E voc, o que
vai fazer? - Eu... - comeou Mary, e descobriu que no havia refletido
sobre isso em nenhum momento. - Suponho que meu lugar seja em meu
prprio mundo. Vou lamentar deixar este aqui; tenho sido muito feliz
aqui. Creio que mais feliz do que j fui em qualquer outra ocasio em
minha vida. - Bem, se voc voltar para casa, ter uma irm em outro
mundo - declarou Serafina, - e eu tambm. Ns voltaremos a nos ver
denovo, daqui a um ou dois dias, quando o navio chegar, e conversaremos
mais durante a viagem de volta para casa; e ento nos despediremos para
sempre. Agora, abrace-me, irm. Mary a abraou e Serafina Pekkala se foi
voando em seu galho de pinheiro-nubgeno, sobrevoando os juncos, depois
os baixios de 484 lama, a praia e o mar at que Mary a perdeu de vista.
Mais ou menos naquela mesma hora, um dos grandes lagartos azuis
encontrou o corpo do Padre Gomez. Naquela tarde, Will e Lyra tinham
voltado para o povoado por um caminho diferente e no o tinham visto; o
padre jazia intocado onde Balthamos o havia deitado. Os lagartos eram
comedores de carnia, mas eram animais mansos e inofensivos, e atravs
de um acordo antiqssimo com os mulefas, tinham o direito de levar
qualquer criatura que fosse deixada morta, ao ar livre, depois do
anoitecer. O lagarto arrastou o corpo do padre de volta para sua toca e
seus filhotes se banquetearam fartamente. Quanto ao rifle, estava cado
na relva, onde o Padre Gomez o deixara, silenciosamente virando
ferrugem. 485 *37 As DUNAS MINH'ALMA, NO BUSQUES A VIDA ETERNA, MAS
ESGOTA O REINO DO POSSVEL.  PNDARO No dia seguinte, Will e Lyra saram
sozinhos denovo, falando pouco, ansiosos para estarem a ss. Pareciam
atordoados, como se algum feliz acidente lhes tivesse roubado a
agilidade de pensamento; eles se moviam devagar; seus olhos no estavam
concentrados nas coisas para as quais olhavam. Passaram o dia inteiro
nas vastas colinas e, no calor da tarde, visitaram a clareira de ouro e
prata no bosque. Conversaram, banharam-se, comeram, beijaram-se, depois
ficaram deitados, num transe de felicidade, murmurando aquelas palavras
cujos sons eram to confusos quanto seu sentido, e tiveram a impresso
de que estavam se derretendo de amor. Ao anoitecer, sentaram para comer
com Mary e Atai, mais uma vez falando pouco e, como o ar estava quente,
decidiram fazer uma caminhada at a beira do mar, onde achavam que
poderia haver uma brisa fresca. Foram seguindo pela margem do rio at
chegarem  praia larga, clara sob a luz do luar, onde a mar baixa
estava virando. Deitaram-se na areia macia na base das dunas e ento
ouviram o primeiro pssaro cantar. Os dois viraram a cabea
imediatamente, porque era um canto de pssaro que no se parecia em nada
com nenhum dos outros seres que pertenciam ao mundo em que estavam. De
algum lugar acima, na escurido, veio o som de um trinado e um outro
respondeu, vindo de uma direo diferente. Encantados, Will e Lyra
levantaram-se de um salto e tentaram ver os cantores, mas tudo o que
conseguiram avistar foram dois vultos que planavam, voando baixo, e
depois saam como dardos para as alturas, o tempo todo cantando e
cantando, em sons ricos e lmpidos como sinos, uma melodia de infinitas
variaes. E ento, com um bater de asas que levantou um pequeno
chafariz de areia  sua frente, o primeiro pssaro pousou a poucos
metros de distncia. Lyra chamou: - Pan? 486 Ele estava com a forma de
um pombo, mas sua cor era escura e difcil de distinguir ao luar; e, de
qualquer maneira, ele aparecia claramente sobre a areia branca. O outro
pssaro ainda voava em crculos acima, ainda cantando, e ento ela
desceu voando para vir se juntar a ele: uma pomba tambm, mas
branco-perolada e com uma crista de penas vermelho-escuras. E ento Will
descobriu como era ver seu daemon. Quando ela desceu voando at a areia,
ele sentiu seu corao se apertar e depois se soltar de uma maneira que
nunca esqueceria. Mais de 60 anos se passariam e, j na velhice, ele
ainda sentiria algumas sensaes com a mesma intensidade e o mesmo
frescor de sempre: os dedos de Lyra pondo a frutinha entre seus lbios,
sob as rvores banhadas de ouro e prata; seus lbios clidos contra os
dele; seu daemon sendo arrancado de seu peito inocente, enquanto
entravam no mundo dos mortos; e a retido, a doce correo de ela voltar
para ele ali, na base das dunas iluminadas pelo luar. Lyra fez um
movimento para se aproximar deles, mas Pantalaimon falou. - Lyra - disse
ele, - Serafina Pekkala veio nos procurar ontem  noite. Ela nos contou
uma poro de coisas. J foi embora para ir se encontrar com os gpcios
e traz-los at aqui. Farder Coram est a caminho e Lorde Faa tambm,
eles estaro aqui. - Pan - disse ela, aflita. - Ah, meu Pan, voc no
est feliz... o que foi? O que foi que aconteceu? Ento ele mudou e voou
sobre a areia num movimento fluido, com a forma de arminho branco como a
neve. O outro daemon tambm mudou de forma - Will sentiu isso acontecer,
como um pequeno aperto em seu corao - e transformou-se numa gata.
Antes de se aproximar dele, a gata disse: - A bruxa me deu um nome. Eu
no precisava de um nome antes. Ela me chamou de Kirjava. Mas ouam,
vocs agora tm que nos ouvir... - Sim, vocs precisam nos ouvir -
declarou Pantalaimon. - Isso  difcil de explicar. Se alternando, os
daemons conseguiram explicar a eles tudo o que Serafina lhes havia
contado, comeando pela revelao sobre a natureza das crianas: sobre
como, sem querer, eles haviam se tornado iguais s bruxas em sua
capacidade de se separar de seus daemons e mesmo assim continuar sendo
um nico ser. - Mas isto no  tudo - advertiu Kirjava. E Pantalaimon
disse: - Ah, Lyra, perdoe-nos, mas temos que contar a vocs o que
descobrimos. . . Lyra estava perplexa. Quando, algum dia, Pan havia
precisado ser perdoado? Ela olhou para Will e viu sua perplexidade to
claramente quanto a que sentia. -  Pode contar - disse ele. - No tenha
medo. -  sobre o P - disse o daemon  gata, e Will ficou maravilhado ao
ouvir uma parte de seu prprio ser contar-lhe uma coisa que ele no
sabia. - Todo o P estava fluindo para fora do mundo, todo o P que
existia, e descendo pelo abismo que vocs 487 viram. Alguma coisa fez
com que parasse de fluir e desaparecer l dentro, mas. -Will, era aquela
luz dourada! - exclamou Lyra. - Aquela luz toda que flua para o abismo
e desaparecia... E aquilo era P? Era mesmo? - Era. Mas ainda h mais P
vazando para l o tempo todo - prosseguiu Pantalaimon. - E isso no pode
acontecer.  muito importante que todo ele no continue a vazar. O P
tem que ficar no mundo e no desaparecer, pois caso contrrio tudo o que
existe de bom vai murchar e morrer. - Mas de onde o resto est saindo? -
perguntou Lyra. Os dois daemons olharam para Will e para a faca. - Toda
vez que fizemos uma abertura - explicou Kirjava, e novamente Will sentiu
aquele pequeno arrepio de prazer: Ela sou eu e eu sou ela. . . - toda
vez que algum fez uma abertura entre os mundos, ns ou os homens da
antiga Guilda, qualquer pessoa, a faca cortava uma abertura no vazio que
fica do lado de fora. O mesmo vazio que existe no fundo do abismo. Ns
nunca soubemos disso. Ningum nunca soube, porque a borda era fina
demais para ser vista. Mas era grande o bastante para que o P vazasse
atravs dela. Se a abertura fosse de novo fechada, imediatamente, no
havia tempo para que vazasse muito, mas houve milhares de aberturas que
eles nunca fecharam. De modo que, durante todo esse tempo, o P esteve
vazando para fora dos mundos e indo para o nada. A compreenso do que
tudo aquilo significava estava comeando a surgir, como a luz do dia
raiando, na mente de Will e de Lyra. Eles lutaram contra isso,
empurraram para longe, mas era exatamente como a luz cinzenta que
penetra no cu e apaga as estrelas: ela foi se infiltrando atravs de
todas as barreiras que eles conseguiram levantar, e por baixo de todos
os biombos, e pelos cantos de todas as cortinas que conseguiram fechar
contra ela. - Todas as aberturas - disse Lyra num murmrio. - Todas as
aberturas. . . todas elas tm de ser fechadas? - perguntou Will. - Sim,
todas - respondeu Pantalaimon, num murmrio, como Lyra. - Ah, no -
exclamou Lyra. - No, no pode ser verdade, - E por isso teremos de
deixar nosso mundo e ficar no de Lyra - disse Kirjava - ou Pan e Lyra
tero de deixar o deles e vir ficar no nosso. No h outra escolha. E
ento a luz plena e desoladora do dia se fez. E Lyra comeou a gritar e
chorar. O grito de coruja de Pantalaimon, da noite anterior, havia
assustado todas as pequeninas criaturas que o haviam ouvido, mas aquele
grito no era nada diante do pranto desesperado, carregado de paixo que
Lyra no podia conter. Os  daemons  ficaram chocados e Will, vendo a
reao deles, compreendeu por qu: eles no conheciam o resto da
verdade; no tinham conhecimento do que Will e Lyra sabiam. Lyra estava
tremendo de raiva e desespero, andando em passadas largas de um lado
para o outro, com os punhos cerrados e 488 virando o rosto banhado de
lgrimas, para a esquerda e para a direita como se buscando uma
resposta. Will levantou-se de um salto e a agarrou pelos ombros, e a
sentiu tensa e tremendo. - Oua - disse. - Lyra, escute: o que foi que
meu pai disse? - Ah - exclamou, chorando, sacudindo a cabea sem parar,
- ele disse. . . voc sabe o que ele disse. . . voc estava l, Will,
voc tambm ouviu! Will pensou que ela fosse morrer ali, naquela hora,
de dor e de tristeza. Lyra atirou-se nos braos dele e soluou,
agarrando-se apaixonadamente aos ombros dele, enfiando as unhas nas
costas dele e seu rosto no pescoo de Will, e tudo o que ele conseguia
ouvir era: - No - no - no. . . - Escute - disse ele, de novo, - Lyra,
vamos tentar nos lembrar exatamente. Poderia haver alguma sada. Poderia
haver algum meio. Ele afastou os braos dela delicadamente e fez com que
se sentasse. Assustado, Pantalaimon imediatamente saltou para o colo de
Lyra, e o daemon gata se aproximou hesitante de Will. Ele ainda no
havia tocado nela, mas naquele momento estendeu a mo em sua direo e
ela encostou sua face de gata em seus dedos movendo-a numa carcia,
depois, delicadamente, subiu em seu colo. - Ele disse - comeou Lyra,
engolindo os soluos, - ele disse que as pessoas podiam passar algum
tempo em outros mundos sem serem afetadas. Podiam. E ns j passamos,
no passamos? Alm do que tivemos de fazer para ir ao mundo dos mortos,
ainda estamos saudveis, no estamos? - Mas como era com Lorde Boreal?
Sir Charles? Ele era bastante saudvel, no era? - Era, mas lembre-se,
ele podia voltar para seu prprio mundo sempre que quisesse e recuperar
a sade. Afinal, foi l que voc o viu pela primeira vez, no seu mundo.
Ele deve ter descoberto alguma janela secreta que mais ningum conhecia.
-  Bem, ns poderamos fazer isso! -  Poderamos, s que. . . - Todas as
janelas tm que ser fechadas - disse Pantalaimon. - Todas elas. -  Mas
como voc sabe. - questionou Lyra. - Um anjo nos disse - respondeu
Kirjava. - Encontramos um anjo. Ela nos contou tudo a respeito disso e
outras coisas tambm.  verdade, Lyra. -  Ela? - perguntou Lyra em tom
exaltado, desconfiado. -  Era um anjo mulher. - Nunca ouvi falar de anjo
mulher. Talvez ela estivesse mentindo. Will estava pensando numa outra
possibilidade. - E se fechssemos todas as outras janelas - sugeriu - e
fizssemos uma, apenas quando precisssemos, e passssemos por ela to
depressa quanto pudssemos e a fechssemos imediatamente... assim seria
seguro, no acha? Se no deixssemos muito tempo para que o P sasse?
489 - Claro! - Ns faramos a janela num lugar onde ningum pudesse
encontr-la - prosseguiu ele - e s ns saberamos! - Ah, isso daria
certo! Tenho certeza que daria! - exclamou Lyra. - E poderamos passar
de um mundo para outro e nos manter saudveis. Mas os daemons  estavam
angustiados e Kirjava estava murmurando: - No, no - e Pantalaimon
disse: - Os Espectros. . . Ela tambm nos falou dos Espectros. - Os
Espectros? - perguntou Will. - Ns os vimos durante a batalha, pela
primeira vez. O que tm eles? -  Bem, descobrimos de onde eles vm -
respondeu Kirjava. - E essa  a pior parte: eles so como filhos do
abismo. Cada vez que abrimos uma janela com a faca, ele faz um Espectro.
 como se um pedacinho do abismo sasse flutuando e entrasse no mundo.
Era por isso que o mundo de Cittgazze era to cheio deles, por causa de
todas as janelas que deixaram abertas por l. - E eles crescem se
alimentando de P - disse Pan. - E de daemons. Porque P e daemons so
meio parecidos; pelo menos os daemons  de adultos. E os Espectros ficam
maiores e mais fortes como os adultos. . . Will sentiu um terror sombrio
em seu corao e Kirjava apertou-se contra o peito dele, sentindo-o
tambm, e tentando confort-lo. - De modo que toda vez que eu usei a
faca - disse, - cada uma das vezes, fiz nascer mais um Espectro? Ele se
lembrou de Iorek na caverna onde havia forjado de novo a faca, dizendo:
O que voc no sabe  o que a faca faz sozinha. Suas intenes podem ser
boas. Mas afaca tambm tem intenes. Os olhos de Lyra estavam cravados
nele, arregalados de angstia. -  Ah, Will, ns no podemos - declarou.
- No podemos fazer isso com as pessoas... no podemos deixar que outros
Espectros venham, no agora, depois que vimos o que eles fazem! - Est
bem - disse ele, se levantando, abraando seu daemon  contra o peito. -
Ento teremos que. . . um de ns ter que... eu irei para o seu mundo e.
. . Ela sabia o que ele ia dizer e o viu carregando no colo o daemon
lindo e saudvel, que nem sequer tinha comeado a conhecer; e pensou na
me dele, e teve certeza que ele estava pensando nela tambm.
Abandon-la para viver com Lyra, mesmo pelos poucos anos que teriam
juntos - ser que poderia fazer isso? Ele poderia viver com Lyra, mas
ela sabia que ele no seria capaz de viver consigo mesmo. - No -
exclamou, pondo-se de p ao lado dele, e Kirjava foi se juntar a Pan na
areia, enquanto o menino e a menina se abraavam desesperadamente. - Eu
fao isso, Will! Ns iremos para o seu mundo e viveremos l! No faz mal
se ficarmos doentes, eu e o Pan. . . ns somos fortes, aposto que
duraremos um bom tempo e, provavelmente, existem bons mdicos em seu
mundo... 490 a Dra. Malone deve saber! Ah, vamos fazer isso! Ele estava
sacudindo a cabea, fazendo que no, e ela viu as lgrimas brilhando em
suas faces. - Voc acha que eu poderia suportar isso, Lyra? - perguntou.
- Acha que eu poderia viver feliz vendo voc adoecer e piorar, ir
minguando e depois morrer, enquanto eu fosse ficando mais forte e adulto
a cada dia? Dez anos. . . Isso no  nada. Passaria num  instante.
Estaramos com vinte e poucos anos. No falta muito para chegarmos l.
Pense nisso, Lyra, voc e eu adultos, acabando de nos preparar para
fazer todas as coisas que queremos fazer... e ento... tudo acabar.
Voc acha que eu suportaria continuar vivendo depois que voc morresse?
Ah, Lyra, eu seguiria voc na descida at o mundo dos mortos sem pensar
duas vezes, exatamente como voc seguiu Roger; e assim seriam duas vidas
perdidas por nada, a minha vida desperdiada assim como a sua.  No, ns
deveramos passar nossa vida inteira juntos, ter uma vida longa e
produtiva, os dois, e se no pudermos viv-la juntos, ns.. . ns
teremos que viver separados. Mordendo o lbio, ela o observou enquanto
ficava caminhando para baixo e para cima em sua terrvel angstia. Ele
parou, se virou e prosseguiu: - Voc se lembra de uma outra coisa que
ele disse, meu pai? Ele disse que temos que construir uma repblica do
cu onde estivermos. Disse que para ns no existe nenhum outro lugar.
Era isso que estava querendo dizer, agora compreendo. Ah, mas  cruel e
triste demais. Pensei que ele estivesse se referindo apenas a Lorde
Asriel e a seu novo mundo, mas estava falando de ns, falando de voc e
de mim. Temos que viver em nossos prprios mundos. . . - Eu vou
perguntar ao aletmetro - disse Lyra. - Ele vai saber. No sei por que
no pensei nisso antes. Ela sentou na areia, enxugando o rosto com a
palma de uma das mos e estendendo a outra para a sacola de lona. Lyra a
levava consigo para toda parte: quando Will pensasse nela anos depois,
com freqncia seria com aquela pequena sacola no ombro. Ela empurrou  o
cabelo para trs, enfiando-o atrs das orelhas com aquele movimento
rpido que ele amava, e tirou o embrulho de veludo preto. - Consegue
enxergar? - perguntou ele, pois embora a lua estivesse clara, os
smbolos em crculo no mostrador eram muito pequenos. - Eu sei onde
todos eles esto - respondeu ela, - sei de cor. Agora fique calado. Ela
cruzou as pernas, puxando a saia sobre as pernas para fazer um apoio.
Will se deitou, apoiado num cotovelo, e observou. A luz intensa do luar,
refletida na areia, iluminava o rosto de Lyra com um brilho que parecia
refletir uma outra luz que vinha de dentro dela; seus olhos brilhavam e
sua expresso estava to sria e concentrada que Will poderia ter se
apaixonado por ela de novo, se o amor j no possusse cada fibra de seu
ser. 491 Lyra respirou fundo e comeou a girar os ponteiros. Mas depois
de apenas alguns instantes ela parou e virou o instrumento ao contrrio.
- Lugar errado - disse simplesmente e tentou de novo. Will, acompanhando
tudo, via seu rosto amado claramente. E como o conhecia to bem e j
havia observado sua expresso na alegria e no desespero, na esperana e
no sofrimento, logo ficou sabendo que alguma coisa estava errada; pois
no havia sinal da concentrao ntida em que ela costumava mergulhar
to rapidamente. Em vez disso, uma expresso de perplexidade infeliz
comeou a se espalhar gradualmente: ela mordeu o lbio, comeou a piscar
cada vez mais e seus olhos se moveram lentamente de  um smbolo para
outro, quase que ao acaso, em vez de dardejar rpida e confiantemente. -
No sei - disse ela, sacudindo a cabea, - no sei o que est
acontecendo... Eu o conheo to bem, mas parece que no consigo entender
o que est querendo dizer. . . Ela respirou fundo, trmula, e virou o
instrumento para o outro lado. Parecia estranho e pesado em suas mos.
Pantalaimon, sob a forma de camundongo, esgueirou-se para o colo dela e
descansou as patinhas negras sobre o cristal, olhando fixamente para um
smbolo depois do outro. Lyra girou um ponteiro, girou outro, depois
virou a coisa inteira ao contrrio e ento levantou a cabea e olhou
para Will, arrasada. - Ah, Will - exclamou, - no consigo mais ler!
Perdi a capacidade! - Calma - disse ele, - no se preocupe. Ainda est
a dentro de voc, todo aquele conhecimento. Agora trate de se acalmar e
procure encontr-lo. No faa fora. Apenas relaxe e v flutuando at
toc-lo. . . Ela engoliu em seco e assentiu, irritada, esfregou o punho
nos olhos, depois respirou fundo vrias vezes; mas ele podia ver que
estava tensa demais, e ps as mos nos ombros dela e a sentiu tremer,
ento a abraou bem apertado. Lyra afastou-se dele e tentou novamente.
Mais uma vez olhou para os smbolos e girou os ponteiros, mas aqueles
degraus invisveis de significado em que ela havia pisado, descendo aos
vrios nveis com tanta facilidade e confiana, simplesmente no estavam
mais l. Ela no sabia o que nenhum dos smbolos significava. Ela se
virou de volta, se agarrou em Will e disse desesperada: - No adianta,
eu no sei mais... desapareceu para sempre...simplesmente vinha quando
eu precisava, para todas as coisas que eu tinha que fazer... para salvar
Roger, depois para ns dois... e agora acabou, agora tudo se acabou,
simplesmente perdi a capacidade de ler... estava com medo de que isso
acontecesse, porque tem sido to difcil... pensei que no estava
conseguindo enxergar direito, ou que meus dedos estivessem enrijecidos,
ou sei l, mas no era nada disso; o conhecimento estava simplesmente me
deixando, estava apenas se apagando aos poucos. . . Ah, foi-se embora,
Will, eu o perdi! E nunca mais vai voltar! 492 Ela soluou com um
abandono desesperado. Tudo o que Will podia fazer era abra-la. No
sabia como consol-la, porque era evidente que estava certa. Ento os
dois daemons  se arrepiaram e olharam para o alto. Will e Lyra tambm
perceberam e seguiram os olhos deles para o cu. Uma luz estava se
movendo na direo deles: uma luz com asas.  -  o anjo que vimos -
disse Pantalaimon, arriscando um palpite. E adivinhou corretamente.
Enquanto o menino e a menina observavam sua aproximao, Xaphania abriu
mais as asas e veio planando at a areia. Will, a despeito de todo o
tempo que tinha passado na companhia de Balthamos, no estava preparado
para a estranheza daquele encontro. Ele e Lyra seguraram a mo um do
outro, bem apertadas, enquanto o anjo se aproximava deles, com a luz de
um outro mundo brilhando sobre ela. Estava despida, mas isso no
significava nada: de qualquer maneira, que roupas poderia um anjo
vestir, pensou Lyra? Era impossvel dizer se era velha ou moa, mas sua
expresso era austera e compassiva, e tanto Will quanto Lyra tiveram a
sensao de que ela os conhecia at o fundo do corao. - Will - disse
ela, - vim para pedir sua ajuda. - Minha ajuda? Como posso ajudar? -
Quero que me mostre como se fecham as aberturas que a faca faz.  Will
engoliu em seco. - Eu mostro - respondeu -; e, em troca, pode nos
ajudar? -  No da maneira como vocs querem. Sei a respeito do que
estiveram falando. O sofrimento de vocs deixou marcas at no ar. Sei
que isso no  consolo, mas creiam-me, todos os seres que tm
conhecimento do dilema de vocs desejariam que as coisas pudessem ser
diferentes: mas h destinos a que mesmo os mais poderosos dentre ns
temos que nos submeter. No h nada que eu possa fazer para ajudar vocs
a mudar a maneira como so as coisas. -  Por que - Lyra comeou a falar
e descobriu que sua voz estava fraca e trmula, - por que no consigo
mais ler o aletmetro? Por que no consigo sequer fazer isso? Era a
nica coisa que eu sabia fazer realmente bem, e simplesmente no est
mais l. . . desapareceu como se nunca tivesse existido. . . - Sua
capacidade de ler era uma graa - disse Xaphania, olhando para ela, - e
pode recuper-la atravs de trabalho. - Quanto tempo vai levar? - Uma
vida inteira. -  Tudo isso. . . - Mas sua leitura, ento, ser muito
melhor, depois de uma vida inteira de reflexo e esforo, porque vir da
compreenso e do conhecimento conscientes. Graas alcanadas assim so
mais profundas e mais plenas que uma graa que vem sem custar nada e,
alm disso, depois que a tiver alcanado, nunca mais a deixar. 493 -
Est  querendo  dizer  toda  uma vida inteira, no ? - sussurrou Lyra.
- Uma vida longa inteira? No... no apenas... alguns anos... - Sim,
exatamente - respondeu o anjo. -  E todas as janelas tm que ser
fechadas? - perguntou Will. - Todas elas mesmo? - Compreenda o seguinte
- disse Xaphania. - O P no  uma constante. No existe uma quantidade
fixa que sempre tenha sido a mesma. Seres conscientes produzem P. . . e
o renovam o tempo todo, ao pensar, e sentir, e refletir, ao adquirir
saber e ao transmiti-lo para os outros. "E se vocs ajudarem todas as
outras pessoas em seus mundos a fazer isso, ajudando-as a conhecerem e
compreenderem a si mesmas e s outras e a maneira como tudo funciona, e
mostrando-lhes como serem gentis em vez de serem cruis, pacientes em
vez de apressados, alegres em vez de grosseiras e, sobretudo, como
manter suas mentes abertas, livres e curiosas. . . ento elas renovaro
o suficiente para repor o que se perde atravs de uma janela aberta. De
modo que poderia haver uma deixada aberta." Will tremeu de excitao e
sua mente saltou para um nico ponto: para uma nova janela no ar, entre
seu mundo e o de Lyra. E  seria o segredo deles, poderiam atravess-la
sempre que quisessem e viver por algum tempo no mundo um do outro, no
vivendo o tempo todo em nenhum dos dois, de modo que seus daemons
pudessem se manter saudveis; e poderiam crescer juntos e talvez, muito
mais tarde, poderiam ter filhos que seriam cidados secretos de dois
mundos; e poderiam trazer todo o conhecimento de um mundo para o outro,
poderiam fazer todo tipo de coisas boas! - Mas Lyra estava sacudindo a
cabea. - No - disse ela, num lamento sufocado. - No podemos, Will! E,
de repente, ele soube em que ela estava pensando e no mesmo tom
angustiado disse: - No, os mortos! - Temos que deix-la aberta para
eles! Ns temos! - , caso contrrio. . . - E temos que fazer bastante
P para eles, e manter a janela aberta! Ela estava tremendo. Sentia-se
muito jovem, apenas uma menininha, enquanto ele a abraava, mantendo-a
colada ao seu corpo. -  E se fizermos - disse ele quase chorando, a voz
trmula, se vivermos nossa vida corretamente e pensarmos neles enquanto
a vivermos, ento tero alguma coisa para contar s harpias, tambm.
Precisamos dizer isso s pessoas, Lyra. - Para terem histrias
verdadeiras, claro - concordou ela, - as histrias verdadeiras que as
harpias querem ouvir em troca. - Claro. Pois se as pessoas viverem a
vida inteira e, quando tiver acabado, no tiverem nada para contar a
respeito dessa vida, ento nunca deixaro o mundo dos mortos. Ns
precisamos dizer isso a elas, Will. 494 - Mas, cada um de ns, sozinho.
. . - Sim - concordou ela, - sozinho. . . E diante da palavra sozinho,
Will sentiu uma enorme onda de raiva e de desespero comear a se mover,
levantando-se para sair, vinda de um lugar muito profundo dentro dele,
como se sua mente fosse um oceano que alguma profunda convulso tivesse
agitado. Sua vida inteira tinha estado sozinho e, agora, ele teria que
ficar sozinho de novo e aquela bno infinitamente preciosa que lhe
tinha sido concedida teria que lhe ser tomada quase que imediatamente.
Ele sentiu a onda crescer, ficando mais alta e mais escarpada para
escurecer o cu, e sentiu a crista tremer e comear a cair, sentiu a
grande massa descer, despencando, com todo o peso do oceano atrs de si,
para explodir contra a costa rochosa e dura, do que tinha que ser. E
descobriu-se arquejando, soluando, tremendo e chorando alto, com mais
raiva e sofrimento do que jamais tinha sentido em sua vida, e encontrou
Lyra igualmente desamparada em seus braos. Mas,  medida que a onda
despendia sua fora e as guas recuavam, as rochas frias e desoladas
permaneceram l; no havia como discutir com o destino; nem seu
desespero nem o de Lyra as tinham movido um nico centmetro. Quanto
tempo durou aquela raiva, ele no tinha idia. Mas, finalmente, teve que
diminuir e o oceano ficou um pouco mais calmo depois da convulso. As
guas ainda estavam agitadas e talvez elas nunca mais fossem ficar
realmente calmas de novo, mas a fora imensa se fora. Eles se viraram
para o anjo e viram que ela compreendia, e que se sentia to triste e
infeliz quanto eles. Mas ela era capaz de ver mais longe do que eles e
havia uma esperana calma em sua expresso tambm. Will engoliu com
dificuldade e disse: - Est bem. Vou lhe mostrar como se fecha uma
janela. Mas primeiro terei que abrir uma e fazer mais um Espectro. Nunca
soube de nada sobre os Espectros, caso contrrio teria sido mais
cuidadoso. -  Ns cuidaremos dos Espectros - disse Xaphania. Will pegou
a faca e virou-se de frente para o mar. Para sua surpresa, suas mos
estavam bastante firmes. Cortou uma janela para seu prprio mundo, e
eles se viram olhando para uma enorme fbrica ou indstria qumica, onde
tubulaes complicadas se estendiam entre os prdios e tanques de
armazenagem, onde luzes brilhavam em cada canto, onde filetes de vapor
subiam no ar. -   estranho pensar que anjos no saibam como fazer isso,
- comentou Will. -  A faca foi uma inveno humana. - E vai fechar todas
elas, exceto uma - disse Will. - Todas, exceto a do mundo dos mortos. -
Sim, isso est prometido. Mas  uma promessa condicional e vocs sabem
qual  a condio. - , ns sabemos. So muitas as janelas que existem
para fechar? - Milhares. E h o terrvel abismo feito pela bomba e h a
grande abertura que Lorde Asriel fez para sair de seu mundo. Ambos 495
devem ser fechados e sero. Mas existem muitas aberturas menores tambm,
algumas em lugares muito profundos debaixo da terra, algumas bem altas
no ar, que foram criadas de outras maneiras. - Baruch e Balthamos
disseram-me que usavam aberturas assim para viajar entre os mundos. Os
anjos no podero mais fazer isso? Vocs sero confinados a um mundo
como ns somos? -  No, ns temos outras maneiras de viajar. -  A
maneira que vocs tm de viajar - interessou-se Lyra, seria possvel de
ns aprendermos? - Seria. Vocs poderiam aprender a faz-lo, como o pai
de Will fez. Ela utiliza a faculdade que vocs chamam de imaginao. Mas
isso no significa inventar coisas.  uma forma de viso. -  Ento no 
viagem de verdade - argumentou Lyra. -  s simulao, s faz-de-conta.
. . - No - retrucou Xaphania, - no tem nada de parecido com
faz-de-conta. Fazer de conta  fcil. Essa maneira  difcil, mas muito
mais verdadeira. - E  como o aletmetro? - perguntou Will. - Leva-se
uma vida inteira para aprender? - Exige muito tempo de prtica, sim.
Voc tem que trabalhar muito. Voc pensou que poderia estalar os dedos e
conseguir t-la como se fosse um presente? Tudo que vale a pena ter,
vale a pena o esforo  de trabalhar para ter. Mas voc tem u ma amiga
que j deu os primeiros passos e que poderia ajud-lo. Will no tinha
nenhuma idia de quem pudesse ser e, no momento, no estava com
disposio para perguntar. - Compreendo - disse, suspirando. - E ns a
veremos de novo? Alguma vez voltaremos a falar com um anjo depois que
voltarmos para nossos mundos? - Eu no sei - respondeu ela. - Mas no
deveria desperdiar seu tempo esperando. -  E tenho que quebrar a faca -
disse Will. - Sim. Enquanto estavam conversando, a janela tinha ficado
aberta ao lado deles. As luzes estavam acesas na fbrica, o trabalho
continuava; mquinas funcionavam, substncias qumicas se combinavam,
pessoas estavam produzindo materiais e ganhando a vida. Aquele era o
mundo a que Will pertencia.  - Bem, vou lhe mostrar o que fazer. E assim
ele ensinou ao anjo como tatear com delicadeza e encontrar as bordas da
janela, exatamente como Giacomo Paradisi tinha lhe mostrado,
procurando-as com as pontas dos dedos, tateando, encontrando as bordas e
apertando-as uma contra a outra. Pouco a pouco a janela foi fechada e a
fbrica desapareceu. - As  aberturas  que  no foram feitas pela faca
sutil, - perguntou Will. -  realmente necessrio fechar todas elas?
Porque certamente o P s escapa pelas aberturas que a faca fez. As
outras devem ter estado l h milhares de anos e o P continua a
existir. - Devemos fechar todas as aberturas - declarou o anjo, - porque
se voc acreditasse que ainda restava alguma, passaria a vida 496
procurando por ela e isso seria um desperdcio do tempo que tem. Voc
tem outras coisas a fazer, um trabalho muito mais importante e mais
valioso, em seu mundo. No haver mais tempo para viajar fora dele. -
Que trabalho tenho que fazer ento? - perguntou Will, mas emendou
imediatamente. - No, pensando bem, no me diga. Eu vou decidir o que
vou fazer. Se disser que meu trabalho  lutar, curar, ou fazer
exploraes, ou seja l o que for que possa dizer, sempre ficarei
pensando nisso e se realmente acabar fazendo isso, me sentirei
ressentido porque seria como se eu no tivesse tido escolha, e se no
fizer, me sentirei culpado porque deveria ter feito. Qualquer coisa que
eu faa, quero que seja por minha escolha, de mais ningum. - Ento j
deu os primeiros passos para alcanar a sabedoria, - declarou Xaphania.
- Tem uma luz l longe no mar - disse Lyra. - Aquilo  o navio trazendo
seus amigos para lev-la para casa. Estaro aqui amanh. A palavra
amanh para eles foi como um golpe violento. Lyra nunca havia imaginado
que poderia se sentir relutante em ver Far de Coram, John Faa e Serafina
Pekkala. - Agora, eu vou embora - disse o anjo. - Aprendi o que
precisava saber. Ela abraou cada um deles com seus braos leves e
frescos e os beijou na testa. Depois se abaixou para beijar os daemons e
eles se transformaram em pssaros e voaram junto com ela quando abriu as
asas e se elevou rapidamente no ar. Apenas alguns segundos depois, tinha
desaparecido. Alguns instantes depois de ela ter ido embora, Lyra deixou
escapar uma pequena exclamao. - O que foi? - Eu nem perguntei a ela
sobre meu pai e minha me... e tambm no posso mais perguntar ao
aletmetro, agora. . . ser que algum dia vou saber o que aconteceu a
eles? Ela sentou devagar e ele sentou ao lado dela. - Ah, Will -
suspirou, - o que podemos fazer? Ser que h alguma coisa que possamos
fazer? Eu quero viver com voc para sempre. Quero beijar voc, deitar e
acordar com voc todos os dias da minha vida at morrer, daqui a muitos,
e muitos, e muitos anos. No quero uma lembrana, apenas uma lembrana.
. . - No - concordou ele, - apenas uma lembrana  muito pouco para
ter. So seus cabelos, sua boca, seus braos, seus olhos e suas mos, de
verdade, que eu quero. Eu no sabia que jamais poderia amar tanto alguma
coisa. Ah, Lyra, eu queria que esta noite nunca acabasse! Se ao menos
pudssemos ficar aqui assim, e o mundo pudesse parar de girar e todo
mundo adormecesse. . . - Todo mundo menos ns! E voc e eu pudssemos
viver aqui para sempre e apenas continuar nos amando. - Eu  vou  amar
voc para sempre, acontea o que acontecer. 497 At o dia em que eu
morrer e depois que eu morrer, e quando encontrar meu caminho de sada
da terra dos mortos, vou ficar flutuando para sempre, todos os meus
tomos, at eu encontrar voc denovo. . . - E eu estarei procurando por
voc, Will, em todos os momentos, em cada um e todos os instantes. E
quando voltarmos a nos encontrar, vamos nos abraar to apertados que
nada e ningum jamais vai nos separar. Todos os meus tomos e todos os
seus tomos. . . Ns viveremos em passarinhos e em flores, em liblulas
e em pinheiros, em nuvens e naquelas partculas de luz que voc v
flutuando em raios de sol. . . E quando eles usarem seus tomos para
fazer novas vidas, no podero pegar um, tero que pegar dois, um de
voc e um de mim, pois estaremos abraados to apertados. . . Eles
ficaram deitados lado a lado, de mos dadas, olhando para o cu. - Voc
se lembra - cochichou ela - da primeira vez que nos encontramos, quando
voc entrou naquele caf em Cittgazze, e que voc nunca tinha visto um
daemon? - Eu no conseguia entender o que ele era. Mas quando vi voc,
gostei de voc imediatamente, porque era corajosa. -  No, eu gostei de
voc primeiro. -  Que nada! Voc lutou comigo! -  Bem - rebateu ela, -
lutei. Mas voc me atacou. - No, eu no! Voc entrou correndo, se jogou
em cima de mim e me atacou. -   verdade, mas parei logo. -   verdade,
mas - zombou ele, falando baixinho. Will a sentiu estremecer e ento,
sob suas mos, sentiu os ossos delicados das costas de Lyra comearem a
subir e descer e a ouviu soluar baixinho. Ele acariciou seus cabelos
macios, os ombros frgeis, e ento beijou seu rosto uma poro de vezes,
uma vez aps outra at que, algum tempo depois, ela deixou escapar um
suspiro profundo e trmulo e se aquietou. Os  daemons  voltaram voando,
pousaram e, depois de novamente mudarem de forma, se aproximaram deles
andando pela areia macia. Lyra sentou-se para receb-los e Will ficou
maravilhado com a maneira como sabia identificar, imediatamente, quem
era quem entre os daemons,  pouco importando a forma que tivessem.
Pantalaimon agora era um animal cujo nome no conseguia muito bem
encontrar: parecia um furo, grande e forte, de cor vermelho-dourada,
esbelto, sinuoso e cheio de graa. Kirjava era de novo uma gata. Mas,
no era uma gata de tamanho comum, e seu plo era lustroso e farto, com
mil cintilaes e matizes diferentes de negro-carvo e de sombreados de
cinza, o tom de azul de um lago profundo sob o sol do meio-dia,
nvoa-lavanda-luar-neblina.  . Para ver o significado da palavra
sutileza, era s olhar para o seu plo. - Uma marta - disse ele,
encontrando o nome do animal de Pantalaimon, - uma marta de floresta de
pinheiros. - Pan - chamou Lyra, enquanto ele subia para seu colo num
movimento fluido, - voc no vai mais mudar muito de forma, vai? 498 -
No - respondeu ele. -  engraado - comentou ela, - voc se lembra de
quando ramos pequenos e eu no queria que voc parasse de mudar de
forma nunca...? Bem, agora j no me importo tanto, no se voc ficar
assim. Will ps a mo sobre a mo de Lyra. Um estado de esprito novo e
diferente havia se apoderado dele, e sentia-se decidido e sereno.
Sabendo exatamente o que estava fazendo e exatamente o que significaria
, tirou a mo do pulso de Lyra e acariciou o plo vermelho-dourado de
seu daemon. Lyra deixou escapar uma exclamao. Mas sua surpresa estava
mesclada com um prazer to semelhante  felicidade que havia dominado
seus sentidos quando pusera a frutinha nos lbios dele que no conseguiu
protestar, porque estava sem flego. Com o corao batendo disparado,
ela reagiu da mesma maneira: ps a mo sobre o plo deliciosamente
sedoso do daemon de Will e, quando seus dedos penetraram, seguraram e
alisaram a pelagem, Lyra sabia que Will estava sentindo exatamente o que
ela estava sentindo. E tambm sabia que agora nenhum dos dois daemons
mudaria mais de forma, depois de ter sentido na pele a carcia das mos
de seu  amado. Aquelas seriam suas formas para o resto da vida: no
quereriam nenhuma outra. E assim, se perguntando se outros amantes
apaixonados antes deles teriam feito aquela descoberta capaz de
proporcionar tamanha felicidade e prazer, ficaram deitados juntos
enquanto a Terra girava lentamente e a Lua e as estrelas brilhavam com
fulgor no cu acima deles. 499 *38 O JARDIM BOTNICO Os gpcios chegaram
na tarde do dia seguinte. No havia porto,  claro, de modo que tiveram
que ancorar o navio a alguma distncia ao lar go da costa e John Faa,
Farder Coram e o capito vieram  terra num grande barco a motor tendo
Serafina  Pekkala como guia. Mary tinha contado aos mulefas tudo o que
sabia e, quando afinal os gpcios chegaram  costa, desembarcando na
praia grande, havia uma multido curiosa esperando para receb-los.
Ambos os lados,  claro, estavam ardendo de curiosidade com relao ao
outro, mas John Faa tinha aprendido a ter cortesia e pacincia de sobra
em sua longa vida e estava firmemente decidido a que aquele mais
estranho de todos os povos recebesse dos gpcios ocidentais unicamente
gentil elegncia e amizade. De modo que, durante algum tempo, ficou
parado, de p, sob o sol quente, enquanto o zalif ancio, Sattamax,
fazia um discurso de boas-vindas, que Mary deu o melhor de si para
traduzir; e ao qual John Faa respondeu, apresentando-lhes as saudaes
dos Pntanos e dos canais e cursos d'gua que eram sua terra natal.
Quando comearam a seguir pela regio pantanosa em direo ao povoado,
os mulefas perceberam como era difcil para Farder Coram caminhar e
imediatamente se ofereceram para transport-lo. Ele aceitou agradecido e
foi assim que chegaram ao monte do pdio de reunies, onde Will e Lyra
vieram encontr-los. Quanto tempo havia se passado desde que Lyra tinha
visto aqueles homens queridos! A ltima vez em que tinham estado juntos,
conversando, fora nas neves do rtico, quando estavam a caminho na
misso para resgatar as crianas dos Papes. Ela estava quase tmida e
estendeu a mo para um cumprimento, com insegurana; mas John Faa
levantou-a do cho num abrao apertado e beijou-lhe as duas faces, e
Farder Coram fez a mesma coisa, examinando-a dos ps  cabea, antes de
peg-la no colo apertando-a contra o peito. - Ela est crescida, John -
comentou. - Lembra-se daquela garotinha que levamos para as terras do
norte? Olhe s para ela agora! Ah! - exclamou com uma risada de
satisfao. - Lyra, minha querida, nem se eu tivesse a lngua de um anjo
seria capaz de lhe dizer como estou contente em ver voc de novo. 500
Mas ela parece estar to magoada, to sofrida, pensou, parece to frgil
e cansada. E nem ele nem John Faa puderam deixar de perceber a maneira
como ela ficava perto de Will e como o garoto de sobrancelhas negras e
retas estava atento, a cada segundo, a onde ela estava e se assegurava
de nunca se afastar muito dela. Os dois ancies o cumprimentaram
respeitosamente, porque Serafina Pekkala lhes havia contado boa parte do
que Will tinha feito. De sua parte, Will admirou o ar de poder macio e
autoridade da presena de Lorde Faa, um poder temperado pela cortesia, e
pensou que seria uma boa maneira de se comportar quando ele prprio
ficasse velho; John Faa era um abrigo e uma fora acolhedora. - Dra.
Malone - disse John Faa, - precisamos nos reabastecer de gua doce e de
qualquer coisa que possa nos servir de alimento que seus amigos possam
nos vender. Alm disso, nossos homens esto embarcados a bordo desse
navio j h um bom tempo e temos alguns desentendimentos que precisam
ser resolvidos com boas brigas e seria uma bno se todos eles pudessem
passar algum tempo desembarcados de modo que pudessem respirar o ar
dessa terra, para depois contar a suas famlias em casa sobre o mundo
para onde viajaram. - Lorde Faa - respondeu Mary, - os mulefas me
pediram para lhe dizer que fornecero tudo o que precisa e que ficariam
honrados se todos vocs aceitassem ser seus convidados esta noite e
viessem compartilhar sua refeio. -  com grande prazer que aceitamos o
convite - disse John Faa.  De modo que, naquela noite, pessoas de trs
mundos sentaram-se e dividiram po, carne, frutas e vinho. Os gpcios
ofereceram a seus anfitries presentes de todos os cantos de seu mundo:
cntaros de aguardente de zimbro, esculturas entalhadas em marfim de
morsa, tapearias em seda do Turquesto, canecas de prata das minas de
Sveden, pratos esmaltados da Coria. Os mulefas os receberam encantados
e, em troca, ofereceram objetos de seu prprio artesanato: vasos raros
feitos de madeira-de-n antiqssima, peas de seus mais requintados
trabalhos de cordame, tigelas laqueadas e redes de pesca, to
resistentes e leves, que mesmo os gpcios que viviam nos Pntanos nunca
tinham visto igual. Depois de comparecer ao banquete, o capito
agradeceu a seus anfitries e partiu para supervisionar o trabalho dos
tripulantes enquanto levavam para bordo os mantimentos e a gua de que
precisavam, porque pretendiam partir assim que a manh chegasse.
Enquanto eles faziam isso, o velho zalif disse a seus convidados: Uma
grande mudana ocorreu em todas as coisas. E, como prova disso, uma
responsabilidade nos foi concedida. Gostaramos de mostrar a vocs o que
isso significa. De modo que John Faa, Farder Coram, Mary e Serafina
foram com eles at o lugar onde a terra dos mortos se abria e de onde os
fantasmas continuavam saindo, ainda em sua infindvel procisso. Os
mulefas estavam plantando um bosque ali ao redor, porque era um lugar
sagrado, disseram; cuidariam dele para sempre; era uma fonte de alegria.
501 - Bem, isto  um mistrio - comentou Farder Coram, - e estou
contente por ter vivido o bastante para ver isso. Partir para a
escurido da morte  algo que todos ns tememos, por mais que digamos o
contrrio. Mas se existe uma sada para aquela parte de ns que tem que
descer at l, ento isso deixa meu corao mais leve. - Voc tem razo,
Coram - concordou John Faa. - J vi muita gente morrer; eu mesmo j
mandei um bocado de homens l para baixo para a escurido, embora fosse
sempre no calor da batalha. Saber que depois de passar algum tempo na
escurido voltaremos a sair para uma terra to bonita como esta, para
estarmos livres no cu como os pssaros, bem, essa  a mais bela
promessa que qualquer um poderia desejar. - Precisamos falar com Lyra a
respeito disso - comentou  Farder Coram - e descobrir como aconteceu e o
que significa. Mary achou extremamente difcil se despedir de Atai e dos
outros mulefas. Antes de embarcar no navio, eles lhe deram um presente:
um frasco de laca contendo leo da rvore-das-rodas e, ainda mais
preciosa que qualquer coisa, uma pequena sacola de sementes. Pode ser
que elas no cresam em seu mundo, disse Atai, mas se isso acontecer,
voc tem o leo. No nos esquea, Mary. Nunca, declarou Mary. Nunca.
Mesmo se eu viver tanto tempo quanto as bruxas e esquecer de tudo o
mais, nunca me esquecerei de voc e da gentileza de seu povo, Atai. E
assim a jornada de volta para casa comeou. O vento estava suave, as
guas do mar calmas e, embora eles avistassem o cintilar daquelas
enormes asas brancas como neve mais de uma vez, os pssaros se
mantiveram bem distantes. Will e Lyra passavam todas as horas juntos e,
para eles, as duas semanas de viagem se passaram num piscar de olhos.
Xaphania tinha dito a Serafina Pekkala que, quando todas as aberturas
estivessem fechadas, os mundos retornariam mais uma vez s posies
exatas e correspondentes que tinham entre si, e a Oxford de Lyra e a de
Will ficariam de novo uma sobre a outra, como imagens transparentes em
folhas de filme, sendo levadas cada vez para mais perto uma da outra at
se fundirem; embora, na verdade, nunca realmente fossem se tocar.
Naquele momento, contudo, estavam separadas por uma grande distncia -
uma distncia to grande quanto a que Lyra tivera que percorrer em sua
viagem de Oxford para Cittgazze. A Oxford de Will agora havia chegado,
estava bem ali,  distncia apenas de um corte de faca. Era de tardinha
quando chegaram e, enquanto a ncora caa levantando gua, o sol banhava
de uma luz morna as colinas verdes, os telhados de terracota, aquela
elegante avenida  beira-mar, o porto em runas e o pequeno caf de Will
e Lyra. Uma busca demorada com o telescpio do capito no havia
revelado quaisquer sinais de vida, mas, por via das dvidas, John Faa
estava planejando levar meia dzia de homens armados para terra. Eles
no interfeririam, mas estariam l se precisassem deles. 502 Fizeram uma
ltima refeio juntos, vendo a noite cair. Will despediu-se do capito
e de seus oficiais, de John Faa e de Farder Coram. Ele mal parecia ter
conscincia da presena deles, e eles o viam mais claramente do que Will
os via: viam uma pessoa jovem, mas muito forte e profundamente abalada.
Finalmente, Will, Lyra e seus daemons,  Mary e Serafina Pekkala
iniciaram a caminhada pela cidade deserta. E estava deserta; o nico som
de passadas e as nicas sombras eram as deles. Lyra e Will foram na
frente, de mos dadas, para o lugar onde teriam que se separar, e as
mulheres ficaram a alguma distncia mais atrs, conversando como irms.
- Lyra quer fazer uma pequena visita  minha Oxford, comentou Mary. -
Ela tem alguma coisa em mente. Disse que voltar logo depois. -  O que
voc vai fazer, Mary? - Eu... vou com Will,  claro. Iremos para meu
apartamento, minha casa, esta noite e depois, amanh de manh, vamos
tratar de descobrir onde est a me dele e ver o que podemos fazer para
ajud-la a melhorar. H tantas regras e regulamentos em meu mundo,
Serafina; voc tem que dar satisfaes s autoridades e responder a
milhares de perguntas; eu vou ajud-lo a resolver as formalidades
legais, com os servios sociais, a questo de moradia e coisas desse
tipo, e deixarei que ele se concentre na me. Will  um menino forte. .
. Mas vou ajud-lo. Alm disso, eu preciso dele. No tenho mais meu
emprego, nem muito dinheiro no banco, e no ficaria nada surpreendida se
a polcia estiver atrs de mim.  . Ele ser a nica pessoa no meu mundo
inteiro com quem vou poder falar a respeito de tudo isso. Elas
continuaram caminhando pelas ruas silenciosas, passando por uma torre
quadrada com uma porta se abrindo para a escurido, passaram por um
pequeno caf em que as mesas ficavam na calada e entraram numa larga
avenida arborizada com duas pistas e uma fileira de palmeiras no meio. -
Foi aqui que eu atravessei - declarou Mary. A janela que Will tinha
visto da primeira vez, na rua residencial tranqila, em Oxford, se abria
ali, e do lado que ficava em Oxford estava sob vigilncia da polcia -
ou pelo menos estivera quando Mary os enganara, fazendo-os deix-la
passar. Ela viu Will alcanar o ponto exato e tatear com as mos
rapidamente no ar e a janela desapareceu. - Vai ser uma surpresa para
eles da prxima vez em que olharem - comentou. A inteno de Lyra era ir
para a Oxford de Mary e mostrar uma coisa a Will, antes de voltar com
Serafina e, evidentemente, eles tinham que ser cuidadosos na escolha do
lugar onde cortariam a janela para atravessar; de modo que as duas
mulheres continuaram seguindo atrs deles, caminhando pelas ruas
iluminadas pelo luar de Cittgazze.  direita delas havia um amplo e
gracioso terreno de jardins cercados, gramado e arborizado, com uma
floresta ao fundo, tendo no centro uma grandiosa manso com um prtico
clssico que reluzia como uma cobertura de glac ao luar. 503 -  Quando
voc me disse qual era a forma de meu daemon, - recordou Mary, - disse
que poderia me ensinar a v-lo, se tivssemos tempo. . . gostaria tanto
que tivssemos. - Ora, mas ns tivemos tempo - retrucou Serafina, - e
no estivemos conversando? Eu lhe ensinei alguns conhecimentos e
tradies das bruxas; isso teria sido proibido de acordo com os antigos
costumes de meu mundo. Mas voc est voltando para o seu mundo, e os
velhos costumes mudaram. E tambm aprendi muita coisa com voc. De
maneira que vamos l: quando voc falou com as Sombras em seu
computador, teve que colocar sua mente num certo estado especial, no
teve? - Tive... exatamente como Lyra fazia com o aletmetro. Est
querendo dizer que se eu tentar assim, consigo? - Mas no  s isso;
voc tem que usar a viso comum ao mesmo tempo. Faa uma tentativa
agora. No mundo de Mary, eles tinham um tipo de imagem que, quando se
olhava pela primeira vez, parecia uma poro de pontos de cor espalhados
aleatoriamente, mas quando se olhava de uma certa maneira, a imagem
parecia avanar para trs dimenses: e ali na frente do papel haveria
uma rvore ou um rosto, ou alguma outra coisa surpreendentemente slida
que simplesmente no estava l antes. O que Serafina ensinou Mary a
fazer naquele momento era parecido com aquilo. Ela deveria manter sua
maneira de olhar normal, enquanto, simultaneamente, ia mergulhando no
estado de semi-transe, de sonhar acordada, em que podia ver as Sombras.
Mas agora tinha que manter as duas coisas juntas, a viso de todo dia e
o transe, exatamente como voc tem que olhar em duas direes ao mesmo
tempo para ver as imagens tridimensionais entre os pontos. E, exatamente
como acontece com as imagens de pontos, ela de repente conseguiu. - Ah!
- exclamou e segurou o brao de Serafina para se equilibrar, pois ali,
na cerca de metal do jardim, havia um pssaro pousado: um pssaro negro
lustroso, com pernas vermelhas e um bico amarelo curvo: uma gralha dos
Alpes, exatamente como Serafina havia descrito. O pssaro, ele, estava a
apenas uns 30 centmetros ou meio metro de distncia, olhando fixamente
para ela com a cabea ligeiramente inclinada para o lado, por mais
incrvel que parecesse, como se estivesse achando graa. Mas ela ficou
to surpreendida que sua concentrao escapuliu e ele desapareceu. -
Voc conseguiu uma vez e da prxima vai ser mais fcil, observou
Serafina. - Quando estiver em seu mundo, aprender a ver os daemons de
outras pessoas tambm, exatamente da mesma maneira. Contudo, elas no
vero o seu, nem o de Will, a menos que lhes ensine o que ensinei a
voc. - Certo. . . Ah, mas isso  extraordinrio. Que maravilha! Mary
pensou: Lyra conversava com seu daemon, no conversava? Ser que ela
ouviria aquele pssaro assim como o via? E continuou a andar, radiante
de expectativa. Mais  frente, Will estava cortando uma janela; ele e
Lyra esperaram que as duas mulheres os alcanassem para que ele pudesse
504 tornar a fech-la. -  Voc sabe onde estamos? - perguntou Will. Mary
olhou ao redor. A rua em que estavam agora, no mundo de Mary, era
tranqila e bem arborizada, com grandes casas de estilo vitoriano
cercadas por jardins cheios de arbustos. - Em algum lugar na zona norte
de Oxford - disse Mary. - No muito longe de meu apartamento, na
verdade, embora no saiba exatamente que rua  esta. -  Eu quero ir ao
Jardim Botnico - disse Lyra. - Tudo bem. Acho que isso fica a uns 15
minutos de caminhada. Vamos por aqui. . . Mary experimentou usar a viso
dupla de novo. Descobriu que era mais fcil dessa vez e l estava a
gralha, com ela em seu prprio mundo, empoleirada num galho que se
estendia bem baixo quase at a calada. Para ver o que aconteceria, ela
estendeu a mo e ela veio pousar nela sem hesitao. Mary sentiu o
ligeiro peso, o aperto firme das garras em seu dedo e delicadamente a
levou at o ombro. Ela se acomodou sobre seu ombro como se tivesse
estado ali durante a vida inteira de Mary. Bem, ela esteve, pensou, e
seguiu adiante. No havia muito trfego na High Street e quando desceram
a escadaria defronte  Faculdade Magdalen em direo aos portes do
Jardim Botnico estavam completamente sozinhos. Havia uma passagem
ornamentada que dava para um caminho com bancos de pedra logo adiante e,
enquanto Mary e Serafina sentavam ali, Will e Lyra subiram pela grade de
ferro e entraram no jardim propriamente dito.  - Por aqui - disse Lyra,
puxando a mo de Will. Ela o conduziu, passando por um lago com uma
fonte que ficava debaixo de uma rvore de grandes ramagens, e depois
seguiu para a esquerda, andando em meio aos canteiros de plantas em
direo a um pinheiro imenso com um nmero infindvel de galhos. Ali
havia um muro macio de pedras com uma porta de entrada e, mais para
dentro, na parte mais distante do jardim, as rvores eram mais jovens e
plantadas num arranjo menos formal. Lyra o levou quase at o fim do
jardim, passando por  uma pequena  ponte, at um banco de madeira, que
ficava debaixo de uma rvore de galhos abertos e baixos. - Achei! -
exclamou ela. - Eu tinha tanta esperana de que fosse assim e aqui est,
exatamente igual... Will, eu costumava vir a este lugar  na minha
Oxford e sentar exatamente neste mesmo banco sempre que queria ficar
sozinha, s eu e Pan. O que pensei foi que se voc... talvez apenas uma
vez por ano... se pudssemos vir aqui ao mesmo tempo, para passar uma
hora  ou coisa assim, ento poderamos fazer de conta que estvamos
juntos de novo. . . porque estaramos juntos, se voc sentasse aqui e eu
sentasse bem aqui  no meu mundo. - Isso - disse ele -; enquanto eu
viver, sempre voltarei aqui. No importa onde eu esteja no mundo,
voltarei aqui! - No dia do Solstcio de Vero - completou ela. - Ao
meio-dia. Enquanto eu viver. Enquanto eu viver. . . 504 Ele descobriu
que no conseguia enxergar, mas deixou as lgrimas ardentes escorrerem e
apenas a abraou bem apertado. - E se ns... se mais adiante... - ela
estava falando num murmrio trmulo - ... se um dia conhecermos algum
de quem gostarmos e se nos casarmos com essas pessoas, ento deveremos
ser bons com elas e no ficar fazendo comparaes o tempo todo, nem
desejar que em vez disso tivssemos nos casado um com o outro. . - Mas
apenas continuar essas vindas at aqui uma vez por ano, apenas por uma
hora, s para estarmos juntos. . . Eles se abraaram com fora e ficaram
assim. Minutos se passaram; uma ave aqutica no rio ali perto se agitou
e gritou um chamado; de vez em quando passava um carro pela Ponte
Magdalen. Finalmente eles se afastaram. - Bem - disse Lyra em tom suave.
Tudo nela naquele momento era suave; e aquela seria uma das lembranas
favoritas de Will, bem depois - a tenso de sua graa ansiosa, suavizada
pela meia-luz, seus olhos e mos e, especialmente, seus lbios,
infinitamente suaves. Ele a beijou uma vez depois da outra e cada beijo
chegava mais perto de ser o ltimo de todos os beijos. Com os coraes
pesados, mas ao mesmo tempo enternecidos pelo amor, eles foram
caminhando de volta at o porto onde Mary e Serafina esperavam. -  Lyra
- disse Will.  E ela chamou: - Will. Ele cortou uma janela para
Cittgazze. Estavam bem no fundo do terreno ajardinado da grande manso,
no muito longe da beira da floresta. Atravessaram pela ltima vez e
olharam para baixo, para a cidade silenciosa, para os telhados de
terracota reluzindo ao luar, a torre acima deles, o navio iluminado
esperando, ao largo, nas guas calmas do mar. Will virou-se para
Serafina e disse com tanta firmeza quanto conseguiu: - Obrigado,
Serafina Pekkala, por ter-nos salvado no belvedere e por todas as outras
coisas. Por favor, seja gentil com Lyra enquanto ela viver. Eu a amo
mais que qualquer pessoa jamais foi amada. Em resposta, a rainha-bruxa o
beijou nas duas faces. Lyra estivera cochichando no ouvido de Mary e
ento elas tambm se abraaram e, primeiro Mary e depois Will,
atravessaram a ltima janela, voltando para seu prprio mundo, sob as
sombras das rvores do Jardim Botnico. Trate de se animar, e comece
agora, pensou Will, esforando-se o mximo que podia, mas era como
tentar segurar um lobo lutando em seus braos, quando ele queria
arranhar seu rosto e cravar os dentes em sua garganta; mas mesmo assim
ele o fez e pensou que ningum veria o esforo que estava lhe custando.
E sabia que Lyra estava fazendo a mesma coisa, e que aquela tenso e
esforo em seu sorriso eram o sinal disso. 505 Apesar de tudo, ela
sorriu. Um ltimo beijo, apressado e desajeitado, tanto que esbarraram
as mas do rosto e uma lgrima escorrendo do olho dela passou para a
face dele; os dois daemons tambm trocaram um beijo de despedida e
Pantalaimon passou num movimento fluido pela borda da janela e subiu
para os braos de Lyra; e ento Will comeou a fechar a janela, e estava
feito, a passagem estava fechada e Lyra se fora. - Agora - disse ele,
tentando no demonstrar sua emoo, mas mesmo assim tendo que dar as
costas a Mary - eu tenho que quebrar a faca. Ele procurou, tateando no
ar, da maneira j familiar, at que encontrou uma fenda e tentou trazer
de volta  sua mente exatamente o que havia acontecido na ocasio
anterior. Estivera prestes a cortar uma abertura para sair da caverna e
a Sra. Coulter, de maneira repentina e inexplicvel, o recordara de sua
me e a faca tinha se quebrado porque, refletiu ele, finalmente havia
encontrado uma coisa que no podia cortar e isso era seu amor por ela.
De modo que tentou fazer a mesma coisa agora, evocando uma imagem do
rosto de sua me, como a vira da ltima vez, assustada e confusa, no
pequeno corredor estreito da entrada da casa da Sra. Cooper. Mas no
funcionou. A faca cortou o ar com facilidade e abriu uma janela para um
mundo onde desabava um grande temporal: a chuva forte, de gotas pesadas,
passou atravs da janela, surpreendendo os dois. Ele fechou a janela
rapidamente e ficou parado, confuso, por um instante. Seu daemon sabia o
que ele deveria fazer e disse apenas: - Lyra.  claro. Ele balanou a
cabea concordando e, com a faca na mo direita, tocou com a mo
esquerda o ponto em seu rosto onde ainda estava a lgrima de Lyra. E
dessa vez, com um estalar violento, a faca se espatifou e a lmina caiu
em pedaos no cho, reluzindo sobre as pedras que ainda estavam molhadas
da chuva de outro universo. Will ajoelhou-se para recolh-los
cuidadosamente; Kirjava, com seus olhos de gata, ajudava a encontrar
todos eles. Mary estava pondo a mochila no ombro. - Bem - disse, - bem,
agora me oua, Will. Mal tivemos oportunidade de conversar, voc e eu. .
. De modo que, em certa medida, ainda somos estranhos um para o outro.
Mas Serafina Pekkala e eu trocamos uma promessa, e eu fiz uma promessa
para Lyra ainda h pouco, e mesmo que no tivesse feito quaisquer outras
promessas, eu faria uma promessa a voc a respeito da mesma coisa, que 
a seguinte: se voc deixar, eu serei sua amiga pelo resto de nossas
vidas. Ns dois estamos completamente sozinhos e acho que s nos faria
bem ter esse  tipo de. . . O que estou querendo dizer : no h mais
ningum com quem possamos falar sobre tudo isso, exceto eu com voc e
voc comigo. . . E ns dois temos que nos habituar a viver com nossos
daemons tambm. . . E estamos os dois numa situao difcil e, se 506
isso no fizer com que tenhamos alguma coisa em comum, no sei o que
far. - Voc est numa situao difcil? - perguntou Will, olhando para
ela. O rosto franco, amistoso e inteligente olhou diretamente para ele.
- Bem, eu destru alguns equipamentos no laboratrio antes de partir e
falsifiquei uma carteira de identidade e. .. No  nada que no possamos
dar um jeito. E seus problemas, podemos resolver isso tambm. Podemos
encontrar sua me e conseguir que ela receba um tratamento adequado. E
se precisar de um lugar para morar, bem, se no se importar de morar
comigo, se pudermos dar um jeito de conseguir isso, ento no ter que
ir para uma, sei l como chamam, instituio de assistncia social ou
abrigo para jovens. O que quero dizer  que teremos que combinar uma
histria e ns dois contaremos a mesma histria; poderamos fazer isso,
no acha? Mary era uma amiga. Ele tinha uma amiga. Era verdade. Nunca
tinha pensado nisso. - Claro! - exclamou. - Bem, ento vamos l. Meu
apartamento fica a uns oito quilmetros daqui e sabe do que eu mais
gostaria no mundo agora? Tomar uma xcara de ch. Vamos andando, vamos
para l botar a chaleira no fogo.  Trs semanas depois do momento em que
Lyra viu a mo de Will fechar a janela de seu mundo para sempre, mais
uma vez encontrava-se sentada  mesa de jantar na Faculdade Jordan, onde
pela primeira vez havia sucumbido aos encantos da Sra. Coulter. Dessa
vez havia um grupo menor: s ela, o Reitor e a Dama Hannah Relf, a
diretora da Sta. Sophia, uma daquelas faculdades s para mulheres. A
Dama Hannah tambm estivera presente naquele primeiro jantar e embora
Lyra estivesse surpreendida de v-la ali agora, a cumprimentou muito
educadamente e descobriu que sua memria estava enganada: pois esta Dama
Hannah era muito mais inteligente e interessante, e de longe muitssimo
mais gentil que a pessoa apagada e de roupas antiquadas de que se
lembrava. Uma enorme variedade de coisas havia acontecido enquanto Lyra
estivera fora - na Faculdade Jordan, na Inglaterra e no mundo inteiro.
Parecia que o poder da Igreja havia aumentado enormemente e que muitas
leis brutais tinham sido aprovadas, mas que esse poder havia
desaparecido to rapidamente quanto tinha crescido: rebelies no
Magisterium tinham derrubado os fanticos e trazido ao poder faces
mais liberais. O Conselho Geral de Oblao havia sido dissolvido; o
Tribunal Consistorial de Disciplina estava confuso e sem liderana. E as
faculdades de Oxford, depois de um breve e turbulento interldio,
estavam voltando a se acomodar na calma dos estudos e de seus rituais.
Algumas coisas haviam desaparecido, a valiosa coleo de prataria do
Reitor tinha sido saqueada; alguns criados da faculdade tinham  sumido.
O criado do Reitor, Cousins, contudo, ainda estava em seu posto e Lyra
estivera pronta para enfrentar sua hostilidade com desafio, pois tinham
sido inimigos desde que 507 conseguia se lembrar. Ficou um bocado
surpreendida quando ele a recebeu to calorosamente e apertou a mo dela
com as duas mos: ser que aquilo era afeio na voz dele? Bem, ele
tinha mudado. Durante o jantar, o Reitor e a Dama Hannah conversaram
sobre o que havia acontecido no perodo em que Lyra estivera ausente e
ela ouviu ora com aflio, ora com tristeza, ora com encantamento.
Quando se retiraram para a sala de visitas do Reitor para o caf, ele
disse: - Bem, Lyra, mal ouvimos voc falar. Mas eu sei que viu muitas
coisas. Ser que poderia nos contar um pouco das aventuras que  viveu? -
Posso - respondeu ela. - Mas no tudo de uma vez. Ainda no compreendo
parte delas e outras ainda me fazem tremer e chorar, mas contarei aos
senhores, prometo, tudo o que puder. S que os senhores tambm tm que
me prometer uma coisa. O Reitor olhou para a senhora de cabelos
grisalhos, com o daemon  sagi no colo, e trocaram um olhar iluminado
por uma centelha de divertimento. - E o que temos que prometer? -
perguntou a Dama Hannah. - Tm que me prometer acreditar em mim - disse
Lyra, muito seriamente. - Eu sei que nem sempre contava a verdade e que
s conseguia sobreviver em alguns lugares contando mentiras e inventando
histrias. De modo que sei que era assim que eu era, e sei que sabem
disso, mas minha histria verdadeira  importante demais para mim se s
forem acreditar em metade dela. De modo que prometo contar a verdade, se
prometerem acreditar nela. - Est bem, eu prometo - declarou a Dama
Hannah. E o Reitor disse em seguida: - E eu tambm. - Mas sabem qual  a
coisa que desejo - disse Lyra - quase... quase mais que qualquer outra?
Gostaria tanto de no ter perdido a capacidade de ler o aletmetro. Ah,
foi to estranho, Reitor, como surgiu logo de incio e como simplesmente
se foi! Um dia eu o conhecia to bem... conseguia percorrer de alto a
baixo os significados dos smbolos, passar de um nvel para outro e
fazer todas as conexes. ... era como. .. - Ela sorriu e continuou: -
Bem, eu era como um macaco pulando de galho em galho nas rvores, eu era
to rpida. Ento, de repente... nada. Nada daquilo fazia sentido; no
conseguia nem me lembrar de nada, exceto os significados bsicos, como,
por exemplo, que a ncora significa esperana e que a caveira significa
morte. Todos aqueles milhares de significados..  . Perdidos. -  Porm,
no esto perdidos, Lyra - disse a Dama Hannah. - Os livros ainda esto
na Biblioteca Bodley. A ctedra que se dedica a estud-los continua
existindo e vai muito bem obrigado. A Dama Hannah estava sentada
defronte ao Reitor, numa das duas poltronas ladeando a lareira, e Lyra
estava no sof entre eles. A lamparina ao lado da poltrona do Reitor era
a nica luz que havia, mas mostrava claramente as expresses dos dois
velhos mestres. E foi o rosto da Dama Hannah que Lyra se descobriu
estudando. Gentil, pensou Lyra, e de uma inteligncia aguada, 508
sbia; mas era to incapaz de ler o que significava quanto era incapaz
de ler o aletmetro. - Pois ento, muito bem - prosseguiu o Reitor. -
Temos que pensar a respeito de seu futuro, Lyra. As palavras dele
fizeram Lyra tremer. Ela se preparou e sentou-se bem ereta. - Todo o
tempo em que estive fora - disse Lyra, - nunca pensei a respeito disso.
Tudo em que eu pensava era o momento que estava vivendo, s o presente.
Houve muitas ocasies em que pensei que no teria nenhum futuro. E
agora. . . Bem, de repente descobri que tenho uma vida inteira para
viver, mas nenhuma. . . mas sem nenhuma idia do que fazer com ela, bem,
 como ter o aletmetro e no ter idia de como l-lo. Imagino que terei
que trabalhar, mas no sei em qu. Meus pais provavelmente eram ricos,
mas aposto que nunca pensaram em deixar algum dinheiro para mim e, de
qualquer maneira, acho que a esta altura devem ter gasto todo o dinheiro
que tinham de alguma forma, de modo que mesmo se eu tivesse algum
direito sobre a fortuna deles, no haveria mais nada. No sei, Reitor.
Eu voltei para a Jordan porque isso aqui costumava ser minha casa e no
tenho nenhum outro lugar para ir. Acho que o Rei Iorek Byrnison me
deixaria viver em Svalbard e creio que Serafina Pekkala me deixaria
viver com seu cl de bruxas; mas no sou urso e no sou bruxa, de modo
que no me adaptaria muito bem l, por mais que os ame. Talvez os
gpcios me aceitem.  . Mas realmente no sei mais o que fazer, estou
perdida, realmente perdida, agora. Os dois olharam para ela: seus olhos
estavam brilhando mais do que habitualmente, o queixo levantado, com uma
expresso que havia aprendido com Will, sem se dar conta. Parecia to
desafiadora quanto perdida, pensou a Dama Hannah, e admirou-a por isso;
e o Reitor viu  algo mais - ele viu como a graa inconsciente da criana
havia desaparecido e como estava desajeitada em seu corpo mais crescido.
Mas ele amava imensamente aquela menina e se sentia metade orgulhoso,
metade maravilhado com a bela mulher adulta que ela seria, to
brevemente. - Voc nunca estar perdida enquanto esta faculdade existir,
Lyra - disse ele. - Esta  sua casa enquanto precisar dela. E, quanto 
questo do dinheiro, seu pai deixou um legado para cuidar de tudo que
voc possa vir a precisar e me nomeou testamenteiro; de modo que no
precisa se preocupar com isso. Na verdade, Lorde Asriel no tinha feito
nada disso, mas a Faculdade Jordan era rica e o Reitor tinha fortuna
pessoal, mesmo depois das revoltas recentes. - No - prosseguiu ele, -
eu estava pensando em estudos. Voc ainda  muito jovem e sua educao
at agora dependeu de. . . Bem, falando muito francamente, dependia de
qual de nossos catedrticos se sentia menos intimidado por voc -
afirmou, mas estava sorrindo. - Tem sido casual, desordenada. 509 Agora,
pode ser que com o passar do tempo seus talentos a levem numa direo
que no possamos absolutamente prever. Mas se quisesse fazer do
aletmetro o tema de estudos de sua vida, e se dedicasse a aprender
conscientemente o que antes fazia por intuio... - Sim - disse Lyra,
com determinao e confiana. -  .. . ento seria difcil fazer melhor
escolha que se entregar aos cuidados de minha boa amiga, a Dama Hannah.
Os conhecimentos que ela tem nesse campo no tm rival. -  Permita-me
fazer uma sugesto - disse a senhora, - e no precisa responder agora.
Pense no assunto durante algum tempo. Muito bem: minha faculdade no 
to antiga quanto a Jordan e de qualquer maneira voc ainda  muito moa
para se tornar uma estudante universitria; mas, alguns anos atrs,
compramos uma casa bastante grande na zona norte de Oxford e decidimos
criar ali um internato. Eu gostaria que voc fosse at l comigo,
conhecesse a diretora e visse se gostaria de se tornar uma de nossas
alunas. Sabe, Lyra, uma coisa de que vai precisar brevemente  ter a
amizade de outras meninas de sua idade. Existem coisas que aprendemos
umas com as outras quando somos jovens e no creio que a Jordan possa
lhe oferecer todas elas. A diretora  uma mulher jovem, inteligente,
enrgica, uma pessoa criativa e gentil. Temos muita sorte de t-la
conosco. Voc poder conversar com ela e, se gostar da idia, ir para l
e fazer da St. Sophia a sua escola, como a Jordan  a sua casa. E se
quiser comear a estudar o aletmetro de maneira sistemtica, voc e eu
poderamos nos encontrar para algumas aulas particulares. Mas voc tem
tempo, minha querida, temos tempo de sobra. No responda agora. Deixe
para responder quando estiver pronta. -  Muito obrigada - disse Lyra, -
muito obrigada, vou fazer isso.  O Reitor tinha dado a Lyra uma chave s
para ela da porta do jardim, de modo que pudesse entrar e sair quando
quisesse. Mais tarde, naquela noite, justo quando o porteiro estava
trancando a casa de guarda, ela e Pantalaimon saram s escondidas e
seguiram pelas ruas escuras, ouvindo todos os sinos de Oxford repicando
o toque de meia-noite. Depois que entraram no Jardim Botnico, Pan saiu
correndo pelo gramado, caando um camundongo, na direo onde ficava o
muro, depois o deixou escapar e saltou para o grande pinheiro que ficava
ali perto. Era uma delcia v-lo saltando pelos galhos to longe dela,
mas tinham que ter cuidado para no fazer aquilo quando algum estivesse
olhando; a capacidade mgica que haviam adquirido, como as bruxas, s
custas de tanto sofrimento, de se separarem tinha que ser mantida em
segredo. Em outros tempos, ela teria adorado exibi-la cheia de orgulho
para todos os outros moleques seus amigos e deix-los de olhos
esbugalhados de medo, mas Will tinha lhe ensinado o valor do silncio e
da discrio. 510 Lyra sentou no banco e esperou que Pan viesse para
junto dela. Ele gostava de surpreend-la, mas geralmente ela conseguia
v-lo antes que a alcanasse, e l estava sua forma indistinta,
movendo-se fluidamente junto da margem do rio. Ela olhou para o outro
lado e fingiu que no o tinha visto, ento o agarrou de repente, quando
saltou para o banco. - Quase consegui - disse ele. - Vai ter que ficar
muito melhor do que isso. Ouvi voc se aproximando ao longo de todo o
caminho, desde o porto. Ele sentou no encosto do banco com as patas da
frente descansando sobre o ombro de Lyra. - O que vamos dizer a ela? -
perguntou. - Bem, vamos dizer que sim - respondeu. - De qualquer
maneira, s vamos conhecer essa diretora. Isso no quer dizer ir para a
escola. - Mas ns vamos acabar indo, no ? - Vamos - concordou, -
provavelmente. - Poderia ser bom. Lyra se perguntou como seriam as
outras alunas. Poderiam ser mais inteligentes que ela, ou mais
sofisticadas, e certamente saberiam muito mais do que ela sobre todas as
coisas que eram importantes para garotas de sua idade. E ela no poderia
contar-lhes nem um centsimo das coisas que sabia. Sem dvida pensariam
que era ingnua e ignorante. - Voc acha que a Dama Hannah realmente
sabe ler o aletmetro? - perguntou Pantalaimon. - Com os livros, tenho
certeza que sim. Quantos livros ser que existem? Eu gostaria de saber.
Aposto que podemos estudar e aprender todos eles, depois no precisar
mais us-los. Imagine ter que carregar uma pilha de livros para tudo
quanto  canto.  . Pan? - O qu? - Voc algum dia vai me contar o que
voc e o daemon de Will fizeram, quando estvamos separados? - Um dia -
disse ele. - E ela vai contar a Will, um dia. Concordamos que saberamos
quando chegasse a hora, mas fizemos um acordo de que no contaramos a
nenhum dos dois at esse momento chegar. - Est bem - respondeu ela
tranqilamente. Lyra tinha contado tudo a Pantalaimon, mas ele tinha o
direito de no revelar seus segredos a ela, depois da maneira como o
havia abandonado. E era confortador pensar que ela e Will tinham mais
uma coisa em comum. Ela se perguntou se algum dia jamais chegaria uma
hora em sua vida em que no pensasse nele; em que no conversasse com
ele em sua imaginao, em que no revivesse cada momento que tinham
passado juntos, em que no desejaria ouvir sua voz, sentir suas mos e
seu amor. Ela jamais havia sonhado como seria amar tanto algum; de
todas as coisas que lhe haviam causado espanto em suas aventuras, essa
era a que mais a espantava. Pensou na terna sensibilidade que deixava em
seu corao que era como um machucado, uma dor que nunca iria embora,
mas que ela manteria 511 viva na memria com carinho para sempre. Pan
desceu rpido para o banco e se aninhou em seu colo. Estavam seguros ali
no escuro, ela, seu daemon e seus segredos. Em algum lugar naquela
cidade adormecida estavam os livros que lhe diriam como ler o aletmetro
de novo e a mulher de grande conhecimento que iria lhe ensinar a fazer
isso, e as garotas na escola, que sabiam to mais do que ela. Lyra
pensou: elas no sabem ainda, mas vo ser minhas amigas. - Aquele
negcio que Will disse... - murmurou Pantalaimon. - Quando? - Na praia,
pouco antes de voc tentar usar o aletmetro. Ele disse que no havia
nenhum outro lugar. Foi o que o pai dele disse a voc. Mas havia mais
alguma coisa. - Eu me lembro. Ele queria dizer que o reino estava
acabado, o reino do cu, que estava tudo acabado. Que no deveramos
viver como se o cu fosse mais importante do que esta vida, aqui neste
mundo, porque o lugar onde estamos  sempre o lugar mais importante. -
Ele disse que tnhamos que construir alguma coisa. . . - Era por isso
que precisvamos viver todo o tempo de vida que nos foi destinado, Pan.
Ns teramos ido com Will e Kirjava, no teramos? - Teramos.  claro!
E eles teriam vindo conosco. Mas! - Mas ento no poderamos
constru-lo. Ningum poderia, se permitisse a si mesmo vir em primeiro
lugar. Temos que ser todas essas coisas difceis como ser alegres, e
gentis, e curiosos, e corajosos, e pacientes, e temos que estudar e
pensar, e trabalhar com afinco, todos ns, em todos os nossos mundos
diferentes, e ento construiremos. . . As mos dela estavam descansando
sobre o plo lustroso de Pan. Em algum lugar no jardim um rouxinol
estava cantando e uma brisa ligeira tocou os cabelos dela e agitou as
folhas acima. Todos os diferentes sinos da cidade repicaram, uma vez
cada um, esse alto, aquele baixo, alguns perto, outros mais distantes,
um estridente e mal-humorado, outro grave e melodioso, mas concordando
em todas as suas vozes diferentes sobre que horas eram, mesmo se alguns
deles fizeram isso um pouco mais devagar do que outros. Naquela outra
Oxford onde ela e Will tinham se beijado, se despedido, os sinos tambm
estariam tocando, e um rouxinol estaria cantando, e uma brisa ligeira
estaria agitando as folhas no Jardim Botnico. - E ento o qu? -
perguntou o daemon,  sonolento. - Construir o qu? - A repblica do cu
- respondeu Lyra. ** Agradecimentos A  trilogia  Fronteiras do Universo
no poderia ter sido criada sem a ajuda e o estmulo de amigos, famlia,
livros e desconhecidos. Devo s seguintes pessoas agradecimentos
especiais: Liz Cross, por seu trabalho meticuloso e incansavelmente
feliz de edio em todos os estgios do trabalho, e por um certo tato
brilhante com relao s ilustraes de A Faca Sutil, Anne
Wallace-Hadrill, por ter-me deixado visit-la em sua barcaa e casa
flutuante; Richard Osgood, do Instituto Arqueolgico da Universidade de
Oxford, por ter-me contado como so organizadas expedies
arqueolgicas; Michael Malleson, da Trem Studio Forge, em Dorset, por me
mostrar como se forja ferro; e Mike Froggatt e Tanaqui Weaver, por terem
me trazido mais papel do tipo certo (aquele com dois buracos) quando meu
estoque estava acabando. Tambm devo elogiar o caf do Museu de Arte
Moderna de Oxford. Sempre que eu estava enfrentando dificuldades na
narrativa, uma xcara do caf que eles servem e uma hora de trabalho
naquele ambiente amistoso resolvia o problema, aparentemente sem nenhum
esforo de minha parte. Nunca falhou. Eu roubei idias de todos os
livros que li em minha vida. Minha regra geral quando estou na fase de
pesquisa para escrever um livro : "Leia como uma borboleta, escreva
como uma abelha", e se esta histria contiver algum mel,  inteiramente
por causa da qualidade do nc-tar que encontrei na obra de escritores
melhores que eu. Mas h trs obras com relao s quais - mais do que
todas as outras, - devo reconhecer, tenho uma dvida de gratido. Uma 
o ensaio Sobre o Teatro de Marionetes (On the Marionette Theatre), de
autoria de Heinrich von Kleist, que li pela primeira vez numa traduo
de Idris Parry, no Suplemento Literrio do Times, em 1978. A segunda 
Paraso Perdido de John Milton. A terceira so as obras de William
Blake. Finalmente, meus agradecimentos s pessoas a quem mais devo. A
David Fickling e sua f inesgotvel e encorajamento, bem como a seu
instinto certeiro e vivido de como se pode fazer com que histrias
funcionem melhor, devo muito de qualquer sucesso que esta obra tenha
alcanado; a Caradoc King devo todos esses anos, mais de metade de minha
vida, de uma amizade e apoio inabalveis; a Enid Jones, a professora
que, j faz tanto tempo, me apresentou ao Paraso Perdido, devo aquilo
que de melhor uma educao pode dar: a noo de que responsabilidade e
prazer podem coexistir;  minha mulher, Jude, e a meus filhos, Jamie e
Tom, devo tudo o mais que existe na Terra. Philip Pullman
